domingo, 14 de julho de 2019

Ser jornalista no Sahara Ocidental, um trabalho de extremo risco



Fonte: Euronews / Por Yaiza Martín-Fradejas (@YaizaMartinFr) - Nazha El Khalidi, reporter saharaui do portal independentista Equipe Media, denuncia o acosso judicial por parte das autoridades marroquinas. No passado 4 de dezembro foi detida enquanto filmava uma manifestação em El Aaiún por não ter carteira de jornalísta. Ora se os membros de Equipe Media não cumprem este requisito é porque não reconhecem a soberania da ocupação marroquina no território.

A 18 de março passado teve lugar a primeira audiência do julgamento, onde El Khalidi foi acusada de “reclamar ou usurpar um título associado a uma profissão regulada pela lei sem cumprir as condições necessárias para o seu desempenho”. Este delito tem um enquadramento penal entre 3 meses a dois anos de prisão e uma multa de entre 12 e 500 euros.

No dia 8 de julho a jornalistas foi condenada a pagar uma multa de 400 euros. No entanto, em declarações exclusivas à Euronews reconheceu que sabe que a situação voltará a repetir-se.

“Esta sentença significa que o Governo marroquino vai voltar a atacar-me cada vez que procure documentar as violências policiais contra os saharauis ou procure simplesmente exercer o jornalismo” refere a jornalista.

Nazha El Khalidi explicou que foi detida pelo trabalho jornalístico que exerce na Equipe Media, que mostra as violações dos DireitosHumanos no Sahara Ocidental.

Um julgamento opaco, sem observadores internacionais
Uma das peculiaridades deste processo judicial foi a falta de transparência. Três advogados espanhóis, (Inés Miranda Navarro, Miguel Ángel Jerez Juan e José María Costa Serra), pertencentes ao Conselho Geral de Advocacia do Estado, tentaram entrar no Sahara ocupado no dia 23 de junho para assistir ao julgamento contra Khatari El-Khalidi. Contudo, as autoridades marroquinas impediram o seu acesso ao território. Na verdade, eles nem sequer foram autorizados a sair do avião, vindos da Gran Canaria.

Inés Miranda, defensora da causa saharaui, afirmou que esta foi a primeira vez que Marrocos lhe negou a sua presença num tribunal.

Outros dois juristas, representantes da Associação de Advogados Americanos, também foram expulsos no aeroporto de Casablanca sem qualquer explicação. O objetivo dos cinco observadores internacionais era garantir que o julgamento se desenrolasse com todas as garantias.

Por seu lado, o Observatório para a Proteção dos Defensores dos Direitos Humanos (OPDD) descreveu como assédio judicial o tratamento recebido pelo jornalista e condenou veementemente este julgamento, cujo objetivo seria reprimir qualquer atividade em favor dos direitos humanos, de acordo com este organismo. O OPDD também instou as autoridades marroquinas a garantir o direito de levar a cabo atividades pacíficas e legítimas e exigiu o fim de todas as formas de assédio contra os defensores dos direitos humanos no Sahara Ocidental.

Jornalismo sob repressão no Sahara ocupado
Nazha El Khalidi, jornalista do portal independente Equipe Media, foi detida pela polícia marroquina a 4 de dezembro, quando estava filmando e transmitindo ao vivo via Facebook uma manifestação em ElAaiún em protesto contra a ocupação de Marrocos e a reivindicação da independência do Sahara. Ocidental Depois de ser presa, ela foi levada para uma delegacia onde ficou detida durante quatro horas. A polícia interrogou-a durante esse tempo e confiscou-lhe o telemóvel sem autorização.

No julgamento, El Khalidi disse ao juiz que foi vítima de "vingança" pelas suas atividades como jornalista de um meio de comunicação (EquipeMedia) “confiável e independente”.

"Quero denunciar o bloqueio mediático que o Marrocos está impondo ao território do Sahara Ocidental. Apelamos também a nível internacional para pressionar o governo marroquino e abrir o território a observadores internacionais e agências noticiosas para que a violação dos direitos humanos do povo saharaui possa ser documentada ", disse El Khalidi à Euronews.

Este caso mostra as limitações do trabalho jornalístico no Sahara Ocidental. El Khalidi é uma das saharauis que exercem o jornalismo no Sahara ocupado em condições de assédio, violência e repressão, muitas vezes sujeitos a extorsão e detenção. A 11 de junho, a organização Repórteres Sem Fronteiras publicou o primeirorelatório sobre a liberdade de imprensa no Sahara Ocidental, que revela como esse território se tornou um "buraco negro" de informação e um perigo extremo para os jornalistas.


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