A crescente tensão política entre Marrocos e Argélia está a deixar uma marca visível na Taça das Nações Africanas (CAN), que decorre em solo marroquino. Ataques informáticos, detenções de adeptos argelinos, polémicas de arbitragem e queixas formais junto das instâncias do futebol africano estão a agravar um clima já de si explosivo, relata o jornalista Ignacio Cembrero, no El Confidencial.
Segundo o jornal espanhol, hackers que se apresentam como argelinos divulgaram, num canal de Telegram denominado Jabaroot, documentos sensíveis de cidadãos marroquinos, incluindo passaportes de jogadores da seleção nacional e dados pessoais de magistrados e funcionários da justiça. As fugas de informação surgiram após a detenção, em Rabat, de um adepto argelino de 23 anos, Raouf Belkacemi, acusado pelas autoridades marroquinas de ofensa à moral pública durante um jogo da CAN.
Os autores do ataque informático exigiram a libertação do jovem e um pedido formal de desculpas, ameaçando com novas divulgações — ameaças que, segundo o El Confidencial, começaram já a concretizar-se. O episódio é descrito como o mais grave incidente paralelo à CAN, o maior evento desportivo organizado por Marrocos em décadas.
O ambiente de crispação estendeu-se também aos relvados. O jogo dos quartos de final entre Argélia e Nigéria ficou marcado por confrontos entre jogadores argelinos e o árbitro senegalês Issa Sy, obrigando à sua saída do estádio sob escolta policial. A Federação Argelina de Futebol apresentou queixa formal à Confederação Africana de Futebol (CAF) e à FIFA, alegando arbitragens lesivas e tratamento discriminatório dos seus jogadores.
Outros encontros envolvendo Marrocos — nomeadamente frente aos Camarões e à Nigéria — suscitaram igualmente críticas e suspeitas de favorecimento arbitral, alimentando a polémica na imprensa africana e europeia. A CAF anunciou a abertura de uma investigação disciplinar a comportamentos considerados “inaceitáveis”, embora sem referência direta à arbitragem.
A poucos dias da final, disputada entre Marrocos e Senegal, também a federação senegalesa apresentou queixa, recusando treinar nas instalações do Complexo Mohamed VI, por considerar que estas favoreciam a equipa anfitriã.
De acordo com o El Confidencial, estes episódios desportivos refletem um conflito político mais profundo entre Rabat e Argel, deteriorado desde 2022, e surgem num contexto em que Marrocos investe fortemente no desporto como instrumento de projeção internacional. A CAN surge, assim, como antecâmara do Mundial de 2030, que o país organizará em conjunto com Espanha e Portugal, num investimento global estimado entre 13 e 14 mil milhões de euros.

Sem comentários:
Enviar um comentário