domingo, 20 de setembro de 2026

Sahara Ocidental: Washington estuda diferentes cenários para o futuro da missão da ONU

 

Massad Boulos, empresário libanês-americano, é conselheiro sénior de Donald Trump para África e Assuntos Árabes. É também consogro do presidente norte-americano: o seu filho, Michael Boulos, é casado com Tiffany Trump.

Um artigo publicado pela Africa Intelligence a 15 de setembro de 2026 revela que a administração de Donald Trump está a estudar diferentes opções para o futuro da MINURSO, missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental, cujo mandato será sujeito a votação no Conselho de Segurança da ONU a 31 de outubro. Segundo o artigo, Massad Boulos e Staffan de Mistura têm tentado, até lá, avançar ao máximo com as negociações, sem grande sucesso. 


Cenários em cima da mesa 

Segundo a Africa Intelligence, a operação da MINURSO, atualmente dirigida pelo diplomata russo Alexander Ivanko, tinha sido prorrogada por um ano a 31 de outubro de 2025. Entre as opções que a administração Trump está agora a ponderar está a limitação do papel da MINURSO à supervisão de confrontos entre o reino de Marrocos e a Frente Polisário — um objetivo distinto daquele para que a missão foi originalmente criada, que era organizar um referendo na região, como indica o seu nome completo (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental). 

O artigo nota que esta proposta responderia também a considerações financeiras, uma vez que os Estados Unidos manifestaram vontade de reduzir a sua contribuição para as missões de manutenção de paz da ONU. Para o período entre julho de 2026 e junho de 2027, a MINURSO dispõe de um orçamento de cerca de 63 milhões de dólares, face aos 71 milhões de dólares do período anterior. 


Impaciência face ao status quo 

Outra opção em estudo, segundo a publicação, visa o desaparecimento progressivo da missão. Nos últimos meses, vários postos-chave já foram suprimidos, nomeadamente nos campos de refugiados saharauis de Tindouf, no leste da Argélia. No entanto, a Africa Intelligence sublinha que o fraco avanço das negociações desde a adoção da resolução de 31 de outubro de 2025 na ONU — que consagrou o plano de autonomia marroquino como base [não única] das negociações futuras — torna este cenário pouco provável a curto prazo. 

Este impasse tem gerado impaciência em Washington, representado neste dossiê pelo conselheiro especial para África do presidente norte-americano, Massad Boulos. Segundo o artigo, Boulos lamenta ainda não ter recebido nenhum documento escrito por parte dos independentistas saharauis da Frente Polisário que exponha as suas expectativas concretas em matéria de autonomia. Como consequência, não se realizou nenhuma ronda adicional de negociações entre as partes envolvidas no conflito — Marrocos, a Polisário, a Argélia e a Mauritânia — desde o ciclo ocorrido no início de 2026 em Madrid e Washington, copilotado por Boulos e por Staffan de Mistura, enviado pessoal do secretário-geral da ONU para o Sahara Ocidental, sem que essas reuniões tenham resultado num acordo político. 


Uma "terceira via" 

Segundo a Africa Intelligence, como forma de pressionar os responsáveis da Polisário a reagir, a diplomacia norte-americana promoveu, ao longo do verão, o Movimento Saharaui pela Paz (MSP), organização política fundada em 2020 que defende uma "terceira via" para a resolução do conflito. O embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, recebeu em Nova Iorque, a 30 de junho, uma delegação do MSP liderada pelo seu primeiro-secretário, Hach Ahmed Bericalla, antigo representante da Polisario em Espanha. 

Menos de um mês depois, a 28 de julho, membros da embaixada norte-americana em Marrocos reuniram-se com representantes do movimento em Laâyoune, no Sahara Ocidental. O movimento afirma ainda ter sido recebido em Nova Iorque por representantes de França e do Reino Unido junto da ONU. 

Aos olhos de Washington, o MSP apresenta a vantagem, face à Polisário, de estar aberto ao plano de autonomia marroquino para a região. No entanto, segundo o artigo, junto das populações saharauis refugiadas, a credibilidade da organização — encarada como estando sob influência de Rabat — permanece incerta, além de a Polisário poder invocar o seu estatuto de representante do povo saharaui reconhecido pela ONU. 


Opção norueguesa 

Entretanto, Staffan de Mistura prosseguiu os seus contactos com a totalidade das partes envolvidas. Segundo a Africa Intelligence, o enviado Pessoal do SG da ONU para o SO deslocou-se a Tindouf a 7 e 8 de junho, onde se reuniu com o número um da Polisário, Brahim Ghali, seguindo-se uma visita a Argel, a 15 de junho, para se encontrar com o chefe da diplomacia argelina, Ahmed Attaf, antes de ser recebido pelo presidente mauritano, Mohamed Ould Ghazouani, a 18 de junho, em Nuaquechote. Embora não se tenha deslocado recentemente ao reino aluita, De Mistura reuniu-se com representantes marroquinos em Nova Iorque no final de abril. 

A 10 de junho, Boulos e De Mistura realizaram ainda uma reunião em Oslo com o secretário de Estado junto do ministério dos Negócios Estrangeiros norueguês, Andreas Motzfeldt Kravik. A capital norueguesa chegou a ser considerada, em determinado momento, como opção para acolher uma ronda de negociações entre as partes envolvidas no conflito. 

Segundo a Africa Intelligence, para o acompanhar neste dossiê complexo, Staffan de Mistura recorre desde abril de 2026 aos serviços de Christopher Thornton, agora seu chefe de gabinete. Como a própria Africa Intelligence tinha revelado anteriormente, Thornton apoiava até então a diplomacia britânica na redação do novo plano de autonomia marroquino, na qualidade de consultor no Centre for Humanitarian Dialogue (CHD). 

Antes desta função, Thornton mediou conflitos no Norte de África e Médio Oriente no Centre for Humanitarian Dialogue (HD), em Genebra, com destaque para o dossiê líbio, tendo também passado pelo DCAF e pelo ACNUR. É licenciado em História pela Universidade de Edimburgo, mestre em Relações Internacionais pelo Graduate Institute de Genebra e doutorado na mesma área pela Universidade de Oxford. 

sábado, 19 de setembro de 2026

Ministério dos Negócios Estrangeiros saharaui reafirma o «direito soberano» do povo saharaui de defender o seu território e os seus direitos legítimos

 



Chahid Al-Hafed, 17 de setembro de 2026 (SPS) – O Ministério dos Negócios Estrangeiros e dos Assuntos Africanos emitiu esta quinta-feira um comunicado no qual reafirma o «direito soberano» do povo saharaui de defender o seu território e os seus direitos legítimos. O comunicado condena a reunião realizada [na] quarta-feira, 16 de outubro de 2026, em Nova Iorque, entre os Estados Unidos, Israel e o Estado ocupante Marrocos, para reiterar as suas posições ilegítimas e hostis em relação ao Sahara Ocidental, em flagrante violação das resoluções e sentenças de organizações e tribunais regionais e internacionais, que reconhecem o direito inalienável e imprescritível do povo saharaui à autodeterminação e à independência. 

O comunicado também destaca que «a Frente POLISARIO e o governo da República Saharaui reafirmam a adesão do povo saharaui à sua soberania sobre a sua pátria e o seu legítimo direito à legítima defesa contra a agressão e ocupação estrangeiras, contra a política de anexação de território pela força e alteração das fronteiras reconhecidas internacionalmente, e contra as graves violações de direitos humanos cometidas pelo Estado ocupante marroquino contra o povo saharaui».  

O comunicado também sublinha que «a Frente POLISARIO e o Governo da República Árabe Saharaui Democrática fazem um apelo urgente às Nações Unidas e à União Africana, como patrocinadores e garantes do acordo de 1991 entre a Frente POLISARIO e a potência ocupante marroquina, para que assumam as suas responsabilidades e adotem medidas imediatas para enfrentar este enfoque expansionista e agressivo, que ignora os princípios mais básicos do direito internacional e da legalidade internacional». «A Frente Polisario e o governo da República Árabe Saharaui Democrática acreditam firmemente que a diplomacia de acordos ilegítimos e alianças agressivas é um fenómeno transitório que não pode alterar a realidade nem modificar as normas do direito internacional, que a humanidade construiu durante décadas para regular as suas relações de forma racional, pacífica e civilizada», acrescenta o comunicado. 

Por fim, o comunicado conclui que «a política de acordos ilegítimos e alianças agressivas não constrói a paz, não impulsiona o desenvolvimento nem contribui para encontrar soluções justas e sensatas, mas sim gera mais tensão e guerras, empurrando a região e o mundo para o desconhecido». (SPS) 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Israel e Marrocos reforçam relações e avançam para abertura de embaixadas e nomeação de embaixadores - com o apoio dos EUA

Da esquerda para a direita: Nasser Bourita — ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos; Mike Waltz — embaixador dos Estados Unidos junto das Nações Unidas; Gideon Sa’ar — ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel e Richard Duke Buchan III — embaixador dos Estados Unidos em Marrocos.

Israel e Marrocos acordaram elevar o nível das suas relações, abrir embaixadas recíprocas e nomear embaixadores, na sequência de uma cimeira apoiada pelos Estados Unidos 

Os dois países deverão também concluir, até ao final de 2026, dois acordos sobre a proteção dos investimentos e a prevenção da dupla tributação, com o objetivo de facilitar “os investimentos mútuos e impulsionar as relações económicas e comerciais entre ambos os países”. 

Além disso, irão ampliar as ligações aéreas entre Israel e Marrocos, incluindo voos operados por companhias aéreas marroquinas, e anunciaram visitas recíprocas de alto nível para os próximos meses. 

Marrocos é um dos quatro países árabes — juntamente com os Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Sudão — que avançaram para a normalização das relações com Israel em 2020, no âmbito dos Acordos de Abraão, promovidos pelos Estados Unidos, apesar da política israelita de colonatos e do apartheid e genocídio contra a população palestiniana. 

Em contrapartida, Trump comprometeu-se a reconhecer a soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental, apesar de as Nações Unidas manterem o território na lista de Territórios Não Autónomos, definidos como aqueles “cujos povos ainda não alcançaram a plenitude do governo próprio”. 

O avanço destes acordos ocorre num contexto de genocídio, ocupação ilegal e apartheid contra a população palestiniana. 

O anúncio foi feito nos Estados Unidos e divulgado por Israel na sua conta em árabe na plataforma X, acompanhado pela referida fotografia. 

AAPSO associa-se a ato de luto em Sevilha pelas vítimas da travessia para Ceuta

Foto de agência

A Associação de Amizade Portugal–Sahara Ocidental (AAPSO) associou-se ao ato de luto realizado esta quinta-feira, 17 de setembro, em Sevilha, em memória das pessoas que morreram durante a travessia de Marrocos para Ceuta, em 30 de julho.  

Numa mensagem enviada aos promotores da iniciativa, a associação portuguesa manifesta solidariedade com as famílias e comunidades das vítimas, na sua maioria jovens, e considera que estas foram vítimas de “políticas deliberadas de exclusão, pobreza, opressão e engano”. A AAPSO critica também as políticas migratórias europeias, que associa a criação de obstáculos à procura de melhores condições de vida.  

150 mortos

O ato de Sevilha foi convocado pelo coletivo La Carpa e pela Associação de Amizade com o Povo Saharaui de Sevilha. O manifesto lido no encontro refere 150 mortos, maioritariamente por afogamento, durante os acontecimentos de 30 de julho, e lamenta que a maioria das vítimas permaneça sem identificação pública e sem que as autoridades marroquinas tenham manifestado pesar e luto pela tragédia.  

O documento apresentado em Sevilha responsabiliza politicamente as políticas fronteiriças e migratórias europeias e dirige fortes acusações às autoridades marroquinas, defendendo ainda que sejam apuradas responsabilidades pelas mortes. 

Na sua tomada de posição, a AAPSO centra a mensagem na dimensão humana da tragédia, afirmando juntar-se ao luto e à defesa da “dignidade de todas as pessoas e do seu direito à vida e à justiça”. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Crise de Ceuta trava turismo espanhol em Marrocos e provoca forte quebra nas reservas


O turismo espanhol para Marrocos está a sentir os efeitos da crise de Ceuta, com cancelamentos de curto prazo superiores a 80% nas agências associadas à Mesa del Turismo de España, segundo uma reportagem publicada pelo jornal espanhol El Confidencial em 12 de setembro.

A quebra surge depois de vários anos de forte crescimento do mercado espanhol em Marrocos. Em 2025, cerca de 3,8 milhões de espanhóis visitaram o país, contra 3,5 milhões no ano anterior. Os gastos realizados por residentes em Espanha durante viagens a Marrocos aumentaram de 280 milhões de euros em 2024 para 369 milhões em 2025, uma subida de 31,8%, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística espanhol (INE) citados pelo jornal.

Carlos Abella, secretário-geral da Mesa del Turismo, afirma que a situação mudou desde finais de julho e considera que, para o mercado espanhol, o destino marroquino sofreu uma forte quebra. Segundo os dados recolhidos junto das agências associadas, os cancelamentos ultrapassam 80% no curto prazo, não sendo esperada uma recuperação significativa até ao final do ano.

A principal explicação apontada é a perceção de insegurança e incerteza criada pela crise de Ceuta. José Luis Sánchez Ollero, professor de Economia Aplicada da Universidade de Málaga e especialista em turismo, considera que o viajante tende a evitar riscos e adiar deslocações enquanto não perceber que a situação está estabilizada. O académico defende também maior clareza por parte do Governo espanhol sobre as relações entre Espanha e Marrocos.

Setor apresenta leituras diferentes

A dimensão da quebra, contudo, não é consensual entre os operadores turísticos. José Manuel Lastra, presidente da Confederação Espanhola de Agências de Viagens (CEAV), citado no artigo, reconhece uma redução das reservas, mas afirma não observar cancelamentos generalizados.

Segundo dados citados pelo responsável, Agadir regista mesmo um crescimento das reservas de 10%, enquanto Marrakech apresenta uma quebra de 5,6% e Rabat e a região Tânger-Tetuão recuos entre 1% e 2%, em comparação com o verão de 2025.

Também as grandes cadeias hoteleiras espanholas presentes em Marrocos relativizam o impacto. A Barceló, que possui nove hotéis em seis cidades marroquinas, afirma que as reservas permanecem dentro dos níveis habituais para esta altura do ano. A RIU, com seis unidades no país, diz não ter registado efeitos diretos nas taxas de ocupação ou na operação dos seus hotéis, salientando que o mercado espanhol representa uma parcela reduzida dos seus clientes em Marrocos.

Apesar da atual incerteza, os grupos espanhóis mantêm planos de investimento. A Barceló prevê abrir mais quatro hotéis em Rabat, Agadir e Fez, enquanto a RIU tem programada para 2027 a renovação do Riu Palace Tikida Taghazout.

Ligações aéreas continuaram a crescer

Antes da atual crise, as ligações turísticas entre os dois países estavam em clara expansão. A Royal Air Maroc liga atualmente nove cidades espanholas a cinco destinos marroquinos, através de mais de 80 frequências semanais, tendo transportado cerca de 480 mil passageiros em 2025.

Segundo dados da Aena citados pelo El Confidencial, o número de passageiros que viajaram de aeroportos espanhóis para Marrocos aumentou 16,7% em 2025. Iberia Express, Air Europa, Vueling, Ryanair e easyJet estão igualmente entre as companhias que asseguram ligações entre os dois países.

A evolução nos próximos meses permitirá perceber se a forte quebra assinalada por parte das agências espanholas representa um impacto conjuntural da crise de Ceuta ou uma inversão mais prolongada da tendência de crescimento do turismo espanhol em Marrocos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Ex-chefe da espionagem marroquina revela bastidores de Pegasus, Ceuta e serviços secretos


Cartoon gerado por IA

Mehdi Hijaouy, antigo alto responsável dos serviços secretos de Marrocos atualmente refugiado no estrangeiro, fez ao jornal francês Le Canard enchaîné revelações sobre algumas das operações mais sensíveis atribuídas aos serviços de inteligência do reino, incluindo o caso Pegasus, a recente crise de Ceuta e o alegado envolvimento de figuras próximas de Mohamed VI.

A entrevista foi publicada em 8 de setembro pelo semanário satírico e de investigação francês Le Canard enchaîné, que apresenta Hijaouy como antigo número dois da DGED — Direction Générale des Études et de la Documentation, os serviços de informações externas de Marrocos. O antigo responsável encontra-se no estrangeiro por razões de segurança.


Fouad Ali El Himma, principal conselheiro de Mohamed VI e vulgarmente apelidado de «vice-rei» do regime


Segundo o jornal, Hijaouy dirigiu, entre outras estruturas, o Service Action da DGED e posteriormente trabalhou junto de Fouad Ali El Himma, principal conselheiro e homem de confiança do rei Mohamed VI. O Le Monde já tinha noticiado, em 2025, a sua fuga de Marrocos, o mandado de captura internacional emitido contra ele e as disputas internas que envolveram familiares e antigos colaboradores.


Pegasus e a espionagem de dirigentes estrangeiros

Um dos capítulos mais relevantes da entrevista diz respeito ao Pegasus, o programa de espionagem desenvolvido pela israelita NSO Group. Hijaouy confirma ao jornal francês, segundo a entrevista, elementos anteriormente revelados pelas investigações da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional sobre a utilização do software pelos serviços marroquinos. 

O antigo responsável atribui um papel central neste sistema a Abdellatif Hammouchi, chefe da segurança marroquina, e a Fouad Ali El Himma. Segundo Hijaouy, técnicos da NSO terão apresentado o Pegasus a Hammouchi, em Rabat, em 2017, tendo posteriormente o sistema sido utilizado para operações de vigilância.

Entre os alegados alvos associados ao caso Pegasus estiveram dirigentes e responsáveis políticos estrangeiros, incluindo Emmanuel Macron, Édouard Philippe e Pedro Sánchez, entre centenas e centenas de outras. Estas alegações sobre o uso marroquino do Pegasus têm sido contestadas por Rabat, como é habitual em todas as ações de desestabilização em que está envolvido.

Hijaouy vai mais longe e afirma ao Canard que os serviços marroquinos terão utilizado o sistema para espiar dirigentes africanos durante uma cimeira realizada em Kigali, em 2018.


Ceuta: acusações contra dois homens fortes do regime

Hijaouy aborda também a entrada de cerca de 70 mil marroquinos em Ceuta, em 30 de julho, e afirma possuir informações sobre a forma como a operação terá sido conduzida.

Aponta particularmente para Hammouchi e Fouad Ali El Himma, que o jornal descreve como braço direito de Mohamed VI e que Hijaouy conhece pessoalmente por ter trabalhado como seu conselheiro. O antigo espião questiona como seria possível uma deslocação daquela dimensão em direção à fronteira sem conhecimento das principais estruturas de segurança do reino.


O caso do pugilista Zakaria Moumni

Outro dos episódios abordados é o de Zakaria Moumni, campeão de kickboxing que denunciou ter sido sequestrado e torturado em Marrocos em 2010.



Zakaria Moumni


Hijaouy afirma ter visto Moumni depois da sua detenção e confirma ao jornal a versão segundo a qual o desportista apresentava sinais evidentes de violência. O caso provocou posteriormente uma grave crise entre Paris e Rabat, depois de a justiça francesa ter aberto uma investigação envolvendo Abdellatif Hammouchi, Diretor da Direção-Geral de Segurança Nacional e da Direção-Geral de Vigilância Territorial (DGSN-DGST).

O relacionamento entre os dois países acabaria por ser restabelecido e Hammouchi foi posteriormente distinguido pela França, tendo os serviços marroquinos também colaborado na segurança dos Jogos Olímpicos de Paris.


Uma luta no coração dos serviços secretos

As revelações surgem num contexto de fortes disputas internas no aparelho de segurança marroquino. O Le Monde já descrevera o caso Hijaouy como sintomático das rivalidades entre a DGED, a DGST, conselheiros reais e outros círculos de poder, num período marcado também pela questão da futura sucessão de Mohamed VI. O próprio Le Canard enchaîné introduz uma ressalva importante: Hijaouy «tem muitas contas a ajustar» e participou ele próprio em algumas das operações dos serviços que agora denuncia. Mas é precisamente a posição que ocupou no aparelho de Estado que torna o seu testemunho particularmente sensível.

As suas declarações colocam novamente sob escrutínio o funcionamento dos serviços secretos marroquinos, a utilização de ferramentas de vigilância como o Pegasus e o poder exercido nos bastidores por Fouad Ali El Himma e Abdellatif Hammouchi.

 

Fonte: entrevista de Jérôme Canard, «France-MarocLes confessions de l’ancien chef espion qui fait trembler le royaume», Le Canard enchaîné, 8 de setembro de 2026.