sábado, 4 de agosto de 2012

"A intransigência de Marrocos leva a que possibilidade de um eventual regresso à guerra seja mais claro que nunca» — afirma Mohamed Abdelaziz



O Presidente da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) e secretário-geral da Frente Polisario, Mohamed Abdelaziz, afirmou ontem em entrevista concedida ao diário basco GARA que as últimas ações de Rabat de “bloquear as negociações para a realização do referendo de autodeterminação levam a que o fator de um eventual regresso à guerra seja mais claro que nunca”.

A via armada continua latente.”Está na nossa agenda, nunca a descartamos, e podemos ter que regressar a ela em qualquer momento. A ONU reconhece o nosso direito a retomar as armas para defender a nossa terra da invasão estrangeira, neste caso de Marrocos. Por essa parte, seria uma guerra legítima, tanto moralmente como legalmente”, afirmou Mohamed Abdelaziz em declarações ao GARA.

O Presidente saharaui  e SG da Polisario analisou durante o seu encontro com aquele órgão de informação a situação atual do conflito saharaui.

Em resposta a uma pergunta do diário sobre as negociações entre as partes, M. Abdelaziz referiu que atualmente os contactos entre as partes estão parados “devido à posição intransigente de Marrocos, que decidiu abandonar qualquer negociação com o enviado pessoal do SG da ONU para a resolução do conflito. Abandonou a colaboração e o relacionamento com o enviado especial da MINURSO. Ante tal caso de intransigência, a credibilidade das Nações Unidas e, especialmente, do Conselho de Segurança está em jogo”.

Sobre a posição do atual executivo marroquino constituído após as últimas eleições, Mohamed Abdelaziz afirmou ao diário basco  que não “observámos nenhuma mudança na posição do Executivo alauita relativamente ao anterior Governo. Nem uma pequena mudança no que se refere à realização do referendo, nem no tema das negociações, nem no que diz respeito aos direitos humanos, nem no caso do roubo dos recursos naturais de que é alvo o nosso país.

Questionado sobre a posição do novo governo francês, o presidente saharaui referiu que a França apoiou desde o início Marrocos e que esta posição “não permite que os direitos humanos nos territórios ocupados pelo Exército alauita sejam supervisionados pela ONU nem deixa que o conflito possa tomar rumos de resolução, e que a referida postura conduziu a “muitas tensões na região da África do Norte e provoca o agudizar dos problemas em lugar de os melhorar”, afirma Abdelaziz.

“Creio que chegou o momento de o Governo francês optar por outro caminho no que respeita ao conflito do Sahara Ocidental, e também no que respeita ao norte de África; gostaríamos que corrigissem os erros que cometeram até agora. Deveriam respeitar as resoluções da ONU e cumprir com a legalidade internacional, afirma o presidente saharaui ao diário basco.

SPS

Dakhla: Forças de ocupação marroquinas carregam com brutalidade contra manifestação de desempregados saharauis



Dakhla, antiga Vila Cisneros: no passado dia 3 de agosto, as autoridades policiais de ocupação marroquinas reprimiram com brutalidade uma manifestação pacífica organizada por grupos de trabalhadores saharauis desempregados que reivindicavam os seus direitos sociais, informou o Ministério dos Territórios Ocupados e da Comunidade Saharaui da RASD.

Segundo aquela fonte, as forças de ocupação perseguiram os manifestantes nas ruas e bairros para prendê-los e submetê-los a espancamentos e torturas selvagens, causando vários feridos entre os manifestantes.
Os manifestantes saharauis gritaram palavras-de-ordem, condenando e repudiando as políticas da ocupação marroquina, a marginalização e exclusão dos habitantes de todas as camadas sociais saharauis, e denunciando a política marroquina de repovoamento e instalação de colonos marroquinos na cidade.
A coordenadora do grupo dos desempregados saharauis afirmou em comunicado “a sua enérgica denuncia e repulsa pela política de marginalização e exclusão que impõe o Estado marroquino contra as diversas camadas sociais afetadas, num momento em que a administração leva a cabo uma operação de envio de milhares de colonos marroquinos para o Sahara Ocidental promovendo a sua inserção e oferecendo todas as comodidades, enquanto prosseguem num declarada e grave guerra dirigida contra a existência humana dos saharauis na sua própria terra".
Durante os protestos naquela que é a segundo cidade mais importante do Sahara Ocidental sob ocupação, os manifestantes e a população levaram a cabo várias ações contra a ocupação: pichagens nas paredes, em todos os bairros, e bandeiras saharauis de grande tamanho foram içadas nos mais importantes edifícios da cidade.

Fonte: UPES e Ministério dos Territórios Ocupados e da Comunidade Saharaui

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

EUA temem que os marroquinos regressados do Afeganistão, Iraque e Líbia realizem ataques terroristas contra ocidentais



O Departamento de Estado dos Estados Unidos expressou esta segunda-feira o seu temor de que os marroquinos regressados Afeganistão, Iraque e Líbia realizem ataques terroristas em Marrocos e nos países ocidentais, como os atentados de Madrid em 2004.

No seu comunicado, o Departamento de Estado refere que o próprio governo marroquino confirmou a possibilidade de que marroquinos retornados de Afeganistão, Iraque e Líbia venham a realizar ataques terroristas no seu país de origem, expressando o DE dos EUA a sua preocupação também pelos marroquinos que assumam o extremismo nos países da Europa Ocidental como os que participaram nos ataques contra combóios em Madrid de 2004.

O comunicado do Departamento de Estado norte-americano refere, ainda, que a Al Qaeda no Magreb Islâmico aproveita a tensa situação na região do Sahel com o objetivo de incrementar o número dos seus aliados e fortalecer os seus recursos e as suas operações.

Neste sentido, ressalta que a Al Qaeda conseguiu de maneira significativa recursos financeiros durante o ano de 2011, graças ao pagamento de resgate de reféns por parte de alguns governos europeus. (SPS)

Internacional Socialista reafirma o direito do povo saharaui à autodeterminação



O Comité África da Internacional Socialista, reunido nos dias 30 e 31 de julho na Cidade da Praia, Cabo Verde, reafirmou o apoio da Internacional Socialista ao direito do povo saharaui à autodeterminação.

O comité instou Marrocos e a Frente Polisario a prosseguir as negociações diretamente sob os auspícios da ONU e reiterou o seu apoio aos esforços do Secretário-Geral da ONU e do seu Enviado Pessoal para conseguir "uma solução pacífica e definitiva para o conflito do Sahara Ocidental".

O Comité também expressou a sua preocupação pela situação dos direitos humanos. Neste âmbito, informou o envio de uma delegação da Internacional Socialista ao Sahara Ocidental num futuro próximo.

O ministro para Europa da RASD, Mohamed Sidati, informou os presentes da situação atual no Sahara Ocidental e recordou que se trata de um conflito resultante de um processo de descolonização inacabado que deve ser resolvido através "do exercício pelo povo saharaui do seu direito inalienável à autodeterminação e à independência conforme as resoluções e Cartas da União Africana e da ONU".

Mohamed Sidati ressaltou a ameaça que representa para os esforços de paz, a decisão unilateral de Marrocos de retirar a confiança ao enviado pessoal do SG da ONU para o Sahara Ocidental, Christopher Ross.

Esse tipo de atitude "que vai contra a vontade da comunidade internacional, está a obstaculizar o processo de paz no Sahara Ocidental", concluiu.
(SPS)

Pepe Taboada: "Margallo tentou que abandonássemos os saharauis"

Pepe Taboada,
presidente da CEAS Sahara

 José Taboada, o presidente da CEAS Sahara (coordenadora da solidariedade com o povo saharaui no Estado espanhol), explica que o ministro de Negócios Estrangeiros de Espanha procurou dissuadir as associações de regressar aos acampamentos de refugiados saharauis na próxima semana.

Apenas quatro dias depois do ministério de Negócios Estrangeiros ter repatriado doze cooperantes espanhóis que trabalhavam nos acampamentos de refugiados saharauis, um grupo de associações, ONG, políticos e militantes prepara uma viagem de regresso a esta zona do sul da Argélia. Objetivo: desmontar a imagem de insegurança que o ministro Margallo propagou e levar ajuda humanitária a essa população que, há mais de 37 anos, enfrenta um conflito político com Marrocos perante a indiferença do Governo espanhol. A expedição foi montada de urgência devido à "encenação" que, na opinião de José Taboada, presidente da Coordenadora Estatal de Associações pro saharauis em Espanha (CEAS), constituiu a medida do MNE, justificada com a alegação de um alto risco de sequestro. Taboada, que há mais de três décadas visita a população refugiada do Sahara, relata ao jornal Público (de Espanha) os detalhes do encontro mantido com o ministro dos NE depois das associações terem anunciado uma visita de quatro dias aos acampamentos de refugiados com início no dia 7 de agosto.

- O ministro Margallo, procurou dissuadi-los da vossa viagem?
Estivemos reunidos duas horas e ele procurou convencer-nos de que abandonássemos os saharauis. É uma vergonhosa campanha aquela que está a ser feita a partir do MNE. Pensamos que o Governo espanhol caiu numa armadilhada de Marrocos e tiveram que justificar a medida de trazer de volta os cooperantes afirmando haver um iminente risco de sequestro. Não há maior risco do que o que possa haver na Palestina ou no Irão. Não é justificável a campanha do ministro de recambiar doze cooperantes num avião militar quando muitos deles já tinham o seu bilhete de regresso em voo regular. Trata-se de uma montagem.

-  Qual o objetivo desta viagem de regresso aos acampamentos?
- Vamos demonstrar que a segurança é muito grande, e ao ministério que não vamos aceitar manobras políticas que possam afetar a população saharaui. Milhares de famílias viajam aos acampamentos para ver as crianças que acolhem durante o verão e que já nos estão a perguntar se é seguro ir. Normalmente tende-se a acreditar no que diz o Estado mas, na realidade, o Estado é uma das entidades que mais mente; por vezes por inconfessáveis razões; e é uma vergonha.


- O ministro Margallo explicou-vos quais as razões que o levaram a repatriar os cooperantes?
- Disse-nos que tinha informação confidencial, dados cruzados, que era algo iminente, que não podiam esperar nem um minuto mais... Exagerou tudo. Ao princípio disse que se devia a uma intervenção militar que ia ter lugar no Mali, embora não se tenha referido aos países limítrofes… e os acampamentos estão a mais de 1.000 quilómetros. Depois mudou o discurso e disse que nos acampamentos havia infiltrados de uma cisão da Al Qaeda - os mesmos que sequestraram os cooperantes [Ainhoa Fernández, Enric Gonyalos e Rosella Urru]. Não se podem aceitar essas manobras jogando com a ajuda a um povo. Eles [os saharauis] vivem da ajuda internacional – muitos, da ajuda espanhola-  e se a cortas e colocas dificuldades acabas por os estar a encurralar pela fome.

- Fizeram-vos assinar um documento eximindo o Governo de responsabilidade em caso de sequestro?
Margallo disse-nos que um Estado não pode fazer assinar algo de semelhante a ninguém; que o que foi apresentado a esse moço [José Oropesa, o único espanhol que decidiu ficar nos acampamentos] deve ter saído um erro ou uma má interpretação da agência que coordenou a saída dos cooperantes. Essa ameaça foi ilegal e o ministro diz que o seu ministério não é responsável.

-  Que interpretação faz da medida do MNE em relação aos cooperantes?
- Todo isso está ligado ao discurso do rei de Marrocos ontem em Rabat quando afirmou que o seu país quer ajudar Espanha a sair da crise. A isto há que juntar o espaço que França está a deixar no reino de Mohamed VI, com a postura de Hollande, que não mantem um apoio claro. Estes sintomas apontam no sentido de que o Governo espanhol está a procurar ocupar o espaço económico em Marrocos que a França poderá deixar. O PP falava de ‘responsabilidade histórica' com o Sahara, mas era quando estava na oposição.

-  Quem integra o grupo que viaja na próxima semana para o Sahara?
- A lista ainda não está fechada mas contamos com membros de associações, de ONG, deputados, representantes de partidos políticos e jornalistas. Esperamos poder contar também com representantes de vários municípios. Uma vez nos acampamentos vamos visitar os projetos de cooperação e conhecer em primeira mão as medidas de segurança tomadas pela Frente Polisario. Levaremos também toda a ajuda humanitária que pudermos.


-  Quais são as necessidades mais urgentes que tem a população?
- As alimentares: azeite, arroz, massas, atum. Também material escolar e medicamentos para os hospitais. É vital continuar a trabalhar nos projetos de alimentos, como as hortas, e nas escolas de formação profissional, como a de cinema, no acampamento '27 de Fevereiro'.

-  Quanto tempo mais irá durar a medida preventiva do MNE?
- Não o sabemos. Mas o ministro disse que há que encontrar um plano de segurança grande junto com a Argélia e as Nações Unidas para o apresentar na Agência Espanhola de Cooperação. Nisso estamos empenhados para que já não se possam encontrar desculpas para dizer que é perigoso viajar aos acampamentos. Na próxima semana também irão regressar os cooperantes. Além disso, há voluntárias de França e de Itália que seguem também connosco.

PUBLICO [Espanha] - entrevista de Patricia Campelo 02/08/2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O ministro Margallo e o Sahara Ocidental: mentira ou irresponsabilidade?

O MNE espanhol, García Margallo

 As declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros sobre o Sahara Ocidental merecem uma análise cuidadosa. A ordem de repatriar os cooperantes espanhóis nos acampamentos de refugiados de Tindouf satisfaz claramente os objetivos de Marrocos. É a primeira vez, desde que existe o conflito do Sahara Ocidental, que um ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros toma uma decisão semelhante. Isso torna necessário escrutinar a credibilidade e coerência do discurso do ministro espanhol. E, para o fazer, torna-se necessário considerar a trajetória da política sobre o norte de África do ministro Margallo, e do governo de Mariano Rajoy Brey. Análise esta que deve ser complementada, naturalmente, com a de outros elementos, como sejam as atuações o majzen marroquino nesse mesmo cenário.

I. GARCÍA MARGALLO & RAJOY: UMA POLÍTICA EXTERNA PARA O NORTE DE ÁFRICA TENDENCIOSAMENTE FAVORÁVEL A MARROCOS
Qual é a política externa do governo Rajoy e do ministro Margallo, em particular, em relação ao norte de África? Este é o primeiro dado que há que considerar para analisar as declarações de García Margallo e a ordem dada de repatriar os cooperantes espanhóis presentes nos acampamentos de refugiados de Tindouf (Argélia).

E os FACTOS que encontramos são os seguintes:
1- o presidente do Governo, Mariano Rajoy, visitou Marrocos, onde homenageou o criminoso Hassan II e reuniu com Mohamed VI.
2- o presidente Rajoy, no entanto, não visitou a Argélia, nem a Tunísia, nem a Mauritânia, nem os territórios da República Saharaui nem os acampamentos de refugiados, nem nenhum outro país da região noroeste de África.
3- o ministro dos Negócios Estrangeiros de Rajoy, García Margallo, visitou Marrocos, onde homenageou o criminoso Hassan II. Não foi recebido por Mohamed VI.
4- o ministro dos Negócios Estrangeiros de Rajoy, García Margallo, não visitou a Argélia, nem a Tunísia, nem a Mauritânia, nem os territórios da República Saharaui nem os acampamentos de refugiados, nem nenhum outro país da região noroeste de África... exceto o Burkina Fasso, país aliado do majzén e onde opera, como "assessor" do presidente desse país, um cidadão mauritano, Mustafá Chafi (o mediador que interveio para resolver os dois sequestros que ocorreram com espanhóis no norte de África), com ligações aos serviços secretos marroquinos.
5- o ministro dos Negócios Estrangeiros de Rajoy, García Margallo, declarou a 18 de março de 2012 numa entrevista a um diário progovernamental:

“A responsabilidade de Espanha neste tema é a mesma que a de qualquer outro membro da ONU”

Quer dizer que, para o ministro García Margallo, Espanha, que é e que continua a ser, embora isso lhe desagrade, a potência administrante do Sahara Ocidental tem "a mesma" responsabilidade que "qualquer outro membro da ONU". A Birmânia, por exemplo....

Os dois cooperantes espanhóis sequestrados
em Tindouf e entretanto libertados

II. AS DECLARAÇÕES DE GARCÍA MARGALLO SOBRE A SITUAÇÃO NOS ACAMPAMENTOS DE REFUGIADOS DE TINDOUF
O ministro García Margallo fez declarações sobre a questão... duas declarações onde diz coisas diferentes.
- No dia 28 de julho disse:

O governo deu ordem de iniciar esta operação após, nos últimos dias, ter indícios fundados que alertavam para um grave incremento da insegurança na zona e de possíveis atuações contra objetivos estrangeiros

No dia seguinte, dia 29 de julho, deu-se a repatriação de todos... menos de um cooperante, Pepe Oropesa, que foi intimidado ao ponto de o fazerem assinar um documento absolutamente assombroso no qual ele se comprometia a descartar o Governo de qualquer responsabilidade pelo que lhe pudesse acontecer à sua pessoa e bens e a recomendação de evacuação do Ministério espanhol era dramatizada com uma  frase escandalosa: "‘Se te sequestram, não pagamos o resgate”, o que constitui uma confissão evidente de que o Governo tem, até agora, pago nos outros sequestros.

No dia 30 de julho, no entanto, dizia algo diferente:

Estava sendo planeado um sequestro de cooperantes espanhóis nos acampamentos de Tindouf. Verificou-se até à exaustão que essa operação era iminente.

III. AS DIFERENÇAS ENTRE AS DECLARAÇÕES DE 28 E DE 30 DE JULHO
Entre as primeiras e as segundas declarações de Margallo existem diferenças substanciais:
1- No dia 28 havia " fundados indícios " e "possíveis atuações"...
Mas no dia 30 disse que o suposto risco estava "confirmado até à exaustão".
2- No dia 28 falava de um suposto "grave incremento da insegurança"...
Mas no dia 30 dizia que, na realidade, a suposta ameaça era "iminente".
3- No dia 28 fala de supostas ameaças "contra objetivos estrangeiros"...
Mas no dia 30 afirma que era contra "cooperantes espanhóis".

Um "fundado indício " é o mesmo que algo "confirmado"? Um "aumento da insegurança" é o mesmo que um acontecimento "iminente"? é o mesmo falar de objetivos "estrangeiros" ou só de "espanhóis"?
Demasiadas e demasiado importantes diferenças nas suas declarações...
A falta de coerência entre as declarações exige que analisemos a questão. Em minha opinião, podem colocar-se duas hipóteses:

1- Margallo mente;
2- Margallo não mente, mas é um irresponsável.

IV. HIPÓTESE "A": MARGALLO MENTE
A primeira hipótese é a de considerar que Margallo mente pelas seguintes razões:
1- Nos acampamentos de Tindouf vivem muitas pessoas, de origem saharaui, que têm a nacionalidade espanhola. Se essas pessoas, que não são "cooperantes", mas que ali se encontram por razões familiares, por exemplo, também são "espanhóis":
Por que não existe risco de "sequestro" desses espanhóis?
Acaso o governo espanhol só paga os resgates se são sequestrados espanhóis de origem caucasiana e não os que são de origem moura?
2-Uma diferença, tão substancial, entre as declarações de Margallo de 28 e as de 30 de julho é indício de que Margallo não diz a verdade.
Em apoio desta tese está o facto de que, para além da inconsistência entre as duas declarações, o cooperante espanhol Oropesa Pepe manteve-se nos acampamentos de Tindouf .... e até hoje, 31 de julho, oh, surpresa! Nada lhe aconteceu.
Então: não dizia que o "sequestro" estava "confirmado" e era "iminente"?
Portanto, a questão chave para responder Margallo é:
Por que não sequestraram Oropesa Pepe?


V. HIPÓTESE "B": MARGALLO É UM IRRESPONSÁVEL
Admitamos, hipoteticamente, que Margallo não mentiu.
Admitamos, hipoteticamente, que alguém lhe deu essa informação e ele não é cúmplice ativo da mesma.
Admitamos, hipoteticamente, que ele não estava consciente de que com esta "informação" causava um grave dano à Frente Polisario.
As perguntas, então, surgem por si próprias:
- era responsável ordenar a repatriação dos cooperantes em Tindouf... e não ordenar a repatriação dos cooperantes que estão noutros países norte-africanos próximos como Mauritânia, Mali, Burkina Fasso, Chade, Senegal,....?
- era responsável alarmar a opinião pública ante um acontecimento , como se viu, não estava "confirmado" nem era "iminente" como O PROVA o facto de Pepe Oropesa até ao dia de hoje não ter sido sequestrado?
- era responsável fazer-se eco de uma "informação" que, pelos vistos, pode ter a mesma credibilidade que aquela que "assegurava" a existência de "armas de destruição maciça" no Iraque de Saddam Hussein?
- era responsável dispor de "informações" sobre factos tão graves.... e não tê-las compartilhado com a Frente Polisario e com a Argélia para utilizar essa suposta "informação" e montar uma armadilha aos supostos "terroristas" para desarticular o suposto comando?
- foi responsável  que o PSOE e o PP tenham pago somas estratosféricas aos sequestradores de espanhóis em troca da sua libertação... criando assim um aliciante para fomentar o sequestro de espanhóis... ou era precisamente isso que se pretendia: criar um clima favorável ao sequestro de espanhóis para justificar depois que existe um "grave incremento da insegurança"?

Os surpreendentes hiperelogios 
de Mohamed VII a Espanha...

VI. MOHAMED VI FELICITA ESPANHA...
Neste contexto assistimos às surpreendentemente elogiosas palavras que Mohamed VI dirigiu ao rei e ao governo espanhol.
No discurso do Trono que proferiu no dia 30 de julho de 2012, em comemoração do seu acesso ao trono marroquino a 30 de julho de 1999, Mohamed VI referiu-se a Espanha com os termos mais elogiosos que eu me recorde:

“No âmbito das relações avançadas com o conjunto dos países da União Europeia, temos que destacar as relações históricas enraizadas e horizontes largos que ligam Marrocos ao Estado vizinho de Espanha, ancorados por fortes laços pessoais que nos unem a sua Majestade o Rei Don Juan Carlos I, para além dos laços históricos existentes entre as casas reais de dois países vizinhos.
Nesta difícil conjuntura que estamos a atravessar, queremos expressar mais uma vez o nosso compromisso de facilitar as oportunidades necessárias para proporcionar novas condições económicas apropriadas  para criar riqueza compartilhada, materializando assim a solidariedade profunda e eficiente entre os nossos dois países.
Neste sentido, demos a Nossa Alta Orientação ao Governo para que implemente esta questão, com a importância e celeridade na aplicação que a mesma requere.”

Mohamed VI não se referiu à França (o que parece confirmar o que foi avançado neste blog), mas referiu-se à Espanha em termos extremadamente elogiosos.
Como não levar a pensar que o governo espanhol está satisfazendo os desejos de Mohamed VI... entre os quais os que os seus serviços secretos levam anos a esforçar-se em intoxicar a opinião pública, o de misturar a causa saharaui com o terrorismo?

VII. SE SE CONFIRMA QUE OS SEQUESTRADORES SÃO DA "AL QAIDA", O GOVERNO RAJOY, CONTINUADOR DO GOVERNO ZAPATERO, VIOLA O DIREITO INTERNACIONAL AO PAGAR RESGATES
Acabamos de assistir ao vergonhoso episódio de uma nova cedência do Governo ante um grupo de delinquentes. Um novo episódio em que, tal como sucedeu com os sequestrados na Mauritânia, o Governo (então de Zapatero, agora de Rajoy), aplica a mesma "solução": ceder ante a chantagem pagando.
O problema, que em Espanha se finge desconhecer, é que, se se confirma que os sequestradores são, como dizem, da "Al Qaida", pagar resgates é ILEGAL. A resolução 1904, do Conselho de Segurança, de 17 de dezembro de 2009, no seu parágrafo 5 proíbe taxativamente o pagamento de "resgates" a grupos terroristas ligados à "Al Qaida".
O que coloca Espanha perante uma grave questão. Dado que o Governo pagou resgates pelos sequestros de espanhóis na Mauritânia e em Tindouf... das duas uma:
- ou é legal pagar resgates porque os sequestradores, ao contrário do que diz a propaganda oficial, NÃO SÃO DA "AL QAIDA".....
- ou é verdade que são da "Al Qaida", e os governos de Rodríguez Zapatero e de Mariano  Rajoy estão a VIOLAR O DIREITO INTERNACIONAL.

Creio que, antes de alarmar a opinião pública com advertências de riscos que não se sabe se são "possíveis" ou estão "confirmados", o governo deve dizer, pura e simplesmente se viola ou não viola o Direito Internacional sobre o terrorismo.

Carlos Ruiz Miguel, Catedrático de Direito Constitucional da Universidade de Santiago de Compostela, desde 2001.