sábado, 16 de maio de 2026

Marrocos sob pressão energética: tensão no Estreito de Ormuz ameaça agravar dependência externa e fragilidade financeira do reino

 

Cartoon gerado por IA


A escalada de tensão no Estreito de Ormuz poderá colocar Marrocos perante uma nova fase de forte pressão económica e orçamental, numa altura em que o reino continua altamente dependente das importações de petróleo e gás natural para sustentar a sua economia, produção elétrica, transportes e atividade industrial.

O estreito, situado entre o Irão e Omã, é um dos mais importantes corredores energéticos do planeta. Cerca de um quinto do petróleo consumido mundialmente transita diariamente por aquela rota marítima estratégica. O Estreito de Ormuz é absolutamente crítico não apenas para o petróleo e o gás (cerca de 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) atravessa a região), mas também para cadeias globais ligadas à agricultura, fertilizantes e segurança alimentar. Qualquer ameaça ao tráfego marítimo, aumento dos prémios de risco ou agravamento militar na região tende a refletir-se quase imediatamente nos preços internacionais do crude, do gás natural liquefeito (GNL) e dos seguros marítimos.

Para Marrocos, país praticamente desprovido de reservas significativas de petróleo e gás, o impacto poderá revelar-se particularmente severo.




Dependência energética estrutural

Marrocos importa mais de 90% das suas necessidades energéticas, sobretudo combustíveis fósseis. O país depende fortemente da compra de petróleo refinado, gás natural e carvão nos mercados internacionais, ficando extremamente vulnerável à volatilidade dos preços globais da energia.

Marrocos é uma potência mundial dos fosfatos (existentes no seu território nacional como na mina de Fous BuCraa, no Sahara Ocidental que ocupa militarmente), mas continua dependente do Golfo e do mercado energético internacional para transformar plenamente essa riqueza mineral em produção agrícola e fertilizantes competitivos.

Para produzir fertilizantes completos — especialmente fertilizantes azotados (nitrogenados) — é necessário: amoníaco; ureia; hidrogénio industrial; gás natural barato. E o gás natural é a matéria-prima crítica...

O encerramento, em 2021, do gasoduto Magrebe-Europa — consequência da deterioração das relações diplomáticas entre Marrocos e Argélia — agravou ainda mais essa dependência. Rabat perdeu então uma importante fonte regional de abastecimento de gás argelino, passando desde então a recorrer a importações de GNL através de Espanha, utilizando fluxos invertidos do mesmo gasoduto.

Apesar dos investimentos em energias renováveis, especialmente solar e eólica, os hidrocarbonetos continuam essenciais para:

  • transportes;

  • indústria;

  • produção elétrica;

  • logística;

  • agricultura intensiva;

  • dessalinização de água;

  • produção de fertilizantes e fosfatos.

A situação torna-se ainda mais sensível devido ao crescimento demográfico, à urbanização acelerada e à ambição marroquina de se afirmar como plataforma industrial e logística entre África e Europa.


Choque energético ameaça contas públicas

Uma subida prolongada dos preços do petróleo e do gás poderá exercer forte pressão sobre as contas públicas marroquinas.

  • O Estado tem procurado limitar o impacto social da inflação energética através de mecanismos indiretos de apoio ao consumo, compensações fiscais e subsídios a setores estratégicos, sobretudo transportes, eletricidade e produtos alimentares. Contudo, um choque energético internacional de grande dimensão poderá obrigar Rabat a:

  • aumentar despesas de compensação;

  • reforçar apoios sociais;

  • absorver parte da inflação importada;

  • aumentar o défice orçamental;

  • recorrer a mais endividamento externo;

  • reduzir investimento público;

  • pressionar reservas cambiais.



O risco é agravado pelo facto de Marrocos enfrentar simultaneamente:


  • inflação alimentar persistente;

  • stress hídrico estrutural;

  • forte dependência cerealífera externa;

  • elevado desemprego jovem;

  • necessidades crescentes de investimento em infraestruturas;

  • custos sociais elevados;

  • e um esforço militar cada vez mais pesado.

Além disso, o aumento do custo energético afeta diretamente setores considerados estratégicos para o crescimento marroquino, como:

  • automóvel;

  • agroindústria;

  • cimento;

  • turismo;

  • fosfatos;

  • transportes marítimos;

  • aviação;

  • construção civil.


Energia tornou-se questão de segurança nacional

Nos últimos anos, Rabat acelerou a sua estratégia de diversificação energética e redução parcial da dependência externa. Entre os principais projetos destacam-se:

  • expansão da energia solar no Complexo Solar Noor Ouarzazate;

  • desenvolvimento de terminais de GNL;

  • novas interligações elétricas com Espanha e Portugal;

  • projetos de hidrogénio verde orientados para exportação para a Europa;

  • exploração offshore de gás natural ao largo da costa atlântica;

  • reforço das capacidades de armazenamento estratégico.

Ainda assim, a transição energética marroquina permanece insuficiente para reduzir rapidamente a exposição do país aos mercados internacionais de petróleo e gás.


O peso crescente da despesa militar

A vulnerabilidade económica torna-se ainda mais delicada devido ao aumento contínuo das despesas militares marroquinas.

Nos últimos anos, Rabat intensificou o seu esforço de rearmamento devido:

  • à rivalidade estratégica com a Argélia;

  • à questão do Sahara Ocidental;

  • à modernização acelerada das Forças Armadas;

  • às compras de armamento aos Estados Unidos, Israel e França.


Segundo estimativas internacionais, Marrocos gastou cerca de 6,3 mil milhões de dólares em defesa em 2025, o equivalente a aproximadamente 3,5% do PIB (a maior parte dos analistas considera este número bastante abaixo do real...) e mais de 12% da despesa pública do Estado.

O esforço militar marroquino é considerado particularmente elevado para um país:

  • importador líquido de energia;

  • fortemente dependente de capitais externos;

  • sujeito a stress hídrico;

  • com forte dependência alimentar;

  • e com necessidades sociais significativas.

Nos últimos anos, Rabat adquiriu:

  • drones israelitas e norte-americanos;

  • sistemas antiaéreos;

  • helicópteros Apache;

  • caças F-16 modernizados;

  • sistemas de vigilância e guerra eletrónica;

  • armamento naval e missilístico.

Num cenário de petróleo caro e tensão prolongada no Estreito de Ormuz, o orçamento marroquino poderá ficar pressionado simultaneamente por:

  • dependência energética;

  • inflação importada;

  • rearmamento militar;

  • pressão social interna;

  • aumento do serviço da dívida.


Monarquias do Golfo poderão ter menor margem de apoio

Outro fator potencialmente sensível prende-se com a capacidade financeira das monarquias do Golfo para continuarem a apoiar economicamente Marrocos nos níveis observados em crises anteriores.

Historicamente, países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos desempenharam um papel importante no financiamento de projetos, apoio orçamental e investimentos estratégicos em Marrocos.

Contudo, um eventual agravamento regional envolvendo o Irão poderá obrigar essas monarquias a concentrarem recursos financeiros:

  • na defesa;

  • na proteção de infraestruturas energéticas;

  • no reforço militar;

  • e na reconstrução de ativos eventualmente atingidos por ataques ou sabotagens.

Isso poderá reduzir a disponibilidade de apoio financeiro externo a Rabat precisamente num momento de maior vulnerabilidade energética e orçamental.

Contraste com a Argélia

O contexto beneficia parcialmente a vizinha Argélia, grande exportadora de gás e petróleo, que tende a lucrar com preços energéticos elevados através do aumento das receitas externas e fiscais.

Esse contraste energético reforça uma das principais fragilidades estruturais marroquinas: a ausência de recursos fósseis relevantes num momento em que a energia voltou a assumir um papel central na geopolítica mundial e na estabilidade económica dos Estados.

Estreito de Ormuz. Uma oportunidade a aproveitar para a Argélia

 

Argélia, província de Ouargla, 11 de março de 2022. Um operário a trabalhar na fábrica da Sonatrach, a mais importante empresa argelina de petróleo e gás, no Sahara argelino. Complexo petrolífero de Hassi Messaoud. Foto de J-F ROLLINGER / ONLY WORLD / ONLY FRANCE VIA AFP


Enquanto o encerramento do Estreito de Ormuz perturba os fluxos energéticos mundiais, a Argélia [um dos principais apoiantes políticos, económicos e militares da luta pela autodeterminação do Povo Saharaui]   surge como um dos raros beneficiários indiretos da crise. Graças à sua localização no Mediterrâneo, às suas infraestruturas voltadas para a Europa e à subida dos preços, Argel está a colher um bónus que surge na altura certa para as suas finanças públicas fragilizadas. Resta saber se esta oportunidade será, por uma vez, aproveitada.

 Autor: Paul Audinet - Doutorando em História Contemporânea (Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne).Publicação: Orient XXI 14 de maio 2026.


Desde 2 de março de 2026, o encerramento do Estreito de Ormuz perturba um dos principais corredores energéticos mundiais, por onde transitam cerca de 20 % dos fluxos internacionais de petróleo e gás natural liquefeito. Os produtores do Golfo vêem as suas exportações prejudicadas. A Argélia, por sua vez, expede os seus volumes a partir do Mediterrâneo Ocidental, longe da zona de crise.

Esta vantagem geográfica traduz-se imediatamente no plano comercial. Situada a sul de uma Europa preocupada em garantir o seu abastecimento, a Argélia dispõe de acesso direto aos seus mercados. A União Europeia continua a ser, de longe, o seu principal mercado de gás e absorve uma grande parte do seu petróleo bruto. Acima de tudo, dois gasodutos ligam diretamente o país ao continente: o Transmed para Itália via Tunísia e o Medgaz para Espanha, cuja capacidade foi aumentada nos últimos anos. O gás argelino chega assim aos seus clientes sem depender de rotas marítimas em tensão. O gasoduto Magrebe-Europa, que passava por Marrocos, permanece suspenso desde 2021, após a ruptura diplomática entre Argel e Rabat.

Enquanto, no final de 2025, os equilíbrios financeiros do país se tinham deteriorado significativamente, esta nova situação surge na altura certa. A Argélia é uma das economias mais dependentes do mundo das suas exportações de hidrocarbonetos: estas representam, em média, mais de 90 % das suas receitas em divisas e 60 % das suas receitas orçamentais totais. Quando os preços baixam, é todo o funcionamento do Estado que se contrai.

Em 2025, as receitas de exportação do setor diminuíram, enquanto o défice orçamental ultrapassava os 10 % do PIB, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). O Fundo de Regulação das Receitas, constituído pelas poupanças petrolíferas acumuladas durante os ciclos de alta anteriores, está agora esgotado. As reservas cambiais também diminuíram significativamente, para cerca de 55 mil milhões de dólares (46 mil milhões de euros) no verão de 2025, ou seja, menos de um terço do seu nível de 2013. Ao mesmo tempo, os bancos públicos, principal canal de financiamento interno, já estão a ser fortemente solicitados pelas necessidades do Tesouro. O orçamento de 2026 tinha então sido elaborado com base numa hipótese prudente de 60 dólares (51 euros) por barril.

Essa hipótese rapidamente se desfez. Se o Sahara Blend — o petróleo bruto de referência argelino, apreciado pelas refinarias europeias pelo seu baixo teor de enxofre — ainda valia menos de 70 dólares (60 euros) em janeiro, ultrapassou os 100 dólares (85 euros) em média em março, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), ou seja, o seu nível mais alto desde o choque energético de 2022. No início de maio, apesar do anúncio de um cessar-fogo que continua frágil no terreno, os preços oscilam entre 95 e 110 dólares (81 a 94 euros).

Para Argel, o efeito é imediato: aumento das receitas de exportação, melhoria da balança corrente e alívio orçamental. A recuperação do preço do petróleo também sustenta as receitas do gás, num mercado europeu que voltou a tornar-se extremamente sensível ao risco de abastecimento.


Um fornecedor indispensável

Várias capitais europeias não tardaram a reagir. A 25 de março, a presidente do Conselho italiano, Giorgia Meloni, deslocou-se a Argel. No dia seguinte, o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, seguiu-lhe os passos.

Imagem gerada por IA


A Itália e a Espanha recebem, cada uma, cerca de 30 % das suas importações de gás da Argélia e procuram aumentar as suas compras. Roma aprofunda a cooperação entre a Ente nazionale idrocarburi (ENI) e a Sonatrach, nomeadamente no setor offshore e dos hidrocarbonetos não convencionais. Madrid aposta num aumento adicional das entregas através do Medgaz. Numa Europa ainda marcada pelo choque do gás de 20221(1), a Argélia volta a ser um fornecedor estratégico de proximidade. O Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou, por outro lado, as suas previsões de crescimento para 2026, citando o país entre os vencedores económicos do conflito.

A crise poderá também aumentar a atratividade do país para os investidores. A 19 de abril, Argel lançou o seu segundo concurso internacional em dois anos, o «Algeria Bid Round 2026», relativo a sete áreas de exploração saharianos. O calendário não tem nada a ver com o conflito: responde a uma necessidade de longa data. Os grandes jazidas históricas, Hassi Messaoud para o petróleo e Hassi R’Mel para o gás, que entraram em produção na viragem da década de 1960, estão a chegar ao fim do seu ciclo de vida e exigem novos substitutos.

Mas a subida vertiginosa dos preços altera o contexto. Os preços elevados aumentam a rentabilidade potencial dos projetos e tornam o risco argelino mais aceitável para as grandes petrolíferas. No entanto, ainda será necessário concretizar esses planos. As campanhas anteriores suscitaram frequentemente um interesse inferior ao esperado, travadas pela burocracia, pela perceção de instabilidade regulamentar e por uma concorrência internacional acirrada pelo capital no setor energético.


Uma trégua orçamental, mas equação permanece inalterada

No entanto, esta recuperação da sorte pode ser apenas uma trégua. A história recente convida à prudência. Os dois últimos grandes ciclos de expansão — 2002-2008 e, posteriormente, 2022-2023 — permitiram à Argélia reconstituir as suas margens orçamentais sem empreender uma transformação económica sustentável.
O país continua preso numa armadilha da renda: as receitas dos hidrocarbonetos financiam subsídios, transferências sociais e despesas públicas, o que amortece as tensões económicas e sociais a curto prazo, mas reduz o incentivo para diversificar o aparelho produtivo, alargar a base fiscal e melhorar o ambiente empresarial. Quando os preços estão altos, a urgência da mudança diminui; quando caem, os meios de ação ficam limitados.

Persistem outras fragilidades. O consumo interno de gás cresce rapidamente e reduz os volumes exportáveis. As exportações não relacionadas com hidrocarbonetos continuam a ser marginais. A economia informal continua a ser dominante, representando cerca de 45 % do PIB. Por fim, a tentação de financiar os défices através da emissão monetária não desapareceu, com os riscos habituais: inflação mais elevada e pressão sobre o dinar.

Se o estreito de Ormuz reabrisse de forma duradoura, os preços acabariam por normalizar-se. A Argélia continuaria então a enfrentar os mesmos desafios que antes da crise: dependência do petróleo e do gás, margens orçamentais limitadas, diversificação incompleta. A crise no Médio Oriente oferece a Argel uma trégua orçamental e uma visibilidade inesperada. Não altera, porém, a equação de fundo.


(1) - A crise mundial do gás teve início em 2021, na sequência da forte recuperação económica após a recessão associada à pandemia da Covid-19, e foi agravada pela invasão da Ucrânia pela Rússia no final de fevereiro de 2022.



sexta-feira, 15 de maio de 2026

Seguridad Nacional alerta para reativação da rota do haxixe entre Marrocos e Espanha

 


O Departamento de Segurança Nacional (DSN) espanhol alerta, no seu relatório anual de 2025, para uma reativação da rota do haxixe entre Marrocos e Espanha, num contexto de aumento da atividade do narcotráfico no estreito de Gibraltar. A informação foi hoje avançada pelo jornal espanhol El Confidencial, citando o documento oficial do organismo dependente da presidência do Governo espanhol.

Segundo o relatório, Marrocos continua a ser o “principal produtor mundial de haxixe” e a rota de exportação para Espanha “parece ter sido reativada” no último ano. Apesar da redução das áreas de cultivo de cannabis no Rif, o aumento da produtividade mantém a produção anual estimada entre 2.500 e 3.000 toneladas.

O documento refere ainda que as organizações criminosas passaram a operar mais frequentemente a partir da costa marroquina para evitar a apreensão de embarcações pelas autoridades espanholas. O tráfico recorre agora a barcos de menor dimensão, pesqueiros, veleiros e iates para introduzir droga em Espanha através de portos de pesca, marinas e desembarques em praias.

O DSN estima que existam atualmente mais de 600 embarcações rápidas (“go-fast”) suspeitas de participação em operações de narcotráfico, sobretudo na zona do estreito de Gibraltar. Trata-se da primeira vez que uma autoridade espanhola apresenta uma estimativa desta dimensão da frota ligada ao tráfico de droga.

O relatório destaca também um aumento significativo das apreensões de combustível no sul de Espanha, particularmente nas províncias de Cádis e Huelva, destinado ao abastecimento das narcolanchas.

Entre as principais tendências identificadas pelo organismo espanhol está o aumento da violência dos traficantes, incluindo o uso de armas de guerra e ataques contra embarcações e veículos das forças de segurança. O documento recorda a morte de um agente da GNR portuguesa, em outubro, no rio Guadiana, após a colisão provocada por uma embarcação ligada ao narcotráfico.

Outra das novidades apontadas é o regresso do transporte aéreo de droga, incluindo o uso de drones e aeronaves clandestinas para transportar haxixe entre Marrocos e Espanha.

O relatório refere ainda que a pressão policial no golfo de Cádis está a levar os traficantes a expandirem as rotas para oeste, em direção à costa portuguesa, e para leste, até ao Mediterrâneo espanhol, Baleares e sul de França e Itália.

Segundo o DSN, a proibição em Espanha da fabricação e posse de lanchas rápidas levou parte da produção destas embarcações a deslocar-se para o norte de Portugal.


Última apreensão de armas de guerra no dia 8 de maio,
num navio com 30 toneladas de cocaína. (Guarda Civil)


O documento assinala igualmente o crescimento da chamada “rota atlântica do haxixe”, através da qual a droga é enviada da costa atlântica marroquina para países africanos como Senegal, Guiné-Bissau e Guiné-Conacri, seguindo depois por via terrestre através do Sahel até à Líbia e posteriormente para a Europa ou Médio Oriente.

Além do haxixe, as autoridades espanholas registaram um aumento das apreensões de heroína e cocaína. No caso da cocaína, as quantidades apreendidas triplicaram nos últimos cinco anos, atingindo 124 mil quilos.

O relatório do Departamento de Segurança Nacional foi divulgado poucos dias após a morte de dois agentes da Guardia Civil durante uma perseguição a uma narcolancha ao largo de Huelva.

Fonte: El Confidencial

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Minas no Sahara Ocidental causam morte de jovem e criança, denunciam organizações saharauis

 


As organizações saharauis de direitos humanos e de ação contra minas denunciaram a morte recente de um jovem de 20 anos e de uma criança de quatro anos devido à explosão de minas na região de Zag, junto ao muro militar marroquino no Sahara Ocidental.
A denúncia foi feita pela Oficina Sa
haraui de Coordenação da Ação contra as Minas e pela organização de direitos humanos CODESA, que apelaram à comunidade internacional para adotar medidas urgentes de proteção da população civil.

Segundo as organizações, as vítimas morreram numa área contaminada por minas terrestres e restos explosivos de guerra instalados em torno do muro militar construído por Marrocos nos anos 80.

As associações recordam que a barreira defensiva marroquina se estende por mais de 2.700 quilómetros e permanece cercada por milhões de minas antipessoais e antiveículo, consideradas entre os maiores campos minados do mundo.

De acordo com as denúncias divulgadas esta quarta-feira, os explosivos continuam a afetar sobretudo crianças, pastores, nómadas e habitantes de zonas rurais próximas do muro.




As organizações saharauis criticam ainda o que consideram ser um tratamento desigual por parte da comunidade internacional relativamente às vítimas civis do conflito no Sahara Ocidental. Referem que, enquanto vários governos ocidentais reagiram rapidamente após os recentes projéteis lançados pelo Exército de Libertação do Povo Ssaharaui (ELPS) sobre Smara, os incidentes causados por minas em áreas saarauís raramente motivam respostas internacionais visíveis.

As associações defendem também que Marrocos adira à Convenção de Otava sobre minas antipessoais, publique mapas dos campos minados e facilite operações de desminagem e proteção da população civil em conformidade com o direito internacional humanitário.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Frente POLISARIO condena a visita do embaixador dos EUA em Marrocos à cidade saharaui ocupada de Dakhla

 

Duke Buchan III

A Frente POLISARIO condenou a visita do embaixador dos Estados Unidos em Marrocos, Duke Buchan III, à cidade de Dakhla, no Sahara Ocidental ocupado, considerando que a deslocação compromete o processo de paz conduzido sob os auspícios das Nações Unidas.

Em comunicado divulgado esta quinta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Árabe Sa
haraui Democrática afirmou que a visita “viola o estatuto internacional do Sahara Ocidental” enquanto território sujeito a um processo de descolonização supervisionado pela ONU.

Segundo a Frente POLISARIO, a deslocação do diplomata norte-americano “não contribui para criar o clima de confiança necessário” às negociações em curso sobre o futuro do território e poderá ter um impacto negativo no processo de paz.

O movimento de libertação do povo saharui acusou ainda Marrocos de tentar “impor um facto consumado” no Sahara Ocidental e criticou os aliados marroquinos no Conselho de Segurança das Nações Unidas por contribuírem para o prolongamento do conflito.

No comunicado, a organização recorda que o cessar-fogo assinado em 1991 deixou de estar em vigor após alegadas violações por parte de Marrocos em novembro de 2020, sublinhando que “não existe atualmente qualquer acordo de cessar-fogo” entre as forças marroquinas e o exército saharaui.

A Frente POLISARIO reiterou também a legitimidade da luta do povo saharaui pelo direito à autodeterminação e independência, evocando várias resoluções da Assembleia Geral da ONU que reconhecem esse direito.

O Sahara Ocidental é considerado pelas Nações Unidas um território não autónomo à espera de descolonização. O conflito opõe há décadas Marrocos à Frente POLISARIO, que reclama a realização de um referendo de autodeterminação à população autoctone.

terça-feira, 5 de maio de 2026

A MINURSO opera com empréstimos e apenas um mês de liquidez, segundo um relatório oficial da ONU



Um documento das Nações Unidas alerta para a grave crise financeira das operações de paz e coloca a missão no Sahara Ocidental entre as mais afetadas.

Um relatório oficial das Nações Unidas revelou que a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) está a operar em condições financeiras precárias, recorrendo a empréstimos para sustentar a sua atividade e com um nível de liquidez que cobre apenas um mês de funcionamento.

O documento, elaborado pela Comissão Consultiva em Assuntos Administrativos e Orçamentais da ONU, adverte para uma crise estrutural no financiamento das operações de manutenção da paz, com implicações diretas para missões como a do Sahara Ocidental.


Uma missão com liquidez crítica

Segundo o relatório, a MINURSO apresentava uma situação de caixa negativa de -9,2 milhões de dólares, o que obrigou a ONU a conceder-lhe empréstimos no valor de 14,9 milhões de dólares para manter as suas operações.

Após esse apoio financeiro, a missão dispunha de apenas 5,7 milhões de dólares em caixa — uma quantia que cobre somente um mês de despesas operacionais, muito abaixo dos níveis considerados adequados para garantir a estabilidade de uma missão internacional.

O próprio documento refere que esta situação faz parte de um problema mais amplo: várias operações de paz, incluindo a MINURSO, estão a funcionar através de empréstimos entre missões, uma prática que evidencia a falta estrutural de recursos no sistema.




Uma crise de liquidez que afeta o cumprimento dos mandatos

A Comissão Consultiva adverte que os problemas de liquidez são "persistentes e cada vez mais graves" e podem comprometer diretamente a capacidade das missões para cumprir os seus mandatos.

No caso do Sahara Ocidental, este dado adquire especial relevância: a MINURSO foi criada em 1991 com o objetivo de organizar um referendo de autodeterminação que, mais de três décadas depois, continua por realizar.

A precariedade financeira da missão soma-se assim a um bloqueio político prolongado, configurando um cenário em que a capacidade operacional da ONU no território fica ainda mais limitada.


Falta de transparência e dificuldades de gestão

O relatório aponta igualmente problemas na qualidade e disponibilidade da informação orçamental fornecida pela Secretaria da ONU, alertando para deficiências em matéria de transparência, comparabilidade e coerência dos dados.

Estas lacunas, segundo a Comissão, dificultam a análise e a tomada de decisões por parte dos Estados-membros, e podem afetar a supervisão efetiva das missões no terreno.


Uma missão-chave numa situação frágil

A inclusão da MINURSO entre as missões que necessitam de financiamento através de empréstimos reforça a imagem de uma operação internacional enfraquecida, tanto no plano político como no financeiro.

Enquanto o conflito do Sahara Ocidental continua sem solução política, os próprios dados da ONU revelam que a missão encarregada de facilitar esse processo opera em condições de fragilidade crescente.

(In Por un Sahara Libre