Um artigo do jornalista Ignacio Cembrero, publicado no El Confidencial a 20 de agosto, dá conta de uma nova ameaça lançada pelo grupo de "hackers" Jabaroot (Poder), que na terça-feira anunciou poder divulgar os nomes de todos os espiões ao serviço da agência de inteligência interna de Marrocos, num aparente ataque dirigido a Abdellatif Hammouchi, apontado como o responsável pela recente entrada massiva de migrantes em Ceuta.
A ameaça e as provas apresentadas
Segundo o artigo, para demonstrar a seriedade da ameaça, o Jabaroot publicou no seu canal do Telegram uma amostra com nomes e datas de nascimento de cerca de vinte agentes da Direção-Geral de Supervisão do Território (DGST), organismo dirigido por Hammouchi, que acumula ainda a chefia da polícia marroquina (DGSN). O grupo afirma dispor de uma base de dados adicional com cerca de 70 mil nomes.
Cembrero sublinha que as ameaças destes "hackers" devem ser levadas a sério, uma vez que praticamente sempre as cumpriram, e que todos os documentos e bases de dados que já divulgaram se revelaram autênticos. Segundo o artigo, as autoridades marroquinas acusam o grupo de atuar a soldo da Argélia, embora especialistas em cibersegurança e fontes de inteligência duvidem dessa origem sem, contudo, terem certezas sobre a verdadeira proveniência do coletivo — a consultora Navakintelligence chega a atribuir esta atividade a um único ex-agente.
A versão do Jabaroot sobre a crise em Ceuta
De acordo com o texto, os piratas informáticos têm publicado conteúdos sobre Ceuta desde 7 de agosto, tendo já exigido desculpas oficiais, luto nacional e a suspensão das eleições legislativas marcadas para 23 de setembro em Marrocos. Esta semana, porém, o grupo apresentou a sua própria versão dos acontecimentos, atribuindo a responsabilidade pela crise a Fouad Ali el Himma, principal conselheiro do rei Mohamed VI, em colaboração com outro conselheiro não identificado. Segundo o Jabaroot, citado no artigo, "foram eles que planearam o ataque para colocar a Espanha numa situação difícil", com o conhecimento de "um grande país e de outro Estado fictício" — numa alusão aos Estados Unidos e a Israel.
O grupo isenta o rei de qualquer responsabilidade, afirmando que "não sabia de nada", enquanto descreve Hammouchi como estando "com medo" e a "jogar as suas últimas cartas", por saber que será o "bode expiatório" do episódio. A mensagem termina com uma advertência em espanhol dirigida a Hammouchi, prometendo que as autoridades espanholas irão descobrir a "farsa dos teus agentes fracassados".
Coincidência com investigação jornalística anterior
Cembrero nota que esta versão do Jabaroot coincide parcialmente com uma peça publicada pelo próprio El Confidencial a 12 de agosto, baseada em testemunhos de dois ex-agentes marroquinos exilados, segundo os quais o núcleo de poder liderado por Himma e Hammouchi terá deixado propositadamente fluir a emigração para Ceuta como forma de retaliação contra artigos publicados em julho por 14 meios de comunicação social — entre os quais o próprio El Confidencial — sobre as práticas dos serviços secretos marroquinos.
Histórico de fugas de informação
O artigo recorda que o Jabaroot mantém, desde abril do ano passado, um historial de fugas de dados através do Telegram, incluindo a lista de 3.400 funcionários dos palácios reais e a de dois milhões de afiliados à Segurança Social marroquina. Os ciberataques do grupo já revelaram também documentos sobre bens imobiliários de Nasser Bourita, ministro dos Negócios Estrangeiros, de Yassin Mansouri, diretor da agência de inteligência externa (DGED), e de Mohamed Raji, número dois da DGST e responsável pelas escutas.
Segundo Cembrero, para tentar travar estas fugas, o rei demitiu em setembro o general Mostafa Rabil, até então à frente da Direção-Geral de Segurança dos Sistemas de Informação, substituindo-o pelo general Abdellah Boutrig.
Precedente histórico
O artigo estabelece ainda um paralelo com um episódio anterior, remontando ao outono de 2014, quando centenas de documentos e e-mails da diplomacia e dos serviços secretos marroquinos foram divulgados no Twitter — um ataque atribuído, segundo Cembrero, à Direção-Geral de Segurança Externa (DGSE) francesa, em retaliação por um ataque anteriormente sofrido pela sua representante em Rabat.

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