sábado, 3 de maio de 2014

Central sindical CUT e movimentos sociais exigem que o governo do Brasil reconheça os saharauis




 Brasília, 02/05/14(SPS) - Representantes da Central  Única de Trabalhadores (CUT) e outras 11 entidades dos movimentos sociais e laborais  brasileiros enviaram no dia 28 de abril um documento à Presidente Dilma Rousseff solicitando  que o governo reconheça e estabeleça relações diplomáticas com a República de saharaui, segundo informam fontes da CUT.

"O Brasil é um dos poucos países da América Latina e do Caribe que ainda não reconheceram a República Saharaui. Na semana passada foi aprovada pela Câmara de Representantes e por distintas formações políticas uma moção que se pede àquele país sul-americano que reconheça a República Saharaui “, afirma o Embaixador em missão da República Saharaui no Brasil, Mohamed Laarosi Bahia

Para o secretário de Política Social  da CUT Brasília, José Ismael Cesar, "É totalmente inaceitável que  Brasil não se posicione a  favor da libre determinação dos povos e contribua  para que cessem as pressões políticas, económicas e a violação dos direitos humanos por parte de Marrocos na República Saharaui“. " Nós na CUT Brasília, os seus sindicatos afiliados e  membros de diversos movimentos sociais, estamo-nos mobilizando para que o governo brasileiro assuma tão breve quanto possível o compromisso de estar ao lado do povo saharaui, reconhecendo em primeiro lugar a República Saharaui, afirma a mesma fonte.


SPS

Polícia marroquina impede protestos pró-independência do Sahara Ocidental



Quinze pessoas ficaram feridas depois de a polícia marroquina ter dispersado duas manifestações pró-independência do Sahara Ocidental, nas últimas 48 horas e à margem da visita de uma delegação da ONU, informaram hoje Organizações Não-Governamentais (ONG) locais.

Na cidade de Dakhla, várias dezenas de militantes tentaram manifestar-se, agitando bandeiras independentistas, em paralelo com uma visita de membros do Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, declarou à agência noticiosa AFP um responsável de uma ONG, Elmami Amar Salem, acrescentando que "a polícia marroquina dispersou-os à força" e que "houve três feridos".

Na quinta-feira, algumas dezenas de pessoas queriam participar numa manifestação em El Aaiún, a principal cidade do Sahara Ocidental, mas a polícia "interveio para as dispersar", referiu, por sua vez, o representante da Associação dos Direitos Humanos marroquina, Hamoud Iguilid, adiantando que 12 pessoas "foram transportadas para o hospital com vários ferimentos".

O Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou na terça-feira uma resolução que apela à melhoria dos direitos humanos na região, sem definir qualquer mecanismo de controlo.

O Sahara Ocidental é controlado por Marrocos desde a saída do colonizador espanhol na década de 70.

Rabat propõe um plano de autonomia, sob a sua soberania, para o território, mas a Frente Polisário, movimento independentista apoiado pela Argélia, reclama um referendo pela autodeterminação. A mediação da ONU está num impasse.


Por Lusa

Membros do Congresso dos EUA pedem ao seu Governo que realize esforços para o cumprimento do principal objetivo da MINURSO




Washington, 01/5/2014 (SPS).- Membros do Congresso dos Estados Unidos, em carta ao Secretário de Estado John Kerry, pediram ontem ao Governo do seu país que desenvolva os esforços necessários para que a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), cumpra o principal objetivo para que foi instalada no Sahara Ocidental, a realização do referendo sobre o estatuto do território.

A carta, subscrita pelos congressistas Joseph R. Pitts, Betty McCollum, Joseph P. Kennedy III, Trent Franks, Reid J. Ribble, destaca que este referendo foi apoiado por todos os Presidentes dos EUA democratas e republicanos durante mais de 20 anos.

Os subscritores solicitaram, também, apoio ao Embaixador Christopher Ross nos seus esforços para a celebração do referendo no "futuro imediato" e a inclusão da vigilância dos direitos humanos no mandato da MINURSO.


Os congressistas sublinham que o direito do povo saharaui à autodeterminação é um direito humano fundamental. Neste sentido, solicitam à Administração Obama que garanta o respeito por esse direito. (SPS)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Congresso do Brasil realiza audiência pública sobre a República Saharaui

 
Deputado Assis do Couto, entre os deputados Eduardo Barbosa e Alfredo Sirkis, e o embaixador Paulo Roberto Campos da Fontoura

A Câmara dos Deputados do Brasil, acolheu quarta-feira, uma Audiência Conjunta das suas Comissões de Relações Exteriores e de Direitos Humanos dedicada ao exame da "Situação do Povo saharaui, última colónia em África", em que intervieram como oradores o ministro saharaui dos Negócios Estrangeiros, Mohamed Salem Ould Salek; o Embaixador em Missão para o Brasil, Mohamed Zrug Larosi, assim como o Embaixador Paulo Roberto Campos, Diretor de Organismos Internacionais do MNE brasileiro e o jornalista e cineasta Samir Abujamra.


Durante o primeiro ciclo da Audiência, o representante do Ministério de Assuntos Exteriores do Brasil expôs ante os deputados a posição seu governo acerca da temática do Sahara Ocidental, “baseada no respeito do direito do povo saharaui à autodeterminação e no diálogo permanente com a Frente Polisario que luta pela independência do país”.

O representante do Itamaraty referiu, que o “Brasil deverá continuar a atuar, para garantir que a Missão das Nações Unidas no Sahara Ocidental vele pelo respeito dos direito humanos”.

Em diferentes intervenções, os deputados insistiram na “necessidade urgente de um maior protagonismo e papel de vanguarda do Brasil na resolução do conflito do Sahara Ocidental e no reconhecimento da República Saharaui como nação soberana”.

 Os deputados apelaram “ao exercício de todas as pressões sobre Marrocos e a comunidade internacional para garantir o direito à autodeterminação e independência da última Colónia Africana”.

Os deputados lamentaram veemente, “a fragilidade argumentativa” do Embaixador de Marrocos no Brasil, durante a sua intervenção, assim com o seu descortês modo de atuação na Audiência, motivo pelo qual, foi chamado de forma reiterada “à ordem e ao respeito do regime interno dos trabalhos da comissão”.

Nas suas conclusões, ambas comissões acordaram transmitir ao seu governo as preocupações emanadas da grave situação dos direitos humanos no território; pedindo um maior papel do Brasil em “liderar o processo pela independência do povo saharaui sem neutralidade, em igualdade de condições com os casos da Palestina e de Timor-Leste”; decidindo ainda criar uma Frente Parlamentar, em defesa dos direitos do Povo Saharaui no Congresso Federal.


De destacar, que na assistência da Audiência do Congresso estiveram presentes Embaixadores e representantes diplomáticos da Tanzânia, Namíbia, Argélia, Quénia, Angola, Nigéria, México, Equador, Cuba, Nicarágua, Espanha, entre outros, assim como dirigentes de movimentos sociais, sindicais e de partidos políticos do país, cujo manifesto de apoio e solidariedade com a República Saharaui dirigido à Presidente Dilma Roussef foi lido e distribuído aos assistentes.

O trabalhos da Audiência Conjunta dedicada à República Saharaui foram transmitidos em direto pela televisão do Congresso para todo o país e contou com a cobertura de diferentes meios de comunicação nacionais e internacionais.


Brasilia, 30/04/2014 (SPS)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sahara Ocidental - Resolução 2152 (2014)



Adotada pelo Conselho de Segurança na sua 7162ª sessão, 29 abril de 2014

Le Conseil de sécurité,
Rappelant et réaffirmant toutes ses résolutions antérieures sur le Sahara occidental,

Réaffirmant son ferme appui aux efforts que le Secrétaire général et son Envoyé personnel font pour mettre en application ses résolutions 1754 (2007), 1783 (2007), 1813 (2008), 1871 (2009), 1920 (2010), 1979 (2011), 2044 (2012) et 2099 (2013),

Réaffirmant sa volonté d’aider les parties à parvenir à une solution politique juste, durable et mutuellement acceptable qui permette l’autodétermination du peuple du Sahara occidental dans le cadre d’arrangements conformes aux buts et principes énoncés dans la Charte des Nations Unies, et notant le rôle et les responsabilités des parties à cet égard,

Demandant à nouveau aux parties et aux États voisins de coopérer plus pleinement avec l’Organisation des Nations Unies et les uns avec les autres et de s’impliquer plus résolument pour mettre fin à l’impasse actuelle et aller de l’avant vers une solution politique,

Reconnaissant que la solution politique de ce différend de longue date et le renforcement de la coopération entre les États membres de l’Union du Maghreb arabe contribueraient à la stabilité et à la sécurité dans la région du Sahel,

Se félicitant des efforts que fait le Secrétaire général pour suivre de près toutes les opérations de maintien de la paix, y compris la Mission des Nations Unies pour l’organisation d’un référendum au Sahara occidental (MINURSO), et soulignant que le Conseil doit adopter une approche rigoureuse et stratégique en matière de déploiement au service du maintien de la paix et de gestion efficace des ressources,

Se déclarant préoccupé par les violations des accords en vigueur et demandant aux parties de se conformer à leurs obligations,

Prenant note de la proposition marocaine présentée au Secrétaire général le 11 avril 2007, et se félicitant des efforts sérieux et crédibles faits par le Maroc pour aller de l’avant vers un règlement; prenant note également de la proposition du Front Polisario présentée au Secrétaire général le 10 avril 2007,

Engageant les parties, dans ce contexte, à faire preuve d’une plus grande volonté politique de parvenir à une solution, notamment en examinant de façon plus approfondie leurs propositions respectives,

Prenant note des quatre séries de négociations tenues sous les auspices du Secrétaire général et se félicitant de la volonté des parties de poursuivre les négociations,

Engageant les parties à continuer de coopérer avec le Haut-Commissariat des Nations Unies pour les réfugiés à la mise en oeuvre du plan d’action actualisé sur les mesures de confiance adopté en janvier 2012,

Soulignant qu’il importe d’améliorer la situation des droits de l’homme au Sahara occidental et dans les camps de Tindouf, et encourageant les parties à collaborer avec la communauté internationale pour mettre au point et appliquer des mesures indépendantes et crédibles qui garantissent le plein respect des droits de l’homme, en gardant à l’esprit leurs obligations découlant du droit international,

Encourageant les parties à poursuivre les efforts qu’elles mènent chacune pour renforcer la promotion et la protection des droits de l’homme au Sahara occidental et dans les camps de réfugiés de Tindouf, y compris les libertés d’expression et d’association,

Reconnaissant en s’en félicitant les récentes mesures et initiatives prises par le Maroc à cet égard pour renforcer les commissions du Conseil national des droits de l’homme à Dakhla et Laayoune et l’interaction en cours du Maroc avec les Procédures spéciales du Conseil des droits de l’homme de l’Organisation des Nations Unies, y compris celles qui sont prévues pour 2014, ainsi que la visite annoncée du Haut-Commissariat des Nations Unies aux droits de l’homme en 2014,

Se félicitant également de l’application du programme renforcé de protection des réfugiés que le Haut-Commissariat des Nations Unies pour les réfugiés a élaboré en coordination avec le Front Polisario et qui comprend des activités de formation et de sensibilisation aux droits des réfugiés et aux droits de l’homme,

Demandant à nouveau que soit envisagé l’enregistrement des réfugiés dans les camps de réfugiés de Tindouf, et invitant à déployer des efforts à cet égard,

Accueillant avec satisfaction l’engagement pris par les parties de poursuivre les négociations dans le cadre des pourparlers tenus sous les auspices de l’Organisation des Nations Unies,

Considérant que la consolidation du statu quo n’est pas acceptable, et notant en outre qu’il est essentiel que ces négociations progressent pour que tous les aspects de la qualité de vie des habitants du Sahara occidental s’améliorent,

Affirmant son soutien à l’Envoyé personnel du Secrétaire général pour le Sahara occidental, Christopher Ross, et à l’action qu’il mène pour faciliter les négociations entre les parties, et se félicitant à cet égard des initiatives qu’il a prises récemment et des consultations qu’il mène actuellement avec les parties et les États voisins,

Affirmant son soutien au Représentant spécial du Secrétaire général pour le Sahara occidental et Chef de la MINURSO, Wolfgang Weisbrod-Weber,

Ayant examiné le rapport du Secrétaire général en date du 10 avril 2014

1. Décide de proroger le mandat de la MINURSO jusqu’au 30 avril 2015;

2. Réaffirme que les accords militaires conclus avec la MINURSO concernant le cessez-le-feu doivent être pleinement respectés, et exhorte les parties à y adhérer pleinement;

3. Demande à toutes les parties de coopérer pleinement aux opérations de la MINURSO, y compris en ce qui concerne sa liberté d’interaction avec tous ses interlocuteurs, et de prendre les mesures voulues pour garantir la sécurité, ainsi qu’une totale liberté de circulation et un accès immédiat au personnel des Nations Unies et au personnel associé dans l’exécution de leur mandat, conformément aux accords existants;

4. Se félicite que les parties se soient engagées à continuer à préparer une cinquième série de négociations, et rappelle qu’il fait sienne la recommandation formulée dans le rapport daté du 14 avril 2008 (S/2008/251) selon laquelle il est indispensable que les parties fassent preuve de réalisme et d’un esprit de compromis pour aller de l’avant dans les négociations;

5. Demande aux parties de continuer de faire preuve de volonté politique et de travailler dans une atmosphère propice au dialogue afin d’engager des négociations plus résolues et plus axées sur le fond et de garantir ainsi l’application de ses résolutions 1754 (2007), 1783 (2007), 1813 (2008), 1871 (2009), 1920 (2010), 1979 (2011), 2044 (2012) et 2099 (2013), ainsi que le succès des négociations;

6. Affirme son ferme soutien aux efforts déterminés que font le Secrétaire général et son Envoyé personnel pour qu’une solution soit trouvée à la question du Sahara occidental dans ce contexte, et demande que les réunions reprennent et que les contacts soient renforcés;

7. Demande aux parties de poursuivre les négociations sous les auspices du Secrétaire général, sans conditions préalables et de bonne foi, en tenant compte des efforts faits depuis 2006 et des faits nouveaux survenus depuis, en vue de parvenir à une solution politique juste, durable et mutuellement acceptable qui pourvoie à l’autodétermination du peuple du Sahara occidental dans le contexte d’arrangements conformes aux buts et principes énoncés dans la Charte des Nations Unies, et prend note du rôle et des responsabilités des parties à cet égard;

8. Invite les États Membres à prêter le concours voulu à ces négociations;

9. Prie le Secrétaire général de lui faire régulièrement, et au moins deux fois par an, des exposés sur l’état et l’avancement des négociations tenues sous ses auspices, l’application de la présente résolution, les difficultés auxquelles se heurtent les opérations de la MINURSO et les mesures prises pour les surmonter, déclare son intention de se réunir pour entendre ces exposés et les examiner, et, à cet égard, prie également le Secrétaire général de lui présenter un rapport sur la situation au Sahara occidental bien avant la fin du mandat de la Mission;

10. Se félicite que les parties et les États voisins se soient engagés à tenir des réunions périodiques avec le Haut-Commissariat des Nations Unies pour les réfugiés afin d’examiner et, autant que faire se peut, de renforcer les mesures de confiance;

11. Engage les États Membres à verser des contributions volontaires pour financer des mesures de confiance convenues par les parties, y compris celles permettant aux membres séparés d’une même famille de se rendre visite;

12. Prend note de la demande du Secrétaire général tendant à l’envoi de 15 observateurs militaires des Nations Unies supplémentaires et souscrit à cette demande, dans la limite des ressources existantes;

13. Prie le Secrétaire général de continuer à prendre les mesures voulues pour faire pleinement respecter par la MINURSO la politique de tolérance zéro instituée par l’Organisation des Nations Unies en ce qui concerne l’exploitation et les violences sexuelles et de le tenir informé, et demande instamment aux pays qui fournissent des contingents de prendre les mesures préventives voulues, notamment de mener avant tout déploiement des activités de sensibilisation à ces questions, et d’adopter d’autres mesures pour faire en sorte que les membres de leur personnel qui seraient mis en cause soient amenés à répondre pleinement de leurs actes;

14. Décide de rester saisi de la question.

Brahim Dahane: ‘É preferível morrer que viver com medo’




Numa radiosa manhã de segunda-feira na Biblioteca Britânica em Londres, conheci Brahim Dahane, defensor saharaui de direitos humanos [Brahim Dahane é presidente da Associação Saharaui das Vítimas de Graves Violações dos Direitos Humanos. Foi preso pelas autoridades marroquinas de 1987-91, 2005-2006 e 2009-2011]. Com voz calma, falou através de um tradutor acerca da liberdade de movimento, a liderança saharaui e a Missão das Nações Unidas para o Referendo do Sahara Ocidental (MINURSO). As conversações anuais para renovar o mandato da MINURSO iniciaram-se a 17 de abril e esta semana os membros do Conselho de Segurança votam se se deve incluir a vigilância dos direitos humanos na missão de paz, algo que até agora tem estado estranhamente ausente [Nota: o conselho votou a 29 de abril a resolução mas, mais uma vez, não foi incluído dentro das funções da MINURSO a vigilância e o monitoramento dos DDHH].

Pode-me falar da campanha que pede ao Conselho de Segurança da ONU ampliar o mandato da MINURSO?

Desde que Marrocos e a Mauritânia ocuparam o Sahara Ocidental em 1975 até hoje, os saharauis sofrem todos os dias a tortura e a repressão. Fazemos um apelo à MINURSO para que assuma as suas responsabilidades a sério e que inclua a proteção e a vigilância dos direitos humanos saharauis. [O seu mandato desde 1991 tem sido o de vigiar o cessar-fogo entre as forças armadas de Marrocos e da Polisario, e de pôr em prática um referendo que permitiria aos saharauis a autodeterminação; este último objetivo não foi até agora conseguido.] Estamos desesperadamente necessitados desse acompanhamento. Anunciámos a campanha no Sahara Ocidental em janeiro de 2008. Desde então, temos organizado manifestações todos os dias 15 de cada mês e temos escrito muitas cartas ao Secretário-Geral da ONU. Os nossos pedidos são justos e só estamos pedindo direitos humanos para todos. Se a campanha não obtiver êxito, vamos prosseguir com a nossa luta.

Porque se envolveu na defesa dos direitos humanos?

O secretariado-geral da Amnistia Internacional Marrocos fez a mesma pergunta a um companheiro defensor dos direitos humanos. A sua resposta foi a seguinte: “No Sahara Ocidental entramos no campo dos direitos humanos não pela porta, mas sim pela janela”. A situação obrigou-nos a ser defensores de direitos humanos e ativistas, a vida obrigou-nos a isso. Em 1991, 320 de nós fomos libertados da prisão, tínhamos experimentado o desaparecimento forçado durante 3 anos e alguns durante 17 anos. Ninguém sabia onde estávamos, se estávamos vivos ou mortos. Quando fomos libertados, as autoridades marroquinas queriam humilhar-nos, queriam que fossemos um exemplo para todos os saharauis. Todos os dias tínhamos que ir à delegacia assinar e incentivavam colonos marroquinos e cidadãos saharauis a que não nos dessem trabalho e não tivessem nenhum contato connosco: isso fez-me querer mudar a situação.

Tem visitado Marrocos para aumentar a consciência sobre a ocupação dentro da sociedade civil e junto dos grupos marroquinos de direitos humanos. Encontra restrições para entrar no país?

Sem dúvida, pois é mais difícil para os ex-presos ir a Marrocos. Perguntam-me onde vou, com quem me vou encontrar. Os saharauis têm documentação de Marrocos e são considerados cidadãos marroquinos, mas são tratados de maneira diferente. Fui preso num aeroporto em Marrocos numa viagem de regresso depois de visitar os acampamentos de refugiados saharauis na Argélia em outubro de 2009 [estive preso até abril de 2011] .
[Nota: Um muro de 2.700 quilómetros separa os saharauis que vivem nos acampamentos de refugiados sob controlo da Polisario dos que vivem sob a ocupação marroquina do Sahara Ocidental. São muitos os saharauis que, desde há 40 anos, não vêm membros da sua família do outro lado do muro. Trincheiras, torres de vigilância armadas e sete milhões de minas terrestres tornam o muro impenetrável.]

Os saharauis têm uma liberdade de movimento limitada. Para si é difícil viajar para outros países?

Conseguir um passaporte marroquino não foi fácil; tiveram que passar muitos anos. Foi só depois de ter contactado com algumas embaixadas em 1999 — Estados Unidos, britânicos -. que fizeram pressão sobre as autoridades marroquinas para que nos concedessem a mim e a outros ativistas passaporte, que pudemos viajar. Em 2003, 13 de nós íamos a caminho de Genebra para uma conferência sobre direitos humanos. As autoridades marroquinas confiscaram-me o passaporte e só consegui obtê-lo de novo em 2007. Nunca se sabe o que te vai acontecer. Às vezes passar pelos postos de controlo [no Sahara Ocidental] e ter conversações com as autoridades e a polícia fazem-me perder a paciência e levanto a voz, mas devemos perseverar para conquistar os nossos direitos. Por exemplo, foi assim que viajei até aqui.

Houve  intifadas (levantamentos) no Sahara Ocidental em 2000 e 2005. As pessoas continuam resistindo hoje?

A Intifada ainda está em marcha, porque há outras maneiras de se manifestar. Todo o Sahara Ocidental está implicado, incluindo os acampamentos de refugiados da Polisario. A razão pela qual viajámos aos acampamentos em 2009, quando fomos presos, era criar uma ligação em ambos os lados do muro entre os ativistas saharauis de direitos humanos nos acampamentos e os cidadãos dos territórios ocupados. As manifestações sucederam-se, como o acampamento de Gdeim Izik em 2010, quando 20.000 saharauis protestaram pacificamente. Era um modo muito democrático de expressão. Saímos da cidade e estabelecemos um acampamento para demostrar a falta de direitos humanos e de direitos económicos e sociais. A Intifada está todavia em curso, às vezes há falta de recursos, e, por vezes tratamos de inventar novas formas de criar consciência.

Os 23 saharauis detidos após o acampamento de Gdeim Izik foram julgados o ano passado e apanharam penas de 20 anos a prisão perpétua. Tem esperança de que venham a ser libertados?

Estamos conscientes de que não cometeram qualquer delito e estão na prisão injustamente. Uma coisa importante é que todos os saharauis estão com eles; apoiamo-los e sabemos que estão inocentes. Eu sei a diferença entre ser apoiado pelos cidadãos e estar isolado na prisão. Não vamos deixar de consciencializar as pessoas sobre a sua situação até que estejam livres.

O povo saharaui sente que os líderes da Polisario no exílio os representam?

Certamente, e isso é algo que nós não só o dizemos aqui, afirmamo-lo em todas os lugares: a Polisario é o representante legítimo do povo saharaui. Os princípios da Polisario são algo que temos gravado na nossa consciência e no nosso coração, com o objetivo de alcançar a independência. Por que nos vinculamos à Polisario? Porque estamos num barco no meio do Atlântico e o Oceano Pacífico, necessitamos algo que nos represente, que nos una - o barco que nos levará a um lugar seguro. E depois de consegui-lo queremos ser um Estado moderno e democrático, aberto e respeitador de todos. Os marroquinos ficam nervosos quando lhes dizemos que a Polisario é o nosso representante e que todos estamos a lutar pela mesma causa. A ONU e a UE reconhecem a Polisario e há representantes da Polisario nas embaixadas de muitos países [o governo da Polisario no exílio representa o Sahara Ocidental como um Estado membro da União Africana, de que Marrocos se retirou em sinal de protesto].

Enfrenta a represálias depois de falar com jornalistas como eu?

Ninguém me obrigou a fazer este tipo de trabalho. Não tenho medo, tenho uma experiência de 30 anos com todo o tipo de torturas. Uma ocasião, depois de ser posto em liberdade, estive em coma durante 33 dias. Inclusive, se morrer, então poderei descansar. Estou convencido do que estou a fazer. Há duas semanas [no Sahara Ocidental] decidi tomar um pouco do meu tempo para praticar um desporto e fi-lo num lugar isolado; era tranquilo, mas era perigoso. Os meus amigos disseram-me que não voltasse a fazê-lo. Mas todos vamos morrer de alguma maneira. O que sei é que eu não quero viver com medo nunca mais. Quero uma vida normal. É melhor morrer que viver com medo.

Quais as suas esperanças para o futuro?

Espero que as nossas metas se concretizem — que o Sahara Ocidental alcance a independência. E espero que o povo saharaui aprenda com os sofrimentos a que foi submetido todos estos anos — que viva em paz e tenha respeito entre si e não construam um Estado fracassado. Esperamos conquistar a independência e que venha visitar-nos no nosso país independente.

Tem a palavra. Reflexões finais?

A Grã-Bretanha é a mãe das democracias - é uma democracia moderna, os britânicos sofreram guerras e conflitos, mas agora mudaram e tratam os outros com respeito. Espero que o povo britânico possa valorar isso, mas que também o apliquem aos demais, agora que têm influência, para tentar ajudar a causa saharaui e alcançar a paz. Espero que os sindicatos ajudem a resolver o problema do Sahara Ocidental. Tudo o que pedimos é que se ponham do lado da justiça e dos direitos humanos, que os cidadãos se coloquem do lado da justiça.

Entrevista concedida a  27 de abril de 2014

*Fonte: New Internationalist Blogs Por Lydia James | 22 de abril de 2014

*Tradução p/ espanhol: Poemario por un Sahara Libre