Um eixo que chega a Dakhla
Belani sublinha que o traçado não termina em Nuadibu: prolonga-se até ao PK55, em frente a Guerguerat, abrindo assim uma continuidade terrestre até Dakhla, em território saharaui ocupado — ligação que o próprio ministro marroquino do Equipamento, Nizar Baraka, já evocou publicamente. Segundo o autor, face ao projeto concorrente de corredor argelino para a África Ocidental, Rabat está a acelerar esforços para captar os futuros fluxos comerciais em direção à Mauritânia, ao Sahel e à África Ocidental, consolidando o eixo Dakhla-Guerguerat-Nuadibu-Nuaquechote como coluna vertebral terrestre da sua ambição regional.
O futuro porto de Dakhla Atlântico, com um custo estimado próximo de mil milhões de dólares e entrada em serviço prevista para 2028, deverá dar a esta estratégia o seu escoadouro marítimo, surgindo como um dos instrumentos da chamada "Iniciativa Atlântica" lançada por Rabat — oficialmente destinada a dar aos países saelianos sem litoral acesso ao Atlântico.
A posição central, e ambígua, da Mauritânia
Segundo Belani, esta iniciativa não parte de um espaço vazio: a Mauritânia já dispõe de um corredor rodoviário que liga Nuaquechote a Bamaco, com cerca de 1.350 quilómetros, ligando a fachada atlântica aos mercados malianos. O desafio para Rabat é, assim, transformar Dakhla e o eixo Dakhla-Nuaquechote no prolongamento desta profundidade comercial em direção ao Sahel.
O autor argumenta que a Mauritânia se encontra, desta forma, no centro de dois projetos de corredores concorrentes, podendo tirar partido desta posição para atrair investimento e fluxos comerciais — o que considera legítimo. No entanto, sublinha que esta centralidade coloca também à prova a reivindicação mauritana de uma "neutralidade construtiva" na questão do Sahara Ocidental, território que a ONU mantém na lista de territórios não autónomos, e cujo povo saharaui conserva o direito imprescritível à autodeterminação, segundo o direito internacional. Belani questiona até que ponto uma neutralidade "diplomática" se pode distinguir de uma integração económica crescente no dispositivo marroquino.
O gasoduto e outros projetos convergentes
O autor identifica a mesma ambiguidade no Gasoduto Africano Atlântico Nigéria-Marrocos, projeto que envolve também a Mauritânia, que deve concluir com Marrocos os acordos necessários à sua concretização — com a ONHYM (Office National des Hydrocarbures et des Mines) a já ter realizado estudos offshore ao largo de Dakhla. Segundo Belani, estrada, porto e gasoduto desenham progressivamente a mesma lógica: fazer de Dakhla uma cabeça de ponte económica para a África Ocidental e o Sahel, com a Mauritânia como território de passagem incontornável.
O papel dos Emirados Árabes Unidos
Belani identifica um terceiro ator relevante: os Emirados Árabes Unidos, que — segundo refere, remetendo para um artigo anterior seu — estariam plenamente empenhados numa operação de apoio à estratégia marroquina de penetração na África Ocidental e no Sahel, procurando simultaneamente afastar a Mauritânia da Argélia e aproximá-la da órbita dos países aderentes aos Acordos de Abraão.
Segundo o autor, os Emirados estão implantados na Mauritânia há muito tempo, tendo já anunciado em 2020 dois mil milhões de dólares para projetos de investimento e desenvolvimento, associados a um empréstimo concessional, com o Fundo de Abu Dhabi para o Desenvolvimento a financiar várias infraestruturas rodoviárias no país. Belani sustenta que Abu Dhabi joga paralelamente a sua própria partida, que se cruza largamente com os interesses marroquinos: consolidar a sua influência sobre portos, corredores comerciais e cadeias logísticas africanas, através de operadores como a AD Ports Group e a DP World, que formam, segundo o autor, os dois braços armados desta projeção emiratina entre concessões portuárias, investimentos e corredores comerciais que ligam o Golfo aos mercados africanos.
Uma batalha mais ampla
Belani conclui que a Mauritânia se encontra assim no cruzamento de duas estratégias: um corredor de passagem para a ambição marroquina em direção à África Ocidental, e um espaço de expansão para a estratégia portuária e logística emiratina. Segundo o autor, por detrás da estrada Dakhla-Nuadibu-Nuaquechote joga-se uma batalha mais ampla em torno dos corredores, dos portos, da energia e do controlo dos futuros fluxos entre o Magrebe, o Sahel e a África Ocidental — uma dinâmica que, conclui, se desenrola infelizmente em detrimento do povo saharaui.
Fonte: Maghreb Online

