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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Autoridade marroquinas invadem oração fúnebre do rapper saharaui Flitox


Lili morreu no domingo, 23 de junho, numa tentativa de chegar às Ilhas Canárias.
Junto com ele morreram outros 20 jovens saharauia

Sábado, 29 de Junho de 2019 porunsaharalibre PUSL - As autoridades marroquinas invadiram a mesquita de El Aaiun, no Sahara Ocidental ocupado, para impedir que a população saharaui participasse nas orações fúnebres de Said Uld Lili.
Said Lili, era um rapper saharaui conhecido como Flitox, as suas canções defendiam a independência do Sahara Ocidental e ele participou num documentário sobre a realidade da ocupação ilegal do Sahara Ocidental por Marrocos.

Lili morreu no domingo, 23 de junho, numa tentativa de emigrar para as Ilhas Canárias com um grupo de 36 pessoas numa pequena embarcação. 20 outros companheiros de viagem morreram nesta tentativa. A sua morte e dos seus companheiros de barco ocorreu em circunstâncias misteriosas e nenhuma investigação foi iniciada.

Foto do diário espanhol El Pais

A mesquita onde se realizou o memorial fúnebre está localizada em frente à sede da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental). As autoridades marroquinas não querem que a Missão das Nações Unidas testemunhe qualquer reunião da população saharaui e, por isso, invadiu a mesquita com uma unidade paramilitar. Do lado de fora, um número impressionante de policiais uniformizados e à paisana cercou a área para impedir qualquer manifestação. A família foi forçada pelas autoridades de ocupação a mudar o memorial fúnebre para outra mesquita, chamada Dweirat.
O funeral aconteceu a 40 km a norte de El Aaiun e embora as autoridades marroquinas estivessem sempre presentes, Said foi enterrado com uma bandeira saharaui e as pessoas presentes no funeral acenaram bandeiras saharauis e entoaram as palavras de ordem da independência, exigindo a retirada imediata da ocupação marroquina do território e denunciando os crimes cometidos pelo regime de Mohamed VI.



terça-feira, 16 de abril de 2019

Sahara Ocidental. Do abandono colonial à construção de um Estado





Faça o download do livro AQUI


Os autores

Bahia Mahmud Awah
Escritor, antropólogo, poeta, natural do Sahara Ocidental. Autor de várias obras, ensaios académicos; professor honorário na Universidade Autónoma de Madrid e membro do Centro de Estudos Afro-hispânicos, CEAH, da UNED.

Ana Camacho
Jornalista e investigadora perita em conflitos em África, grande conhecedora da Guiné Equatorial e Sahara Ocidental. Trabalhou em diários nacionais do Estado espanhol, colaborando actualmente eem diferentes meios digitais e radio. Autora do blog http://www.enarenasmovedizas.com.


Carmelo Faleh Pérez
Professor de Direito Internacional Público no Departamento de Ciências Jurídicas Básicas da Universidade de Las Palmas de Gran Canaria. Assessor Jurídico da Associação Espanhola para o Direito Internacional dos Direitos Humanos (AEDIDH). Tem atuado como litigante e / ou co-autor de relatórios e amicus curiae perante alguns órgãos nacionais e internacionais (procedimentos convencionais e extraconvencionais das Nações Unidas, Comissão Interamericana de Direitos Humanos) para a proteção dos direitos humanos.
Profesor de Derecho Internacional Público en el Departamento de Ciencias Jurídicas Básicas de la Universidad de Las Palmas de Gran Canaria. Asesor jurídico de la Asociación Española para el Derecho Internacional de los derechos Humanos (AEDIDH). Ha actuado como litigante y/o co-autor de informes y amicus curiae ante algunas instancias nacionales e internacionales (procedimientos convencionales y extraconvencionales de las Naciones Unidas, Comisión Interamericana de Derechos Humanos) de protección de los derechos humanos.
emails: carmelo.faleh@ulpgc.es e cfaleh@aedidh.org.

Javier A. González Vega

Professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais na Universidade de Oviedo. É presidente do Observatório Asturiano de Direitos Humanos para o Sahara Ocidental (OAPSO). Entre 2009 e 2012 foi Conselheiro na Representação Permanente da Espanha junto da União Europeia.

Pablo Jiménez
Advogado da Associação Livre de Advogadas e Advogados de Saragoça, membro da Coordenadora para a Prevenção e Denúncia da Tortura (CPDT), membro do diretório jurídico da denúncia penal por crimes contra a humanidade cometidos durante o regime de Franco em Saragoça, membro do Serviço de Orientação Penitenciária da Ordem dos Advogados de Saragoça.

Pepe Revert Calabuig
Advogado, pertence à Associação Internacional de Juristas do Sahara Ocidental (IAJUWS). Mestre em Direitos Humanos, Democracia e Globalização. Assiste regularmente como observador internacional em nome do Conselho Geral da Advocacia Espanhola em julgamentos de saharauis, tanto em Marrocos como no Sahara Ocidental. Participou na IV Comissão sobre descolonização nas Nações Unidas. Também denunciou a violação dos direitos humanos no Sahara Ocidental na sede das Nações Unidas, em Genebra.

Ana Sebastián
Advogada e membro do Observatório Aragonês para o Sahara Ocidental. Membro também da Associação Livre de Advogadss e Advogados de Saragoça, tendo participado recentemente no grupo jurídico que preparou a queixa criminal por genocídio e crimes contra a humanidade cometidos durante o regime de Franco em Saragoça.

Leonardo Urrutia Segura
Escritor, jornalista e editor. É autor do livro Sahara, Dez Anos de Guerra, publicado em 1983. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Associação Catalã de Solidariedade com o Povo Saharaui (ACAPS) no início dos anos oitenta. Durante esses anos passou várias semanas vivendo com os combatentes saharauis para se documentar, tendo chegado a viajar com eles pela maior parte do Sahara Ocidental.

Carlos Villán Durán
Professor de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Co-diretor do Mestrado em Proteção Internacional dos Direitos Humanos da Universidade de Alcalá. Presidente da Associação Espanhola de Direito Internacional dos Direitos Humanos (AEDIDH). Ex-membro do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Genebra). Email: cvillan@aedidh.org.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

“UN AGUJERO EN EL MURO” (Um buraco no muro)



“UN AGUJERO EN EL MURO” (Um buraco no muro) "é um mosaico árabe, um conjunto de peças que encaixam entre si, linhas de desenho, cruzes, formas mais largas e que nos dão um vislumbre da realidade que vive o povo saharaui por detrás do muro de silêncio levantado pelo Marrocos ao redor do Sahara Ocidental...


Seis vidas A identidade de um povo. Um documentário sobre os saharauis que vivem nos territórios ocupados do Sahara Ocidental.

Veja o trailer:

segunda-feira, 1 de abril de 2019

‘Hamada’ - filme sobre os refugiados saharauis premiado em Paris




Periodistas-en-Español - Jesús Cabaleiro Larrán -01/04/2019 - O documentário ‘Hamada’ sobre os acampamentos de refugiados de Tindouf foi duplamente premiado no “Festival de Cinema Documental do Real” que se realizou em Paris de 15 a 24 de março de 2019.

O documentário do diretor espanhol Eloy Domínguez Serén, de 33 ano, que desde 2012 vive na Suécia, recebeu o prémio Loridon Ivens / CNAP, no valor de 6.500 euros e o Prémio da Juventude (15.000 euros).

O filme já havia recebido no ano passado vários prémios, nomeadamente no Festival Internacional de Gijón (FICX), no festival internacional de documentários de Amsterdão e o prémio de diretor revelação no quinto festival de documentários do Porto.

Trata-se de uma coprodução da Suécia, Noruega e Alemanha, com uma duração de 88 minutos.

O realizador galego viajou ao acampamento saharaui de Bojador para ensinar cinema e decidiu um documentário, uma aproximação “íntima e emocional” ao Sahara.


O filme dá, com humor e situações inesperadas, um retrato incomum de um grupo de amigos que vivem num campo de refugiados no meio do deserto, reparando Mercedes e Land Rover, embora não ultrapassem o arame farpado e as paredes que os querem reter e deixá-los invisíveis.

Um campo minado e o segundo maior muro militar do mundo, construído por Marrocos, separa esses amigos da sua terra natal, da qual só ouviram falar nas histórias que os seus pais lhes contaram.

Assim se perfilam as gerações a quem Marrocos negou o país em 1975. Destaca-se em particular o desempenho das mulheres, que têm um papel preponderante no dia-a-dia.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Fundação José Saramago lança campanha para criar biblioteca no Sahara Ocidental





A Fundação José Saramago vai iniciar uma campanha para criação de uma biblioteca nos campos de refugiados do Sahara Ocidental, apelando à entrega de livros na sua sede, em Lisboa.

“Uma parte da nossa atividade, ou um dos objetivos da fundação, é a defesa dos Direitos Humanos e é neste âmbito que estamos nesta campanha de solidariedade, não esquecendo direitos elementares e básicos que são a autodeterminação e a independência de um povo”, afirmou, em declarações à Lusa, Idália Thiago, da Fundação José Saramago.
A campanha FOI apresentada ONTEM, ao final do dia na sede, “dia do aniversário da República Árabe Democrática Saharaui”, que reivindica soberania sobre todo o território do Sahara Ocidental, “a única colónia ainda ocupada em África, ocupada por Marrocos”.
“É uma questão que queremos levantar, porque se trata de uma questão de Direitos Humanos básica e que está desde 1976 nesta situação. Uma parte da população está nos territórios que estão ocupados, com grandes dificuldades e pressão, e outra parte está refugiada em acampamentos numa área de terreno cedida pela Argélia”, referiu Idália Thiago.
Nos acampamentos, os refugiados “criaram uma espécie de país”, com o nome de cada um a “corresponder ao nome das cidades principais da terra deles”.
Desde 1976 que estas populações “sobrevivem com apoio solidário, de vários países europeus”.
“Sendo que ali falta quase tudo, nós lembrámo-nos que esta coisa dos livros, não sendo uma coisa prioritária para a sobrevivência, também é uma coisa que faz falta para quem está o ano inteiro ali. Portanto, lembrámo-nos que este podia ser um bom contributo nosso”, explicou Idália Thiago.

José Saramago quando visitou a saharaui Aminetou Haidar em greve de fome


A apresentação de hoje servirá para “lançar a proposta, para que as pessoas façam chegar livros, de preferência em espanhol, porque é a segunda língua da maioria dos miúdos, e que depois serão entregues” nos acampamentos.
“É a partir daqui que vamos fazer o apelo a toda a gente, estruturas, associações, quem quiser, que se junte à campanha para a recolha dos livros. Depois iniciamos o processo para fazermos a entrega lá”, referiu Idália Thiago.
A criação da biblioteca não passa pela construção de um edifício, “até porque não há edifícios, há casas construídas em adobe nos acampamentos”.
“O nosso papel é entregar a biblioteca completa”, disse, referindo prever que essa entrega seja feita “no início de dezembro”.
Quanto ao número de livros que podem vir a compor a “biblioteca completa”, Idália Thiago referiu que “aquilo que se conseguir recolher será de certeza bem-vindo, para um sítio onde não há nada”.


Segundo a fundação, em 2009 José Saramago, à chegada a Lanzarote, “fez questão de visitar” Aminetu Haidar, ativista pelos direitos do povo Saaraui, que cumpria no aeroporto daquela ilha das Canárias, Espanha, uma greve de fome que durou 32 dias.
Dessa forma, o Nobel da Literatura manifestou “o seu apoio à sua luta e à luta de todo aquele povo”.
A fundação lembra ainda que José Saramago disse que “Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta”.
“Desprezar os Saarauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não está enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio - quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá”, defendeu.
“Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse país admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitória, uma vitória sem honra, nem glória, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente um lugar mais feliz e habitável”, acrescentou.
Lusa



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Nuno Abreu ganha prémio do IPDJ com “O Deserto”, um Diário sobre campos de refugiados saharauis




Por Un Sahara Libre – 25/02/2019 - O projecto de Nuno Henrique Brás Abreu, um diário sobre os “Campos de Refugiados Saharauis” ganhou o concurso nacional de jovens criadores na área de literatura.
Nuno Abreu apresentou o diário na Universidade Nova de Carcavelos, no passado dia 23 de Fevereiro.

O jovem universitário de Braga tem uma licenciatura em filosofia e é Investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Nuno Abreu decidiu fazer o seu mestrado sobre a cultura saharaui. Durante os 17 dias nos campos de refugiados saharauis registou diariamente por escrito o que fez e viu, um relato pessoal, cru e honesto que nos transporta para um deserto árido onde uma grande parte do povo saharaui sobrevive em campos de refugiados desde 1975.
A “Mostra Nacional de Jovens Criadores 2018” conregou cerca de oitenta projectos, envolvendo quase uma centena de jovens criadores. Organizada pela Fundação da Juventude, com o apoio do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), insere-se no âmbito do “Programa Jovens Criadores”.
O “Programa Jovens Criadores”, gerido pelo IPDJ, visa a promoção do desenvolvimento artístico de jovens criadores nacionais, potenciando a criação de oportunidades de divulgação do seu trabalho.
O diário de Nuno Abreu “O Deserto” foi ainda uma das obras selecionadas para participar na Bienal de Jovens Criadores da CPLP, que se realiza em Angola, no próximo mês de julho (24-28/07).
Nos campos de refugiados há poetas e poetisas, pintores e pintoras, cantores e cantoras, há tudo como em todo o lado, porque são seres humanos” disse Nuno na sua apresentação.
O povo saharaui desmitifica, na opinião de Nuno Abreu, o que pensamos do mundo islâmico. “Um povo onde a mulher é pilar da sociedade, é ela que gere, administra, são presidentes de juntas de freguesia, são deputadas e ministras, uma sociedade onde a violência doméstica não é aceite e o último caso registado data dos anos 80.”

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

“O destino dos saharauis na zona ocupada é incerto, podemos a qualquer momento ser detidos, torturados e até assassinados”



Fonte e foto: Diario de Navarra / Por Unai Yoldi Hualde y Patxi Cascante

Ahmed Brahim Ettanji é presidente da Equipe Media e ativista saharaui. Viajou a Navarra para contar ao Parlamento as violações de direitos que Marrocos comete no Sahara Ocidental.

PAMPLONA – Ahmed Brahim Ettanji (El Aaiún, Sáhara Occidental, 1988) é um desses jornalistas que se formam na rua, daqueles a quem o trabalho os levou a sofrer detenções e torturas.
O seu ativismo a favor dos direitos humanos e da autodeterminação do povo saharaui é exercido desde a presidência da Equipe Media, um meio de comunicação saharaui que nasceu em 2009 para romper o bloqueio de informação e mostrar ao mundo as injustiças que Marrocos comete nos territórios ocupados do Sahara Ocidental. No final de janeiro, Ahmed e seus companheiros receberam María Pérez de Larraya, Iratxo Bakedano e Alberto Jolis, três ativistas de Navarra que pretendiam constatar e denunciar as violações de direitos cometidas pelas forças de ocupação contra os saharauis, mas acabaram por ser expulsos pelo exército marroquino. Agora, ele viajou para Iruña para participar de uma mesa de trabalho no Parlamento de Navarra.

Como foram estas semanas após a expulsão de María, Iratxo e Alberto?
Depois de sua expulsão, vim para o Estado espanhol, então tudo correu bem. Mas a verdade é que o meu destino e o de meus companheiros é sempre incerto e obscuro. Nós não sabemos o que nos vai acontecer, estamos sempre sujeitos à prisão, tortura e até ao assassinato.

No seu caso, você foi detido por sua atividade, como é o tratamento das forças marroquinas?
Bem, eles não lhe colocam o tapete vermelho. A partir do minuto 0 começa o processo: espancamentos, maus-tratos e uma venda nos olhos para que não saibas para onde te levam. Às vezes também te despem e te interrogam, eles podem fazer-te todo tipo de tortura.

Como é viver nos territórios ocupados do Sahara Ocidental?
É uma grande prisão. Nós, saharauis, vivemos sempre com a sensação de que estamos presos. Temos uma liberdade condicional, porque podemos mover-nos, mas quando eles decidem por-te na cadeia, eles o fazem.

E em relação ao dia a dia?
A marginalização que sofremos é absoluta. Eles tratam-nos completamente à margem, como cidadãos de terceira classe. Por exemplo, se ficarmos doentes e formos a um hospital, temos que pagar, somos maltratados e é certo que podemos contar com alguma negligência médica. Mas a discriminação afeta todas as áreas.

Sobretudo a laboral, não?
Sim. Para os saharauis, o acesso ao trabalho é complicado. Nos grandes setores, como a pesca ou as minas de fosfato, os saharauis não têm trabalho, apenas os colonos marroquinos.

Recentemente, um jovem saharaui incendiou-se para denunciar a repressão que estava a sofrer, tem que ser uma situação limite, não?
Este jovem que se imolou pelo fogo é um exemplo da impotência e da raiva sentidas pelos jovens que vivem sob a opressão e a violência. Quando um jovem decide se queimar vivo é porque está vivendo um inferno e, enquanto isso, a comunidade internacional e a União Europeia olham para o outro lado.

O que é que a comunidade internacional pode fazer?
Muito fácil, que o Conselho de Segurança da ONU aprove uma resolução para organizar um referendo no Sahara Ocidental e acabou. Estava marcado para 1991, mas até agora a MINURSO (a Missão Internacional das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental) não o organizou. Mais, não foi realizado porque Marrocos colocou muitos obstáculos e porque tem o apoio da França e da Espanha.

E esses apoios tornam-no forte... Tem esperança que um dia Marrocos venha a aceitar um referendo?
Sim. A história tem mostrado ao longo do tempo que os povos acabam por alcançar a sua liberdade, seja a curto ou a longo prazo. Temos esperança que vamos vencer e, para isso, defendemos uma luta não violenta.

O Sahara tem uma indústria pesqueira, minas de fosfato ... é difícil para estes países deixarem de ter relações com Marrocos, não?
Depois do acórdão do Tribunal de Justiça da UE - que decidiu que nenhum acordo comercial pode incluir o Sahara Ocidental sem o consentimento dos saharauis -, fundos de investimento e navios decidiram cancelar as atividades no Sahara. No entanto, agora o acordo de pesca entre a UE e Marrocos foi renovado, pelo o que a Frente Polisario irá apresentar um recurso. Vai ser a armadilha em que a Europa vai cair, porque o Tribunal a obrigará a compensar os saharauis por firmar um acordo ilegal.

Embora lutem de maneira não violenta, chegará um ponto em que haverá saharauis que se cansarão, ou não será...?
Há jovens saharauis que perderam a confiança na ONU e pediram à Frente Polisario para regressar à luta armada. Mas defendemos a luta não violenta, a guerra diplomática e económica e o boicote.

Em suma, pressionar para que o referendo seja realizado ...
Sim. A luta não violenta leva tempo, mas resulta. A ONU reuniu a Frente Polisario e Marrocos em dezembro e em março haverá uma segunda ronda de diálogo.

E acha que isso servirá de alguma coisa?
-Quando há vontade… certamente; e parece que o novo enviado especial da ONU, Horst Köhler, tem muito vontade em resolver o conflito.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O cancelamento do concerto da cantora saharaui Aziza Brahim em Paris por pressões de Marrocos



Paris, 7 de fevereiro de 2019 (SPS)- A Associação de Amigos da República Saharaui em França expressou a sua condenação e repúdio pela decisão da administração do Instituto do Mundo Árabe de cancelar o concerto da cantora saharaui Aziza Brahim em Paris, por pressões de Marrocos.
A cantora saharaui perante semelhante veto injustificável e ante a infundada propaganda, divulgou um comunicado que aqui publicamos:

Comunicado da cantora saharaui Aziza Brahim, 6 de fevereiro de 2019

Queridos seguidores, habitantes de Paris, cidadãos do mundo,

O meu concerto de 10 de março no encerramento do Festival Arabofolies do Instituto do Mundo Árabe (IMA) de Paris foi cancelado por razões totalmente alheiras à minha vontade.
Este evento foi anulado devido a pressões do Reino de Marrocos através da sua embaixada em França. Para justificar este desagradável acontecimento, a embaixada também empreendeu uma campanha de propaganda contra a minha pessoa que me vejo obrigada a desmentir publicamente.
Infelizmente, esta não é a primeira vez que esse tipo de pressão política impede os meus espectáculos. Lembro-me de muitos casos em que a controvérsia nem sequer foi publicada. Pelo menos, desta vez, a censura sofrida pelos saharauis sai à luz do dia por aqueles que violam os nossos direitos, mesmo fora do nosso território.
Todos aqueles que tenham escutado as minhas canções sabem que eu subscrevo um firme compromisso com a paz. Existem poderes políticos que não respeitam os direitos humanos fundamentais, neste caso a liberdade de expressão. Quando a cultura incomoda a política, é porque políticas injustas estão sendo praticadas. Somente conhecendo e respeitando o outro podemos trabalhar por um mundo pacífico.
Lamento não poder oferecer o meu concerto em Paris nesta ocasião, embora espero poder vir a fazê-lo dentro em breve.
Igualdade e liberdade de expressão para todos!
Aziza Brahim

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Jornalistas saharauis apelam à solidariedade internacional





Periodistas em español - Artigo de Jesús Cabaleiro Larrán -31/12/2018 – Os jornalistas saharauis estão a apelar à solidariedade de organizações internacionais de direitos humanos, sindicatos de jornalistas, ONG, associações e instituições, assim como de ativistas de informação digital para dar visibilidade ao longo conflito que travam, reivindicando uma solução justa para a situação do Sahara.

Pedem igualmente que organizações internacionais de jornalistas protejam o seu trabalho. Nesse sentido, esperam a colaboração de organizações como Repórteres Sem Fronteiras (RSF). As reivindicações foram lidas nesta sexta-feira, 28 de dezembro de 2018, jornada em que se celebra o Dia Nacional dos Media no Sahara. A data é motivada pela criação naquele dia da fundação da Rádio Nacional.

No texto distribuído, denunciam a "falsa propaganda marroquina", lembrando o "exército eletrónico digital que se dedica a causar ruídos e a espalhar boatos", bem como a necessidade de divulgar e denunciar a "exploração ilegal e o esgotamento dos recursos naturais nos territórios ocupados".

Os ativistas da informação saharaui destacam também o papel de resistência exercida pelos jornalistas que estão no território ocupado por Marrocos e o trabalho que desenvolvem, apesar de todas as dificuldades e assédios de todos os tipos que sofrem, dando a conhecer a situação de repressão e a falta de direitos humanos de que são alvo.

Os signatários pedem a libertação de jornalistas prisioneiros saharauis, num total de cinco membros da Equipe Media, e que as organizações internacionais monitorizem e acompanhem a sua situação, bem como a necessidade de montar campanhas que reclamem a sua libertação.

Há que recordar o papel dos jornalistas da Equipe Media — cidadãos que trabalham na zona controlada pelo Marrocos e que cobrem o conflito ante o silêncio dos grande órgãos de comunicação internacional.

A esse respeito, assinalam que "foram organizadas visitas secretas de jornalistas aos territórios ocupados" para que dessem o seu testemunho, lembrando também o papel desenvolvido nas universidades marroquinas na consciencialização da situação no Sahara controlado pelo Marrocos. Finalmente, agradecem a solidariedade dos jornalistas argelinos.

Por sua vez, o Observatório Internacional para a Proteção dos Direitos Humanos condenou, no passado dia 22, a recente detenção a 4 de dezembro da correspondente da RASD-TV e membro da Equipe Media, Nazha El Khalidi, da 27 anos de idade, que foi presa e espancada em El Aaiún pelas forças de segurança marroquinas.

O Observatório solicita a Marrocos que garanta "o direito de desenvolver atividades legítimas e pacíficas de direitos humanos", já que a cidadã saharaui foi detida e posteriormente libertada sem que tivesse havido qualquer acusação contra ela; e que intervenha para "impedir o assédio, inclusive judicialmente, contra os membros da Equipe Media "

Todos os órgãos de comunicação saharauis têm um objetivo claro: romper o bloqueio informativo de Marrocos e recordar ao mundo a situação do povo saharaui. O Ministério da Informação da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) homenageou vários trabalhadores da comunicação social.



História dos Media saharauis
Importa lembrar que a rádio é o meio de comunicação mais antigo no Sahara; as primeiras transmissões foram realizadas em 1974 a partir da Líbia com informações de meia hora sobre o então Sahara Espanhol, até se estabelecer em 1977 nos campos de refugiados (no extremo sudoeste da Argélia). O atual presidente do Parlamento saharaui, Jatry Aduh, foi um dos que fizeram essa informação.

Nos anos de guerra, entre 1976 e 1991, eram relatados os combates e dadas informações sobre os mortos e os feridos. Atualmente, além da informação, são emitidas rubricas de cultura, desporto, música, e questões relacionadas com as mulheres e os jovens.

A rádio é o meio mais barato e acessível, pois chega a todas as tendas dos acampamentos que abrigam cerca de 175 mil refugiados sarauís. A sua importância recai na sua função comunitária, informa de todos os eventos, como a distribuição da ajuda humanitária ou falecimento dos cidadãos nas cinco wilayas (campos de refugiados).

Existe também um semanário, o “Sahara El Hora”, com uma tiragem de 3000 exemplares com dezasseis páginas que é impresso em rotativas argelinas. Este órgão de comunicação nasceu em 1976. Posteriormente foi criada a revista Futuro Saharaui, em 1999.

O Serviço de Imprensa Saharaui (SPS), a agência oficial de notícias (Spsrasd), foi criado em 1999 e tem um website multilingue que teve o seu início em 2001. A agência começou em francês, depois em espanhol, em 2001; posteriormente em inglês em 2003; e, curiosamente, em árabe mais tarde, em 2005; a última língua a ser incorporada foi a russa, em 2012.

O último órgão de informação criado foi a RASDTV, a televisão saharaui, cujo projeto teve início em 2004, mas que só viria a ser concluído e inaugurado em 2009, tendo passado a transmitir informações também em espanhol desde 2014. Conta com dois estúdios e cerca de dez pessoas, a maioria formada em Cuba. A emissão é transmitida a partir de um satélite norte-americano, embora o acesso mais fácil seja pela Internet.

A população saharaui dos acampamentos de refugiados é a segunda mais alfabetizada de todo o continente africano.



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

CENTRO POMPIDOU: A CENSURA “GRAVADA EM MÁRMORE”




O que parecia ser uma simples iniciativa cultural transformou-se num bom exemplo das ingerências marroquinas na vida pública francesa.

No dia 30 de Outubro o Centro Nacional de Arte e Cultura Georges Pompidou, em Paris, anunciou a apresentação numa das suas galerias de uma mostra dedicada à questão do Sahara Ocidental, organizada sob a supervisão do artista norte-americano Jean Lamore, e que enquadrava a apresentação do livro Necessidade dos rostos, uma obra coletiva da qual Lamore é um dos autores.

Compreendia uma colecção de livros, de brochuras e de fotografias exemplificando os caminhos da resistência saharaui — militar e política — à ocupação marroquina assim como o dia-a-dia da população nos territórios ocupados, marcado pela repressão policial e a discriminação social.

“O objectivo desta iniciativa é dar a conhecer ao público francês a realidade da luta do povo do Sahara Ocidental” disse Lamore na altura, numa declaração à imprensa. Das fotografias faziam parte as que tinham sido encontradas em poder dos soldados marroquinos feitos prisioneiros pelas forças armadas do movimento de libertação durante o período de guerra, suspensa pelo acordo de cessar-fogo assinado em 1991. Segundo Lamore estas fotos “contradizem a versão oficial das autoridades marroquinas” na qual o território ter-lhe-ia sido “restituído pacificamente pelo colonizador espanhol”.

Segundo declararam inicialmente os responsáveis do Centro, a exposição permaneceria na galeria até Julho de 2019, prevendo-se a sua inclusão no programa da universidade de verão cuja organização é supervisionada pela direção do Centro Georges Pompidou. No dia 10 de Novembro, porém, Lamore foi surpreendido por aquilo que considerou uma decisão “inqualificável”. Conforme então relatou à comunicação social, o Centro teria suspendido a apresentação do livro e retirado a mostra devido a pressões das autoridades e da imprensa marroquinas.

“É lamentável que em pleno séc. XXI, em França, obras de arte sejam censuradas e retiradas de uma mostra em resultado da pressão de um Estado estrangeiro. É inaceitável!”, disse o artista.
Incriminando, em primeiro lugar, a direção do Centro, de onde partiu aliás a iniciativa do lançamento da obra, qualificou a decisão, da qual não foi informado, de “censura inaceitável”.
“É uma censura inaceitável. A maneira unilateral como foi feita — enviam-se ordens de Marrocos e Paris verga-se — faz-me acreditar que não estamos no século XXI. Regressámos aos séculos XIX e XVIII”.

E era tanto mais inaceitável quando se tratava de um projeto cultural

Frisou que foi o Centro que decidiu mostrá-lo ao público, sabendo perfeitamente que abordava o conflito do Sahara Ocidental. “Não viemos aqui para vender bombons ou louça de barro mas para apresentar um tema sensível. Há uma grande maturidade neste projeto e uma reconhecida qualidade estética. (. . . ). Não tive qualquer informação do Centro Pompidou sobre a sua decisão de suspender o projeto. Não é aceitável que uma instituição cultural se comporte deste modo”.

“Pessoalmente conheço muito bem a situação. Conheço o problema do Sahara Ocidental desde há muito tempo. Tenho uma relação profunda com o povo saharaui mas sempre tive o cuidado de não fazer propaganda. Não há nada de propaganda naquilo que faço. Limito-me a apresentar factos”.

Lembrou que foi a terceira vez na sua carreira de artista que foi objeto de ingerências marroquinas. A primeira foi em Paris, em La Villette, aquando de uma exposição mas a direção “manteve-se firme” apesar da pressão do Quay d'Orsay (sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês) sob instigação de Marrocos. A segunda quando foi excluído da Bienal de Dacar (Senegal) financiada por Marrocos.

No dia seguinte Jean Lamore publicou uma carta aberta dirigida a Serge Lasvignes, o presidente do Centro Pompidou. Nela lembrou que o projeto proposto por um coletivo informal de artistas investigadores, de que faz parte, é apoiado por personalidades “de prestígio” como José Saramago, prémio Nobel da Literatura, Eyal Sivan, Noam Chomsky ou Ken Loach. “É conhecido e respeitado a nível internacional e foi sem dúvida por este motivo que o Centro Pompidou se interessou por ele há já vários anos”. Lembrou que a mostra em questão foi apresentada em Outubro de 2012 na Pequena Sala do Centro tendo sido depois integrada na Coleção da Biblioteca Kandinsky e do Gabinete da fotografia, após a sua apresentação no Beyrouth Art Center.

“Em Outubro de 2018 fomos contactados pela Biblioteca Kandinsky a fim de que fosse apresentado no âmbito das coleções permanentes do Centro e tivemos o cuidado de ter uma longa troca de ideias sobre o formato da sua apresentação a fimm de evitar toda a ambiguidade de interpretação”.

Explicou que o projeto conheceu um longo caminho no seu processo de amadurecimento e resultou de uma abordagem artística “rigorosa” e de uma “profunda ligação” aos valores humanos. “Trata-se de fotografias, a maioria delas anónimas, de proveniência e formato diversos, que revelam uma guerra escondida”, disse. Inclui também testemunhos da ocupação e imagens de satélite do muro com que as forças marroquinas dividiram o Sahara Ocidental ao longo de mais de 2.000 km. Recordou que tinha consagrado ao muro um filme - Building Oblivion — que foi projetado na Assembleia Nacional francesa em 2008.

O artista denunciou as declarações do presidente do Centro Pompidou que escreveu numa carta que “a posição da França sobre este assunto [o Sahara Ocidental] está gravada em mármore”. “Esta posição é contrária ao direito internacional e à posição da ONU que define o Sahara Ocidental como um território não autónomo e ocupado ilegalmente por Marrocos desde 1975” disse, salientando que “valoriza mais” as considerações de ordem ética que a intromissão de um país que reivindica a anexação “unilateral” de um território.

Considerou que neste caso se trata dos valores dos direitos humanos, da liberdade de imprensa e mais geralmente da liberdade de expressão, indicando que numerosas personalidades, jornalistas, intelectuais e parlamentares, “se interrogam sobre este grave disfuncionamento: o caso de um estabelecimento cultural público francês obedecer a uma intromissão de caráter político que emana de um governo estrangeiro”.