domingo, 8 de março de 2026

Naâma Asfari: «Uma Luta pela Liberdade e pela Dignidade Vale Todos os Sacrifícios»

 

Em Gdeim Izik (2010) (foto La Patrie News)


(Boletim AAPSO nº 154, Março 2026)

Naâma Asfari é uma das mais destacadas figuras da resistência saharaui ao colonialismo marroquino. Preso em Novembro de 2010 em resultado do esmagamento do “Acampamento da dignidade” de Gdeim Izik pelas autoridades de Rabat, foi condenado por um tribunal fantoche em 2017 a 30 anos de prisão.

Em 17 de Fevereiro passado, o La Patrie News publicou uma entrevista que lhe foi feita pelo jornalista Mohamed Abdoun, que aqui traduzimos. Recorde-se que já anteriormente tínhamos divulgado uma reflexão sua sobre o processo de emancipação do povo saharaui.

«Perante tanta coragem e tanto sentido de sacrifício estoicamente aceite por parte de Naâma Asfari, não podemos deixar de ficar admirados. Prisioneiro político saharaui, arbitrariamente condenado, torturado, porta-voz dos emblemáticos manifestantes pacíficos de Gdeim Izik, ele concedeu-nos uma entrevista exclusiva graças à preciosa ajuda da sua esposa Claude Mangin-Asfari. Ele esquece o seu sofrimento, recusa-se a falar sobre ele, mas fala do exemplo argelino, que dá força e coragem para resistir, para permanecer de pé.

O nosso interlocutor analisa de forma brilhante a actual fase de diálogo na Embaixada dos EUA em Madrid. Ele acredita que os americanos estão a usar Marrocos, que precisam mais da Argélia e do Sahara Ocidental do que do reino cherifiano. Mas a conclusão, forte e comovente ao mesmo tempo, fala de uma vitória próxima e imutável. Dizer isso (no seu décimo sexto ano de prisão arbitrária) do fundo de uma cela paralisa os carcereiros e carrascos de Naâma Asfari.

Aconteceu. Tive a oportunidade de conhecer a coragem personificada. O seu nome é Naâma Asfari.


La Patrie News: É um enorme prazer e uma grande honra tê-lo ao telefone…

Naâma Asfari: O prazer é todo meu. Como está? Eu é que deveria perguntar sobre o seu estado físico e mental. Estou a falhar nas minhas obrigações. Mas a emoção é muito forte. Aqui, as coisas funcionam como numa prisão do ocupante, onde a arbitrariedade é imposta como regra de gestão e conduta.

LPN: Peço desculpa por isso. Permita-me passar imediatamente às perguntas. Sei que o tempo é curto e que pode ser interrompido a qualquer momento. Como reage a este reatamento do diálogo entre a Frente POLISARIO e o Marrocos colonial, com o forte simbolismo do local do encontro, ou seja, a Embaixada dos E.U.A. em Espanha?

NA: É difícil formar uma opinião sobre este acontecimento importante, pois não disponho de todos os dados fiáveis para analisar correctamente esta súbita aceleração dos acontecimentos. Por outro lado, vejo claramente que os próprios americanos, aparentemente, não têm uma solução. Na minha opinião, continuam a manter e a gerir o status quo, fingindo resolver esta questão óbvia e simples da descolonização. Pela minha parte, tenho toda a confiança nas capacidades da POLISARIO, da Argélia e de todos os amigos sinceros da causa saharaui para se adaptarem a todas as novas situações e desafios que nos possam ser colocados e impostos.

Sei que a POLISARIO manterá o rumo no que é estratégico para nós. Trata-se, em primeiro lugar, de resistir a todas as formas de pressão que possam ser exercidas sobre nós. E, ao mesmo tempo, permanecer firmemente comprometidos com o nosso direito à autodeterminação. Quanto ao resto, continuo convencido de que não existe nenhuma análise ou dados sólidos que permitam supor que os americanos estejam 100% do lado dos marroquinos. A minha resposta é não. Categoricamente não. Toda a política dos americanos em relação aos marroquinos é muito mais tática do que estratégica.

É isso que me leva a supor que, atualmente, os americanos estão a pressionar as outras partes para chegar a uma solução definitiva para esta questão. Uma solução que garanta, em última instância, a autodeterminação do povo saharaui. Isto, passando por uma fase de transição ou de autonomia. É uma espécie de renovação ou atualização do plano Baker.

LPN: Está a referir-se ao plano Baker, que Marrocos rejeitou ostensivamente.

NA: Exactamente. Acrescentaria que nem a POLISARIO nem a Argélia têm interesse em que Marrocos seja desestabilizado e mergulhe no caos. Assim, com a ajuda e o consentimento da POLISARIO e da Argélia, os americanos concedem essa autonomia para garantir uma transição pacífica de cinco a dez anos em Marrocos. Esse processo, certamente longo e trabalhoso, prepara a independência dos saharauis no futuro.

LPN: Aprecio o seu optimismo, que nutre no fundo da sua sombria cela prisional. Portanto, receia mesmo que o status quo se perpetue após meio século de ocupação marroquina e pilhagem dos recursos pesqueiros e mineiros saharauis ...

NA: O desenrolar dos acontecimentos dependerá totalmente da evolução das negociações em curso.

LPN: Com um presidente como Trump no comando, as coisas podem evoluir muito rapidamente, e em todas as direcções possíveis e imagináveis…

NA: Isso é parcialmente verdade. Pois as verdadeiras intenções dos americanos não são evidentes neste momento. Atualmente, a ação dos americanos limita-se ao plano mediático. Além disso, a abertura da Argélia em relação aos E.U.A. é de natureza económica e comercial. Ora, esse é o aspecto que mais interessa aos dirigentes americanos. Ainda mais aos da administração Trump. No entanto, os interesses económicos no Magrebe estão na Argélia e no Sahara Ocidental, não em Marrocos.

LPN: Basta de geoestratégia. Diga-me como está, realmente, como o tratam, como aguenta este período arbitrário de prisão?

NA: Olhe, uma guerra de libertação é travada e vencida em várias frentes e por várias tropas. Pois bem, acredito que, no que diz respeito aos presos políticos saharauis, essa batalha está prestes a ser amplamente ganha. Marrocos está mais enfraquecido do que nunca no que diz respeito à delicada questão dos prisioneiros políticos. Há mais de quinze anos que Marrocos reconhece implicitamente que as lutas dos prisioneiros políticos e dos saharauis no território ocupado foram amplamente vencidas por nós. Marrocos não ganhou nada, não fez nada de bom no território que ocupa há 50 anos.

A nossa posição atual é tratada a nível político no âmbito das negociações em curso. Os presos políticos fazem parte das prioridades defendidas pela Frente POLISARIO nas negociações atuais. O nosso destino está ligado à evolução dessas negociações. Pelo menos nos próximos meses. Enquanto esperamos por maior clareza.

LPN: Um resumo muito pertinente desta questão espinhosa...

NA: Há outro ponto ao qual gostaria de voltar, mesmo que brevemente, devido à falta de tempo. Marrocos tentou destruir-nos psicologicamente. No entanto, no final, fomos nós que vencemos, mesmo nesse plano. Porque estamos totalmente empenhados na resistência e na luta pela libertação nacional. Não estamos comprometidos com um plano cronológico e temporal clássico. Para mim, quinze anos de detenção fazem parte dos cinquenta anos de luta do povo saharaui. Não temos a mesma definição de tempo.

LPN: Com essas convicções, forjadas em aço temperado, a coragem e a força para resistir surgem profusamente.

NA: Quando lutamos por uma causa que, hoje, é discutida nas Nações Unidas, a vários e altos níveis internacionais, quando essa causa nobre e justa, da qual somos humildes militantes, é levada em consideração pelas maiores potências do planeta, é evidente que temos nas mãos o relógio do tempo. Dominamos plenamente a definição do nosso tempo, do seu decurso. Neste caso específico, chamo-lhe «TEMPO DA LUTA NACIONAL».

Não decorre todo à mesma velocidade. A cronologia não é a mesma. Para mim, quinze anos de prisão por esta causa são como um ano, um mês, um dia. Especialmente quando estamos convencidos de que a vitória está ao alcance das nossas mãos. A busca pela liberdade ajuda-nos a aguentar. Digo isto por convicção sólida e inabalável. Não há nada de exagerado no que digo. Não, não é conversa fiada.

LPN: Tiro o chapéu. Toda a minha admiração para si e para o seu povo.

NA: Sabe, o grande exemplo argelino sempre nos serviu de farol e barómetro. Também a fenomenal resistência dos palestinianos. Estes exemplos dão-nos força e coragem. Quinze anos de prisão não são nada comparados com os vinte, vinte e cinco anos dos prisioneiros políticos que nos servem de farol e modelo. Uma luta pela liberdade e pela dignidade vale todos os sacrifícios. A História está repleta deste tipo de lições. A triste realidade de hoje também nos impressiona.

O nosso orgulho por fazermos parte dos prisioneiros políticos reprimidos durante a grande e famosa manifestação pacífica de Gdeim Izik é incomensurável. Mesmo no fundo das nossas celas sombrias, continuámos a marcar pontos contra o inimigo e colonizador marroquino. Perante os seus imensos meios repressivos e mediáticos, continuamos de pé. Continuamos com a mesma determinação. Estamos convencidos de que, num futuro próximo, a luz e a liberdade chegarão aos prisioneiros políticos, mas também a todos os saharauis.

Sem comentários:

Enviar um comentário