quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Marrocos : austeridade para o povo, mas não para o Palácio - Entrevista a Omar Radi


Entrevista a Omar Radi, militante da ATTAC/CADTM Maroc, jornalista do semanário marroquino TelQuel

Os deputados marroquinos aprovaram o orçamento 2014. O que representa este orçamento para a população marroquina?

O projeto de orçamento 2014 inscreve-se na continuidade das leis de finanças anteriores. Ataca o nível de vida da maioria dos marroquinos, ao seu poder de compra (por exemplo através do aumento do IVA de 7 para 10% e de 14 para 20%, incluindo os produtos de primeira necessidade) ao mesmo tempo que concede novos incentivos fiscais aos empresários  - em torno dos 30 mil milhões de dirhams (2,67 mil milhões de euros). O orçamento do Palácio Real teve um novo aumento. O reu custa à população marroquina cerca de 700 000 euros por dia. Os orçamentos da Defesa, do ministério do Interior e dos Serviços de Informações continuam a ser dos mais elevados, e esperamos um aumento no orçamento da Defesa, já que as armas continua a ser a prioridade número um do Estado marroquino, enquanto os hospitais estão mal equipados, e há apenas um lugar na Universidade para cada quatro estudantes... Estamos numa dinâmica de austeridade semelhante à da Europa.



Confirma que o projeto do TGV Casablanca-Tanger tem sido alvo de muitas contestações? E que existem outros « grandes projetos inúteis e impostos» a Marrocos ?

Em 2007, como Marrocos contava com o apoio da França face à Argélia sobre a questão do Sahara no seio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o rei firmou um acordo com a França, durante uma visita de Sarkozy a Marrocos, para a construção da linha TGV exclusivamente por grupos franceses. As multinacionais que beneficiam com o projeto são a Alstom e a SNCF. E sem que haja concurso internacional, conforme exigido pela legislação e as regras de concorrência europeias. Isso levou o BEI (Banco Europeu de Investimento), então sob presidência alemã, a negar um empréstimo ao Marrocos para a compra de combóios de alta velocidade, a Alemanha e a sua empresa nacional Siemens também querem vender TGVs. ..

O governo e o parlamento marroquino não foram consultados, o que causou grande descontentamento. A oposição ao TGV tornou-se num apelo a um debate nacional. Casablanca-Tânger é o trajeto mais coberto por estradas, já existe uma linha férrea, enquanto algumas áreas não são servidas nem estrada bem por comboio . Por exemplo, enquanto nós contestávamos o TGV , 70 pessoas morreram num acidente numa estrada perigosa de montanha entre Marraquexe e Ouarzazate. Há mais de 10 anos, que os habitantes vêm pedindo um túnel para tornar o tráfego mais seguro. Este escândalo não pôs em xeque o projeto TGV cujo dinheiro poderia ser usado para instalações de maior prioridade. A vida de um marroquino não tem nenhum valor para o Estado e aqueles que decidem. Até à data, estamos perante um facto consumado: os carris estão no lugar e 50 % do obra está feita. Vai custar cerca de 5 mil milhões de euros ou seja, por comparação, 900 universidades.

Se a linha Casablanca-Tânger é emblemática do "grandes projetos desnecessários e impostos", também podemos mencionar o projeto da central solar de Ouarzazate no quadro da Desertec (que visa aproveitar o potencial das energia renováveis dos países do Médio Oriente e Norte da África para cobrir as necessidades de eletricidade da Europa), onde o governo marroquino se endividou bastante. A energia solar destina-se a exportação e não a uso local. O projeto tem todo o ar de se poder tornar um «elefante branco». A questão de oportunidades não é clara (quais serão ao países compradores? A que preço). Além disso, estas centrais de energia solar necessitam ser resfriadoe e para isso será utilizada a água subterrânea de Ouarzazate, já muito rara. Isso prenuncia um desastre ecológico na região que o Estado está tentando esconder.



Qual é o estado da resistência hoje? O movimento de 20 de fevereiro continua ativo?

O movimento 20 de fevereiro enfraqueceu, foi praticamente dissolvido, por várias razões. A repressão policial e a prisão de ativistas quebrou o movimento. O regime aplica uma estratégia seletiva e cerca de 200 pessoas, os dirigentes do do movimento, estão na prisão. Os Media escondem a realidade da opinião pública marroquina e não transmitiu ou divulgou as ações do 20F. Ao mesmo tempo, o movimento sofria de contradições internas, conflitos entre as diversas componentes, até mesmo a autocensura - às vezes gostaríamos de ter ido mais longe no braço-de-ferro com o regime - e, finalmente, a ausência de alternativas: expressa-se raiva, mas não se formulam nenhumas alternativas reais, soluções concretas, face ao regime político vigente.

Depois de três anos agitados, estamos num período de paz-podre. As pessoas sentem-se exaustas, há poucas motivações. Surgem lutas sociais esporádicas e esparsas: a luta pela libertação dos presos, os trabalhadores realizam greves, subsiste um movimento de «ocupas», as lutas dos licenciados desempregados, as lutas das mulheres contra o microcrédito. Há apelos à mobilização, para construir algo e fazer um balanço dos pontos fortes e fracos do movimento. Estamos um pouco "em ponto morto", as pessoas tentam recuperar forças.

Nota
(1) O movimento do 20 de fevereiro nasceu em fevereiro de 2011, na esteira da Primavera Árabe,  depois da fuga do tunisino Ben Ali e da deposição de Mubarak no Egito.
                                                   

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