terça-feira, 1 de novembro de 2016

As manobras de Felipe González contra o Sahara Ocidental


O diplomata saharaui Hach Ahmed com Rigoberta Menchú, activista guatemalteca dos DDHH e Prémio Nóbel da Paz 


O diplomata saharaui Hach Ahmed, (durante muitos anos responsável político da Frente Polisario em Espanha)  explica como o ex-presidente socialista passou de aliado da causa saharaui a um dos principais lobbistas do rei de Marrocos.

Mohamed VI, o quinto homem mais rico de África segundo a Forbes, sabe que o dinheiro é um recurso eficaz – e abundante no seu caso – para consolidar amizades e seduzir vontades em todo o mundo. Em 2015 dois jornalistas franceses sentaram-se perante os tribunais do seu país depois de terem aceitado presentes milionários da casa real marroquina a troco de não publicarem várias informações. Esta semana a imprensa fez-se eco dos emails que mostram como o rei de Marrocos concedeu 11 milhões de euros a Hillary Clinton apenas uns meses antes do início da campanha eleitoral nos EUA.
Hach Ahmed passou grande parte da sua vida apoiando-se no diálogo político e na legislação internacional para enfrentar a influente generosidade financeira da monarquia alauita e o poder dos seus amigos, particularmente o ex-presidente Felipe González. Durante várias décadas, este veterano diplomata saharaui esteve sedeado em Espanha e em vários países da América Latina, ocupando alguns cargos da maior responsabilidade no seio da Frente Polisario, ainda que tivesse abandonado a organização em finais de 2015 por desavenças com a gestão dos seus dirigentes -“Estou em período de reflexão, à espera de tempos melhores”- afirma Hach Ahmed, saharaui de gestos seguros, memória de elefante d verbo conciso, revela detalhes importantes desses anos.

Como recorda Felipe González quando este apoiava a causa saharaui antes de ser presidente?

Felipe González atraía qualquer jovem saharaui na década de 70. A primeira vez que me interessei por ele era ainda muito jovem e trabalhava nos meios de comunicação da Polisario, na rádio nacional. Nessa altura o ministro da Informação encarregou-me de fazer uma reportagem sobre o processo saharaui dando partucular relevo às relações com Espanha. Comecei a vasculhar no arquivo, cassetes, velhos documentos dla época espanhola… E uma noite, já de madrugada, encontrei uma gravação. A voz era-me muitofamiliar, mas a gravação não tinha título. Ouvia-a várias vezes até que me dei conta que era Felipe González e o seu famoso discurso nos acampamentos de refugiados [na qualidade de secretario-geral do PSOE, Felipe González pronunciou um discurso no dia 14 de Novembro de 1975 nos acampamentos de Tindouf para denunciar “uma má colonização e uma pior descolonização” ao mesmo tempo que apoiava o referendo de autodeterminação “Até à vitória final”]. Era um documento inédito e não havia imagens filmadas daquela visita, apenas fotografias. Guardei-o para a minha reportagem, que veio a ser emitida quando ele acabava de tomar o poder. Até então havia 2flirts” do PSOE com a Polisario, mas quando Felipe González se instalou no poder, o Sahara, para ele, deixou de ser um tema central e passou a ser um tema marginal.

Como se deu essa mudança de postura de Felipe González?

Com o tempo fomos vendo com a experiência que nem tudo o que se diz se cumpre. Aquelas frases de Felipe González continuam a ter eco na população saharaui pela força que tinham, e nesse tempo pensámos que a nossa sorte estaria vinculada ao êxito do PSOE. Imagine-se: não só não se cumpriram as promessas como a conduta foi diametralmente oposta ao ponto de González se ter convertido num embaixador ao serviço de Marrocos, ativista 24 horas para defender o projeto marroquino no Sahara Ocidental.



Há algum indício de Marrocos ter seduzido ou chantageado Felipe González para precipitar essa mudança?

Inicialmente a estratégia de Marrocos foi a da chantagem, e teve êxito. Marrocos é um país vizinho incómodo e inevitável porque está a 14 quilómetros, e isso situa a Espanha numa posição muito distinta da que teve, por exemplo, Portugal com Timor-Leste. Além disso, o emaranhado de interesses comuns entre Espanha e Marrocos é de tal envergadura que a teia-de-aranha da chantagem, inevitavelmente, tinha que envolver a política exterior espanhola neste tema, particularmente a do partido socialista. Recordemos que o êxito do PSOE após o franquismo foi uma surpresa para muitas capitais do mundo. Marrocos era aliado dos EUA de velha data, uma base fundamental para essa potência, e ter uma relação amistosa com semelhante aliado no norte de África era uma forma de aproximação aos Estados Unidos do influente Kissinger, uma forma de lançar uma mensagem de acalmia. Isso pesou não só na postura de Felipe González, como do Estado espanhol, ainda que González fosse o seu principal executor.
A isso há que somar as mudanças doutrinárias do PSOE, que deixou de ser marxista, depois do referendo para entrar na OTAN… A sua prioridade era calmar certas capitais, e aí Hassan II, velha raposa da política, aproveitou para proteger como mediador e amortecedor das inquietações que pesavam sobre um país europeu governado por um partido progressista que falava contra a OTAN. Isto, a nível general. No plano bilateral os cimentos da chantagem eram enormes, começando por Ceuta e Melilha. Se há documentos em que há que esgrimir para legitimar a invasão do Sahara por Marrocos, são os dos acordos tripartidos de 1975. O próprio Gonzalez condenou os Acordos de Madrid, que descreveu como um ato de traição e disse que a Espanha mais nobre representado pelo PSOE nunca os iria aceitar. Ao assumir como seus esses documentos, Felipe González fez um favor inestimável à monarquia marroquina.

Como seu deu essa mudança de reação entre a Polisario e o Governo presidido por Felipe González?

Em 1985 assumi o cargo de chefia da delegação da Polisario em Espanha, logo depois de uns confrontos entre um barco pesqueiro e um patrulha da Marinha espanhola em águas do Sahara Ocidental em virtude dos acordos firmados entre Espanha e Marrocos sobre o banco de pesca sahariano, um compromisso que depois a ONU declarou ilegal. Na sequência desse incidente, Felipe González ordenou o encerramento das delegações que a Polisario tinha em Madrid, expulsou os membros da Polisario da capital e as relações com o Governo espanhol voltaram ao ponto zero.

Como ocorreu esse episódio exatamente?

Num determinado momento uma unidade saharaui que operava nas águas do Sahara apresou um barco de pesca espanhol que estava perto das costas do Sahara e deteve os pescadores. Ato contínuo Madrid deu instruções ao barco-patrulha Tagomago que estava nas Canárias para intervir na zona de guerra e deu-se uma troca de tiros entre o barco-patrulha e as forças saharauis, tendo falecido um suboficial da Marinha espanhola. Na sequência disso, Felipe González decidiu fechar as delegações e expulsar-nos de Madrid sem ter em conta que quem tinha originado o incidente fora precisamente ele, que firmou os acordos ilegais com uma potência ocupante sobre águas ilegais que não lhe pertencem, e logo enviou um vaso de guerra para uma zona de guerra sem que tenha declarado  guerra, o que obviamente é um ato, no mínimo, temerário. O certo é que era uma desculpa para justificar a linha de comportamento que tinha o Governo de Felipe González na época e isso caiu-lhe como uma luva...
Nesta fase de grande tensão assumi as relações com Espanha primeiro a partir da Argélia e depois a partir de Portugal, e nesse momento, em 1986 tive contactos com representantes do Governo espanhol, sobretudo do Ministério de Negócios Estrangeiros. Ao cabo de um par de anos negociando a normalização de relações em reuniões secretas em Londres e Roma, finalmente foi permitida a reabertura das delegações da Polisario em 1989. Nessas negociações participaram, entre outros, Miguel Ángel Moratinos, Jorge Dezcállar  e altos cargos do CESID [actual CNI – Serviços de Informações] mas quem desempenhou um papel  nobre e honesto em todo o processo foi o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros (Francisco Fernández) Ordóñez, que em paz descanse, por quem pessoalmente tenho um grande respeito.

Felipe Gonzalez sempre mexeu os cordelinhos do PSOE desde que alegamente abandonou o poder...


Como encararam o facto de Felipe González nem o PSOE já não serem vossos aliados?

Marcou-me muito ver como esse partido, que era praticamente uma base de retaguarda da Polisario, foi mudando e invertendo as coisas até a um momento em que praticamente nos viam como leprosos com o fito de contentar a qualquer preço os caprichos de Marrocos sob o sacrossanto interesse de conservar Ceuta e Melilla e, posteriormente, de evitar o fluxo migratório, uma válvula que Marrocos abre em função do seu nível de satisfação quanto às posturas de Espanha, tanto nas Nações Unidas como na União Europeia. Estes elementos de chantagem não se alteraram, ainda que agora haja um elemento novo: a colaboração antiterrorista, um «naco» que se põe ao alcance dos países europeus em função do nível de compromisso que têm na defesa da ocupação do Sahara Ocidental por parte de Marrocos. O papel de Felipe González tem sido determinante: foi ele o primeiro a abrir a porta à venda de armas a Marrocos num momento em que as leis espanholas proibiam a venda de armas a países em guerra. Encontraram todos os argumentos para fazer chegar armas espanholas ao exército marroquino. A nossa gente caiu vítima de balas feitas pela Río Tinto, de canhões fabricados em Eibar, e essa foi a ferida mais dolorosa que podíamos ter esperado da política espanhola. As pedras que mais doem são aquelas que são lançadas por um amigo. Espanha poderia ter evitado cravar esse espinho depois da punhalada do acordo tripartido de Madrid.

Os socialistas marroquinos foram artífices da independência de Marrocos. Que relação tinha a Polisario com esse partido nos anos 80?

Em geral com partidos marroquinos nunca houve relações. Há que entender que Marrocos é uma monarquia que continua a acumular todos os poderes não obstantes as operações de cosmética de alegada separação de poderes e a presença de partidos.

Coloco-lhe a questão porque Felipe González manteve um discurso relativamente revolucionário antes de ser presidente de Governo mas não apoiou os socialistas marroquinos quando Hassan II começou a reprimi-los…

Não é de estranhar. Felipe González está consciente de que em Marrocos ontem, hoje e talvez amanhã o rei continuará a ter o poder absoluto. O resto são elementos de decorativos.

O que sabe sobre as iniciativas de Felipe González com os poderosos da América Latina?

Exerci o cargo de ministro para América Latina de 1997 a 2006. Não há uma só capital em que não ma tenha deparado com as pegadas de Felipe González defendendo os interesses de Marrocos. Tenho factos concretos: em finais de 1999 estive vários meses trabalhando no Chile com a coligação de partidos no poder, la Concertación, do presidente Eduardo Frei. Trabalhámos para estabelecer relações diplomáticas entre a República Saharaui (RASD) e o Chile. Houve várias tomadas de posição no Parlamento e gerámos as condições para que p Governo de Frei reconhecesse a RASD. Recordo aquele dia 30 de Novembro de 1999. Conseguimos que o Governo tomasse a decisão e reuni-me com o ministro de Negócios Estrangeiros Juan Gabriel Valdés, que me entregou uma carta para o nosso ministro de relações exteriores, um documento público, onde se dizia que Chile tinha decidido reconhecer a RASD. Ao mesmo tempo o ministro mandou uma carta informando o Parlamento dessa decisão. Fiquei um dia mais para concretizar a assinatura do documento e eles disseram que a assinatura teria lugar em Nova Iorque; informámos a nossa representação nessa cidade e fixámos a data da assinatura dois dias depois. Pois bem, 24 horas antes da cerimónia de assinatura, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Chile informou-nos que o ato seria suspenso uns dias. Disseram que estavam à espera de uma delegação marroquina que queria que a informassem diretamente. Dá-se a casualidade de que quem chamou o presidente Frei para propor essa iniciativa foi Felipe González.

Que disse Felipe González a Frei?

Disse-lhe que era um gesto que podia antagonizar os marroquinos, que o Reino de Marrocos é um grande aliado de Espanha e por conseguinte a decisão chilena era prejudicial aos interesses espanhóis, e que refletisse maduramente … O importante é que interveio, e isso foi-me revelado por altos funcionários do MNE chileno. Junto com Felipe González também interveio posteriormente o então presidente de Argentina, (Carlos) Menem. Um presidente colombiano disse-me pessoalmente que Felipe González o havia chamado em várias ocasiões para procurar convencê-lo a que retirassem o seu reconhecimento à República Saharaui.

Que presidente?

Era um presidente conservador. Prefiro não revelar o seu nome. Mas disse-me que o que mais o incomodara foram os telefonemas de Felipe González.
Como justificava Felipe González esse tipo de ingerências junto de presidentes estrangeiros?

Ele apresenta-se como perito na região, e a partir desse estatuto intervém a favor dos interesses de Marrocos. Geralmente as suas ações são muito discretas. Age com gente que lhe é muito próxima… No Chile, por exemplo, tem amizade íntima com o antigo deputado socialista Correa, atualmente um dos grandes homens de negócios desse país e um dos que mais influência exerceu entre os socialistas chilenos contra os saharauis. Não sei se era casualidade, mas soubemos que Felipe González praticamente dia sim dia não em Tânger. No mínimo é de suspeitar que o alegado representante dos mais desfavorecidos tenha palácios numa monarquia feudal que ele mesmo como um exemplo das mais perversas e reacionárias, segundo as suas próprias palavras

Conheceu pessoalmente Felipe González?

Sim.

Que sensação lhe causou?

Estive num encontro entre o presidente saharaui, Mohamed Abdelaziz, que em paz descanse, e ele no Palácio da la Moncloa, em 1992. Éramos os três unicamente, ele veio sem nenhum assessor. Muita cordialidade. Primeiro deu-nos uma lição sobre a sua paixão pelos bonsais. Apesar dos pesares, ele sempre fazia un esforço para nos vender uma suposta simpatia para com os saharauis, ainda que no fundo a sua mensagem fosse e seja a mesma que a dos marroquinos. A reunião terminou numa espécie de tensão, Felipe argumentava que o rei de Marrocos havia mobilizado o seu povo em torno da questão do Sahara e não via fácil a sua saída. Abdelaziz replicou que pelo tinha havido uma longa e crual guerra, que a ONU, com o apoio espanhol, acabava de propor um referendo de autodeterminação, insinuando-lhe que, como presidente do Governo espanhol, por razões de coerência, deveria exercer a sua influência a favor da legalidade internacional em lugar de apoiar os sonhos imperiais de Hassan II.

Recorde-nos outros episódios em tenha vislumbrado a ação e a sombra de Felipe González?

Um facto que me chama a atenção é quando de reprente o ex-presidente do Governo Zapatero se apresenta nas zonas ocupadas do Sahara para assistir a um congresso marroquino em Dakhla. Tendo o Governo espanhol inclusive o considerado negativo. Duvido que Zapatero o tenha feito sem a influência de Felipe González. Na verdade, isto deixou um estigma na memória do povo saharaui porque não havia nem razões de Estado ou de governo para isso.


Sem comentários:

Publicar um comentário