Décadas de perseguição
Por Ignacio Cembrero 13/07/2026 - EL CONFIDENCIAL
Exilado há mais de 20 anos em Barcelona, o youtuber marroquino, crítico das autoridades do seu país, foi detido no domingo após aterrar no aeroporto de Tânger e transferido para Casablanca, onde está a ser interrogado
Por ter publicado uma caricatura em que se via um braço, supostamente do rei Mohamed VI, o jornalista marroquino Ali Lmrabet foi condenado, em 2003, a três anos de prisão, por «crime de lesa-majestade». As suas duas revistas satíricas, uma em francês (Demain magazine) e outra em árabe (Douman), foram encerradas. Foi indultado no ano seguinte, mas ficou inibido de exercer a profissão de jornalista em Marrocos durante 10 anos. Para continuar a trabalhar, mudou-se para Barcelona. Vinte e três anos depois, Lmrabet, de 66 anos, foi detido no domingo à tarde no aeroporto de Tânger. Após ter sido brevemente interrogado, foi transferido durante a noite para a Brigada Nacional da Polícia Judicial, em Casablanca.
A detenção de Lmrabet põe em evidência o empenho das autoridades marroquinas em intimidar os youtubers residentes no estrangeiro que constituem hoje, juntamente com alguns sites de notícias (como o Hawamich, gerido a partir do exílio), a sua principal oposição. Em Marrocos, a imprensa local goza atualmente de muito menos liberdade do que no final do século passado, quando Mohamed VI subiu ao trono.
O Procurador do Rei junto do Tribunal Correccional de Casablanca anunciou esta terça-feira que Lmrabet foi detido ao abrigo de vários mandados de busca e apreensão emitidos anteriormente contra ele, devido ao seu alegado envolvimento na prática de actos tipificados como crime pela lei. A detenção surge na sequência da publicação, por parte do investigado, de uma série de conteúdos digitais que contêm declarações difamatórias e injuriosas contra pessoas e instituições, bem como expressões consideradas ofensivas para organismos regulados pela lei.
Num comunicado, o Procurador do Rei junto do Tribunal Correccional de Casablanca indicou que, por instruções deste Ministério Público, o indiciado foi transferido para a sede da Brigada Nacional da Polícia Judicial (BNPJ) em Casablanca, na qualidade de unidade responsável pela investigação. O investigado foi colocado sob custódia policial para efeitos da investigação levada a cabo sob a supervisão do Ministério Público, com o objetivo de ser interrogado sobre os factos que lhe são imputados, tudo isto no pleno respeito de todas as garantias processuais que a lei lhe reconhece e da presunção de inocência, acrescenta a mesma fonte.
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| Com 83 anos de idade, Mohamed Zian, antigo ministro marroquino dos Direitos Humanos sofre uma pena efetiva de prisão de 5 anos. O jornalista Ali Lmrabet foi um dos seus mais acérrimos defensores... |
Ao ordenarem a detenção de Lmrabet, as autoridades marroquinas colocam numa situação delicada os governos dos seus dois principais parceiros na Europa, Espanha e França. Lmrabet possui a nacionalidade francesa, mas vive há mais de 20 anos em Barcelona; a sua esposa é espanhola — professora da Universitat Autònoma de Barcelona — e o casal tem dois filhos que também possuem a nacionalidade da mãe.
O primeiro-ministro francês, Sébastian Lecornu, chega a Rabat na quarta-feira, acompanhado por nada menos do que uma dezena de ministros. Na França, não demorará a surgir vozes a pedir-lhe que interceda em favor de Lmrabet, embora os últimos governos franceses tenham demonstrado pouca sensibilidade em relação aos direitos humanos no que diz respeito a Marrocos. Prova disso é o seu desinteresse perante o assédio judicial e policial sofrido há anos pelo historiador franco-marroquino Maati Monjib.
Não está prevista qualquer reunião de alto nível entre Marrocos e Espanha, mas Lmrabet é conhecido e tem fortes laços com o país, especialmente na Catalunha. A mobilização em apoio a Lmrabet já começou em Espanha. «Esta detenção ocorre num contexto de restrições contínuas à liberdade de imprensa em Marrocos e vem somar-se a um longo historial de perseguição judicial, intimidações e represálias que o jornalista tem sofrido há mais de duas décadas», denunciou na segunda-feira o Fórum de Investigação sobre o Mundo Árabe e Muçulmano, composto por académicos espanhóis.
«Não conheço o caso, vou informar-me», respondeu José Manuel Albares, ministro dos Negócios Estrangeiros, quando lhe perguntaram na Cadena Ser sobre Ali Lmrabet.
Tanto da esquerda nacionalista como da não nacionalista, bem como das associações da imprensa, será questionado o Governo de Pedro Sánchez, que, tal como os seus homólogos franceses, também se esquivou dos direitos humanos em Marrocos e no Sahara Ocidental.
Prova disso é o facto de não ter tomado quaisquer medidas para se informar sobre a situação de Mohamed Zian, de 83 anos, que cumpre duas penas que, no total, somam oito anos. Em 2022, Zian ousou pedir, num vídeo, a abdicação de Mohamed VI, devido ao facto de este passar longos períodos fora do seu país. Zian nasceu em Málaga, de mãe espanhola. O ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, respondeu de forma evasiva a perguntas parlamentares sobre Zian.
A imprensa oficial marroquina lançou ainda uma campanha contra o Canadá, incluindo editoriais, por acolher em Montreal Hicham Jerando, outro dos youtubers críticos com mais seguidores no seu canal. Para o intimidar, a polícia judiciária chegou mesmo a convocar a sua mãe, octogenária e quase cega, para um interrogatório em Casablanca, segundo contou o youtuber.
Dentro de Marrocos, resta apenas uma mulher atrás das grades, Saida El Alami, condenada a três anos por alegados insultos ao poder judicial e pela publicação e divulgação de informações falsas através das redes sociais. Quase todos os jornalistas condenados há anos, como Omar Radi ou Souleiman Raissouni, acabaram por se exilar após saírem da prisão em 2024, graças a um indulto real. Ainda assim, o indulto real é parcial e aqueles que o obtêm continuam legalmente inibidos de exercer a profissão de jornalista.
Décadas de perseguição
A partir do seu exílio na Tunísia, Raissouni escreveu na segunda-feira um artigo nas redes sociais no qual recorda as campanhas de difamação de que Lmrabet foi alvo ao longo de um quarto de século, antes de se sentar no banco dos réus para ser julgado. Para tentar desacreditá-lo, o jornal islamista Tajdid publicou que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, lhe tinha oferecido um carro, enquanto o conselheiro real André Azoulay viajava para Washington para pedir à ONG Human Rights Watch que deixasse de o defender por ser «antisemita». Pior ainda, o então ministro da Comunicação, Nabil Benabdallah, deslocou-se a Paris para se reunir com um grupo de jornalistas franceses, aos quais contou que Lmrabet estava a fazer «tratamento psiquiátrico». Era uma mentira.
Quando foi libertado em 2004 (graças, sobretudo, a uma grande mobilização), Lmrabet fixou-se em Espanha. Trabalhou durante algum tempo para o jornal El Mundo antes de se tornar independente, sobretudo como youtuber nos últimos anos. Nas suas intervenções perante a câmara, falava sobre a corrupção em Marrocos, bem como sobre a falta de liberdades.


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