Os Estados Unidos convocaram para 23 e 24 de fevereiro, em Washington, uma nova ronda de negociações diretas entre Marrocos e a Frente Polisario sobre o futuro do Sahara Ocidental. Trata-se da terceira reunião em menos de um mês, depois de encontros realizados no final de janeiro, na capital norte-americana, e a 8 e 9 de fevereiro, em Madrid.
A
iniciativa é liderada por Massad Boulos, emissário do Presidente
Donald Trump para África, com o apoio do embaixador norte-americano
na ONU, Michael Waltz. Participam os ministros dos Negócios
Estrangeiros de Marrocos (Nasser Bourita), da República Árabe
Saarauí Democrática/Frente Polisario (Mohamed Yeslem Beisat), da
Argélia (Ahmed Attaf) e da Mauritânia (Mouamed Salem Ould Merzoug).
O enviado da ONU para o Sahara, Staffan de Mistura, também deverá
estar presente.
Ao contrário do modelo tradicional sob os
auspícios das Nações Unidas, é agora a administração Trump que
assume a coordenação direta do processo, com o objetivo declarado
de acelerar um entendimento político. Boulos afirmou recentemente
que o conflito “já está no caminho da resolução” e manifestou
expectativa de alcançar um acordo antes do verão.
Pressão diplomática
As negociações partem alegadamente de um novo documento marroquino de autonomia com 40 páginas, elaborado por conselheiros do rei Mohamed VI, que sucede à proposta inicial de 2007, que se resumia a uns quantos pontos numa folha A4. Em outubro passado, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 2797, que considera o plano de autonomia marroquino como a “solução mais viável” e estabelece-o como base das conversações sem, no entento, fechar a porta a outros contributos ou soluções.
Segundo informações divulgadas na imprensa espanhola e marroquina, o plano prevê a criação de um parlamento e governo regionais com competências em áreas como saúde, educação, cultura, urbanismo e desenvolvimento económico. Rabat manteria o controlo da defesa, política externa, segurança e moeda.
Conflito histórico e papel dos EUA
O
conflito do Sahara Ocidental remonta a 1975, após a retirada de
Espanha. Marrocos passou a controlar a maior parte do território,
enquanto a Frente Polisario proclamou a República Árabe Saharauí
Democrática e reivindicou a independência. Em 1991, um cessar-fogo
mediado pela ONU criou a missão MINURSO para organizar um referendo
de autodeterminação, que nunca chegou a realizar-se.
Em 2020,
durante o primeiro mandato de Trump, Washington reconheceu a
soberania marroquina sobre o território, no contexto da normalização
das relações entre Marrocos e Israel. Desde então, os EUA
classificam o plano de autonomia como “sério e credível”,
embora mantenham formalmente apoio a uma solução política
negociada.
A nova ronda decorre em pleno Ramadão, o que suscitou reservas logísticas das delegações muçulmanas. Ainda assim, a administração norte-americana mantém a pressão diplomática, procurando obter das partes um compromisso para uma solução “justa, duradoura e mutuamente aceitável”, num processo que Washington pretende concluir nos próximos meses. Desse modo o presidente Donald Trump poderia reivindicar o seu sucesso pessoal de «resolvedor de conflitos», o que lhe daria jeito em ano de eleições intercalares norte-americanas e em vésperas de atribuição de mais um Nobel da Paz...
Fontes: Imprensa internacional

Sem comentários:
Enviar um comentário