Ángel Luis de la Calle, correspondente em Madrid do «Expresso», publica na edição de ontem (16 de fevereiro de 2026) do semanário um artigo sobre as recentes conversações realizadas em Madrid, sob iniciativa dos EUA e, em menor grau, da ONU.
A diplomacia dos Estados Unidos escolheu Madrid para relançar um dos conflitos mais antigos da agenda internacional: o do Sahara Ocidental, antiga colónia espanhola, em disputa desde 1975 entre Marrocos e a Frente Polisário (FP), que representa uma parte significativa da população saharauí – começa por referir o artigo.
Segundo
relata Ángel Luis de la Calle, representantes das partes envolvidas
reuniram-se discretamente na capital espanhola para definir o chamado
“Roteiro Madrid 2026”, um quadro de “discussões” — termo
preferido por Washington em detrimento de “negociações” — com
o objetivo de alcançar um acordo até ao final do ano. O Presidente
norte-americano, Donald Trump, acompanha o processo de perto e
pretende apresentar o Sahara
Ocidental como mais um êxito diplomático antes das eleições
intercalares de novembro.
Embora Espanha mantenha, formalmente,
o estatuto de potência administradora do território, o seu papel
limita-se ao de facilitador. O ministro dos Negócios Estrangeiros
espanhol, José Manuel Albares, manteve encontros separados com os
seus homólogos de Marrocos, Argélia e Mauritânia, países
diretamente implicados nas conversações. A coordenação esteve a
cargo do enviado especial de Trump para África, Massad Boulos.
Do abandono espanhol à guerra intermitente
O
conflito remonta à retirada apressada de Espanha em 1975, no
contexto da Marcha Verde organizada por Rabat, que culminou na
assinatura do Acordo Tripartido de Madrid. Desde então, confrontos
entre a Frente Polisário e as forças marroquinas alternaram com
períodos de cessar-fogo. A trégua de 1991 durou até 2020, quando
as hostilidades foram retomadas.
Atualmente, Marrocos controla
cerca de 80% do território, enquanto a Polisario
mantém presença nos restantes 20%, junto à fronteira com a
Argélia. Em campos de refugiados nos arredores de Tinduf, vivem mais
de 150 mil saharauís
dependentes de ajuda internacional.
A
Resolução 2797
O ponto de partida das discussões – refere o artigo - é a Resolução 2797 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em outubro de 2025, que propõe uma “verdadeira autonomia” como solução “justa, duradoura e aceitável”. O texto afasta, na prática, a realização do referendo de autodeterminação defendido durante décadas pelas Nações Unidas e insistido pela Polisario.
Apesar
disso, o Sahara
Ocidental continua a ser classificado pela ONU como território por
descolonizar, e decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia
reiteram que o território é “separado e distinto” de Marrocos e
que o povo saharaui
tem direito à autodeterminação.
Washington reconheceu a
soberania marroquina sobre o território ainda no primeiro mandato de
Trump, e Rabat tem consolidado apoios internacionais à sua proposta
de autonomia. França, Espanha e recentemente a União Europeia
manifestaram-se favoráveis a uma “autonomia genuína” como
solução viável.
A proposta de autonomia
A proposta marroquina, apresentada em Madrid e rejeitada pela Polisario por princípio, inspira-se no modelo autonómico espanhol. Prevê um Parlamento eleito, Governo próprio, forças policiais e competências em áreas como saúde, educação, fiscalidade e justiça – refere o jornalista. Rabat manteria controlo sobre defesa, política externa e moeda, reservando ainda ao rei poder de veto sobre o chefe do Executivo regional.
O estatuto teria de ser aprovado por referendo nacional em Marrocos e integrado na Constituição. A Frente Polisario, liderada por Brahim Ghali, afirma estar disponível para “flexibilidade e cooperação”, mas insiste que a decisão final deve caber ao povo saharauí.
Comité técnico e estabilidade regional
Segundo fontes citadas pelo correspondente, foi acordada a criação de um comité técnico para desenvolver um novo projeto de autonomia com base num documento de 40 páginas preparado por Rabat. O texto aborda temas sensíveis como o acesso aos recursos naturais, o recenseamento da população e o papel da Polisario. Novas reuniões deverão realizar-se nos próximos meses.
Uma solução para o conflito poderia contribuir para estabilizar uma região marcada pela rivalidade entre Marrocos e Argélia, que mantêm fronteiras fechadas desde 1994 – refere Ángel Luis de la Calle. Que conclui: Para Espanha, um entendimento reduziria tensões em torno de Ceuta e Melilha, facilitaria a cooperação migratória e clarificaria a delimitação marítima nas Canárias.
Como sublinha o correspondente do Expresso em Madrid, o Sahara Ocidental surge assim como o próximo teste à ambição diplomática de Donald Trump — um conflito histórico que o Presidente norte-americano quer poder afirmar que resolveu.

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