terça-feira, 18 de agosto de 2026

Ceuta, Sahara Ocidental e os limites da política espanhola para Marrocos

Imagem gerada por IA


Há cinco anos, a entrada em Espanha de Brahim Ghali, líder da Frente Polisario e presidente da República Árabe Saharaui Democrática (RASD), para receber tratamento médico contra a Covid-19 desencadeou uma das mais graves crises diplomáticas entre Madrid e Rabat.

Em maio de 2021, milhares de pessoas atravessaram a fronteira marroquina para Ceuta perante a passividade e cumplicidade das autoridades de Marrocos. A crise foi interpretada como uma resposta de Rabat à decisão espanhola de acolher Ghali por razões humanitárias e teve fortes repercussões políticas em Espanha, contribuindo para a saída da então ministra dos Negócios Estrangeiros, Arancha González Laya.

Cinco anos depois, Ceuta volta a estar no centro das atenções e permanece uma questão fundamental: o que mudou na relação entre Espanha e Marrocos?


A viragem espanhola sobre o Sahara Ocidental

Em 2022, Pedro Sánchez alterou a tradicional posição espanhola sobre o Sahara Ocidental, passando a considerar a proposta marroquina de autonomia como a solução “mais séria, realista e credível” para o conflito.

A mudança foi apresentada como o início de uma nova etapa nas relações com Rabat, destinada a assegurar maior estabilidade e cooperação entre os dois países.

Contudo, essa aproximação não significou que Marrocos abandonasse as suas posições sobre questões particularmente sensíveis para Espanha. Rabat continua a reivindicar a soberania sobre Ceuta e Melilla e mantém a integração do Sahara Ocidental no reino como um objetivo central da sua política externa.

É neste ponto que importa avaliar os resultados da estratégia adotada por Madrid.


As concessões trouxeram maior estabilidade?

Espanha fez uma importante concessão diplomática ao aproximar-se da posição marroquina sobre o Sahara Ocidental, rompendo com a linha anteriormente seguida em torno do processo conduzido pelas Nações Unidas e do direito do povo saharaui à autodeterminação.

Em contrapartida, Madrid esperava construir uma relação mais estável e previsível com Rabat.

A questão é saber se esse objetivo foi alcançado.

A experiência dos últimos anos mostra que as divergências estruturais permanecem. Marrocos continua a defender as suas posições sobre o Sahara Ocidental, Ceuta e Melilla e a fronteira continua a constituir um elemento particularmente sensível nas relações bilaterais.

Por isso, a crise de Ceuta de 2021 dificilmente pode ser analisada como um acontecimento isolado. Brahim Ghali, o Sahara Ocidental, Ceuta e Melilla e a gestão dos fluxos migratórios fazem parte de uma relação bilateral marcada simultaneamente pela interdependência e por importantes divergências estratégicas.


Uma questão também de política externa espanhola

A discussão não deve, portanto, limitar-se ao que Marrocos pretende ou faz. Deve igualmente questionar a estratégia seguida por Espanha.

Manter boas relações com um país vizinho, com o qual existem importantes interesses económicos, migratórios e de segurança, é compreensível. Diferente é fazer concessões em matérias estratégicas esperando que estas conduzam ao abandono de reivindicações históricas da outra parte.

Até agora, não existem sinais de que a mudança espanhola sobre o Sahara Ocidental tenha levado Marrocos a alterar as suas posições relativamente a Ceuta e Melilla.

Para os defensores da autodeterminação saharaui, existe ainda outra consequência: o povo do Sahara Ocidental acabou por suportar o custo de uma aproximação diplomática destinada a garantir uma estabilidade nas relações entre Madrid e Rabat que continua sujeita a fortes tensões.

A experiência de Ceuta deixa, assim, uma questão que Espanha terá de enfrentar: até que ponto as concessões feitas a Rabat contribuem realmente para estabilizar a relação bilateral ou, pelo contrário, reforçam a percepção de que a pressão política e diplomática produz resultados?

Em maio de 2021, entre 8.000 e 10.000 pessoas atravessaram em cerca de 48 horas a fronteira marroquina para Ceuta, numa crise sem precedentes, ocorrida perante a ausência de controlo das autoridades marroquinas. 

Em 2026 foram 72.000!

Texto adaptado da newsletter "Una Mirada al Sahara Occidental"

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