O turismo espanhol para Marrocos está a sentir os efeitos da crise de Ceuta, com cancelamentos de curto prazo superiores a 80% nas agências associadas à Mesa del Turismo de España, segundo uma reportagem publicada pelo jornal espanhol El Confidencial em 12 de setembro.
A quebra surge depois de vários anos de forte crescimento do mercado espanhol em Marrocos. Em 2025, cerca de 3,8 milhões de espanhóis visitaram o país, contra 3,5 milhões no ano anterior. Os gastos realizados por residentes em Espanha durante viagens a Marrocos aumentaram de 280 milhões de euros em 2024 para 369 milhões em 2025, uma subida de 31,8%, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística espanhol (INE) citados pelo jornal.
Carlos Abella, secretário-geral da Mesa del Turismo, afirma que a situação mudou desde finais de julho e considera que, para o mercado espanhol, o destino marroquino sofreu uma forte quebra. Segundo os dados recolhidos junto das agências associadas, os cancelamentos ultrapassam 80% no curto prazo, não sendo esperada uma recuperação significativa até ao final do ano.
A principal explicação apontada é a perceção de insegurança e incerteza criada pela crise de Ceuta. José Luis Sánchez Ollero, professor de Economia Aplicada da Universidade de Málaga e especialista em turismo, considera que o viajante tende a evitar riscos e adiar deslocações enquanto não perceber que a situação está estabilizada. O académico defende também maior clareza por parte do Governo espanhol sobre as relações entre Espanha e Marrocos.
Setor apresenta leituras diferentes
A dimensão da quebra, contudo, não é consensual entre os operadores turísticos. José Manuel Lastra, presidente da Confederação Espanhola de Agências de Viagens (CEAV), citado no artigo, reconhece uma redução das reservas, mas afirma não observar cancelamentos generalizados.
Segundo dados citados pelo responsável, Agadir regista mesmo um crescimento das reservas de 10%, enquanto Marrakech apresenta uma quebra de 5,6% e Rabat e a região Tânger-Tetuão recuos entre 1% e 2%, em comparação com o verão de 2025.
Também as grandes cadeias hoteleiras espanholas presentes em Marrocos relativizam o impacto. A Barceló, que possui nove hotéis em seis cidades marroquinas, afirma que as reservas permanecem dentro dos níveis habituais para esta altura do ano. A RIU, com seis unidades no país, diz não ter registado efeitos diretos nas taxas de ocupação ou na operação dos seus hotéis, salientando que o mercado espanhol representa uma parcela reduzida dos seus clientes em Marrocos.
Apesar da atual incerteza, os grupos espanhóis mantêm planos de investimento. A Barceló prevê abrir mais quatro hotéis em Rabat, Agadir e Fez, enquanto a RIU tem programada para 2027 a renovação do Riu Palace Tikida Taghazout.
Ligações aéreas continuaram a crescer
Antes da atual crise, as ligações turísticas entre os dois países estavam em clara expansão. A Royal Air Maroc liga atualmente nove cidades espanholas a cinco destinos marroquinos, através de mais de 80 frequências semanais, tendo transportado cerca de 480 mil passageiros em 2025.
Segundo dados da Aena citados pelo El Confidencial, o número de passageiros que viajaram de aeroportos espanhóis para Marrocos aumentou 16,7% em 2025. Iberia Express, Air Europa, Vueling, Ryanair e easyJet estão igualmente entre as companhias que asseguram ligações entre os dois países.
A evolução nos próximos meses permitirá perceber se a forte quebra assinalada por parte das agências espanholas representa um impacto conjuntural da crise de Ceuta ou uma inversão mais prolongada da tendência de crescimento do turismo espanhol em Marrocos.



