terça-feira, 14 de julho de 2026

"The Odyssey" de Christopher Nolan tem um problema colonial



Um artigo de opinião de Sarah Yerkes, publicado a 9 de julho no Carnegie Endowment, argumenta que a nova adaptação de Christopher Nolan à Odisseia de Homero, com estreia marcada para 17 de Julho, corre o risco de ver o seu sucesso comercial ensombrado pela polémica em torno de gravações realizadas em Dakhla, no Sahara Ocidental — território que o direito internacional continua a considerar ocupado por Marrocos.

Segundo a autora, apesar de o filme contar com um elenco de peso, o maior orçamento de sempre de Nolan e fortes vendas antecipadas de bilhetes — sobretudo após a estreia em Londres na terça-feira —, a cobertura mediática tem ignorado largamente aquele que considera ser o maior problema da produção: a escolha de filmar cenas num território ocupado sem o consentimento do povo indígena saharaui.

Yerkes recorda que Nolan atribuiu parte da sua inspiração à tradução de 2017 de Emily Wilson, elogiada por dar destaque a temas como colonialismo, despojamento e exploração, e por devolver humanidade às personagens escravizadas e colonizadas do texto original. O realizador defendeu ainda publicamente as suas escolhas de casting diverso perante críticas da direita. No entanto, segundo a autora, nem Nolan nem a Universal Pictures se pronunciaram sobre a decisão de filmar em território considerado colonizado ao abrigo do direito internacional, o que levou a acusações de que a produção acaba por facilitar precisamente aquilo que alega denunciar.

O artigo explica que, para Marrocos, os territórios que compõem o Sahara Ocidental são as "províncias do sul" e parte indiscutível do reino. Contudo, sublinha a autora, a ONU, o Tribunal Internacional de Justiça e o mais alto tribunal da UE têm afirmado consistentemente que Dakhla integra um território não autónomo e ocupado, apesar de a opinião pública global ter vindo a inclinar-se progressivamente a favor da posição marroquina nos últimos anos.


Christopher Nolan

Yerkes detalha ainda a estratégia de longa data de Marrocos para atrair produções cinematográficas internacionais, com incentivos como um reembolso de 30% sobre despesas elegíveis, simplificação aduaneira para equipamento, isenções de IVA e descontos com a Royal Air Maroc, além do apoio ocasional de meios militares — uma política impulsionada pelo próprio rei Mohamed VI, que aumentou dez vezes os recursos alocados à produção cinematográfica e criou o Festival Internacional de Cinema de Marrakech em 2001. Segundo o artigo, em 2025 o Centro Cinematográfico Marroquino gerou mais de 165 milhões de dólares em investimento local através de 23 filmes estrangeiros.

A autora destaca que a voz mais crítica contra a filmagem em Dakhla foi o Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental (FiSahara), que pediu a Nolan a suspensão da produção, citando a "ocupação militar" e a "repressão brutal" contra o povo saharaui, e que atualmente apela ao boicote do filme. Outros ativistas de direitos humanos, segundo o texto, acusam Nolan de contribuir para branquear a ocupação marroquina, sobretudo por se tratar da primeira grande produção de Hollywood a filmar no território disputado — algo que o próprio governo marroquino já afirmou explicitamente querer usar como porta de entrada para futuras produções na região.

Yerkes argumenta que esta seria a controvérsia mais fácil de evitar, já que nem a história nem o texto da Odisseia têm qualquer ligação ao Sahara Ocidental, e que a escolha do local parece ter sido puramente estética e financeira — Dakhla representa apenas cerca de quatro dos 91 dias de rodagem do filme, distribuídos por vários países e várias localizações dentro de Marrocos.

O artigo termina citando a produtora marroquina Lamia Chraibi, que numa entrevista à Variety defendeu a necessidade de os cineastas da região contarem as suas próprias histórias para combater narrativas orientalistas. Segundo Yerkes, é exatamente isso que Marrocos está a fazer com "The Odyssey" — a afirmar o seu próprio poder narrativo enquanto nega esse mesmo poder ao povo saharaui —, concluindo que Nolan tem ainda a oportunidade de mudar esse cenário, bastando para isso reconhecer publicamente a controvérsia em torno do Sahara Ocidental em vez de a ignorar.

Fonte: Sarah Yerkes, "Nolan's 'The Odyssey' Has a Colonialism Problem", Carnegie Endowment for International Peace, 9 de julho de 2026.

Sarah Yerkes é investigadora sénior no Programa do Médio Oriente da Carnegie, onde a sua investigação se centra na evolução política, económica e de segurança da Tunísia e do Norte de África

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