terça-feira, 17 de julho de 2012


MEMÓRIAS DA GUERRA DO SAHARA OCIDENTAL CONTRA O EXÉRCITO DE OCUPAÇÃO MARROQUINO.

Marrocos perdeu um batalhão e quatrocentas toneladas de armamento na batalha de Mahbes


Crónicas de imprensa sobre os 16 anos de guerra no Sahara Ocidental contra a ocupação militar marroquina. Alguns meios, nas suas salas de redação ou nas suas elaborações teóricas, afirmam que se tratou de “uma guerra de baixa intensidade”. Demos a palavra aos que a viveram no palco de operações, repórteres de guerra em muitos conflitos armados, analistas e estrategas militares. Arquivos do diário espanhol com maior circulação em Espanha, El País, distribuído nos últimos anos em Marrocos.

Marrocos perdeu um batalhão e quatrocentas toneladas de armamento na batalha de Mahbes - Uma das mais importantes vitórias da Polisario

Às seis da manhã de domingo, 14 de outubro, os 1.200 homens que integravam o XIV batalhão RIM de Infantaria das Forças Armadas marroquinas, estacionadas em Mahbes desde há quatro anos, são sacudidos no seu sono, ou no interior das trincheiras, por uma poderosa salva de disparos de diversos calibres. Com o seu proverbial conhecimento do terreno, a Polisario, conseguira fazer aproximar os seus Land Rover à distância de um tiro espingarda. Os defensores da primeira linha foram ceifados em poucos minutos.
Os seus corpos, crivados de balas, alguns em avançado estado de decomposição, encontravam-se ainda no mesmo lugar onde tombaram nove dias depois do confronto.

Um pequeno grupo de jornalistas, integrado pelos correspondentes da imprensa ocidental acreditados na capital argelina, puderam vaguear por esse espaço durante várias horas na localidade devastada, onde unicamente emerge, quase intacto, o antigo forte do Tercio (tropas coloniais espanholas). Foi nesse lugar que procuraram refugiar-se os efetivos do batalhão marroquino quando viram impedida a sua fuga. Os combatentes saharauis limparam por completo todas as linhas de defesa em seis horas; quatro horas mais bastaram para terminar com toda a resistência no perímetro de Mahbes. A jornada do dia 15 seria dedicada a inspecionar as imediações à procura de quem poderá ter fugido. Alguns militares marroquinos chegaram a caminhar pelo deserto cerca de setenta quilómetros antes de serem capturados, e é de supor que vários tenham conseguido pôr-se a salvo junto da guarnição de Zag (sul de Marrocos).
Mahbes é uma localidade de morte e desolação quando a visitámos. A reduzida escolta que nos acompanha – meia dúzia de saharauis, armados unicamente de armas automáticas Kalasnikov – revela o inusitado desdém que manifesta a Polisario ante a eventualidade de um intento marroquino em recuperar a praça-forte. Essa hipótese parece ser descartada pela Frente que, no entanto, controla ferreamente todas as Imediações e se é certo que optou por não se instalar na própria localidade, isso obedece à constatação de que, se o fizesse, constituiria um alvo demasiado fácil para os aviões F-5 e Mirage F-1 marroquinos, que vieram bombardear o local.
Contamos 132 cadáveres marroquinos; mais de metades jazem amontoados no fundo das trincheiras; outros estão dispersos por toda a localidade. Entre a última linha de defesa e o centro de Mahbes tropeçamos com uma dúzia de homens mortos, cujos rostos, podem ainda ser reconhecidos, denotando a juventude que possuíam e que lhes foi arrebatada em minutos.
O espetáculo é aterrador, e o fedor que emana dos corpos, terrível. Um dos jornalistas não resiste a tudo aquilo e vomita.
 Os homens do XIV batalhão da Infantaria Real Marroquina estavam desmoralizados. Esta é a impressão retirada do conteúdo de muitas notas pessoais que escreveram e que foram recuperadas pela Polisario. Os jornalistas puderam ler também cerca de uma centena de documentos, todos eles com a chancela de “secreto” ou “muito secreto”, enviados pelo chefe da posição militar, o coronel Mohamed Chamsseddin, para a chefia do Estado Maior, o Estado Maior General das FAR, o Estado Maior Avançado de El Aaiún e outras departamentos oficiais.

Drogas, homosexualidade e deserções
Num desses documentos, datado de Rabat e enviado pelo Estado Mayor, adverte-se a guarnição do recrudescimento do tráfico e consumo de drogas entre as forças marroquinas instaladas no Sahara Ocidental. À margem do mesmo há uma anotação onde se lê: «um dos mais graves, o do Cabo Mohamed Bukhari, que foi descoberto quando fotografa um grupo de soldados que fazem comércio de kif com alguns membros da 2. RIM º ... ". Várias notas de serviços referem-se a deserções. Uma delas, assinado em Mahbes, a 27 de março de 1979, pelo sargento Ali Hadir, refere-se ao "desaparecimento" do soldado de segunda classe El Jonssi ", que abandonou o seu posto de vigilância ao depósito de munições."

Soldado marroquino nas trincheiras:
a espera, o calor, a desmotivação...
Um dos documentos capturados pela Polisario é a cópia de uma mensagem, recebida em Mahbes a 17 de julho de 1979, enviado pelo Estado-maior, particularmente significativa do estado de ânimo em que se encontrava a alta oficialidade em vésperas da cimeira africana de Monróvia. Diz o texto: «Sabemos que, aproveitando-se da presença de Sua Majestade o Rei na cimeira da OUA, os rebeldes decidiram intensificar os seus ataques a localidades que, por serem conhecidas, podem suscitar um interesse internacional. Os objetivos especialmente assinalados são Tan-Tan, Tarfaya, Laayun e todas as localidades a norte de Uarkziz. »
Pelas descrição das circunstâncias do ataque, relatadas por meia centena de prisioneiros marroquinos  que connosco falaram antes da visita a Mahbes, é possível deduzir que a Polisario dispunha de uma importante concentração de forças, possivelmente da ordem de 2.000 a 3.000 homens.

Um potente armamento
No que diz respeito ao armamento, os próprios prisioneiros reconhecem que a guarnição tinha-o de sobra e era superior ao utilizado pelos atacantes. A guarnição contava com um esquadrão de carros blindados, integrado por oito AMX (apenas quatro deles estavam na localidade no momento do ataque), um esquadrão de artilharia pesada e um grupo especial de apoio composto por baterias de mísseis terra-terra, dos tipos TOW, fabricados pela firma norte americana Hughes, e SAM-9, de fabrico soviético.
Ao atacar e ocupar Mahbes, a Polisario queria demonstrar a ineficácia da aviação marroquina, já que o terreno sobre o qual se encontrava a guarnição - totalmente plano - facilita a eventual intervenção da força aérea. Mas nem os Mirage nem os F-5 puderam alterar o curso dos acontecimentos. Mahbes caiu no espaço de um só dia, embora combates esporádicos tivessem continuado, em alguns setores, durante mais de 36 horas. O coronel Chamsseddin não se encontrava no local; o seu adjunto, o capitão Mohamed Sakka, depois de se ter convencido de que não obteria os reforços que havia pedido a Zag, fugiria, junto com outros oficiais, num dos carros blindados.
Mais de quatrocentas toneladas de armamentos diversos, entre os quais, completamente intacto, um míssil norte-americano TOW e o seu sistema completo de tiro, foram recuperados pela Polisario. Mahbes tinha para os saharauis um valor simbólico. Nesta localidade não só se radicara em tempos passados um grande destacamento das forças nómadas, mas também foi ali que se instalou o embrião da primeira administração saharaui e se constituiu o Conselho Nacional Saharaui, integrado por uma maioria de membros da antiga Yemaa (parlamento indígena no tempo colonial espanhol). As forças marroquinas tinham concluído em Mahbes a ocupação de todo o Seguiet el Hamra (região norte do Sahara Ocidental).
A localidade constitui uma importante peça do eixo Tinduf-Smara e a sua perda converte toda a zona sul do próprio território marroquino num lugar ainda mais inseguro que no passado. Muito poucos pontos de resistência restam a Marrocos na parte norte do Sahara Ocidental. Com exceção do triângulo Aaiún-Bu-Craa-Smara, existem apenas guarnições localizadas em Bojador, Guelta-Zemur e Bir-Enzaram. Todo o noreste da zona é controlado pela Polisario.
Os saharauis dão provas de grande desprezo àquilo que consideramos normas elementares de segurança, mas que, no seu caso, não têm nenhum significado. A guerra do Sahara passou já, de forma clara, a uma fase muito diferente da tradicional guerra de guerrilhas. Os seus objetivos são o ataque e conquista de grandes guarnições, e o número das que vão restando a Marrocos vai-se reduzindo rapidamente.

MANUEL OSTOS Argel 28 outubro de 1979

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