sexta-feira, 8 de maio de 2026

Frente POLISARIO condena a visita do embaixador dos EUA em Marrocos à cidade saharaui ocupada de Dakhla

 

Duke Buchan III

A Frente POLISARIO condenou a visita do embaixador dos Estados Unidos em Marrocos, Duke Buchan III, à cidade de Dakhla, no Sahara Ocidental ocupado, considerando que a deslocação compromete o processo de paz conduzido sob os auspícios das Nações Unidas.

Em comunicado divulgado esta quinta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Árabe Sa
haraui Democrática afirmou que a visita “viola o estatuto internacional do Sahara Ocidental” enquanto território sujeito a um processo de descolonização supervisionado pela ONU.

Segundo a Frente POLISARIO, a deslocação do diplomata norte-americano “não contribui para criar o clima de confiança necessário” às negociações em curso sobre o futuro do território e poderá ter um impacto negativo no processo de paz.

O movimento de libertação do povo saharui acusou ainda Marrocos de tentar “impor um facto consumado” no Sahara Ocidental e criticou os aliados marroquinos no Conselho de Segurança das Nações Unidas por contribuírem para o prolongamento do conflito.

No comunicado, a organização recorda que o cessar-fogo assinado em 1991 deixou de estar em vigor após alegadas violações por parte de Marrocos em novembro de 2020, sublinhando que “não existe atualmente qualquer acordo de cessar-fogo” entre as forças marroquinas e o exército saharaui.

A Frente POLISARIO reiterou também a legitimidade da luta do povo saharaui pelo direito à autodeterminação e independência, evocando várias resoluções da Assembleia Geral da ONU que reconhecem esse direito.

O Sahara Ocidental é considerado pelas Nações Unidas um território não autónomo à espera de descolonização. O conflito opõe há décadas Marrocos à Frente POLISARIO, que reclama a realização de um referendo de autodeterminação à população autoctone.

terça-feira, 5 de maio de 2026

A MINURSO opera com empréstimos e apenas um mês de liquidez, segundo um relatório oficial da ONU



Um documento das Nações Unidas alerta para a grave crise financeira das operações de paz e coloca a missão no Sahara Ocidental entre as mais afetadas.

Um relatório oficial das Nações Unidas revelou que a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) está a operar em condições financeiras precárias, recorrendo a empréstimos para sustentar a sua atividade e com um nível de liquidez que cobre apenas um mês de funcionamento.

O documento, elaborado pela Comissão Consultiva em Assuntos Administrativos e Orçamentais da ONU, adverte para uma crise estrutural no financiamento das operações de manutenção da paz, com implicações diretas para missões como a do Sahara Ocidental.


Uma missão com liquidez crítica

Segundo o relatório, a MINURSO apresentava uma situação de caixa negativa de -9,2 milhões de dólares, o que obrigou a ONU a conceder-lhe empréstimos no valor de 14,9 milhões de dólares para manter as suas operações.

Após esse apoio financeiro, a missão dispunha de apenas 5,7 milhões de dólares em caixa — uma quantia que cobre somente um mês de despesas operacionais, muito abaixo dos níveis considerados adequados para garantir a estabilidade de uma missão internacional.

O próprio documento refere que esta situação faz parte de um problema mais amplo: várias operações de paz, incluindo a MINURSO, estão a funcionar através de empréstimos entre missões, uma prática que evidencia a falta estrutural de recursos no sistema.




Uma crise de liquidez que afeta o cumprimento dos mandatos

A Comissão Consultiva adverte que os problemas de liquidez são "persistentes e cada vez mais graves" e podem comprometer diretamente a capacidade das missões para cumprir os seus mandatos.

No caso do Sahara Ocidental, este dado adquire especial relevância: a MINURSO foi criada em 1991 com o objetivo de organizar um referendo de autodeterminação que, mais de três décadas depois, continua por realizar.

A precariedade financeira da missão soma-se assim a um bloqueio político prolongado, configurando um cenário em que a capacidade operacional da ONU no território fica ainda mais limitada.


Falta de transparência e dificuldades de gestão

O relatório aponta igualmente problemas na qualidade e disponibilidade da informação orçamental fornecida pela Secretaria da ONU, alertando para deficiências em matéria de transparência, comparabilidade e coerência dos dados.

Estas lacunas, segundo a Comissão, dificultam a análise e a tomada de decisões por parte dos Estados-membros, e podem afetar a supervisão efetiva das missões no terreno.


Uma missão-chave numa situação frágil

A inclusão da MINURSO entre as missões que necessitam de financiamento através de empréstimos reforça a imagem de uma operação internacional enfraquecida, tanto no plano político como no financeiro.

Enquanto o conflito do Sahara Ocidental continua sem solução política, os próprios dados da ONU revelam que a missão encarregada de facilitar esse processo opera em condições de fragilidade crescente.

(In Por un Sahara Libre

O ator Javier Bardem encerra FiSahara com críticas à posição de Espanha sobre o Sahara Ocidental


O ator Javier Bardem marcou o encerramento do FiSahara – Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental – com uma intervenção à distância do deserto argelino onde decorreu o evento, em que criticou a posição do Governo espanhol sobre o conflito e manifestou apoio ao povo saharaui.

Durante a ligação em direto ao campo de refugiados de Auserd, em Tindouf, Bardem afirmou que os saharauis são “um exemplo de dignidade” e sublinhou que “a sociedade espanhola está ao seu lado”, acrescentando que “os governantes não nos representam”, numa referência ao primeiro-ministro Pedro Sánchez e à mudança de posição de Espanha em 2022 sobre o Sahara Ocidental.

O ator, habitual defensor da causa saharaui, recordou ainda a responsabilidade histórica de Espanha enquanto antiga potência administradora do território, defendendo que o país não deve abandonar o povo saharaui.

A intervenção ocorreu no final da edição deste ano do FiSahara, que decorreu ao longo de cinco dias nos campos de refugiados no extremo sudoeste do terrirório argelino e reuniu mais de um milhar de participantes de cerca de 20 países. O evento voltou a combinar cinema, cultura e ativismo, com foco no direito ao regresso do povo saharaui.

O prémio principal do festival foi atribuído ao filme “Todo lo que fuimos”, de Cherien Dabis, um drama que acompanha várias gerações de uma família palestiniana. O segundo e terceiro lugares foram atribuídos, respetivamente, aos filmes “Mariem”, de Javier Corcuera, e “La recompensa”, de Aicha Chej Blal.

Criado em 2003, o FiSahara é um festival único por decorrer em campos de refugiados saharauis, na Argélia, e assume-se como uma plataforma de promoção cultural e de sensibilização internacional para o conflito do Sahara Ocidental e para a defesa dos direitos humanos.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Sahara Ocidental: A troca estratégica entre Marrocos e Espanha no fundo do Atlântico...


Cartoon gerado por IA


A evolução recente das relações entre Espanha e Marrocos não pode ser compreendida apenas à luz dos interesses energéticos e dos recursos estratégicos existentes na bacia das Canárias. Para além do valor crescente dos metais raros — como o cobalto, o telúrio ou as terras raras —, fundamentais para a transição energética e a autonomia tecnológica europeia, subsiste um contexto político mais complexo, marcado por episódios de tensão e vulnerabilidade.

Entre estes, destaca-se o caso Pegasus, que revelou operações de espionagem sobre responsáveis políticos espanhóis, incluindo o próprio chefe do Governo espanhol Pedro Sanchez e demais membros do Governo, num momento particularmente sensível das relações bilaterais. 

Fontes de inteligência confirmam que o Marrocos infetou o telemóvel de Pedro Sánchez com o software Pegasus em maio de 2021. A infeção terá ocorrido durante uma visita de Sánchez a Ceuta e Melila, num momento de alta tensão diplomática devido à crise migratória e à entrada de Brahim Ghali, SG da Frente Polisario, em Espanha atacado pelo Covid.

O operação resultou na extração massiva de dados, calculada em cerca de 2,6 GB do dispositivo de Sánchez. Os telefones de outros ministros, como Margarita Robles (Defesa), também foram visados.

Este episódio expôs fragilidades no equilíbrio diplomático e reforçou a perceção de que a relação entre Madrid e Rabat é pautada por uma lógica de interdependência estratégica e chantagem, onde segurança, recursos e soberania se cruzam.

Neste enquadramento, o dossiê do Sahara Ocidental, a gestão das migrações e o acesso a recursos no Atlântico não surgem como temas isolados, mas como peças de uma negociação mais ampla, onde interesses económicos, pressão política e equilíbrio geoestratégico se articulam de forma discreta, mas determinante.


A transação «Sahara por fundo marinho»: a troca estratégica entre Marrocos e Espanha no fundo do Atlântico



Panorama estratégico — Soberania em terra, poder no fundo do mar

African Security Analysis (ASA) - Dez 2025 *

Empresa sueca especializada em inteligência, consultoria de segurança e análise de risco em África.

Batizado de Tropic, o monte próximo às Ilhas Canárias tem 3 mil metros de altura e apenas um terço dele se destaca na superfície do Atlântico - BBC News Brasil 


Os dados atuais indicam que a evolução das relações entre Marrocos e Espanha não se trata de um realinhamento diplomático convencional, nem de um mero processo de normalização.


Trata-se da estrutura de um acordo transacional:

  • A Espanha apoia publicamente as reivindicações marroquinas sobre o Sahara Ocidental, redefinindo a ambivalência de longa data da Europa.

  • Marrocos congela silenciosamente o seu expansionismo marítimo, permitindo à Espanha o acesso sem contestação aos recursos minerais do leito marinho da Bacia das Canárias.


O acordo é simples na sua lógica, impossível de assinar e já está em vigor.

O Sahara Ocidental, pedra angular da doutrina estatal marroquina desde 1975, torna-se moeda de troca política.

Os campos minerais em águas profundas das Canárias, um tesouro geológico de cobalto, telúrio e terras raras, tornam-se uma compensação estratégica.


Nenhum governo europeu poderia sobreviver a um tratado que formalizasse tal acordo.

No entanto, Rabat e Madrid estão a comportar-se como se ele já existisse.


A reviravolta da Espanha foi motivada pela segurança, não pela simpatia

A declaração de Madrid de 2022, que classificou o plano de autonomia de Marrocos para o Sahara como «a opção mais séria, realista e credível»,
não foi um gesto simbólico.


Foi uma decisão de sobrevivência motivada por três receios:

1. A escassez energética e a dependência de minerais críticos controlados pela China.
2. A desestabilização migratória, repetidamente utilizada como arma através da pressão nas fronteiras.

3. O deslocamento estratégico no seio da UE, especialmente contra a França e a Itália.


A elite da política externa espanhola conhece bem as regras do jogo:

  • O Sahara é a primeira linha vermelha de Marrocos.

  • A soberania marítima é a segunda linha vermelha de Marrocos.

  • A migração é o instrumento de pressão de Rabat.

O reconhecimento espanhol não é um alinhamento ideológico. É um seguro geopolítico adquirido ao menor custo: palavras.


O fundo marinho como o verdadeiro prémio

O Monte Submarino Tropic, a sudoeste da ilha canária de El Hierro, não é apenas geologia teórica.

É um ativo estratégico com consequências globais:

Reservas de cobalto capazes de satisfazer a procura industrial durante décadas.
Concentrações de telúrio entre as mais elevadas conhecidas no planeta, essenciais para a eficiência fotovoltaica e a eletrónica de mísseis.

Metais de terras raras indispensáveis para a soberania tecnológica da UE.


Para a Europa, que passou 15 anos dependente das cadeias de abastecimento chinesas, este leito marinho não é apenas valioso — é uma questão de sobrevivência.

A Espanha não está a defender interesses económicos locais.

Está a salvaguardar uma linha de vida continental numa era de autonomia estratégica.

Marrocos situa-se geograficamente no ponto nevrálgico dessa linha de vida.


A «pistola legislativa» de Rabat (Leis Marítimas de 2020)

Em 2020, Marrocos aprovou duas leis de extensão marítima que alargam:

  • Águas territoriais

  • Zona Económica Exclusiva (ZEE)

Estas linhas sobrepõem-se ou roçam de perto as reivindicações marítimas das Canárias.

Fundamentalmente:

Foram redigidas,

nunca foram totalmente ativadas,

nunca foram revogadas.


São uma arma no coldre.



A mensagem para Madrid é implícita:

«Vocês mantêm a vossa posição sobre o Sahara.

Nós mantemos o silêncio sobre os vossos minerais.»

A pistola está à vista.

Ainda não disparou.

Não precisa de o fazer — por enquanto.



O Sahara Ocidental como moeda de troca diplomática

O apoio da Espanha proporciona a Marrocos o que décadas de sessões da ONU nunca conseguiram: um apoio europeu estruturalmente importante.

Isto traz três vantagens estratégicas:

1. Neutralização de um dos patrocinadores históricos da Polisario.

2. Corredor logístico através dos portos espanhóis para as exportações marroquinas, contornando os atritos com a UE.

3. Mecanismos reforçados de controlo da migração, neutralizando a vulnerabilidade interna da Espanha.

A doutrina de Marrocos é consistente:

  • Consolidar o estatuto político do Sahara Ocidental.

  • Expandir o acesso ao Atlântico.

  • Utilizar a migração como arma de forma assimétrica.

  • Tornar a Europa estruturalmente dependente da cooperação marroquina.

A Espanha não é a primeira a compreender isto. É a primeira a render-se publicamente.



Diplomacia de alto nível — Políticas formais, realidades informais

  • Espera-se que a Reunião de Alto Nível (HLM) de Madrid-Rabat resulte em acordos sobre:

    Transportes
    Energia
    Formação
    Logística portuária

  • Gestão da migração

  • Coordenação conjunta em torno do Campeonato do Mundo de 2030


Nenhum dos documentos oficiais mencionará o verdadeiro acordo.

Os decisores políticos africanos devem interpretar esse silêncio:

Os interesses estatais estão a ser negociados à margem dos registos oficiais.


Fragilidades ocultas

Espanha.
- A sociedade civil continua a defender a autodeterminação.

- A oposição acusa Sánchez de capitulação geopolítica.

- As autoridades regionais das Canárias temem a destruição ambiental e a perda da soberania marítima.

Marrocos
- As elites nacionalistas querem uma ativação marítima, não contenção.

- Plano de autonomia ≠ reconhecimento da soberania.

- O establishment militar encara as concessões como um sinal de fraqueza.


Este acordo pode durar 20 anos ou ruir em 24 horas.


O princípio em jogo: Geografia vs. Legitimidade

Para Rabat, o Sahara Ocidental não é um dossiê diplomático. É um pilar da continuidade do regime.

Para Madrid, os minerais do fundo marinho das Canárias não são uma curiosidade técnica. São a sobrevivência industrial na era pós-fóssil.

Ambos os intervenientes estão a negociar influência, não princípios:

  • Marrocos negocia o silêncio.

  • Espanha negocia a legitimidade.

As populações esquecidas

Duas populações continuam a ser estruturalmente ignoradas:

  • Os saharauis, abandonados num limbo político.

  • Os habitantes das Ilhas Canárias, que temem a exploração em águas profundas, o colapso do ecossistema e a intromissão geopolítica.

Nenhum destes grupos terá influência no acordo.

Apenas o poder estatal o terá.


Fase de validação — Diplomática ou industrial

O verdadeiro teste não é diplomático. É industrial.

A extração tem início por volta de 2030–2032.


Três trajetórias:

1. Marrocos mantém-se em silêncio.

→ O pacto é válido, Madrid assegura os minerais, Rabat assegura a narrativa do Sahara Ocidental.


2. Marrocos aplica as suas leis marítimas.

→ Madrid invoca as proteções da UE e da UNCLOS, Rabat reivindica direitos sobre a plataforma continental.

→ A relação rompe-se.


3. Intervenção da UE.

→ Espanha perde a exclusividade, Marrocos torna-se parceiro industrial e logístico.

→ O acordo torna-se continental, não bilateral.


Cenários de Inteligência

A. Equilíbrio Estratégico (Cenário Base — 55–60%)

  • A Espanha mantém a sua posição sobre o Sahara.

  • Marrocos evita a ativação da ZEE.

  • A exploração nas Canárias prossegue.

  • Ambas as partes afirmam que se trata de uma situação «vantajosa para todos».

Estabilidade através da negação mútua.


B. Marrocos Assertivo (20–25%)

Fatores desencadeantes:

  • Pressão nacionalista interna

  • Reação política da UE

  • Crise migratória

Mecanismo:

  • Rabat ativa as leis marítimas.

  • A Espanha recorre a Bruxelas.

  • Inicia-se o processo de arbitragem.

Resultado: tensão duradoura, mas sem ruptura.


C. Colapso (15–20%)

Catalisadores:

  • Agitação saharaui

  • Revolta ambiental nas Canárias

  • Um acordo falhado sobre migração

Resultado:

  • Congelamento diplomático

  • A Polisario volta a entrar no discurso da Espanha

  • As comissões conjuntas entram em colapso


D. Assunção de controlo pela UE (10–15%)

A UE centraliza a exploração através da política industrial.

Efeito:

  • A Espanha perde a exclusividade

  • Marrocos torna-se operador do corredor

  • A negociação é neutralizada a nível supranacional


Avaliação da African Security Analysis (ASA)

Isto não é cooperação.

É uma necessidade política disfarçada de parceria.


A Espanha precisa de minerais.

Marrocos precisa de reconhecimento.


Nenhum dos dois pode dar-se ao luxo de um tratado.

Ambos operam através de gestos, vetos e limites implícitos.


Se o acordo se mantiver, irá remodelar a economia geopolítica do Atlântico
e confirmar uma lição mais ampla:

No século XXI, a soberania é negociada acima do solo — e sob o fundo do oceano.



Análise de Segurança Africana (ASA) — Dezembro de 2025