Em Marrocos, o narcotráfico está longe de ser apenas um problema de criminalidade. Ao longo de décadas, transformou-se num factor económico estrutural, tolerado e mesmo controlado pelo Estado, com impactos diretos na segurança e na estabilidade dos países europeus — incluindo Portugal.
A produção de haxixe em regiões empobrecidas como o Rif não é marginal nem residual. Trata-se de uma economia à escala industrial, impossível de manter sem complacência institucional. Quando uma atividade ilegal persiste durante décadas, com dimensão, logística e continuidade, deixa de ser um “desvio” e passa a integrar uma estratégia económica paralela.
Mas Marrocos não é apenas o maior produtor mundial de haxixe. Tornou-se também um nó logístico central do narcotráfico internacional. À resina de cannabis junta-se a cocaína proveniente da África Ocidental e das rotas saharianas ou mesmo diretamente da América Latina, concentrada, armazenada e redistribuída a partir do território marroquino para a Europa. O que começa no sul acaba inevitavelmente no espaço europeu.
Os
métodos usados revelam um nível de sofisticação incompatível com
o pequeno contrabando: narcolanchas de alta velocidade, rotas
terrestres organizadas, uso de helicópteros para atravessar o
Estreito e até túneis descobertos entre Marrocos e Ceuta. Estas
operações exigem infraestruturas, financiamento, pilotos, hangares
e zonas seguras — sinais claros de planeamento técnico e
capacidade instalada.
O custo desta realidade é suportado
sobretudo pelos países de destino e trânsito. Espanha assume o peso
da vigilância, da repressão policial, do sistema judicial, das
prisões e da violência associada ao tráfico. Os lucros permanecem
a sul; os problemas explodem a norte. Portugal, enquanto fronteira
atlântica e ponto de redistribuição, não está imune a esta
pressão crescente.
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| As apreensões de «lanchas voadoras» e fardos de haxixe tornou-se uma rotina crescente para as forças policiais e militarizadas ao longo da costa portuguesa |
A investigação policial europeia tem identificado, inclusive, reuniões de coordenação de grandes redes de narcotráfico realizadas em Marrocos, onde são planeadas operações que depois se materializam em vários países da União Europeia. A violência mais extrema manifesta-se no continente europeu, com assassínios, atentados e intimidação de jornalistas, advogados e testemunhas, como se tem assitido no norte da Europa.
O
dinheiro gerado por estas economias ilícitas não serve apenas para
enriquecer criminosos. Funciona como liquidez opaca, sem controlo nem
escrutínio, capaz de financiar redes de influência, lóbis e
estratégias diplomáticas agressivas. Parte do poder financeiro
marroquino assenta, segundo vários analistas, em economias paralelas
que beneficiam de tolerância estatal, entre as quais o
narcotráfico.
Para Portugal, o alerta é claro. O que hoje se
observa em zonas sensíveis do sul da Península Ibérica antecipa
fenómenos que tendem a alastrar. O narcotráfico não é apenas um
desafio policial: é uma questão estratégica, com implicações
geopolíticas, de segurança interna e de soberania.
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| Não são os pobres agricultores do Rif, em Marrocos, quem beneficia do cultivo e tráfico do haxixe... |
Ao longo dos últimos anos, Portugal tem vindo a registar crescimentos contínuos nas apreensões de drogas ilícitas, incluindo aquelas que normalmente entram em rotas de tráfico internacionais, como cocaína e haxixe.
Em
2024 foram registadas cerca de 8.960 apreensões de drogas ilícitas
em Portugal, abrangendo apreensões contabilizadas em peso e em
unidades, segundo dados da Polícia Judiciária. Segundo uma
reportagem do JN,
Portugal apreendeu cerca de 23 toneladas de
cocaína em 2024, a maior quantidade em quase duas décadas. O DN,
por sua vez, noticiava que nesse período foram detidas 1.553 pessoas
associadas ao tráfico de cocaína e 3.259 pessoas relacionadas com o
tráfico de canábis (incluindo haxixe). Também foram confiscados
mais de 4,2 milhões de euros e 369 veículos, incluindo
embarcações...
Enquanto este fenómeno continuar a ser tratado apenas como criminalidade comum, os países europeus limitar-se-ão a gerir consequências. O problema, porém, mantém-se na origem. Ignorá-lo não é prudência diplomática — é um risco crescente para a estabilidade e a segurança de toda a região. (texto baseado em fontes da imprensa e relatórios policiais).





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