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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Caso Pegasus volta a ensombrar aproximação entre França e Marrocos - Primeiro-ministro francês também foi espiado!

 


Novas revelações sobre a alegada utilização do programa espião Pegasus pelos serviços de informação marroquinos voltaram a colocar sob pressão a relação entre Paris e Rabat, numa altura em que o Governo francês reafirma o seu apoio à posição de Marrocos sobre o Sahara Ocidental.

Segundo um artigo de Ali Attar, publicado a 17 de julho de 2026, no AFRIK.COM as novas informações foram divulgadas pela organização Forbidden Stories e por um consórcio de 14 órgãos de comunicação internacionais. A investigação sustenta que o Pegasus terá sido utilizado pelos serviços marroquinos contra jornalistas, opositores, defensores dos direitos humanos e responsáveis políticos estrangeiros.

Entre os alegados alvos encontra-se o atual primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, que, precisamente no dia anterior à publicação da investigação, reafirmou em Rabat o apoio “inabalável” de França à soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental.

A investigação baseia-se no testemunho de um antigo agente da Direção-Geral da Vigilância do Território de Marrocos, identificado pelo pseudónimo “Safir”, em documentação de um processo judicial nos Estados Unidos, em dados técnicos e em relatórios dos serviços secretos franceses. Outros dois antigos agentes marroquinos terão confirmado parte das informações.

Documentos internos da empresa israelita NSO Group, criadora do Pegasus, fazem ainda referência a um cliente com o nome de código “Morgan”, que várias fontes da empresa associam a Marrocos. As autoridades marroquinas e a NSO Group não responderam aos pedidos de esclarecimento do consórcio jornalístico.


Sete telemóveis de governantes franceses com sinais de intrusão

O caso assume particular gravidade em França. Em 2021, o número de Emmanuel Macron e os de 15 membros do Governo francês surgiram numa lista de potenciais alvos atribuída ao operador marroquino do Pegasus.

Embora os resultados da análise ao telemóvel do Presidente francês nunca tenham sido tornados públicos, a Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação francesa terá identificado “vestígios de comprometimento” em sete equipamentos pertencentes a ministros ou antigos ministros.

Entre os governantes referidos encontram-se Florence Parly, Jean-Michel Blanquer, François de Rugy e Sébastien Lecornu. Os indicadores técnicos detetados seriam semelhantes aos encontrados nos aparelhos de jornalistas e opositores alegadamente vigiados pelos serviços marroquinos.

O artigo sublinha, contudo, que não existem provas públicas de que Emmanuel Macron tenha sido alvo de chantagem ou de que Marrocos tenha obtido e utilizado informações comprometedoras. Ainda assim, a suspeita de espionagem levanta dúvidas políticas sobre as decisões posteriormente tomadas por Paris em benefício de Rabat.


Justiça francesa sem cooperação de Marrocos

A investigação judicial aberta em Paris em 2021 continua, segundo o artigo, condicionada pela falta de cooperação das autoridades marroquinas, que não terão dado seguimento a uma comissão rogatória francesa.

Em fevereiro de 2026, dois antigos dirigentes da NSO Group, ouvidos em França, recusaram identificar os clientes da empresa, invocando a legislação israelita. Cinco anos depois das primeiras revelações, permanecem por esclarecer várias questões sobre a dimensão e os responsáveis pela operação.

Durante esse período, Emmanuel Macron alterou profundamente a posição francesa sobre o Sahara Ocidental. Numa carta enviada ao rei Mohamed VI, em julho de 2024, afirmou que o presente e o futuro do território se inscreviam no quadro da soberania marroquina, considerando o plano de autonomia apresentado por Rabat em 2007 como a única base para uma solução política.

Paris e Rabat preparam atualmente um tratado bilateral descrito como inédito entre França e um país não europeu, apesar de Marrocos continuar sem colaborar com a justiça francesa no processo relacionado com a alegada espionagem dos mais altos responsáveis do Estado.


Próximo Presidente francês poderá reavaliar posição

O segundo mandato de Emmanuel Macron termina em maio de 2027. O seu sucessor herdará uma posição diplomática fortemente favorável a Marrocos, mas que, segundo o artigo, poderá ser revista por não resultar de uma votação parlamentar nem de um tratado juridicamente vinculativo.

Entre as opções apontadas encontram-se condicionar o aprofundamento das relações bilaterais à cooperação judicial marroquina, divulgar as análises técnicas dos serviços franceses e submeter a política sobre o Sahara Ocidental ao Parlamento.

O direito europeu poderá igualmente pesar num eventual reexame da posição francesa. O Tribunal de Justiça da União Europeia continua a considerar o Sahara Ocidental um território distinto de Marrocos, cuja população deve consentir na aplicação de acordos económicos. O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros francês mantém o território classificado como “não autónomo”, de acordo com a Carta das Nações Unidas.

As novas revelações reforçam, assim, a questão que poderá marcar o debate político francês antes das eleições presidenciais de 2027: saber se a aproximação diplomática a Marrocos foi decidida com plena independência, enquanto vários dirigentes franceses eram alegadamente alvo de espionagem por parte desse mesmo parceiro.

Fonte: Ali Attar, “Lecornu espionné par Pegasus: l’encombrant dossier marocain de l’Élysée”, publicado em 17 de julho de 2026.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A máquina de espionagem do "vice-rei" de Marrocos: Pegasus terá visado mais de 250 telemóveis espanhóis, segundo investigação do El Confidencial




Uma investigação jornalística internacional revela que os serviços de informação de Marrocos construíram um sistema estrutural de vigilância em massa que ultrapassa o uso isolado de programas espiões, integrando ferramentas como o Pegasus numa verdadeira cadeia de comando destinada a controlar tanto dissidentes internos como líderes internacionais — incluindo, segundo o apurado, o próprio presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez.

De acordo com a investigação, coordenada pela organização Forbidden Stories e publicada em Espanha pelo El Confidencial, através dos jornalista E. Torrico, G. M. Piantadosi, M. Á. Gavilanes,  Ignacio Cembrero, José Bautista e Hicham Mansouri, esta arquitetura de vigilância estaria sob supervisão de Fouad Ali El Himma, conselheiro principal e colaborador próximo do rei Mohamed VI, conhecido internamente nos serviços secretos marroquinos como o "vice-rei" ou "o rei na sombra". A operação seria conduzida através da Direção-Geral de Vigilância do Território (DGST), o serviço de informação interno de Marrocos, dirigido por Abdellatif Hammouchi.


Mais de 250 telemóveis espanhóis visados entre 2018 e 2019

Segundo o apurado pela investigação, os serviços marroquinos tentaram infetar com o Pegasus — programa espião da empresa israelita NSO Group — pelo menos 250 telemóveis com número espanhol entre maio de 2018 e junho de 2019, dois anos antes de se confirmar a infeção dos dispositivos de Pedro Sánchez e de vários ministros do seu Governo. Nesse período, foram registadas 768 tentativas de infeção, com um máximo de 106 ataques num único dia, a 16 de março de 2019.

De acordo com o El Confidencial, quando os alvos eram dirigentes de topo — como membros do Governo espanhol ou o presidente francês Emmanuel Macron —, as operações eram autorizadas diretamente por El Himma. Já a Direção-Geral de Estudos e Documentação (DGED), o serviço de informação externo marroquino, não tinha acesso direto ao Pegasus, mas podia propor alvos à DGST, segundo dois antigos funcionários citados pelo consórcio jornalístico.


Ativistas saharauis, jornalistas e diplomatas argelinos entre os alvos

A investigação identifica dezenas de pessoas visadas em Espanha, com particular incidência sobre cidadãos marroquinos residentes no país, muitos deles originários do Rife, além de ativistas e representantes saharauis ligados à Frente Polisario. Entre os nomes identificados constam Mohamed Beisat, atual responsável da diplomacia da República Saharaui, Mouloud Said, delegado da Frente Polisario em Washington, e a ativista Aminatou Haidar, juntamente com o professor da Universidade Pública de Navarra Abderrahman Taleb Omar e o doutorando da Universidade de Sevilha Bachir Mohamed Lahcen, diretor do portal "España en Árabe".

A lista inclui ainda vários jornalistas e académicos, como El Houssine Majdoubi, que terá acumulado 42 tentativas de infeção — a cifra mais elevada registada em Espanha —, o académico Aboubakr Jamai, os opositores marroquinos Karim el Otmani e Faouzi Hliba, o jornalista Ali Lmrabet, o correspondente neerlandês Koen Greven e o próprio jornalista espanhol Ignacio Cembrero, autor da reportagem. Entre os alvos militares e diplomáticos figura ainda o coronel da Guarda Civil Alberto Aguilera, então chefe de Informações para a Catalunha, alvo de cinco tentativas de infeção em março de 2019, bem como vários diplomatas argelinos destacados em Espanha, incluindo a então embaixadora Taous Feroukhi.

O Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional, que prestou apoio técnico à investigação, sublinha que a documentação obtida comprova tentativas de infeção, mas não permite concluir, sem uma análise forense individual de cada dispositivo, que todas tenham sido bem-sucedidas.


Cartoon gerado por IA


O caso Pedro Sánchez e o silêncio das autoridades

Segundo a investigação, a DGST terá continuado a utilizar o Pegasus até finais de 2021, altura em que Israel começou a retirar a Marrocos a autorização para usar o software, após a revelação pública do chamado Pegasus Project. Emmanuel Macron terá transmitido pessoalmente as suas queixas a Mohamed VI depois de se saber que o seu telemóvel e os de vários membros do seu Governo estavam entre os alvos — o monarca marroquino negou qualquer envolvimento, segundo declarações do escritor Tahar Ben Jelloun a uma televisão israelita.

Os jornalistas do consórcio assinalam ainda não ter havido conhecimento de qualquer protesto formal do Governo espanhol junto de Marrocos pela espionagem ao telemóvel de Pedro Sánchez, nem ações judiciais contra a NSO Group, cuja exportação do Pegasus deveria ser autorizada pelo Ministério da Defesa israelita. O caso ganha um contorno adicional de contradição institucional: o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, viria mais tarde a atribuir a Grã-Cruz da Ordem do Mérito da Guarda Civil a Abdellatif Hammouchi, enquanto o chefe de Informações da Guarda Civil, general Luis Peláez, viajou a Rabat para participar numa cerimónia de condecoração de responsáveis marroquinos. 


Uma operação de escala global

Segundo o consórcio jornalístico, os 250 telemóveis espanhóis fazem parte de uma operação de alcance muito mais amplo, que terá selecionado mais de 12.000 dispositivos espalhados por cerca de vinte países, sobretudo pertencentes a cidadãos marroquinos, argelinos e franceses — números que recordam a investigação original de 2021 da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional, que já então tinha revelado tentativas de espionagem contra mais de 12.000 pessoas através do Pegasus.

A investigação atual foi conduzida por um consórcio de 39 jornalistas coordenado pela Forbidden Stories, com a participação do El Confidencial, Le Monde, Radio France, The Guardian, Haaretz, Die Zeit, Der Spiegel, Der Standard, OCCRP, Código Morse, Paper Trail Media, Hawamich e Tamedia, novamente com apoio técnico do Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional. Segundo o El Confidencial, até ao fecho da investigação não tinham respondido aos pedidos de esclarecimento os ministérios espanhóis do Interior, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, nem a DGST, a DGED, a Casa Real marroquina ou a israelita NSO Group.

Fonte: El Confidencial, com base em investigação do consórcio coordenado pela Forbidden Stories.