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terça-feira, 1 de setembro de 2026

FiSahara chega ao Fórum Cultural do Seixal em setembro



Nos dias 15, 16 e 17 de setembro, o Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal recebe a extensão do FiSahara – Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental, com a apresentação de cinco documentários que dão voz à causa do povo saharaui. A entrada é gratuita, mediante reserva prévia através de formulário online.

O FiSahara é o único festival de cinema do mundo realizado dentro de um campo de refugiados, criado em 2003 por saharauis e pela sociedade civil espanhola, nos campos próximos de Tindouf, no sul da Argélia. Os filmes apresentados chamam a atenção para a ocupação ilegal do Sahara Ocidental por parte de Marrocos e alertam para o desrespeito dos direitos humanos de um povo que, há mais de quatro décadas, vive em campos de refugiados no deserto.


«El Tiempo Después de la Lluvia», de Julia Girós, Pol Picas e Nina Solà

No dia 15 de setembro, às 21.30 horas, é apresentado «El Tiempo Después de la Lluvia», de Julia Girós, Pol Picas e Nina Solà, um documentário espanhol de 2022 que acompanha o regresso de um jovem saharaui ao campo de refugiados onde cresceu. A sessão inclui uma conversa com o público, dinamizada por Omar Mih, representante da Frente Polisário em Portugal, e por um representante da Associação de Amizade Portugal Sahara Ocidental.

«Mariem», de Javier Corcuer

«El Reflejo en la Arena», de Guillermo Marín

«El Susurro del Viento», de Ekain Albite

No dia 16 de setembro, às 21.30 horas, a sessão inclui dois documentários: «Mariem», de Javier Corcuera, uma curta-metragem de 2025 sobre a voz mais importante da música popular saharaui; e «El Reflejo en la Arena», de Guillermo Marín, também de 2025, uma viagem entre lugares, rituais e memórias de um jovem sahharaui. A sessão inclui ainda «El Susurro del Viento», de Ekain Albite, de 2020, que acompanha um jovem forçado a regressar ao campo de refugiados após a morte do pai.


«Aminetu», de Lucia Muñoz


A programação encerra no dia 17 de setembro, às 21.30 horas, com «Aminetu», de Lucia Muñoz, um documentário de 2026 que retrata os eventos de 2009, quando a defensora dos direitos humanos Aminetu Haidar foi expulsa do Sahara Ocidental e iniciou uma greve de fome de 32 dias para exigir o regresso a El Aaiún.

As reservas e mais informações estão disponíveis através do formulário online em cada sessão.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Artigo de opinião no «The Guardian» acusa filme de Christopher Nolan de ajudar a normalizar ocupação do Sahara Ocidental


Photograph: Melinda Sue Gordon/Universal Pictures

A estreia de A Odisseia, de Christopher Nolan, voltou a colocar o Sahara Ocidental no centro da polémica. Num artigo de opinião publicado pelo jornal britânico The Guardian, o escritor e ativista saharaui Mohamed Sleiman Labat considera que a decisão de filmar parte da obra em Dakhla, cidade sob ocupação marroquina, representa uma forma de legitimar e normalizar uma ocupação que dura há cerca de cinco décadas.

O autor sustenta que, enquanto realizadores, jornalistas e ativistas saharauis enfrentam perseguições e até penas de prisão por documentarem a realidade no território, grandes produções internacionais são autorizadas pelas autoridades marroquinas a utilizar a região como cenário cinematográfico. Na sua perspetiva, esta diferença de tratamento contribui para silenciar a população autóctone e reforçar a narrativa oficial de Rabat sobre o território.

Mohamed Labat, o autor do artigo publicado no The Guardian


Labat recorda que o Sahara Ocidental continua a ser considerado pelas Nações Unidas um território não autónomo pendente de descolonização e acusa Marrocos de explorar os recursos naturais e a paisagem do território sem o consentimento do povo saharaui. O articulista afirma que a escolha de Dakhla para filmar uma adaptação da epopeia de Homero, centrada em temas como o exílio, a separação familiar e a luta pelo regresso a casa, é particularmente contraditória perante a realidade vivida pelos saharauis.

O texto surge um ano depois de o Festival Internacional de Cinema do Sahara (FiSahara) e várias personalidades do mundo do cinema terem criticado Christopher Nolan pela decisão de filmar em território ocupado, alertando que essa opção poderia contribuir para "branquear" a ocupação marroquina.

Fonte: The Guardian.

Mohamed Sleiman Labat - o autor do artigo de Opinião - é um artista saharaui multidisciplinar que vive nos campos de refugiados saharauis, no sudoeste da Argélia. A sua arte inspira-se na vida passada e presente do povo saharaui através de diferentes práticas, incluindo cinema, escrita e arte comunitária. É diretor do Motif Art Studio, no campo de refugiados de Samara, um pequeno espaço dedicado à produção e à experimentação artísticas.

terça-feira, 14 de julho de 2026

"The Odyssey" de Christopher Nolan tem um problema colonial



Um artigo de opinião de Sarah Yerkes, publicado a 9 de julho no Carnegie Endowment, argumenta que a nova adaptação de Christopher Nolan à Odisseia de Homero, com estreia marcada para 17 de Julho, corre o risco de ver o seu sucesso comercial ensombrado pela polémica em torno de gravações realizadas em Dakhla, no Sahara Ocidental — território que o direito internacional continua a considerar ocupado por Marrocos.

Segundo a autora, apesar de o filme contar com um elenco de peso, o maior orçamento de sempre de Nolan e fortes vendas antecipadas de bilhetes — sobretudo após a estreia em Londres na terça-feira —, a cobertura mediática tem ignorado largamente aquele que considera ser o maior problema da produção: a escolha de filmar cenas num território ocupado sem o consentimento do povo indígena saharaui.

Yerkes recorda que Nolan atribuiu parte da sua inspiração à tradução de 2017 de Emily Wilson, elogiada por dar destaque a temas como colonialismo, despojamento e exploração, e por devolver humanidade às personagens escravizadas e colonizadas do texto original. O realizador defendeu ainda publicamente as suas escolhas de casting diverso perante críticas da direita. No entanto, segundo a autora, nem Nolan nem a Universal Pictures se pronunciaram sobre a decisão de filmar em território considerado colonizado ao abrigo do direito internacional, o que levou a acusações de que a produção acaba por facilitar precisamente aquilo que alega denunciar.

O artigo explica que, para Marrocos, os territórios que compõem o Sahara Ocidental são as "províncias do sul" e parte indiscutível do reino. Contudo, sublinha a autora, a ONU, o Tribunal Internacional de Justiça e o mais alto tribunal da UE têm afirmado consistentemente que Dakhla integra um território não autónomo e ocupado, apesar de a opinião pública global ter vindo a inclinar-se progressivamente a favor da posição marroquina nos últimos anos.


Christopher Nolan

Yerkes detalha ainda a estratégia de longa data de Marrocos para atrair produções cinematográficas internacionais, com incentivos como um reembolso de 30% sobre despesas elegíveis, simplificação aduaneira para equipamento, isenções de IVA e descontos com a Royal Air Maroc, além do apoio ocasional de meios militares — uma política impulsionada pelo próprio rei Mohamed VI, que aumentou dez vezes os recursos alocados à produção cinematográfica e criou o Festival Internacional de Cinema de Marrakech em 2001. Segundo o artigo, em 2025 o Centro Cinematográfico Marroquino gerou mais de 165 milhões de dólares em investimento local através de 23 filmes estrangeiros.

A autora destaca que a voz mais crítica contra a filmagem em Dakhla foi o Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental (FiSahara), que pediu a Nolan a suspensão da produção, citando a "ocupação militar" e a "repressão brutal" contra o povo saharaui, e que atualmente apela ao boicote do filme. Outros ativistas de direitos humanos, segundo o texto, acusam Nolan de contribuir para branquear a ocupação marroquina, sobretudo por se tratar da primeira grande produção de Hollywood a filmar no território disputado — algo que o próprio governo marroquino já afirmou explicitamente querer usar como porta de entrada para futuras produções na região.

Yerkes argumenta que esta seria a controvérsia mais fácil de evitar, já que nem a história nem o texto da Odisseia têm qualquer ligação ao Sahara Ocidental, e que a escolha do local parece ter sido puramente estética e financeira — Dakhla representa apenas cerca de quatro dos 91 dias de rodagem do filme, distribuídos por vários países e várias localizações dentro de Marrocos.

O artigo termina citando a produtora marroquina Lamia Chraibi, que numa entrevista à Variety defendeu a necessidade de os cineastas da região contarem as suas próprias histórias para combater narrativas orientalistas. Segundo Yerkes, é exatamente isso que Marrocos está a fazer com "The Odyssey" — a afirmar o seu próprio poder narrativo enquanto nega esse mesmo poder ao povo saharaui —, concluindo que Nolan tem ainda a oportunidade de mudar esse cenário, bastando para isso reconhecer publicamente a controvérsia em torno do Sahara Ocidental em vez de a ignorar.

Fonte: Sarah Yerkes, "Nolan's 'The Odyssey' Has a Colonialism Problem", Carnegie Endowment for International Peace, 9 de julho de 2026.

Sarah Yerkes é investigadora sénior no Programa do Médio Oriente da Carnegie, onde a sua investigação se centra na evolução política, económica e de segurança da Tunísia e do Norte de África

terça-feira, 7 de julho de 2026

APELO AO BOICOTE DO FILME “ODISSEIA”: O QUE ESTÁ EM CAUSA - Comunicado da AAPSO

 


A muito aguardada e publicitada estreia mundial do filme “Odisseia”, de Christopher Nolan, teve lugar ontem, 6 de Julho, em Londres. Em Lisboa iniciará a sua exibição no dia 16.  O   FiSahara - Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental, apelou ao boicote do seu visionamento. “Odisseia” foi em parte filmado nas praias de Dakhla, cidade do Sahara Ocidental que, de acordo com as Nações Unidas, é um território não-autónomo pendente de descolonização, ilegalmente ocupado por Marrocos desde 1975. 

«Quando Christopher Nolan pisar o tapete vermelho a caminho da exibição da estreia, estará também a pisar o Direito Internacional, nomeadamente o direito do povo saharaui ao seu território e aos seus recursos, que estão a ser explorados ilegalmente por Marrocos, e o direito dos saharauis a realizarem os seus próprios filmes nesse território, sem receio de serem presos», afirmou Maria Carrión, diretora executiva do FiSahara.

Em Julho de  2025, Nolan e a sua equipa,  incluindo Matt Damon,  Zendaya e Charlize  Theron, filmaram em Dakhla. Ao longo do último ano, o FiSahara procurou obter uma resposta de Nolan, das produtoras Syncopy e Universal Pictures a estas questões: por que razão escolheram este local? Estão cientes da repressão brutal de Marrocos contra o povo saharaui e irão incluir no filme as cenas filmadas sem o consentimento dos legítimos proprietários da Duna de Areia Branca, onde foram filmadas? O silêncio foi a resposta. «Christopher Nolan teve um ano para conhecer a terra de onde a minha família foi forçada a fugir em 1975 sob bombas de fósforo branco», afirmou o cineasta saharaui Brahim Chagaf, cuja curtametragem Toufa retrata o êxodo de milhares de saharauis para o exílio na Argélia durante a invasão militar marroquina. «Cresci nos campos de refugiados saharauis na Argélia e hoje, como cineasta saharaui da cidade ocupada de Dakhla, não posso entrar livremente na minha terra natal para contar as minhas próprias histórias. Essa é a grande contradição por trás desta paisagem: enquanto algumas pessoas privilegiadas, como Nolan, podem transformá-la num filme, outras continuam à espera do dia em que possam simplesmente regressar a ela».

O actor Javier Bardem declarou: «Gostaria de encorajar o Sr. Nolan a compreender a história da repressão do regime marroquino contra o povo saharaui e as suas violações sistemáticas dos direitos  humanos  contra  os  saharauis  que  vivem  sob  a  sua  ocupação  ilegal,  as  quais  estão documentadas por organizações como a Amnistia Internacional e muitas outras. Realizei um filme sobre o Sahara Ocidental há alguns anos; esta é uma questão profundamente pessoal para mim».

A  Associação  de  Amizade  Portugal-Sahara  Ocidental  (AAPSO)  junta-se  ao  apelo  do FiSahara e de outras organizações de vários países de boicote activo do “Odisseia”, explicando os motivos que fundamentam esta opção e divulgando a causa saharaui. Pede também à comunicação social e aos críticos de cinema que não ignorem o facto de parte do filme ter sido rodado num território ocupado ilegalmente, normalizando assim a ocupação, utilizando os seus  recursos  a  convite  da  potência  colonizadora  e  ignorando  a  população  saharaui,  que  é deliberadamente discriminada e reprimida. Tal como Ulisses na “Odisseia” procura regressar a Ítaca e recuperar a sua pátria, o povo saharaui quer regressar ao Sahara Ocidental através da realização de um referendo de autodeterminação, sob supervisão da ONU, há muito prometido e há muito bloqueado por Marrocos e pelos seus principais aliados. Esta é uma verdadeira odisseia do nosso tempo.  


Lisboa, 6 de Julho de 2026