Redação La Nouvelle Republique (LNR)
O Reino de Marrocos, que atravessa dificuldades, espera receber um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) antes do final de março. A informação foi dada recentemente pela ministra marroquina da Economia e Finanças, Nadia Fettah, em entrevista ao “Al-Sharq-Bloomberg”. De acordo com a ministra, o acordo com o FMI incidirá sobre uma linha de crédito flexível, cuja duração não foi especificada. Acrescentou que “este mecanismo tem por objetivo evitar o aparecimento de crises e reforçar as reservas de divisas do reino”.
E não é a primeira vez que Rabat pede apoio financeiro ao FMI.
Em abril de 2023, segundo um comunicado de imprensa do FMI publicado na altura, foi aprovada para Marrocos uma linha de crédito flexível de cinco mil milhões de dólares, por um período de dois anos.
Segundo alguns observadores, este novo empréstimo deverá ser de um montante equivalente ao de 2023, ou seja, cinco mil milhões de dólares. O recurso recorrente de Marrocos ao FMI é a consequência da sua pesada dívida externa.
Em 2023, o total da dívida externa do Reino (pública e privada) era de 69,30 mil milhões de dólares. Deste montante, 10,21 mil milhões de dólares representavam dívida externa privada não garantida (fonte: FMI). A estrutura desta dívida é composta por 55,33 mil milhões de dólares de dívida de médio e longo prazo e 13,97 mil milhões de dólares de dívida de curto prazo (menos de seis meses).
Em 2023, o serviço da dívida, em capital e juros, ascendia a 5 mil milhões de dólares. O mesmo montante que Marrocos pediu emprestado ao FMI em 2023. Segundo alguns analistas, e apesar da propaganda do Makhzen que tenta vender a imagem de uma “história de sucesso económico ao estilo marroquino”, nada indica que o equilíbrio financeiro externo irá melhorar num futuro próximo. Pelo contrário, há todas as razões para crer que a situação se irá agravar no futuro.
Em 2024, o défice da balança comercial marroquina era de 31,50 mil milhões de dólares.
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O custo de infraestruturas de transporte e a renovação e construção dos estádios para o Mundial de Futebol 2030 pode revelar-se um enorme «buraco» financeiro... |
Nos últimos anos, o desequilíbrio do comércio do reino tornou-se estrutural. Para além dos fosfatos e da agricultura, o sector industrial depende em grande medida de factores de produção importados. Gera pouco valor acrescentado a partir das exportações. Daí o pesado défice da balança comercial.
Esta situação mantém-se no início de 2025, com um défice do comércio externo de 2,5 mil milhões de dólares registado em janeiro.
As importantes receitas em divisas geradas pelo turismo (11,56 mil milhões de dólares) e as remessas da diáspora marroquina (12 mil milhões de dólares) não são suficientes para compensar o pesado défice da balança comercial de mercadorias. Todos os anos, Marrocos tem de pedir emprestado um pouco mais de 5 mil milhões de dólares para financiar a sua balança de pagamentos negativa e estabilizar as suas reservas de divisas, que atualmente cobrem apenas cinco meses de importações.
Mas, segundo alguns analistas que acompanham a evolução da economia marroquina, o processo de endividamento é suscetível de se agravar a médio prazo.
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Linhas ferroviárias de alta velocidade: um pesado fardo financeiro! |
À semelhança de outros países da margem sul do Mediterrâneo, Marrocos sofreu uma grave seca nos últimos cinco anos. As barragens e os lençóis de água estão no seu nível mais baixo. Para fazer face a esta situação, o governo marroquino optou pela dessalinização da água do mar. Atualmente, o reino dispõe apenas de uma pequena capacidade de dessalinização da água do mar, que não ultrapassa os 500.000 m3 por dia. Destes, 167.000 m3 por dia são produzidos pelo Office chérifien des phosphates (OCP). A produção de fosfatos é um grande consumidor de água. Restam apenas 330.000 m3 de água dessalinizada para abastecer a população. Para fazer face ao stress hídrico, Marrocos planeia instalar uma nova capacidade de produção de água dessalinizada de 3,2 milhões de m3 por dia até 2030. Esta capacidade é quase igual à atual capacidade da Argélia, que é de 3,7 milhões de m3 por dia.
"Para cumprir as especificações da FIFA para acolher o Campeonato do Mundo de 2030, Marrocos terá de investir fortemente na construção de infraestruturas desportivas e de transportes. Só o preço de compra de 168 comboios é superior a 2,8 mil milhões de euros."
Para levar a cabo estes projectos, Rabat precisa de angariar entre 5,5 e 6 mil milhões de dólares. A obtenção de capitais estrangeiros para projectos deste tipo não é tarefa fácil. No início de 2024, os trabalhos da central de dessalinização de Casablanca só puderam ser iniciados graças a um empréstimo de 250 milhões de euros do Governo espanhol. Obviamente, este financiamento beneficiará as empresas espanholas, que foram encarregadas de construir e explorar a central durante 25 anos. Dois outros empréstimos, num total de 62 milhões de euros, serão concedidos por outros bancos espanhóis em 17 de junho de 2024 para completar o financiamento desta central. Com uma capacidade de produção de 548 000 m3 de água por dia, a central deverá custar 1,04 mil milhões de euros. De momento, o financiamento espanhol representa apenas 30% do custo total desta infraestrutura. O mesmo problema se coloca com o projeto da central de dessalinização de Rabat. Em outubro de 2024, durante a visita do Presidente francês Emanuel Macron a Marrocos, foi pomposamente assinado um acordo para a construção da central de dessalinização da água do mar a favor da empresa francesa Veolia.
O custo desta futura infraestrutura ultrapassa os mil milhões de euros. As dificuldades de financiamento atrasaram o lançamento do projeto. O governo francês, que tem uma dívida pública de mais de 3,228 mil milhões de euros, está relutante em pedir ao Tesouro francês que conceda a Marrocos um empréstimo desta dimensão. Tanto mais que a França já concedeu um empréstimo de 781 milhões de euros a Marrocos, no início de março de 2025, para a compra de 18 comboios de alta velocidade da Alstom. Para cumprir as especificações da FIFA para acolher o Campeonato do Mundo de 2030, Marrocos terá de investir fortemente na construção de infra-estruturas desportivas e de transportes. Só o preço de compra de 168 comboios é superior a 2,8 mil milhões de euros.
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O Futebol tal seja o «Ópio» do Povo, mas a droga está muito 'cara' e o seu custo será pago por gerações... |
Serão necessários pelo menos mais 10 mil milhões de dólares para construir a linha ferroviária de alta velocidade Kenitra-Marraquexe-Agadir e outros 7 mil milhões de dólares para construir as infra-estruturas desportivas que acolherão os jogos do Campeonato do Mundo de 2030. De acordo com as primeiras estimativas, Marrocos terá de recorrer a empréstimos externos de mais de 30 mil milhões de dólares para poder organizar um Campeonato do Mundo.
Poderá a economia marroquina, com um produto interno bruto inferior a 157 mil milhões de dólares, suportar uma dívida externa de mais de 100 mil milhões de dólares em 2030?
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