sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sahara Ocidental: os presos saharauis mantêm-se firmes nas suas posições

 

Abdelmoula El Hafidi

  • As forças de segurança marroquinas mantêm cercada a residência da família do estudante e ativista dos direitos humanos Abdelmoula El Hafidi, recentemente libertado.
  • O estudante afirma que os presos saharauis se mantêm firmes e constantes nas posições e opiniões políticas pelas quais foram detidos,
  • e declara estar disposto a expressar as suas opiniões, mesmo que isso lhe custe regressar novamente à prisão.



Por Alfonso Lafarga

Madrid (ECS).- Os presos políticos saharauis, que cumprem penas severas em prisões marroquinas, mantêm-se firmes nas suas posições e dispostos a continuar a luta.

É o que afirma o estudante e ativista saharaui dos direitos humanos Abdelmoula El Hafidi, que no passado dia 16 de abril recuperou a liberdade após passar dez anos numa prisão marroquina.

Em declarações à Equipe Media - o grupo de jornalistas saharauis que trabalha na clandestinidade nos territórios do Sahara Ocidental ocupados por Marrocos -, Abdelmoula El Hafidi assegura que os presos saharauis se mantêm firmes e constantes nas posições e opiniões políticas pelas quais foram detidos.

Afirma que a tortura e as humilhações sistemáticas de que são alvo não os dissuadiram, nem o farão, de resistir e desafiar os maus-tratos dos seus algozes, e que o seu ânimo permanece inabalável.

O ativista saharaui, pertencente ao grupo de estudantes saharauis El Uali, detidos pela sua defesa pacífica do direito à autodeterminação do Sahara Ocidental, foi preso a 16 de abril de 2016 e condenado num julgamento realizado em Marraquexe que não respeitou as garantias básicas, segundo a Associação para a Proteção dos Presos Saharauis nas Prisões Marroquinas, que salienta que, apesar da presença de observadores internacionais, o processo foi apontado como um exemplo das práticas repressivas contra aqueles que defendem o direito à autodeterminação do povo saharaui.

Durante o tempo que passou na prisão, denuncia ter sido submetido a torturas físicas e psicológicas, o que não abalou as suas convicções; pelo contrário, afirma estar pronto para expressar as suas opiniões, mesmo que isso lhe custe regressar novamente às profundezas da prisão.

Na declaração à EM, El Hafidi manifesta a sua gratidão ao povo saharaui, que levantou a voz em apoio aos detidos, e salienta que isto tem sido uma fonte inesgotável de energia para manter a sua firmeza.

Após ter sido libertado, as autoridades de ocupação impuseram na cidade de Bojador um intenso bloqueio à casa da família de Abdelmoula El Hafidi, segundo fontes de ativistas dos direitos humanos saharauis.


Uma mãe saharaui reclama a libertação do seu filho
e de todos os presos políticos saharauis


Nas ruelas que conduzem à habitação, há uma ampla presença de veículos e efetivos de diferentes forças de segurança marroquinas, com o objetivo de intimidar a família e os saharauis que tentem visitar o estudante libertado.

A Associação Saharaui para a Defesa dos Direitos Humanos e a Proteção dos Recursos condenou o cerco opressivo e responsabiliza o Estado marroquino por quaisquer danos que possam ser sofridos pela família ou por quem for felicitar o ex-preso. A ONG apelou à população saharaui para que se dirija à casa da família e rompa o bloqueio, ao mesmo tempo que exige a libertação de todos os presos políticos saharauis.

O Coletivo de Defensores Saharauis dos Direitos Humanos no Sahara Ocidental (CODESA), por seu lado, condenou o cerco, a agressão física e o tratamento degradante infligidos à ativista e defensora saharaui dos direitos humanos El Ouara Sidi Brahim Khaya no passado dia 17 de abril, quando tentava visitar em Bojador a família do prisioneiro libertado.

Afirma que o delegado do governo marroquino (o paxá da cidade) e um agente da polícia supervisionaram pessoalmente os atos de tortura e as práticas humilhantes a que a ativista foi sujeita, antes de ordenarem a sua expulsão a bordo de um táxi coletivo com destino a El Aaiún.

Sahara Ocidental: Marrocos e Argélia reativam a sua ofensiva diplomática na Europa

 


No te Olvides del Sahara Occidental - 24/04/2026 | O Sahara Ocidental volta a situar-se no centro de uma intensa atividade diplomática regional e internacional. Na véspera de novas discussões nas Nações Unidas sobre a MINURSO, Marrocos e a Argélia parecem mover as suas peças na Europa com objetivos distintos, mas ligados a um mesmo cenário: o futuro do conflito saharaui e o equilíbrio de forças no Magrebe.

Por um lado, Marrocos intensificou os seus contactos com parceiros europeus para consolidar apoios à sua proposta de autonomia. A recente visita do seu ministro dos Negócios Estrangeiros a Londres insere-se nessa estratégia, num contexto em que países como o Reino Unido demonstraram o seu apoio a esta abordagem como base para uma solução política (Reuters). Este tipo de apoios reforça a narrativa de Rabat de que a sua proposta ganha terreno a nível internacional.

O interesse de Marrocos por Londres não é menor. Como membro permanente do Conselho de Segurança, a posição britânica assume especial relevância num momento em que se discute o futuro da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO). Paralelamente, várias análises apontam para que diversos países europeus se tenham vindo a alinhar progressivamente com a tese marroquina, reforçando uma tendência que Rabat procura consolidar no âmbito diplomático.

Ao mesmo tempo, a Argélia também está a reconfigurar a sua estratégia na Europa. A preparação de contactos ao mais alto nível com países como a Espanha ou a Alemanha reflete uma tentativa de recuperar margem diplomática num contexto marcado pela tensão acumulada nos últimos anos. No caso espanhol, a recente reativação do diálogo bilateral após a crise que eclodiu em 2022 confirma que o Saara Ocidental continua a condicionar a relação entre ambos os países (Europa Press).

Esta dupla dinâmica põe em evidência que o conflito está longe de estar congelado. Embora o processo político formal permaneça bloqueado, o Sahara Ocidental continua a influenciar alianças, agendas diplomáticas e relações estratégicas. A disputa não se limita ao âmbito das Nações Unidas, mas estende-se também às capitais europeias e aos espaços de negociação bilateral.


«O Sahara Ocidental continua a ser um território pendente de descolonização. E qualquer solução que não passe pelo consentimento do povo saharaui continuará a enfrentar limites tanto políticos como jurídicos».


Neste contexto, devem ser interpretadas com cautela algumas informações provenientes dos meios de comunicação marroquinos sobre supostas pressões dos Estados Unidos em relação aos campos de refugiados saharauis. Mais do que factos confirmados, estas narrativas refletem a dimensão informativa do conflito e a disputa pela narrativa no plano internacional.

O elemento de fundo continua a ser o mesmo: enquanto Marrocos procura consolidar a sua proposta como única via possível, a Argélia tenta manter em aberto a centralidade do direito à autodeterminação. Entre ambas as estratégias, o povo saharaui continua a ser o titular de um direito reconhecido pelo direito internacional, mas cuja aplicação efetiva ainda está pendente.

A questão não é menor. Nenhuma ofensiva diplomática pode substituir o princípio jurídico que define o conflito: o Sahara Ocidental continua a ser um território pendente de descolonização. E qualquer solução que não passe pelo consentimento do povo saharaui continuará a enfrentar limites tanto políticos como jurídicos.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Espanha reforça combate ao narcotráfico após apreensão de 800 kg de haxixe e descoberta de túnel em Ceuta



A droga que nos chega de Marrocos...

As autoridades espanholas intensificaram as investigações sobre redes de narcotráfico entre Marrocos e Espanha, após a apreensão de cerca de 800 quilos de haxixe e a descoberta de um túnel subterrâneo na zona fronteiriça de Ceuta.

De acordo com a Guardia Civil, uma mulher foi detida ao tentar atravessar o posto fronteiriço de Tarajal, que liga Ceuta a Marrocos, ao volante de uma autocaravana onde a droga estava escondida num compartimento oculto.

A operação surge na sequência da descoberta, no final de Março, de um túnel subterrâneo equipado com carris e vagonetas, alegadamente utilizado para o transporte de haxixe entre os dois territórios. O caso foi inicialmente investigado pelo Tribunal Nacional de Espanha e deverá agora ser apreciado pelo Supremo Tribunal de Espanha, tendo em conta a dimensão transnacional da rede.

Segundo o Ministério do Interior de Espanha, a investigação está centrada na existência de uma estrutura organizada de tráfico de droga a operar entre o Norte de África e o sul da Europa.

O caso ocorre num contexto de reforço das operações contra o narcotráfico na região do estreito de Gibraltar, uma das principais rotas de entrada de haxixe na Europa, frequentemente associado a redes criminosas que operam em vários países.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Congresso da União das Mulheres Saharauis arranca nos campos de refugiados com participação internacional


Mulheres saharauis em manifestação no Estado espanhol

Os trabalhos do 10.º Congresso da União Nacional das Mulheres Saharauis tiveram início esta segunda-feira na wilaya de Smara, nos campos de refugiados saharauis, reunindo representantes de instituições locais, delegações estrangeiras e organizações internacionais ligadas aos direitos das mulheres. Lema do Congresso: «La Mujer Saharaui: Resistencia y Sacrificio por la Conquista de la Independencia y la Libertad».

O encontro, que decorre durante três dias, visa avaliar a atividade da organização nos últimos anos e definir novas orientações para reforçar o papel das mulheres saharauis em diferentes áreas, incluindo educação, saúde e ação social. A agenda inclui debates e workshops sobre mecanismos de empoderamento feminino e a apresentação de experiências consideradas bem-sucedidas.

Na sessão de abertura foram aprovados o regulamento interno e analisados os relatórios moral e financeiro do mandato anterior, tendo sido também exibido um documentário sobre a atividade recente da organização.

O congresso deverá ainda eleger uma nova direção e aprovar recomendações destinadas a reforçar a participação das mulheres saharauis nos processos de decisão e no desenvolvimento social.

Presente na abertura, o líder da Frente Polisário, Brahim Ghali, destacou o papel das mulheres saharauis ao longo do conflito, sublinhando a sua participação em diferentes contextos, incluindo nos campos de refugiados, nos territórios ocupados e na diáspora. O dirigente reiterou que uma solução para o conflito passa pelo direito à autodeterminação do povo saharaui, em linha com resoluções das Nações Unidas.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Justiça marroquina agrava para cinco anos pena de prisão a opositor octagenário Mohamed Ziane

Com 83 anos, Mohamed Ziane vê a sua pena agravada 

A justiça de Marrocos agravou para cinco anos de prisão a pena aplicada ao ex-ministro dos Direitos Humanos e opositor Mohamed Ziane, no âmbito de um processo por alegado “desvio e dissipação de fundos públicos”.

A decisão foi proferida pelo tribunal de recurso de Rabat, após o Tribunal de Cassação ter anulado um acórdão anterior e determinado novo julgamento. O arguido tinha sido inicialmente condenado em julho de 2024 a cinco anos de prisão, pena reduzida para três anos em 2025, antes de o processo regressar à fase de recurso.

Segundo a defesa, liderada pelo advogado e seu filho Ali Reda Ziane, a decisão voltou a fixar a pena máxima, apesar de o tribunal superior ter considerado os elementos do processo pouco claros. O advogado anunciou que irá recorrer novamente.

Ziane, de 83 anos, nega as acusações e sustenta que os processos judiciais estão relacionados com as suas posições políticas críticas. 

O caso está ligado a alegadas irregularidades na gestão de subsídios públicos atribuídos ao Partido Marroquino Liberal, formação fundada e liderada por Ziane, durante uma campanha eleitoral em 2015.

Figura conhecida da política marroquina, o antigo governante – ele foi ministro dos Direitos Humanos entre 1995 e 1996. Após ter sido ministro dos Direitos Humanos, demitiu-se em 1996 por discordar das políticas governamentais. Nas décadas seguintes, foi uma das vozes mais críticas do aparelho securitário marroquino e do funcionamento da justiça.

Encontra-se detido desde novembro de 2022, tendo entretanto cumprido uma outra pena de três anos de prisão por vários crimes, incluindo também alegada “ofensa a instituições e funcionários públicos”.

O regime de Mohamed VI é conhecido por inventar acusações de desvio de fundos, ofensas a funcionários públicos  ou de cariz sexual a todo aqueles que abertamente o critiquem. No caso do octagenario seria dificil invocar este ultimo item, daí a invocação dos dois primeiros ...

Agricultores espanhóis pedem à Comissão Europeia mais controlo sobre importações agrícolas oriundas de Marrocos

 




A organização agrária de jovens agricultores de Espanha – ASAJA - exigiu à Comissão Europeia o reforço dos controlos sobre produtos agroalimentares importados de países como Marrocos, Egito e China, alegando riscos para a segurança alimentar e concorrência desleal face aos produtores europeus.

Em causa, segundo a associação, está a entrada no mercado comunitário de produtos que não cumprem as mesmas exigências aplicadas na União Europeia em matéria de fitossanitários, rastreabilidade e condições de produção. A ASAJA denuncia que, enquanto os agricultores europeus estão sujeitos a limites rigorosos, as importações chegam com controlos considerados insuficientes.

Entre os casos apontados estão os tomates provenientes de Marrocos, que em grande parte são produzidos no território do Sahara Ocidental ocupado, sobre os quais recaem suspeitas de utilização de substâncias proibidas na UE e eventuais irregularidades na rotulagem de origem. A organização refere ainda preocupações com produtos transformados oriundos do Egito e da China, nomeadamente quanto aos níveis de resíduos de pesticidas, bem como com o arroz importado, cujo etiquetado nem sempre indicará de forma clara a origem ou a composição.

De acordo com a ASAJA, inspeções nas fronteiras europeias já detetaram incumprimentos dos limites máximos de resíduos de fitossanitários. A associação critica também alegada falta de transparência na indústria transformadora e na distribuição, que, afirma, dificulta ao consumidor identificar a proveniência dos produtos.

Face a este cenário, os jovens agricultores espanhóis defendem medidas urgentes, incluindo o reforço dos controlos na origem e nas fronteiras, a aplicação do princípio de reciprocidade nas importações e a obrigatoriedade de rotulagem clara com indicação do país de produção.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Marrocos: uma vida miserável para quem defende a liberdade de expressão


O historiador e ativista dos direitos humanos marroquino
Maâti Monjib


O historiador Maâti Monjib continua sujeito a uma proibição de viajar e a todo o tipo de restrições

Jan Keulen


Não, ele não está na prisão e não há acusações formais contra ele. Em julho de 2024, foi-lhe até concedido um perdão pelo rei Mohamed VI, e uma sentença anterior controversa por «branqueamento de capitais» e «atentado à segurança do Estado» foi comutada. No entanto, o historiador, publicitário e ativista dos direitos humanos marroquino Maâti Monjib não é um homem livre. Pelo contrário.

Isto tornou-se evidente na segunda-feira, 30 de março, quando Monjib, convidado por uma universidade francesa para proferir algumas palestras, foi impedido de embarcar num avião no aeroporto de Rabat-Salé. Não lhe foi permitido sair de Marrocos, apesar de não existir qualquer proibição oficial de viajar contra ele. Anteriormente, ele já havia perdido o seu emprego como professor na Universidade Mohamed V, em Rabat. A sua conta bancária foi congelada. Não lhe foi permitido vender a sua casa ou carro, e a polícia impediu que os membros da sua família lhe prestassem assistência financeira.

A embaixada francesa em Rabat pouco ou nada fez por Monjib, que também possui nacionalidade francesa. Defender um ativista dos direitos humanos parece ficar em segundo plano face à ambição política da França de não comprometer as relações com Marrocos. Devido à proibição de viajar, Monjib não vê a sua mulher e a sua filha, que vivem em Montpellier, França, há cinco anos.

O governo marroquino quer tornar a sua vida o mais insuportável possível. Nos meios de comunicação pró-governo, Monjib é regularmente difamado e retratado como um dissidente e islamófobo. Por exemplo, diz-se que ele aplaudiu a queima do Alcorão na Suécia. Esta notícia falsa resultou em ameaças em grande escala contra ele e até o obrigou a abandonar temporariamente a sua casa.

O que fez este homem para que as autoridades marroquinas guardem tanto rancor contra ele? Numa publicação no Facebook, Monjib afirma que as autoridades querem silenciá-lo devido às suas críticas ao «tratamento dado a jornalistas independentes e jovens manifestantes». Em setembro de 2025, milhares de jovens da Geração Z manifestaram-se contra a corrupção, os maus cuidados de saúde e a educação inadequada. Mais de meio ano depois, centenas de manifestantes continuam detidos e alguns jovens ativistas receberam penas de prisão de vários anos.

Numa entrevista recente ao site Orient XXI, Monjib criticou a corrupção em grande escala em Marrocos: «Afeta até as classes médias baixas. Os sistemas de saúde e de educação estão profundamente afetados. Daí o seu estado de decadência avançada.» Por exemplo, a holding do primeiro-ministro Aziz Akhannouche recebeu o contrato para a construção de uma gigantesca estação de dessalinização em Casablanca. «Dá para acreditar? Um chefe de governo assina um enorme acordo de investimento estratégico consigo próprio, ao mesmo tempo que se concede a si próprio um subsídio de vários milhares de milhões, sob o pretexto de que não gere pessoalmente a sua holding. Mesmo num filme de ficção científica, isto não seria plausível.»


Advogados e jornalistas acompanharam Monjib até ao aeroporto de Rabat,
no dia 30 de março, onde lhe foi barrada a possibilidade de viajar para França



Outro exemplo é a extração de gás e a produção de GNL em Tendrara, no leste de Marrocos. Também nesse caso, segundo Monjib, existe um conflito de interesses e suspeitas de abuso de informação privilegiada. Também nesse caso, está envolvida uma empresa pertencente ao primeiro-ministro Akhannouche. Youssef el Hireche, um jornalista independente que publicou artigos sobre este assunto, foi condenado a 18 meses de prisão por «insultar um funcionário público». No final, não teve de cumprir a pena na íntegra, na sequência de um perdão concedido pelo rei.

Para Monjib, a liberdade de expressão e o jornalismo independente são indispensáveis para o desenvolvimento de um Marrocos democrático. No entanto, a sua colaboração, entre 2006 e 2015, com a organização holandesa Press Now, precursora da Free Press Unlimited, colocou-o em conflito com as autoridades. Estas não consideravam os workshops e programas de formação para jornalistas como um reforço dos meios de comunicação (digitais) marroquinos e da democracia, mas sim como espionagem e interferência estrangeira indesejada. Monjib foi acusado de «receber ilegalmente financiamento estrangeiro».

A embaixada holandesa em Rabat manteve-se em silêncio, apesar de o programa mediático ter sido em grande parte financiado pelos Países Baixos. Monjib e outros jornalistas marroquinos acusados de «espionagem» foram deixados à sua sorte. Tal como aconteceu com a França, as boas relações com o regime marroquino prevaleceram para os Países Baixos. Os Países Baixos e Marrocos chegaram mesmo a celebrar um «plano de ação» em 2022, no qual ambos os países concordaram em não interferir nos assuntos internos um do outro. Haia prometeu informar as autoridades marroquinas caso uma ONG neerlandesa pretendesse desenvolver atividades no país.


«O Parlamento Europeu e várias organizações internacionais de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional e a Repórteres Sem Fronteiras, têm chamado repetidamente a atenção para o calvário de Monjib ao longo dos anos. Em vão…»


Apesar de toda a oposição, Monjib continuou a promover o jornalismo independente. Fundou a Freedom Now, uma organização dedicada à liberdade de expressão e ao jornalismo de investigação. Isso custou-lhe inúmeras detenções, contra as quais protestou entrando em greve de fome. «Sou pacifista por natureza», declarou, «e sempre recorri a métodos pacíficos.» Também entrou em greve de fome depois de ter sido impedido de viajar no final de março. Devido à sua saúde debilitada — diabetes e problemas cardíacos —, teve de desistir novamente após pouco tempo, por recomendação médica.

Monjib é um historiador especializado em história contemporânea de Marrocos e de África. Na sequência da proibição de viajar que lhe foi imposta, o que obrigou ao cancelamento de palestras destinadas a estudantes franceses, escreveu no Facebook que não permitirá que a lei lhe imponha condições. «Escrevo a história tal como ela é, não como as autoridades querem que pareça. O meu trabalho nunca se submeterá à narrativa oficial da história marroquina.»

O Parlamento Europeu e várias organizações internacionais de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional e a Repórteres Sem Fronteiras, têm chamado repetidamente a atenção para o calvário de Monjib ao longo dos anos. Em vão… apesar de, no seu caso, estarem a ser pisadas liberdades fundamentais, tais como a liberdade académica, a liberdade de circulação, a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão.


Líder da Frente POLISARIO acusa Espanha de acordo “ilegal” e defende autodeterminação do Sahara Ocidental


Brahim Ghali

O líder da Frente POLISARIO, Brahim Ghali, acusou Espanha de ter firmado um “acordo ilegal” com Marrocos que impediu a autodeterminação do povo saharaui, reiterando a responsabilidade espanhola no processo de descolonização do Sahara Ocidental.

Discursando perante milhares de pessoas no campo de refugiados de Auserd, em Tindouf (no extremo sudoeste da Argélia), no âmbito das comemorações dos 50 anos da República Árabe Saaraui Democrática, Ghali afirmou que a criação da RASD foi “uma resposta urgente” a uma “conspiração colonial” que visou retirar aos saharauis o direito à independência.

O dirigente apontou diretamente ao acordo tripartido assinado em Madrid entre Espanha, Marrocos e Mauritânia, que permitiu a divisão do território após a retirada espanhola em 1975, na sequência da chamada Marcha Verde. Segundo Ghali, esse entendimento abriu caminho à ocupação marroquina, que hoje controla cerca de 80% do território.

Foto Infobae

A questão do Sahara Ocidental mantém-se como um dos conflitos territoriais mais longos por resolver, com a população saharaui dispersa entre territórios controlados por Marrocos, campos de refugiados na Argélia e pela diáspora. O território encontra-se dividido por um muro com mais de 2.700 quilómetros, separando as áreas sob controlo marroquino das zonas administradas pela POLISARIO.

Ghali lembrou que, para a ONU, o Sahara Ocidental continua por descolonizar e sublinhou que a responsabilidade jurídica de Espanha “não prescreve”, apesar de Madrid considerar encerrado o processo desde 1975. Criticou ainda o apoio do Governo espanhol, em 2022, ao plano de autonomia marroquino.




Apesar do tom crítico, o líder saharaui reiterou a disponibilidade para uma solução pacífica, afirmando que o povo saharaui “não será uma fonte de ameaça”, mas sim um parceiro para a paz e cooperação, incluindo com Marrocos.

O dirigente defendeu que a autodeterminação continua a ser a única via para uma solução duradoura e sublinhou que a RASD dispõe hoje de instituições capazes de assegurar a gestão do território, apresentando-se como uma realidade política consolidada, apesar do contexto de ocupação e exílio.

terça-feira, 7 de abril de 2026

A Guerra no Sahara Ocidental: combates abrandam em março

 


As operações militares levadas a cabo pelo Exército de Libertação do Povo Saharaui (ELPS) em março no Sahara Ocidental apontam para uma redução da intensidade dos combates, em comparação com meses anteriores, apesar da continuação de ações ofensivas pontuais.

De acordo com comunicados do Ministério da Defesa da República Árabe Saharaui Democrática, foram registadas três ações militares ao longo do mês.


Ataques concentrados em dois setores

A 4 de março, unidades saharauis realizaram um bombardeamento contra um posto de comando na região de Ichergán, no setor de Guelta, no centro do território.

Já a 10 e 11 de março, as operações intensificaram-se no setor de Hauza, no norte do Sahara Ocidental, com ataques a postos de vigilância, bases e posições entrincheiradas nas zonas de Fadrat Legrab e Agajgal Dirit.

Segundo as mesmas fontes, os bombardeamentos terão provocado danos em infraestruturas militares, embora não tenham sido divulgados números sobre vítimas ou destruição.


Sinais de atenuação dos ataques militares

Apesar destes ataques, a frequência das operações em março foi inferior à registada em períodos anteriores, sugerindo uma atenuação relativa da atividade militar ao longo da linha de confronto (o muro). Este facto pode ser explicado pelas alterações registadas durante o mês nos comandos do ELPS.

O presidente da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) e secretário-geral da Frente Polisario, Brahim Gali, levou a cabo uma importante reorganização nas estruturas militares e governamentais. Estas mudanças, concretizadas através de decretos presidenciais, incluíram a nomeação de novos comandantes na instituição militar do Exército Popular de Libertação do Saara (EPLS) e são interpretadas como uma reconfiguração interna fundamental no contexto do conflito no Sahara Ocidental.
O conflito, que opõe Marrocos à Frente Polisario, mantém-se de baixa intensidade desde a retoma das hostilidades em 2020, após o colapso do cessar-fogo supervisionado pela ONU.
A redução do ritmo de combates não altera, contudo, o impasse político em torno do estatuto do território, considerado pelas Nações Unidas como um território por descolonizar.

As conversações promovidas pela atual administração norte-americana, reunindo as duas partes do conflito, o povo saharaui representado pela Frente POLISARIO, e o Reino de Marrocos, além da Argélia e da Mauritânia, como países vizinhos, não geraram até agora qualquer alteração neste contexto.

No entanto, o Conselho de Segurança da ONU deverá até ao final do mês de abril pronunciar-se sobre a eventual alteração do estatuto e contornos da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo do Sahara Ocidental).

Relatório denuncia aumento de ataques com drones contra civis no Sahara Ocidental

 


Um estudo divulgado pela Oficina Saharaui de Coordinación de Acción contra las Minas (SMACO) documenta um aumento significativo de ataques com drones no Sahara Ocidental entre 2021 e 2025, denunciando um padrão de ataques contra civis e potenciais violações do direito internacional humanitário.

De acordo com o relatório, foram registados 123 ataques entre 2021 e 2024, aos quais se somam seis incidentes adicionais em 2025, que terão causado mais de uma dezena de vítimas civis. O estudo baseia-se em dados de terreno e analisa a evolução das táticas militares, o perfil das vítimas e o impacto humanitário.


Ataques a civis e expansão geográfica

O documento aponta para um padrão sistemático de ataques contra civis, nomeadamente viajantes e atividades económicas vulneráveis, muitas vezes em zonas afastadas das linhas de combate e do muro militar marroquino. Segundo o estudo, esta dispersão geográfica indica que as vítimas não representavam alvos militares.

A utilização de drones é descrita como uma mudança estratégica no conflito, permitindo ataques à distância com “risco zero” para as forças envolvidas.


Impacto humanitário e psicológico

O relatório destaca consequências graves para a população, incluindo deslocações forçadas de civis de zonas como Tifariti, Mehaires ou Bir Lehlu para áreas mais seguras na Argélia e na Mauritânia.

Entre os impactos identificados estão:

  • medo generalizado entre a população

  • ansiedade e trauma psicológico

  • perturbações de stress pós-traumático, depressão e distúrbios do sono


Os drones marroquinos têm obrigado as famílias nómadas saharauis a fugir
para o interior do território da Argélia ou da Mauritânia
(Foto Jean-Baptiste François/Jornal La Croix)


Há ainda relatos de vítimas que permaneceram horas ou dias sem assistência médica devido ao receio de novos ataques.


Questões legais e cooperação militar

O estudo sustenta que muitos dos ataques ocorreram em áreas abertas, onde seria possível distinguir alvos civis de militares, levantando dúvidas sobre o respeito pelos princípios de distinção e proporcionalidade do direito internacional humanitário.

O documento refere também o reforço das capacidades militares de Marrocos, associado à cooperação com Israel, incluindo aquisição, transferência de tecnologia e produção local de drones.


Falta de responsabilização internacional

Apesar da redução do número de ataques em 2025, o relatório considera que o fenómeno permanece estrutural. O estudo denuncia ainda a ausência de resposta internacional eficaz e a fragilidade dos mecanismos de monitorização, fatores que poderão contribuir para a continuidade das alega-das violações.

Entre as recomendações, a SMACO defende o reforço dos mecanismos internacionais de acompanhamento e a abertura de investigações independentes para apurar responsabili-dades.

O relatório alerta que a persistência destes ataques poderá agravar a situação humanitária e comprometer a estabilidade regional.

Relatórios denunciam incidentes graves na final Marrocos-Senegal e levantam dúvidas sobre Mundial 2030

 


A publicação de vários relatórios sobre a final da Taça das Nações Africanas entre Marrocos e Senegal, divulgados pelo jornal Le Monde, expõe alegações de falhas graves de organização, segurança e integridade desportiva, num caso que poderá ter implicações na credibilidade do país como coorganizador do Mundial de 2030.

De acordo com os documentos — que incluem relatórios do árbitro, do comissário do jogo e de responsáveis pela logística e segurança — a final, disputada a 18 de janeiro em Rabat, ficou marcada por episódios de assédio à equipa senegalesa, suspeitas de espionagem, falhas de segurança, confrontos físicos e até casos de alegada intoxicação alimentar de jogadores.


Organização contestada e ambiente hostil

Antes do jogo, a delegação do Senegal denunciou condições logísticas inadequadas, incluindo alterações de alojamento fora das unidades inicialmente aprovadas e a obrigatoriedade de treinar em instalações marroquinas, levantando preocupações sobre confidencialidade e segurança.

À chegada a Rabat, os jogadores terão sido alvo de assédio por adeptos locais, com relatos de falhas na proteção policial. Durante a partida, registaram-se confrontos entre elementos das equipas técnicas e comportamentos considerados impróprios, num ambiente descrito como de elevada tensão.

Um dos relatórios refere ainda que três jogadores senegaleses necessitaram de assistência médica devido a suspeita de intoxicação alimentar, agravando a polémica em torno do encontro.


Resultado contestado e caso em aberto

Apesar de o Senegal ter vencido em campo por 1-0, o jogo ficou marcado pelo abandono da equipa antes do final, sendo posteriormente atribuída vitória administrativa a Marrocos. O caso permanece sob investigação e sem desfecho definitivo.


Sinal de alerta para o Mundial 2030

Os acontecimentos agora revelados surgem num momento sensível, numa altura em que Marrocos se prepara para coorganizar o Campeonato do Mundo de Futebol 2030 com Espanha e Portugal.

As alegações de falhas estruturais na organização de um evento de grande dimensão, bem como dúvidas sobre segurança e imparcialidade, poderão ser interpretadas como um mau presságio para a capacidade de garantir padrões exigidos numa competição global.

Para já, a polémica em torno da final da CAN continua a marcar o debate no futebol africano, com potenciais repercussões que extravasam o plano desportivo e atingem a dimensão institucional e internacional.

sábado, 4 de abril de 2026

Analista afasta guerra entre Marrocos e Argélia, mas alerta para risco de tensão com Espanha


Fuzileiros navais norte-americanos coordenam operações de tiro real com forças militares marroquinas e espanholas antes de se dirigirem para o campo de tiro durante o exercício «African Lion 2018», perto de Tan-Tan (Marrocos), a 19 de abril de 2018. | Exército dos EUA

A rivalidade militar entre Marrocos e Argélia tem vindo a intensificar-se, mas dificilmente evoluirá para um conflito aberto, defende Akram Kharief, diretor do portal especializado MENA Defense, numa entrevista ao jornal espanhol El Independiente.

Segundo o analista, os dois países seguem doutrinas militares distintas e não comparáveis. A Argélia aposta numa estratégia defensiva de dissuasão, preparada para enfrentar uma eventual coligação internacional, com forte investimento em sistemas antiaéreos e capacidade de resposta rápida. Já Marrocos tem vindo a transformar a sua doutrina numa lógica mais ofensiva, com foco no controlo territorial e possível expansão, incluindo no Sahara Ocidental.

Apesar da escalada armamentista, Kharief considera improvável uma guerra direta, sublinhando que ambos os países têm consciência dos elevados custos humanos e materiais de um conflito. A Argélia teria capacidade para infligir danos rápidos a infraestruturas críticas marroquinas, enquanto Marrocos poderia resistir a uma ofensiva terrestre, resultando num cenário de perdas significativas para ambos.


Fragilidades militares e dependências

O especialista aponta fragilidades nos dois lados. A Argélia enfrenta limitações logísticas devido à dimensão do território e à dependência de equipamento russo, enquanto Marrocos apresenta vulnerabilidades mais críticas, como falta de reservas de combustível, munições e meios de defesa aérea, o que compromete a sua capacidade de sustentar um conflito prolongado.


Espanha fora do radar argelino, mas alvo potencial de Marrocos

Um dos pontos mais sensíveis da análise prende-se com o papel de Espanha. Kharief afirma que a Argélia não considera Espanha uma ameaça, mantendo inclusive relações no domínio industrial e militar. Em contraste, sustenta que Marrocos tem vindo a preparar-se, tanto política como militarmente, com foco nos territórios espanhóis próximos, como Ceuta e Melilla.

O analista vai mais longe ao considerar que, em caso de tensão, os Estados Unidos tenderiam a apoiar Marrocos, num alinhamento que descreve como “bipartidário” e estrutural na política externa norte-americana.


O entrevistado, Akram Kharief


Cooperação com Israel e escolhas estratégicas

Kharief critica ainda a crescente cooperação militar entre Marrocos e Israel, considerando que resulta sobretudo de motivações políticas e não de vantagens tecnológicas ou operacionais, defendendo que Rabat teria alternativas mais eficazes junto de parceiros tradicionais como França ou Estados Unidos.


Equilíbrio instável no Magrebe

No conjunto, a entrevista traça um cenário de equilíbrio tenso, mas controlado, no Norte de África, marcado por corrida ao armamento, divergências estratégicas profundas e uma crescente dimensão geopolítica que envolve potências externas.

Embora a guerra direta seja considerada improvável, o analista alerta para riscos de escalada indireta e para o impacto potencial das dinâmicas regionais nas relações com países europeus, em particular Espanha.

ONU: Conselho de Segurança volta a abordar a questão do Sahara Ocidental

 


O Conselho de Segurança da ONU decidiu realizar duas reuniões nos dias 24 e 30 de abril para levar a cabo consultas destinadas a rever a estratégia da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) e os últimos acontecimentos no processo de paz, incluindo as conversações entre as duas partes em conflito — a Frente Polisário e a potência ocupante marroquina — sob os auspícios conjuntos de Washington e das Nações Unidas, bem como as conversações conduzidas pelo enviado da ONU com os países vizinhos, os governos e as organizações internacionais, em conformidade com as recomendações da Resolução n.º 2797, adotada em 31 de outubro de 2025


A dependência energética de Marrocos: reservas de combustíveis para cerca de dois meses em contexto de tensão energética global

 


Marrocos dispõe atualmente de reservas de gasóleo para 51 dias e de gasolina para 55 dias, enquanto os fornecimentos de carvão e gás estão assegurados até ao final de junho, segundo dados do Ministério da Energia citados pela Reuters.

A informação surge num contexto de forte volatilidade nos mercados energéticos internacionais, agravada pela guerra no Médio Oriente, que provocou uma subida acentuada dos preços do petróleo em março.

País fortemente dependente de importações, Marrocos enfrenta uma vulnerabilidade estrutural: não dispõe de capacidade de refinação doméstica desde o encerramento da refinaria de Samir, em 2015. O fecho tornou Marrocos totalmente dependente da importação de produtos petrolíferos refinados, já que também uma refinaria mais pequena situada em Sidi Kacem, também foi desativada e convertida num centro de armazenamento.

Esta situação obriga o país a importar produtos refinados, expondo-o diretamente às oscilações dos mercados internacionais.


Estratégia de diversificação energética

Apesar dessa dependência, o Governo marroquino tem apostado na diversificação do seu mix energético, nomeadamente através do desenvolvimento de energias renováveis, como a solar e a eólica, com projetos de grande escala como o complexo solar de Ouarzazate e de outros, os mais relevantes em território do Sahara Ocidental ocupado.

O orçamento do Estado para 2026 foi elaborado com base numa previsão de preço médio do petróleo de 60 dólares por barril, um valor que poderá ser pressionado em alta caso se prolonguem as tensões geopolíticas.


Exposição ao choque externo

A atual crise evidencia a fragilidade de economias dependentes de importações energéticas. O aumento dos preços internacionais tem impacto direto nos custos de transporte, produção e bens essenciais, com potenciais efeitos inflacionistas.

Num cenário de instabilidade prolongada, a capacidade de Marrocos para garantir abastecimento e controlar os custos energéticos continuará a ser um dos principais desafios económicos no curto prazo.
Fonte: Reuters.

Empresa canadiana avança com exploração de lítio no Sahara Ocidental à margem da legalidade internacional

 


A empresa canadiana Lithium Africa Resources está a desenvolver trabalhos preliminares de exploração de lítio numa área de 585 km² em Tichla, no Sahara Ocidental, território cuja soberania permanece por resolver à luz do direito internacional e que é ocupado por Marrocos.

Segundo informação divulgada pela própria empresa, foram concluídas no segundo trimestre de 2025 campanhas de cartografia geológica e amostragem de superfície, consideradas uma fase inicial antes de eventuais perfurações. O projeto não apresenta, para já, qualquer estimativa de recursos ou avaliação certificada de reservas.

A iniciativa é desenvolvida em parceria com o Office national des hydrocarbures et des mines (ONHYM), entidade marroquina, que assegura o enquadramento administrativo do projeto. No entanto, não foram divulgados os termos financeiros nem os mecanismos de autorização associados.


Carl Esprey, diretor-geral da empresa canadiana da Lithium Africa Resources Corp e Amina Benkhadra, diretora-geral da marroquina ONHYM assinam o acordo para exploração do lítio saharaui


Questões de legalidade internacional

A exploração de recursos naturais no Sahara Ocidental levanta questões jurídicas sensíveis, uma vez que o território é considerado pelas Nações Unidas como não autónomo, pendente de um processo de autodeterminação. Diversos pareceres jurídicos internacionais sublinham que qualquer atividade económica na região deve respeitar a vontade e os interesses do povo saharaui.
Neste contexto, projetos de exploração promovidos sob a égide de autoridades marroquinas têm sido alvo de contestação, por configurar
em a exploração de recursos naturais sem o consentimento do povo do território.


Estratégia e incerteza

Apesar da ausência de dados concretos sobre reservas, a Lithium Africa Resources enquadra o projeto numa estratégia de expansão em África, apostando em regiões ainda pouco exploradas. A empresa aponta também para uma eventual integração futura em cadeias de valor do lítio direcionadas para os mercados europeu e norte-americano, embora sem apresentar investimentos ou capacidades industriais detalhadas.

O avanço ocorre num cenário em que África representa apenas cerca de 7% dos investimentos globais em exploração de lítio, mantendo-se marginal face às principais regiões produtoras.
Para já, o projeto permanece numa fase embrionária. No entanto, a sua evolução poderá intensificar o debate sobre a legalidade e legitimidade da exploração de recursos naturais no Sa
hara Ocidental, frequentemente descrito como a última colónia de África.