sábado, 31 de julho de 2021

Guerra no Sahara Ocidental - Comunicados militares nºs 261 e 262

 


Os comunicados militares divulgados nos últimos dois dias (261 e 262) pelo Ministério de Defesa Nacional da RASD assinalam os mais recentes ataques das unidades do ELPS contra o dispositivo militar de ocupação marroquino ao longo do muro.

 

Comunicado militar nº. 261

Sexta-feira, 30 de julho 2021

01. e 02. - Unidades do Exército de Libertação do Povo Saharaui atacaram bases e trincheiras do exército de ocupação marroquino nas zonas de Graret Fersike e Sabjat Tnushad, ambas no setor de Mahabes (nordeste do SO)

03 e 04. - Também as áreas de Graret Lehdid e Rus Ben Omaira, no setor de Farsia (norte do SO) foram intensamente bombardeadas pela artilharia saharauiu. Numa foi avistada uma densa coluna de fuma saindo do objetivo atingido, enquanto na outra fortes explosões fizeram abalar fortemente a zona.

 

 

Comunicado militar nº. 262

Sábado, 31 de julho 2021

01. e 02. Unidades do ELPS lançaram uma sárie de bombardeamentos contra concentrações de tropas de ocupação nas trincheiras das zonas de Rus Sebti e de Udey Al Dhamran, ambas situadas no setor de Mahbes (nordeste do SO).

ECS/SPS

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Guerra no Sahara Ocidental - Comunicados militares nºs 258, 259 e 260

 


Os comunicados militares divulgados nos últimos três dias (258, 259 e 260) pelo Ministério de Defesa Nacional da RASD dão conta dos mais recentes ataques das unidades do ELPS contra o dispositivo militar de ocupação marroquino ao longo do muro.

 

Comunicado militar nº. 258

Terça-feira, 27 de julho 2021

01. - Bombardeada a guarnição militar marroquina na área de Steilat Ould Bougerin no setor Auserd (sul do SO).

02. - Bombardeada a área do muro de Fadrat al-Ish no setor Hauza (norte do SO).

03. - Fogo de artilharia pesada sobre a área de Graret Lehdid no setor Farsia (norte do SO).

 

Comunicado militar nº. 259

Quarta-feira, 28 de julho 2021

01. e 02. - Intensos bombardeios no setor de Mahbes (nordeste do SO), contra forças de ocupação nas áreas de Umm Rukba e de Umm Legta.

03. - Bombardeada a área de Graret Lahdid no setor de Farsia (norte do SO)

04. Violentos bombardeamentos sobre a área de Esteila Ould Bugrain no setor Auserd (sul do SO).

 

Comunicado militar nº. 259

Quinta-feira, 29 de julho 2021

01. e 02. - Destacamentos avançados do Exército de Libertação Popular Saharaui intensificaram os bombardeamentos contra posições do inimigo nas áreas de Fadrat Abrouk e de Harishat Dirt no setor de Hauza (norte do SO).

03. - Bombardeadas as trincheiras das forças ocupantes na área de Rus Sebti no setor de Mahbes.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Sultana Khaya vítima de tentativa de assasinato

 


ECS. Bojador ocupada. | Salva por alguns centímetros de cair, a conhecida ativista saharaui, Sultana Khaya, que vive nos territórios saharauis ocupados por Marrocos, especificamente na cidade de Bojador, sofreu este meio-dia um ataque com o objectivo de lhe tirar a vida. Um agente das forças de ocupação marroquinas invadiu a açoteia da sua casa com uma grua, apressou-se e prendeu o seu corpo a uma espécie de arpão com o qual presumivelmente a queria empurrar e arrastar através do telhado com o objectivo de atirá-la para a rua de uma altura considerável. Sultana lutou com o "gancho" que o polícia marroquino estava a usar para a puxar para baixo e finalmente escapou por centímetros quando quase metade do seu corpo já estava fora.

Testemunhas oculares, falando com a plataforma de informação saharaui ECS, disseram que a ativista saharaui "salvou-se por milagre".

Sultana Khaya e a sua irmã, Luaara Khaya, sofreram mais um ataque este fim-de-semana pelas forças de ocupação marroquinas, o quinto desde novembro de 2020, quando o regime marroquino a colocou e à sua família sob prisão domiciliária por apoiar abertamente a independência do Sahara Ocidental e reivindicar os seus direitos. Tanto a Frente Polisario, a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch, o governo saharaui e várias organizações denunciaram nestes 7 meses de cerco as ações deploráveis e abjetas do regime marroquino com uma activista saharaui que apenas reivindica os seus direitos humanos e políticos reconhecidos pela ONU e pela UA.


República Saharaui e a República da Argélia revêem e ratificam delimitação topográfica da fronteira

 

O coronel argelino Zarhoune Omar Toufik  e o comandante saharaui Sidi Uld Wagal


A Argélia e o Sahara Ocidental marcam as suas fronteiras com pontos topográficos sobre os quais existe um marco em cada fronteira com os nomes do país e um ponto de referência.

Uma comissão conjunta da Argélia e da República Saharaui composta pelo coronel Zarhoune Omar Toufik responsável pela geografia e exploração do Ministério da Defesa Nacional argelino e pelo comandante saharaui Sidi Uld Wagal, Secretário-Geral do Ministério da Defesa da República saharaui, ratificou e supervisionou os pontos de referência geodésicos das fronteiras dos dois países.

A revista do Ministério da Defesa argelino, Al Djeich, no seu nº 697 do mês de Julho de 2021 publica a notícia da revisão e definição das fronteiras da República Democrática Saharaui RASD com as fronteiras que tem com a República da Argélia. Após um longo processo de estudo e investigação realizado por um comité conjunto de peritos saharauis e argelinos, cujo trabalho teve início em maio deste ano e terminou a 15 de junho de 2021 com um relatório em que os pontos topográficos e geodésicos bem marcados e reconhecidos nas fronteiras dos dois países foram dados a conhecer.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Alemanha: apelo para contrariar a "hegemonia" de Marrocos no Magrebe

 

TSA - Argel (Francês) - 26-07-2021 - Num contexto marcado pelo escândalo retumbante da espionagem de muitos países pelo Reino (Alauita), incluindo os seus aliados, uma nota de um renomado instituto alemão recomenda aos Estados membros da União Europeia que revejam a sua estratégia na região do Magrebe e que trabalhem para acabar com "as tentações hegemónicas" de Marrocos.

O conteúdo da nota é uma reprovação à política europeia que tem favorecido Marrocos em detrimento dos outros países do Magrebe. O seu autor recomenda em substância fazer parar Marrocos nas suas "tentações hegemónicas" sobre os outros países do Magrebe e "deixar de ajudar o seu crescimento e desenvolvimento económico", o que, ainda segundo a nota, "impede assim a emergência da Argélia e da Tunísia".

A nota foi emanada pelo Stiftung Wissenschaft und Politik (SWP, Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança), uma instituição fundada em 1962 que aconselha o Parlamento alemão.

Descreve a política marroquina na região como "tentações hegemónicas" e apela a que se ponha termo a ela. Intitulada "Rivalidades magrebinas sobre a África subsahariana: Argélia e Tunísia procuram seguir os passos de Marrocos", a nota, que não é oficial, é uma espécie de orientação para a Alemanha e a UE sobre a política a ser conduzida no Magrebe. A nota é de certa forma uma censura pela grandeza concedida pela UE ao Reino, em detrimento dos outros Estados da região.

"A política subsahariana de Marrocos exacerbou as tensões com a Argélia e despertou ambições na Tunísia. Argel (...) procura contrariar os avanços de Rabat. Tunes, por seu lado, está a tentar seguir os passos de Rabat, esperando que o estreitamento das relações com África estimule o crescimento económico", escreve a autora da nota, a Dra. Isabelle Werenfels.

Alguns números contidos na nota são reveladores desta hegemonia, particularmente nas relações económicas com a África subsahariana. Enquanto a Argélia exportou apenas 440 milhões de dólares para estes países em 2019 e a Tunísia 355 milhões de dólares, Marrocos ultrapassou os mil milhões de dólares (1,308 mil milhões de dólares).

O mesmo se aplica ao investimento direto estrangeiro (IDE) na região: Marrocos está bem à frente com 1,446 mil milhões de USD, muito à frente da Tunísia (292 milhões) e da Argélia (146 milhões).

 

O que a nota sugere para a União Europeia

A nota sugere que a União Europeia deveria "considerar estas tendências como uma oportunidade para a integração africana e a cooperação triangular UE/Magrebe/Sub-Sahara". "Isto poderia contrariar a crescente sensação de irrelevância da Argélia, reforçar a economia tunisina, relativizar as ambições hegemónicas de Marrocos e assim mitigar a dinâmica negativa da rivalidade", diz.

“É portanto óbvio", acrescenta, "que exportadores experientes como a Alemanha ofereçam conhecimentos técnicos especializados aos dois "retardatários" em questões como o desenvolvimento de estratégias e a expansão das infraestruturas de exportação de produtos locais para África”.

A publicação desta nota surge num contexto particular marcado pela crise entre Marrocos e certos países da UE, incluindo a Alemanha, e pelo escândalo Pegasus, que poderá ter consequências graves para Marrocos.

"Este contexto obrigará a França (cujo presidente foi espiado pela Pegasus, nota do editor) e toda a União Europeia a clarificar as suas relações com os países do Norte de África e a repensar as suas relações económicas e migratórias", escreve o jornalista económico francês Jean-Marc Sylvestre (Nota: apresentado por vezes por ser um ultraliberal).

Para ele, e visto da Alemanha, esta nota significa em substância: "Marrocos deve ser travado nas suas tentações hegemónicas sobre os países do Magrebe e, em particular, deixar de ajudar o crescimento e o desenvolvimento económico de Marrocos, o que dificulta assim o surgimento da Argélia e da Tunísia".

Em maio passado, pouco antes da crise com a Espanha e a chantagem migratória de Marrocos, este país já estava em desacordo com outro grande país da UE, a Alemanha.

Deve dizer-se que o país de Angela Merkel nunca foi um defensor declarado das teses marroquinas sobre a questão do Sahara Ocidental, ajudando a equilibrar a posição da Europa sobre a questão.

A 6 de maio, Marrocos chamou a Rabat o seu embaixador em Berlim, denunciando "actos hostis" da Alemanha. Para além das suas posições sobre o Sahara, Marrocos criticou a Alemanha por combater o papel regional do Reino, nomeadamente sobre a questão líbia.

Subsecretário de Estado dos EUA anuncia a posição de Biden sobre o Sahara Ocidental




Por Sidi Maatala /ECS - Argel - O subsecretário de Estado norte-americano para o Médio Oriente, Joey Hood, anunciou a posição da administração do Presidente Joe Biden sobre o conflito do Sahara Ocidental na sequência da declaração do seu antecessor Donald Trump sobre o assunto a 10 de Dezembro de 2020. Hood está em viagem à região. Após Argel, o dirigente norte-americano desloca-se a Marrocos e depois ao Médio Oriente. 

Hood anunciou de Argel que a posição de Washington sobre a questão é apoiar os esforços das Nações Unidas para encontrar uma solução política aceitável para ambas as partes do conflito, a Frente Polisario e Marrocos.

Em entrevista à agência noticiosa oficial argelina (APS), o subsecretário de Estado norte-americano disse que a posição de Washington é clara e inequívoca, e que é apoiar o papel desempenhado pelas Nações Unidas no Processo de Paz para uma solução política aceitável para todas as partes, uma solução que conduza à paz e estabilidade, e que seja a melhor para a região.

"Sobre esta questão estamos a dedicar o nosso tempo e energia, e queremos ver o mais rapidamente possível um novo enviado especial da ONU para o Sahara Ocidental, e vamos ajudar essa pessoa [enviado] a iniciar o seu trabalho, e ele terá o nosso total apoio e o apoio dos nossos aliados e parceiros, incluindo a Argélia", concluiu Hood.

 


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Guerra no Sahara Ocidental - Comunicados militares nºs. 256 e 257

 


O Ministério da Defesa Nacional da República Árabe Saharaui Democrática divulgou nas últimas 48 horas os comunicados nºos 256 e 257, onde assinala as zonas do «muro da vergonha», como lhe chamam os saharauis, atacadas pelas unidades do ELPS.

Mahbes, no nordeste do território, onde as Forças Armadas Reais (FAR) marroquinas deslocaram um forte dispositivo militar continua a ser o sector do teatro de guerra mais atacado.

 

Comunicado militar nº. 256

Domingo, 25 de julho 2021

01. Bombardeada a zona de Güert Ould Blal no setor de Mahbes

02. Nobardeada a zona de Laagad, também no setor de Mahbes.

 

Comunicado militar nº. 257

Segunda-feira, 26 de julho 2021

01. - Forte bombardeamento contra a área de M'eitir Lmejenza, onde se localiza o quartel-general do 43.º corpo das forças de ocupação marroquinas.

02. - Intenso fogo de artilharia sobre a área de Sabjat Tanushad no setor de Mahbes.

03. - Bombardeamento sobre a área de Fadrat Laghrab no setor de Hauza (norte do SO).

domingo, 25 de julho de 2021

Rabat sofre retrocessos legais e diplomáticos, e a "Economia de Ocupação" sofre a sua pior queda de sempre

 


Lehbib Abdelhay /ECS

O regime marroquino, para além de outros problemas, enfrenta atualmente dois desafios principais a nível político, em primeiro lugar o impacto externo da ocupação do Sahara Ocidental, unanimemente rejeitado após a declaração de Trump de alegada soberania; e, em segundo lugar, o impacto interno da normalização dos laços com Israel, já que 88% da sua população rejeita a normalização com a entidade sionista, o que apenas alargou o fosso entre a elite dominante e os cidadãos, ameaçando a fragmentação total num país autocrático que já apresentava elevadas taxas de desproporcionalidade social.

Neste contexto, a revista internacional Forbes revelou, numa análise recentemente publicada, que Marrocos está a sofrer grandes reveses jurídicos após a questão dos recursos naturais do Sahara Ocidental ocupado ter sido levada perante os tribunais internacionais.

A análise da Forbes foi publicada na sequência da aprovação pelo Supremo Tribunal do Reino Unido e do País de Gales de um pedido de revisão judicial do acordo comercial pós-Brexit entre o Reino Unido e Marrocos, que inclui produtos e recursos originários do Sahara Ocidental ocupado.

A revista internacional observa que levar o caso a tribunal é o primeiro desafio legal a um acordo comercial assinado pelo Reino Unido desde a sua saída da União Europeia.

A Western Sahara Campaign UK (WSCUK) iniciou um processo de revisão judicial contra o Department for International Trade and the Treasury em março último sobre o Acordo de Associação Reino Unido-Marrocos que viola as obrigações do Reino Unido ao abrigo do direito internacional. Num acórdão emitido pelo Supremo Tribunal de Londres em 28 de Junho, o Juiz . Chamberlain deu autorização para que o processo judicial prosseguisse.

"Se o queixoso tiver razão, os arguidos estão a agir ilegalmente ao conceder tratamento pautal preferencial a mercadorias do Sahara Ocidental, facilitando assim a exploração dos recursos destes territórios em violação do direito internacional", escreve o juiz na sua sentença.

A revista revelou que o Departamento de Comércio Internacional do Reino Unido recusou-se a comentar o caso, com um porta-voz a dizer: "Não comentamos os procedimentos legais em curso".

A Western Sahara Campaign UK (WSCUK) é uma organização independente criada em 1984 com o objetivo de apoiar o reconhecimento do direito à autodeterminação e independência do povo saharaui, e de sensibilizar para a situação ilegal e ocupação da última colónia de África.

Ver também artigo

Guerra no Sahara Ocidental: Comunicados militares nºs. 253, 254 e 255

 


Reproduzimos a síntese dos três comunicados militares distribuídos pelo Ministério da Defesa Nacional da RASD nas últimas 72 horas que assinalam as posições atacadadas pelas forças do ELPS no muro de mais de 2.700 km que divide a zona ocupada da zona libertada do território.

 

Comunicado militar nº. 253

 

Quinta-feira, 22 de julho 2021

01. - Bombardeada extensões do muro na zona de Graret Lehbib no setor Farsia (norte do SO)

02. - Bombardeada a zona de Um Jlud no setor Auserd (sul do SO).

 

Comunicado militar nº. 254

 

Sexta-feira, 23 de julho 2021

01. - Bombardeamento visou a zona de Hreicht Dirt Lgharbiya, setor de Hauza (norte do SO).

02. - Fortes bombardeamento contra a área ao norte de Hreicht Dirt, setor de Hauza.

03. - Intenso bombardeio da área de Al Aaidiat no setor de Guelta (centro do SO). Segundo o comunicado, ouviram-se fortes estrondos que causaram pânico, caos e desestabilização, observaram-se também densas colunas de fumo que se elevavam do objetivo atingido.

04. - Forte bombardeio da zona de Graret Lfersik no setor de Mahbes (nordeste do SO).

05. - Intensos bombardeamentos contra a zona de Rus Sibti, setor de Mahbes.

06. - Bombardeio concentrado visou a zona de Hefret Chiaf no setor de Bagari (centro do CO), tendo sido atingidas duas escavadoras inimigas, uma das quais ficou completamente destruída.

 

Comunicado militar nº. 255

 

Sábado, 24 de julho 2021

01. - Bombardeadas forças de ocupação marroquinas situadas na área de Adheim Um Jlud, no setor de Ausard (sul do SO).

02. - Fortes bombardeios visaram posições entrincheiradas do inimigo no norte da zona de Fadrt Al-Ish, setor de Hauza (norte do SO).

03. - Intensos bombardeamentos contra as trincheiras das forças marroquinas na zona de Fadrt Al-Ish, setor de Hauza (norte do SO).

04. - Fogo de artilharia concentrado contra as forças ocupantes na área de Fedrt Laghrab no setor de Hauza.

05. - Intensos bombardeamentos sobras as posições entrincheiradas do ocupante na zona de Janget Chedhmia no setor de Mahbes (nordeste do SO).

06. - Intensos bombardeamentos contra as trincheiras das forças de ocupação na área de Rus al-Sebti, setor de Mahbes.

sábado, 24 de julho de 2021

Conflito congelado — Sahara Ocidental: areias de espera das forças de manutenção da paz

 


Reproduzimos aqui, em Português, a reportagem do jornalista do “Libération” Célian Macé, enviado do diário francês ao Sahara Ocidental.

Uma ressalva: as suas opiniões ou a forma como ele vê o conflito estão longe de ser as defendidas pela AAPSO, no entanto há que salientar a coragem e o voluntarismo do quotidiano francês e do seu jornalista em conhecer a situação sobre o terreno, através desta reportagem com os observadores militares da Minurso.  (LER notas AAPSO no final do artigo)

Durante trinta anos, na área reivindicada por Marrocos e pela Frente Polisario, um punhado de soldados da ONU tem estado a vigiar o cessar-fogo. Mas a guerra recomeçou em novembro, e estas sentinelas foram esquecidas neste canto do deserto.

 

“LIBERATION” porCélian Macé, Enviado Especial a Laayoune e Awsard [zonas ocupadas por Marrocos]

22 de Julho de 2021

O negro da colina cintila. Vista do ar, a mancha de lava carbonizada parece um prato deixado no forno. Uma verdadeira cozedura. Há três décadas que o sol do Sahara tem estado a assar as forças de manutenção da paz situadas junto à colina escura, sem ódio mas sem descanso. Uma dúzia de observadores da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (Minurso) estão escondidos na sua pequena base em Awsard, um quadrilátero de contentores com ar condicionado abandonados na imensidão do deserto.

Não há cidade ou mesmo uma aldeia digna desse nome em várias centenas de quilómetros em redor. Pacientemente, a areia cobre tudo. Roupas, óculos, cabelo, os canos das armas. A única estrada pavimentada tem de ser regularmente desobstruída, caso contrário será engolida. Tal como o conflito do Sahara Ocidental, um dos mais antigos do mundo, que está gradualmente a ser enterrado e esquecido.

Desde 1976 - a data da partida do colonizador espanhol - que o conflito opõe o Reino de Marrocos à Frente Polisario, defensora da independência do território. Rabat afirma que a sua soberania se estende historicamente sobre este território costeiro. No entanto, um grande número de saharauis contestou esta tutela e no mesmo ano proclamaram o nascimento do seu próprio Estado: a República Árabe Saharaui Democrática (RASD). A Argélia, campeã no apoio às lutas de libertação nacional, presta abertamente respaldo à ala militar da Frente Polisario.


Foto: Fadel Senna/AFP

Um povo de refugiados

A guerra durou quinze anos. Até à assinatura de um cessar-fogo em 1991. Desde então, Marrocos tem controlado 80% do território do Sahara Ocidental e todas as suas cidades. O estado fantasma da RASD, por outro lado, reina sobre uma faixa de areia encravada e uma população de refugiados: entre 100.000 e 175.000 saharauis (o número é controverso) que vivem há 40 anos nos seis campos instalados perto de Tindouf, na zona ocidental da Argélia. Entre os dois, um muro de areia com 2.700 quilómetros de comprimento construído por Marrocos separa os beligerantes. Uma duna humana entre dunas naturais, uma das fronteiras mais bem guardadas do mundo, que os cartógrafos passaram a desenhar cuidadosamente em linhas pontilhadas.

Os Capacetes Azuis de Awsard - ou melhor, os "os bonés azuis" já que estão desarmados - escrutinam constantemente o muro, a que entre si chamam "Berma" , para detectar e comunicar ao Conselho de Segurança quaisquer violações do cessar-fogo. O seu ritual imutável tem lugar "sete dias por semana, 365 dias por ano", diz um membro da equipa ao servir um café quente liofilizado. "Todos os dias, antes do calor, saímos em patrulha, conduzimos, conduzimos, atolamo-nos e anotamos qualquer coisa que possa parecer uma violação aos acordos: construção ilegal, movimentos de tropas, destacamentos de armas". Duas ou três vezes por semana, os helicópteros executam a mesma tarefa. Há nove sítios da ONU como Awsard ao longo do muro. Cinco do lado marroquino, quatro do lado da Polisario.

Mas o cessar-fogo voou em pedaços em novembro, tornando o seu trabalho um pouco mais Kafkiano. A verdade é que a atividade da Minurso já era em parte absurda. A sua primordial tarefa, a organização de um referendo - defendida pela ONU em nome do direito dos povos à autodeterminação - está totalmente paralisada, tendo Marrocos sabotado pacientemente o processo de recenseamento e de elaboração de uma lista de eleitores saharauis. O processo tem estado parado desde 2004, quando a comissão ad-hoc completou o seu trabalho no maior silêncio.

 

Constatar o recomeço dos combates

A segunda tarefa, a vigilância das aproximações ao muro, já não faz muito sentido. Em primeiro lugar, porque já não há um cessar-fogo a observar. O cessar-fogo terminou oficialmente a 13 de novembro quando o exército marroquino, em violação do acordo de 1991, atravessou o muro em Guerguerat, perto da fronteira mauritana, para expulsar um punhado de manifestantes saharauis que estavam a bloquear a única estrada que ligava Marrocos à África subsahariana. A fim de "assegurar" este cordão comercial, Rabat ocupa agora um pedaço da antiga terra de ninguém [nota: zona desmilitarizada pelos acordos de 1991]. Como retaliação, a Frente Polisario relançou a guerra. Sem muita convicção. Foi noticiado fogo de artilharia, e alguns combatentes saharauis tentaram, sem sucesso, infiltrar-se no lado marroquino. De ambos os lados, o número de feridos e mortos não é conhecido.

A Minurso não é uma força de interposição. Limita-se a observar, impotente, o recomeço dos combates. E ainda assim. A guerra, mesmo de baixa intensidade, complicou tudo. Do lado marroquino, pede-se agora aos veículos observadores que não se aproximem a menos de 2 quilómetros do muro, e aos aviões da ONU a menos de 20 quilómetros. No lado da Polisario, as restrições são ainda mais severas. As forças de manutenção da paz devem permanecer num raio de 20 quilómetros da sua base, e só podem mover-se com uma escolta. Fornecer-lhes suprimentos tornou-se uma dor de cabeça logística. Cortados do mundo, os sentinelas cegos da ONU localizados a leste do muro só são visitados por um avião de carga uma vez por mês.

No entanto, a rotina da ONU resiste a tudo. Em Awsard [no sul do Sahara Ocidental, ver mapa] como noutros locais, ao amanhecer, os capacetes azuis arrancam com os seus 4×4s, conduzem na areia, andam em círculos, escrevem os seus relatórios nos escritórios climatizados, assistem aos jogos do Euro à tarde, e aos jogos da Copa América à noite na sala comum, decorada com um escorpião, o emblema da unidade. “Já não temos acesso a muita informação", diz um deles. “Na verdade, dependemos principalmente das declarações das duas partes, mas não temos os meios para verificar as suas alegações”. As Forças Armadas Marroquinas Reais relataram 934 "incidentes" desde novembro. De ambos os lados, foram denunciados os sobrevoos de drones.



“Dependemos essencialmente das declarações das duas partes, mas não temos os meios para comprovar as suas alegações”.

— Diz um capacete azul em Awsard

 

Nos últimos meses, disparos de artilharia regulares mas relativamente inofensivos têm-se concentrado no norte do território. "A Polisario não pode ir mais longe, devido à falta de recursos. Marrocos, numa posição de força tanto militar como diplomática, também não procura perturbar o status quo", explica um excelente conhecedor da questão. “De ambos os lados, a incerteza sobre o comportamento da Argélia é um travão. Marrocos não teria qualquer problema em expulsar a Polisario e tomar os últimos 20% do território, mas arriscar-se-ia então a provocar uma reacção militar por parte de Argel. A Polisario, por outro lado, talvez pudesse tentar um golpe em Marrocos, mas não pode mover-se sem a luz verde do seu patrocinador se quiser manter o seu apoio".

No imenso deserto, o espaço não é nada, o tempo é tudo, dizem eles. Mas Marrocos tem o tempo do seu lado. Tempo e dinheiro: o reino tem vindo a gastar generosamente nas suas "províncias do sul" há meio século. Laâyoune, a maior cidade do Sahara Ocidental, a 500 quilómetros de Awsard, é irreconhecível para o viajante que passou por ela há quinze anos. Atualmente, tem mais de 200.000 habitantes. O vento forte sopra bandeiras marroquinas por todo o lado. Estádios, escolas, parques verdes, faixas impecáveis de asfalto, institutos de todos os tipos têm sido inaugurados ano após ano. E acima de tudo, casas bonitas, grandes, cor de areia, refinadas, pois os arquitectos marroquinos sabem como construí-las para atrair famílias, empresas e turistas do Norte, com subsídios, salários subsidiados e incentivos fiscais. Diz-se que durante a sua última visita, em 2016, o rei Mohammed VI exigiu que os administradores locais acelerassem o ritmo.

Este frenesim de construção deslocou o centro de gravidade da cidade. Ao cair da noite, quando Laâyoune realmente acorda, os jovens saem para beber os seus "panachés" (uma mistura de sumos de fruta prensados, com ou sem leite) enquanto rodeiam o gigante McDonald's, no coração da nova cidade. Nos antigos bairros espanhóis, o céu é mais baixo. As casas têm no máximo um andar de altura e a iluminação é fraca. As mulheres saharauis sentam-se nos seus elaborados alpendres para desfrutar da brisa do mar e ver os seus filhos crescerem. "Tentamos ter uma vida normal. Esforçamo-nos muito, mas não conseguimos", diz uma delas de passagem. “O dinheiro não vai ajudar, é algo que está aqui". Ela põe a mão no peito, como que para pedir desculpa.

 

Jogo de xadrez diplomático

Para Marrocos, a guerra não está realmente a ser jogada em Laayoune ou Awsard, onde a polícia e os militares têm amplos meios para asfixiar, se não mesmo esmagar, os independentistas. O jogo de xadrez essencial, acredita Rabat, é jogado no palco diplomático, algures entre Nova Iorque, Washington, Bruxelas, Paris e Adis Abeba. Pois as Nações Unidas continuam a considerar o Sahara Ocidental como um território "não autónomo" e ainda defendem oficialmente a solução de um referendo sobre a autodeterminação, apesar do seu impasse. O reino cherifiano, por seu lado, já não quer ouvir falar dele.

Os seus diplomatas conseguiram recentemente um golpe de mestre. Para surpresa de todos, a 10 de dezembro, algumas semanas após a crise de Guerguerat e o fim do cessar-fogo, Donald Trump - então derrotado nas urnas mas ainda presidente dos Estados Unidos durante algumas semanas - assinou uma proclamação "reconhecendo a soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental". Marrocos, em troca, comprometeu-se a uma "normalização das relações" com Israel, uma obsessão do ex-presidente americano para concretizar o seu "plano de paz" no Médio Oriente.

“Marrocos sentiu as asas a crescer. Ficaram tão felizes que cometeram grandes erros no processo, pecando por excesso de confiança", diz um diplomata ocidental. “Pensavam ingenuamente que a Europa iria seguir Trump. Estamos muito longe disso. Em poucos meses, Rabat viu-se confrontado com uma crise frontal com Berlim e Madrid. As imagens de crianças migrantes a serem utilizadas por Marrocos em Ceuta para pressionar a Espanha em meados de maio foram desastrosas". Joe Biden não inverteu a decisão do seu predecessor, mas Washington pode agora pressionar Marrocos a aceitar finalmente a nomeação de um enviado especial do Secretário-Geral da ONU para o Sahara Ocidental. Desde que o antigo presidente alemão Horst Köhler, o anterior detentor do cargo, atirou a toalha ao chão em dezembro de 2019, Rabat recusou sob vários pretextos onze dos treze candidatos propostos. Um deles é Staffan de Mistura, antigo enviado especial para a Síria.


Foto: Fadel Senna/AFP

Ora, sem um mediador voluntarista, o diálogo político não tem qualquer hipótese de ser retomado e o Sahara permanecerá congelado. É por isso que Marrocos está a tentar esticar o tempo, enquanto a Polisario gostaria desesperadamente de o acelerar. "O seu objectivo não é ganhar a guerra, mas chamar a atenção para um conflito que todos preferem esquecer", resume o mesmo diplomata. O mandato do Minurso, renovado todos os anos desde 1991, vai expirar a 31 de outubro. Apesar da sua impotência, deverá ser novamente prolongado. Em Awsard, ao pé da colina negra, os vigias da ONU continuarão a sondar os fantasmas em direcção ao muro. Como o soldado Drogo no Deserto dos Tártaros: "O mundo estagnou numa apatia horizontal e os relógios funcionavam inutilmente", descreve o romance de Dino Buzzati. Do seu forte, no passeio de sentinela, "Drogo podia contemplar [...] a charneca desabitada pela qual, dizia-se, os homens nunca tinham passado. Nunca o inimigo tinha vindo dali, nunca tinha havido uma luta, nunca tinha acontecido nada ali”. No Sahara, tal como com os Tártaros, a paz, tal como o inimigo, permanece invisível.

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Algumas afirmações produzidas pelo jornalista que devemos esclarecer ou contrariar:


RASD - “Estado fantasma”. A RASD foi proclamada pela Frente Polisario no momento em que a Espanha, antiga potência colonial, abandonou oficialmente o território. A RASD vinha assim “preencher” um vazio político e jurídico, já que a Frente Polisario resistia pelas armas à invasão do território por parte de Marrocos. A RASD, não obstante as falta de meios e condicionantes (erigir um Estado no exílio não é tarefa fácil...), funciona, talvez, muito melhor do que muitos Estados em África. A RASD foi aceite como membro da OUA e tornou-se membro fundador da organização que lhe sucedeu: a União Africana (UA).


Número de refugiados saharauis - O seu número atualmente não é controverso para quem queira analisar a situação com total isenção. O levantamento feito pela ACNUR (a Agência da ONU para Refugiados) recentemente (há poucos anos) apontava exatamente para 173 600 pessoas.


O alegado “desenvolvimentismo” que Marrocos trouxe ao território - É certo que Marrocos tem dispendido largas somas de dinheiro no Sahara Ocidental desde que o ocupou em 1975. Mas as maiores serão seguramente no esforço militar e de guerra no conflito que engendrou com a ocupaçao da antiga colónia espanhola. Como se não bastassem os anos e anos de guerra, com o cortejo de perdas de material e vidas humanas, Marrocos tem que suportar uma pesada estrutura militar de cerca de mais 150 000 homens a sul de Agadir. Recorde-se que em 1989, ano em que cessaram os combates entre os dois beligerantes, a Frente Polisario detinha em seu poder mais de 2.100 presos de guerra em seu poder (os últimos 400 foram libertados a 18 de agosto de 2005 e entregues ao CI da Cruz Vermelha).

As somas investidas por Marrocos no Sahara Ocidental têm a ver, em muitos casos, com a exploração própria dos (muitos) recursos do território ou para assegurar a implantação da sua população no território conquistado ou ganhar “o coração” da população saharaui autóctone ou dos investidores estrangeiros. Mas como dizia aquela mulher saharaui de passagem ao jornalista francês... «não há dinheiro»... que compre a identidade e o coração do saharauis, nem mesmo daqueles que já nasceram sob ocupação marroquina.


A capacidade militar da Frente Polisario - É inegável a superioridade militar de Marrocos, em meios humanos e armamento. Ninguém o nega. Mas as guerras não se ganham apenas com homens, tanques e aviões e drones...Se assim fosse, a Polisario não teria aguentado a 1.ª guerra de libertação que durou 15 anos até ao cessar-fogo e infligido tantas derrotas ao seu oponenete. A guerra ganha-se também e, sobretudo, com vontade, com alma. Desde o reatar da guerra, em 13 de novembro passado, os ataques de constantes e diários de artilharia saharaui contra o dispositivo do muro militar de mais de 2700 km (e também no interior do extremo sul do território de Marrocos), podem não ser os mais espectactulares ao ‘jeito de ‘El Alamein’, mas causam quotidiamente baixas humanas, em mortos e feridos, em material militar, em desgaste físico e moral e psicológico dos militares postados ao longo da «berma»... A iniciativa, a capacidade de movimento, a capacidade de aguentar condições climatéricas muito inclementes está toda do lado dos combatentes saharauis. A guerra de desgaste, mata e moi e desmoraliza.


 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Caso Pegasus: Abdellatif Hammouchi ou "o artesão da deriva marroquina"

 

Abdellatif Hammouchi


Argel/APS - O site de notícias francês Mediapart dedicou, esta quinta-feira, um artigo ao chefe da inteligência interna e externa do Marrocos, Abdellatif Hammouchi, o arquitecto da última deriva marroquina relacionada com o caso do software espião israelita "Pegasus", em que o aquele orgão de informação online explica como a monarquia construiu ao longo do tempo um sistema repressivo para amordaçar a sociedade graças à vigilância cibernética que usa e abusa.

O maior escândalo de espionagem desde o caso "Snowden" faz sair das sombras Abdellatif Hammouchi, o primeiro homem na história do reino a assumir a direção de segurança nacional e a direção geral de vigilância do território.

"Ele é o arquitecto da deriva securitária e autoritária de Marrocos", disse um diplomata francês citado pelo Médiapart. A monarquia marroquina é, segundo o jornal online, “um regime autoritário que ao longo das décadas construiu um sistema repressivo para ter olhos e ouvidos em todo o lado, em cada estrato da sociedade (...). Um sistema em que uma das engrenagens essenciais hoje é baseada na vigilância cibernética, graças em particular a Abdellatif Hammouchi ".

O jornal recorda no artigo que várias personalidades públicas, francesas e estrangeiras, incluindo o presidente francês Emmanuel Macron e vários ministros, aparecem como alvos diretos dos serviços de segurança marroquinos, vinculados ao poder real, em particular a espionagem sobre o exterior.

“Quem manda no Marrocos é a polícia política, o ambiente é irrespirável, confidenciaram a Mediapart e a L'Humanité o intelectual marroquino Maâti Monjib, perseguido e vigiado pelas autoridades marroquinas.

O historiador descreveu "um regime baseado no cinismo político e na calúnia", graças ao trabalho de um discreto servidor do Estado em particular, Abdellatif Hammouchi: "os serviços de inteligência têm arquivos de todas as figuras públicas. A menor dissensão expõe o visado, na hora, à difamação. Mesmo os ministros pró-regime, ao mais alto nível, às vezes são difamados. Qualquer um que se afaste é exposto à ira do Palácio e à difamação da mídia". Entre as fixações e obsessões de Marrocos: o medo de que o povo marroquino, que sufoca num reino da desigualdade, se levante, segundo aquela fonte.

Nascido em Taza, no nordeste do país, Abdellatif Hammouchi, 55 anos, é citado em particular na inédita disputa diplomática entre Paris e Rabat, de 2014 a 2015. Na época, a justiça francesa investigava três denúncias contra esta alto figura do Estado marroquino por "tortura" e "cumplicidade na tortura".

Em 20 de fevereiro de 2014, enquanto passava por Paris, um magistrado parisiense intimou-o e enviou a polícia à casa do embaixador marroquino em Neuilly para interrogá-lo. De um dia para o outro, Marrocos pôs fim a toda a cooperação judiciária e de segurança com a França, especialmente em matéria de intercâmbio de informações. Depois de um ano, os dois países selaram a reconciliação.

De acordo com a investigação do consórcio reunido em torno de Forbidden Stories e Amnistia Internacional, Rabat abusou do software Pegasus para espionar países rivais.

Marrocos continua a chantagear a Espanha e envia 300 migrantes para Melilha, apesar do novo MNE espanhol alegar que o reino é um "Estado amigo".

 


Por Lehbib Abdelhay / ECS

Madrid (ECS). - Um total de 238 imigrantes de origem subsahariana, segundo dados da Delegação do Governo Regional, entraram em Melilha na madrugada desta quinta-feira, num salto por cima da vedação que deixou vários feridos, incluindo três agentes da Guarda Civil, informa a agência Efe.

O evento ocorreu às 6h50. “Os migrantes, equipados com ganchos, escalaram a cerca”, acrescentou um porta-voz. Segundo a citada fonte, “apesar do dispositivo anti-intrusão da Guarda Civil ter sido implantado em todo o perímetro, conseguiram aceder a Melilha 238 pessoas, todas do sexo masculino.

Este salto em cima do muro, um dos mais numerosos dos últimos anos, ocorreu por volta das 6h50 e mais de 300 africanos subsaharianos participaram nele, embora nem todos o tenham conseguido.

Apesar das concessões feitas pelo executivo espanhol, 20 dias após a mudança de governo e a destituição da anterior ministra dos Negócios Estrangeiros, Marrocos retomou as suas chantagens intermináveis contra Espanha.

Se no dia 1 de julho o Presidente do Governo, Pedro Sánchez, disse no canal La Sexta que a sua vontade era "ter as melhores relações com um país vizinho e irmão como Marrocos", na mesma linha, o recém nomeado José Manuel Albares como ministro das Relações Exteriores no ato de transferência da pasta ministerial com a sua antecessora, Arancha González Laya, declarou: “com nossos vizinhos do sul temos que estreitar ainda mais nossas relações, especialmente com Marrocos, nosso grande vizinho e amigo”.

Durante a transferência de pastas, antes da intervenção do novo Chanceler, Arancha González Laya disse que aquele foi um dia "agridoce" e assumiu os erros cometidos dizendo que os estes foram só dela e os triunfos cabiam à sua equipa. Citou como uma das questões pendentes a "normalização total" das relações com o Marrocos "a partir do respeito e da corresponsabilidade".

A ex-Ministra dos Negócios Estrangeiros, que exerceu o seu cargo durante 546 dias como ela própria recordou, tentou numa primeira fase do seu mandato não se opor a Marrocos, chegando mesmo a apagar a bandeira do Sahara Ocidental do mapa político da União Africana (UA), de que a República Saharaui é fundadora, facto que teve repercussões favoráveis ​​na imprensa marroquina.

Além de não fazer referência ao direito à autodeterminação dos saharauis, que o regime marroquino recusa, em resposta à denúncia do seu homólogo marroquino, Nasser Bourita, González Laya desautorizou o secretário de Estado dos Direitos Sociais, Nacho Álvarez, num tweet, por este ter mantido um encontro com a ministra saharaui dos Assuntos Sociais e Promoção da Mulher, Suilma Beiruk, afirmando que esta não é a posição do Governo de Espanha, que não reconhece a RASD.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Guerra no Sahara Ocidental - Comunicados militares nºs. 251 e 252

 

O Ministério da Defesa Nacional da RASD emitiu nas últimas 48 horas dois comunicados militares, onde se assinala as posições do exército de ocupação marroquino atacadas pelas unidades do ELPS.

 

Comunicado militar n.º 251

terça-feira, 20 de julho 2021

01. - Bombardeada a área de Sabkhat Tinushad no setor de Mahbes.

02. - Bombardeada a área de Udey Al Dhamran, também no setor de Mahbes.

03. e 04. - Bombardeamento intenso sobre as áreas de Fudrat Al-Ish y Fudrat Laghrab, ambas no setor de Hauza (norte do SO).

 

Comunicado militar nº. 252

Quarta-feira, 21 de julho 2021

01. e 02. - Destacamentos avançados do Exército de Libertação do Povo Saharaui (ELPS) bombardearam forças de ocupação marroquinas nas áreas de Oud Um Rekba e Graret Al-Farsik na região de Mahbes (nordeste do SO).

03. e 04. - Destacamentos do ELPS bombardearam tropas de ocupação estacionadas nas áreas de Hreicht Dirt e de Rus Fadret Leghrab, ambas no setor de Hauza (norte do SO).

ECS/SPS

Pela primeira vez em três anos, um navio carregado com fosfato expoliado do Sahara Ocidental para os EUA

 


20-07-21 - WSRW - A 17 de julho de 2021, o graneleiro Amis Ace partiu do Sahara Ocidental com uma carga de rocha fosfática, com destino aos EUA. O navio passou pelas Ilhas Canárias e está actualmente a navegar em direção ao estado da Virgínia, na costa leste dos EUA.

O navio informou que se dirige para Mobjack Bay, Virginia, onde está prevista a sua chegada a 2 de Agosto. O Western Sahara Resource Watch (WSRW) não espera que este porto seja o destino real e final da carga. Mobjack Bay é uma marina para iates, e não recebe grandes navios de carga. A carga será muito provavelmente destinada a um porto industrial maior nas proximidades. O WSRW ainda não identificou o importador da carga.

É a primeira exportação de rocha fosfática do Sahara Ocidental para os EUA desde Agosto de 2018. Dois grandes intervenientes no mercado de fertilizantes dos EUA deixaram ambos de importar do território ilegalmente ocupado por questões de direitos humanos, em combinação com uma extensa pressão aos seus proprietários:

Em 2010, a empresa americana Mosaic anunciou que tinha parado as importações do território, depois de ter sido cliente da mina de Bou Craa durante vários anos, "devido a preocupações internacionais generalizadas relativamente aos direitos do povo saharaui naquela região".

Em 2018, a empresa canadiana Nutrien suspendeu as suas importações para os EUA. O seu maior cliente, New York Stock registado Innophos Holdings, anunciou em 2018 a paragem da compra de produtos da fábrica da Nutrien em Baton Rouge, Louisiana "como parte do compromisso da Innophos com a responsabilidade social global e a boa gestão empresarial".

Desde que as importações norte-americanas pararam em Dezembro de 2018, as exportações marroquinas de rocha fosfática do território ocupado caíram para metade do volume das últimas décadas, mostra a pesquisa do WSRW.

Espanha: CEAS-Sahara insta Madrid a assumir as suas responsabilidades históricas no Sahara Ocidental

 


MADRID - APS - A Coordenação Espanhola das Associações de Solidariedade com o Sahara Ocidental (CEAS-Sahara) instou o governo espanhol a assumir as suas responsabilidades históricas no Sahara Ocidental para pôr fim ao último processo de descolonização pendente no continente africano.

Numa carta enviada no início desta semana ao novo chefe da diplomacia espanhola, José Manuel Albares, a CEAS-Sahara pediu ao governo espanhol que assumisse a sua responsabilidade no Sahara Ocidental, com o qual "temos uma dívida pendente após o nosso abandono" em 1976.

Segundo a associação, o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros José Manuel Albares e o governo espanhol "devem assumir uma nova política externa em relação ao Sahara Ocidental que inclua o respeito escrupuloso dos direitos humanos e da legalidade internacional para além de outros interesses e pressões que nunca deveriam ter minado a responsabilidade do Estado espanhol e a sua obrigação de pôr fim ao último processo de descolonização pendente no continente africano".

Neste contexto, a carta enviada pela CEAS-Sahara refere a "grave situação" que o "povo saharaui irmão" vive após o reinício das hostilidades a 13 de novembro, na sequência da "violação do cessar-fogo assinado entre Marrocos e a Frente Polisario pelo regime de ocupação marroquino".

Em relação ao plano de paz de 1991, a organização insiste no facto de que "a política marroquina de obstrução, que tem impedido por todos os meios o povo saharaui de exercer o seu reconhecido direito à autodeterminação, é bem conhecida.

A missiva passa também em revista a situação no Sahara Ocidental ocupado e recorda a "repressão brutal contra a população saharaui nos territórios ocupados" e a pilhagem dos seus recursos naturais.

A este respeito, a associação espanhola considera que, como primeiro passo para respeitar os direitos do povo saharaui, o novo ministro deve "congelar a exportação de quaisquer recursos naturais do Sahara Ocidental", recordando em particular que a justiça europeia já condenou esta prática.

A CEAS-Sahara afirma, além disso, que "o prestígio internacional do Estado espanhol está em jogo, porque a manutenção de posições vergonhosas afeta sempre toda a sociedade, assegurando que, "este doloroso conflito não resolvido envenena as relações entre vizinhos e atrasa o desenvolvimento de toda a região do Magrebe".

A associação recorda igualmente os laços históricos e culturais que unem os dois povos, saharaui e espanhol, mencionando especialmente o "apoio e solidariedade de uma grande parte da sociedade espanhola à justa luta pela liberdade e independência do povo saharaui".

terça-feira, 20 de julho de 2021

A polícia marroquina respondeu com violência contínua às manifestações no Sahara Ocidental - Sultana Khaya 234 dias de prisão domiciliária

 



Por Lehbib Abdelhay /ECS

Bojador (ECS). - A activista saharaui Sultana Khaya está sujeita há mais de 230 dias de assédio, intimidação, tortura física e psicológica por parte das autoridades de ocupação marroquinas. Após mais de duzentos dias em prisão domiciliária, a activista saharaui foi hoje atacada com substâncias tóxicas. É a quarta vez que as forças de ocupação marroquinas atacaram Sultana, pulverizando substâncias tóxicas na sua casa.

Os activistas denunciam a repressão contra as mulheres saharauis em Bojador e exigem, entre outras coisas, uma solução que garanta o direito dos saharauis à autodeterminação e à independência. A activista saharaui Sultana khaya indicou que, desde a agressão marroquina contra civis saharauis na brecha ilegal de El Guerguerat a 13 de Novembro de 2020 e o subsequente regresso à luta armada, Marrocos intensificou as violações dos DDHH contra os saharauis nas cidades ocupadas do Sahara Ocidental.

A este respeito, Sultana criticou o papel negativo desempenhado pela Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO). "Em vez de cumprir o seu papel mandatado, a MINURSO é cúmplice das graves violações contra milhares de saharauis indefesos nas áreas ocupadas do Sahara Ocidental", denunciou Sultana Khaya na sua última intervenção numa recente assembleia da CEAS (Coordenadora Estatal de Associações Solidárias com o Sahara - Espanha).

Sultana falou também do sofrimento a que ela e a sua família têm sido sujeitas desde 19 de Novembro. "Marrocos cortou a nossa eletricidade e impediu mesmo os membros da minha família de nos visitarem. "Estamos sujeitos a abusos físicos e verbais, um estado de intimidação, assédio e terror que vivemos diariamente, contudo, apesar das ameaças a que estamos expostos e das agressões que sofremos, eu e os meus familiares nestes 234 dias de prisão domiciliária, continuaremos a nossa luta até atingirmos os nossos objetivos", denunciou a ativista.

"Fomos colocados em prisão domiciliária e a ocupação marroquina não nos deixou nenhum tipo de abuso por praticar, a minha mãe foi espancada", denunciou Sultana. A activista saharaui apela à comunidade internacional, às organizações humanitárias e de direitos humanos e aos povos livres do mundo a intervir para salvar a sua vida e a dos seus familiares.

 

A justiça francesa investiga a espionagem da Pegasus sobre jornalistas

 


Por Periodistas en español - Mercedes Arancibia -20/07/2021

Em resposta a uma queixa apresentada pelo jornal digital Mediapart e pelo semanário satírico Le Canard EnchaÎné, o Ministério Público parisiense anunciou esta terça-feira, 20 de julho de 2021, a abertura de uma investigação sobre a espionagem de jornalistas franceses cujos telefones foram interceptados pelos serviços secretos marroquinos utilizando o programa de espionagem Pegasus.


Como revelado no domingo pelo consórcio Forbiden Stories de jornalistas independentes de 17 países, que trabalharam no caso em colaboração com o Laboratório de Segurança da associação humanitária Amnistia Internacional (AI), a investigação cobre uma lista de dez delitos, incluindo "violação da privacidade", "intercepção de correspondência", "acesso fraudulento" a um sistema informático e "associação de malfeitores".

A lista dos espiados inclui 180 jornalistas, 600 políticos, 65 homens de negócios e 85 ativistas dos direitos humanos de diferentes países.

Entre os jornalistas franceses espiados encontram-se o fundador da Mediapart, Edwy Plenel e a jornalista daquele orgão, Lenaïg Bredoux, bem como a jornalista Dominique Simonnot do Le Canard Enchaîné, que, segundo revelações do Le Monde, The Guardian e The Washington Post, entre outros, foram espiados pelos serviços secretos marroquinos.

Entre os jornalistas espiados encontra-se também o espanhol Ignacio Cembrero, antigo correspondente do El País, especializado em assuntos do Magrebe, que disse ao InfoLibre digital que não estava surpreendido "porque já suspeitava" que estava a ser espiado, e reconheceu que ele, tal como outros colegas que foram vítimas do programa de espionagem da Pegasus, são "privilegiados em comparação com os jornalistas marroquinos presos".

O programa Pegasus é uma criação da empresa israelita NSO Group. Quando instalado num telemóvel, pode espiar as mensagens de texto, fotografias, vídeos, contactos e conversas do proprietário. Pode também ativar o microfone, a câmara, seguir o itinerário do utilizador ou a história das suas preferências na Internet.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Guerra no Sahara Ocidental - Comunicados militares nºs. 249 e 250


O Ministério da Defesa Nacional da RASD emitiu nas últimas 48 horas dois comunicados militares (os nsº 249 e 250) onde assinala as operações armadas levadas a cabo por unidades do ELPS contra posições das forças de ocupação marroquinas.

 

Comunicado militar nº. 249

Domingo, 18 de julho 2021

01. Atacadas as forças de ocupação marroquinas estacionadas no quartel general do 43º Batalhão das FAR na zona de Umaytir Al Mjeinza no setor de Mahbes (nordeste do SO)

02. - Bombardeado outro ponto de estacionamiento em Tinushad, na mesma região.


Sábado, 17 de julho 2021

03. e 04. - Bombardeadas posições inimigas em Laksibi Al Kasr e em Ahrisha e na região de Hauza (norte do SO).

05. Bombardeada a posição de Galeb Ennes, no setor de Auserd (sul do SO).

06. Bombardeada a área de Galeb Edmein no sector de Tichla, no sul do Sahara Ocidental.

 

Comunicado militar nº. 250

Domingo ao fim do dia, 18 de julho 2021

O comunicado sublinha que o exército saharaui avançou com destacamentos sobre as bases e trincheiras das forças de ocupação no quartel-general da 43ª Legião na zona de M'eitir Lmejenza no sector Mahbes (01.), enquanto outros destacamentos concentraram as suas bombas na zona de Sabjat Tanushad no setor Mahbes (02.).

 

Segunda-feira, 19 de julho 2021

A declaração acrescenta que as unidades avançadas do ELPS centraram hoje, segunda-feira, os seus bombardeamentos contra as posições dos soldados de ocupação na área de Um Edeguen, no sector de Um Draiga (03.), onde foram vistas colunas de fumo a subir da base atingida, enquanto outros destacamentos lançaram bombas nas bases dos soldados de ocupação na área de Agazren, no setor de Tichla (sul do SO).

ECS/SPS

domingo, 18 de julho de 2021

O “caldo está entornado” entre a Argélia e Marrocos

Os ministros argelino e marroquino dos Negócios Estrangeiros

 

Após dois dias de silêncio de Marrocos, a Argélia chama o seu embaixador em Rabat e não excluiu a ruptura de relações.

 

ECS. Argel. | Numa declaração emitida a 16 de julho de 2021 pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) argelino a propósito das tensões abertas por Marrocos na sequência das declarações de Omar Hilale [embaixador do Reino de Marrocos nas Nações Unidas] em que este apelava a um alegado direito de autodeterminação para a região da Cabília argelina, o MNE de Argel salientou e advertiu numa declaração divulgada "a necessidade de clarificar a posição final do Reino de Marrocos sobre a situação extremamente perigosa causada pelas declarações do seu embaixador em Nova Iorque",

As tensões aumentaram consideravelmente na sexta-feira passada, após a resposta do ministro argelino dos NE, Ramtane Lamamra, a Marrocos pelas declarações de Hilale feitas na quarta-feira anterior. O ministério argelino salientou que, na ausência de uma resposta positiva e adequada da parte marroquina, foi decidido hoje convocar o embaixador argelino em Rabat para consultas. Também não exclui a adopção de outras medidas, dependendo da evolução desta questão, diz a declaração.

Durante dois dias, Rabat permaneceu em silêncio e não considerou necessário responder ao pedido argelino. No entanto, este domingo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Argélia, perante o silêncio de Marrocos, deu o primeiro passo, acrescentando que não exclui a tomada de outras medidas, tais como a expulsão do embaixador ou o corte de relações, dependendo da evolução do assunto.