sexta-feira, 5 de junho de 2026

Frente Polisario mantém abertura negocial, mas insiste no direito dos saharauis à autodeterminação

Mohamed Yeslem Beissat, ministro dos Negócios Estrangeiros
da República Árabe Saharaui Democrática (RASD)


Em entrevista ao Expresso, o chefe da diplomacia da  República Árabe Saharaui Democrática diz que as negociações mediadas pelos Estados Unidos e pela ONU prosseguem, embora acuse Marrocos de manter uma postura contraditória.


A Frente Polisário garante que continua disponível para negociar todas as soluções possíveis para o conflito do Sahara Ocidental, mas defende que a decisão final sobre o futuro do território deve caber ao povo saharaui através de um processo de autodeterminação. A posição foi expressa por Mohamed Yeslem Beissat, ministro dos Negócios Estrangei-ros da autoproclamada República Árabe Sarauí Democrática (RASD), numa entrevista ao Expresso.

Segundo o responsável saharaui, o processo diplomático impulsionado este ano pelos Estados Unidos e pelas Nações Unidas continua activo, apesar da discrição que tem marcado as conversações. Desde fevereiro realizaram-se encontros em Washington e Madrid entre representantes da Frente Polisario e de Marrocos, com mediação norte-americana e acompanhamento das Nações Unidas através do enviado pessoal do SG da ONU para o Sahara Ociden-tal Staffan de Mistura.

Beissat considera que o envolvimento directo da administração norte-americana constitui um desenvolvimento inédito no dossier do Sahara Ocidental e acredita que as negociações geraram um novo impulso político. Ainda assim, acusa Marrocos de ter endurecido posições após o apoio manifestado por países como Estados Unidos, França e Espanha à proposta marroquina de autonomia para o território.

O dirigente saharaui afirma que a Frente Polisario apresentou nas negociações uma proposta própria para uma solução política e para a estabilidade regional, rejeitando a ideia de que apenas o plano marroquino esteja em discussão. Segundo explicou ao Expresso, a Polisario aceita discutir diferentes cenários, incluindo soluções alternativas, desde que seja preservado o direito dos saharauis a escolher livremente o seu futuro.

Na entrevista, Beissat mostra-se particularmente crítico em relação à evolução da proposta marroquina. Na sua perspetiva, o plano atualmente defendido por Rabat representa um recuo face à proposta apresentada em 2007, que incluía referências explícitas ao povo saharaui, à Frente Polisario e à possibilidade de uma consulta popular.


Polisario aceita discutir diferentes cenários, incluindo soluções alternativas, desde que seja preservado o direito dos saharauis a escolher livremente o seu futuro.


Outro dos temas centrais da entrevista foi a recente iniciativa de alguns senadores norte-americanos para avaliar uma eventual classificação da Frente Polisario como organização terrorista. O negociador saharaui rejeita categoricamente essa hipótese, considerando-a resultado da ação de grupos de pressão próximos de Marrocos. Beissat acusa Rabat de manter uma atitude contraditória, negociando formalmente com a Polisario enquanto, alegadamente, promove campanhas para enfraquecer a sua legitimidade política em Washington. 

A situação militar no terreno continua igualmente a marcar o processo. O responsável recorda que a Frente Polisario considera terminado o cessar-fogo estabelecido em 1991, após os acontecimentos de novembro de 2020, e afirma que existe atualmente um estado de guerra entre as duas partes. Questionado sobre o recente ataque a Smara reivindicado pela PolisarioBeissat justificou a ação no contexto do conflito armado em curso, acusando Marrocos de realizar ataques com drones contra civis e de manter uma ocupação ilegal do território.

Apesar da continuação das hostilidades, o dirigente saharaui insiste que a solução para o conflito só poderá ser alcançada através do diálogo político. Embora admita não confiar nas intenções de Marrocos, considera que não existe alternativa às negociações.

Ao longo da entrevista ao ExpressoBeissat reservou críticas particularmente duras para França e Espanha, países que abandonaram o apoio explícito ao referendo de autodeterminação e passaram a apoiar a proposta marroquina de autonomia. Na sua leitura, estas mudanças contribuíram para reforçar a intransigência de Rabat e dificultar a procura de uma solução negociada.

O dirigente saharaui conclui, contudo, que a Frente Polisario continuará a cooperar com as Nações Unidas e com os Estados Unidos, na expectativa de que o atual processo diplomático possa conduzir a uma solução política mutuamente aceitável para o conflito, que se prolonga há mais de cinco décadas.


Fonte: Entrevista de Mohamed Yeslem Beissat ao EXPRESSOpublicada em 4 de junho de 2026 pela jornalista Salomé Fernandes.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Igor Beliaev, embaixador da Rússia em Marrocos: uma humilhação para o Makhzen

Igor Beliaev


Numa tentativa de minimizar o impacto diplomático da situação, Marrocos apresenta a nomeação de Igor Beliaev como novo embaixador da Rússia em Rabat como um êxito diplomático. No entanto, segundo o periódico argelino «La Patrie News», a decisão do Presidente russo, Vladimir Putin, representa uma contrariedade para o regime marroquino, uma vez que Beliaev foi anteriormente afastado do cargo de embaixador em Argel após declarações que desagradaram às autoridades de Rabat.

Beliaev, que foi embaixador da Rússia na Argélia entre 2017 e 2022, manifestou-se publicamente a favor do direito à autodeterminação do Sahara Ocidental. Numa entrevista concedida ao canal argelino Ennahar TV, criticou a decisão do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, de apoiar a proposta marroquina para o território.

Enquanto representante diplomático da Rússia na Argélia, Beliaev recordou ainda a responsabilidade histórica de Espanha para com o povo saharaui e reiterou o apoio de Moscovo às resoluções das Nações Unidas e a uma solução pacífica baseada no direito à autodeterminação. O diplomata criticou igualmente os acor-dos apoiados pelo então Presidente norte-americano Donald Trump, considerando-os injustos e prejudiciais para a paz regional.

Segundo o jornal argelino La Patrie News, a nomeação de Beliaev para Marrocos constitui um sinal de que a Rússia mantém a sua independência de posicionamento sobre a questão do Sahara Ocidental e continua sem reconhecer a soberania marroquina sobre o território.

O mesmo jornal considera que, apesar da narrativa oficial de Rabat, existe preocupação nas autoridades marroquinas quanto à eventual perda de influência dos seus aliados tradicionais, enquanto Moscovo prossegue a sua estratégia diplomática sem ceder às pressões marroquinas.