| Xanana Gusmão, ao lado do Prof. Jorge Miranda |
As declarações do primeiro-ministro de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão, em defesa do direito do povo saharaui à autodeterminação tiveram escasso destaque na comunicação social portuguesa, apesar do seu significativo alcance político e diplomático.
O histórico líder timorense, distinguido na Aula Magna da Universidade de Lisboa com o prémio "Professor Doutor Jorge Miranda: Constituição e Direitos Humanos", aproveitou o discurso de agradecimento para reiterar o apoio inequívoco de Timor-Leste à causa saharaui e defender a realização do referendo de autodeterminação previsto pelas Nações Unidas para o Sahara Ocidental.
"Permitam-me recordar aqui outro povo que, apesar de estar mais perto da Europa, continua a sofrer: o povo saharaui", afirmou Xanana Gusmão perante a assistência, estabelecendo um paralelismo entre a luta do povo timorense pela independência e a situação vivida no Sahara Ocidental.
O primeiro-ministro maubere recordou que, durante a resistência timorense à ocupação indonésia, a criação da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), em 1991, foi recebida como um sinal de esperança pelos combatentes timorenses. No entanto, o adiamento do referendo previsto para 1992 constituiu, nas suas palavras, "uma profunda desilusão" também para Timor-Leste.
Altas individualidades da vida politica, cultural e académica assistiram à cerimónia.
As declarações assumem particular relevância diplomática por partirem de um chefe de Governo cuja legitimidade internacional está profundamente ligada ao processo que conduziu à independência de Timor-Leste, alcançada precisamente através de um referendo de autodeterminação organizado pelas Nações Unidas em 1999.
Ao reiterar publicamente, em Lisboa, o apoio de Timor-Leste à realização de um referendo no Sahara Ocidental, Xanana Gusmão reafirma uma posição histórica da diplomacia timorense e volta a colocar a questão saharaui no debate internacional sobre a descolonização e o respeito pelo direito internacional, numa Europa que parece alheada desses valores.
Apesar da importância política da intervenção, as declarações do chefe do Governo timorense tiveram reduzida cobertura na imprensa portuguesa, contrastando com o seu potencial impacto diplomático, tanto pelo simbolismo da comparação entre Timor-Leste e o Sahara Ocidental como pelo facto de terem sido proferidas na capital portuguesa, país que mantém uma histórica ligação aos processos de autodeterminação no espaço lusófono.
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