quarta-feira, 22 de julho de 2026

Família de Naâma Asfari denuncia ausência de contacto e apela a intervenção internacional

 


A família do defensor saharaui dos direitos humanos e preso político Naâma Asfari denunciou esta quarta-feira não ter qualquer contacto com o ativista desde 13 de julho, manifestando profunda preocupação com o agravamento do seu estado de saúde durante a greve de fome iniciada a 8 de junho.

Em comunicado, a família afirma ter tentado repetidamente obter informações junto da administração da prisão de Kenitra, em Marrocos, sem sucesso. Segundo o texto, as autoridades prisionais recusaram prestar esclarecimentos sobre o estado de saúde ou a situação de Naâma Asfari, aumentando a angústia e a incerteza dos familiares.

A família denuncia ainda que Asfari deixou de poder contactar telefonicamente os familiares, uma possibilidade que, segundo refere, lhe era regularmente concedida. Considera que a ausência total de comunicação, num contexto de greve de fome prolongada, suscita sérias preocupações quanto à sua integridade física, ao seu estado de saúde e à própria vida.

No comunicado, os familiares responsabilizam as autoridades marroquinas por todas as consequências decorrentes da greve de fome e por quaisquer danos que possam resultar da falta de resposta às reivindicações consideradas legítimas pelo ativista.

A família apela à intervenção urgente das organizações nacionais e internacionais de defesa dos direitos humanos, dos mecanismos das Nações Unidas, em particular do Comité contra a Tortura e do Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbitrária, bem como do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), para que atuem junto das autoridades marroquinas com vista a proteger a vida de Naâma Asfari e garantir a sua segurança física.


A esposa de Naâma Asfari, Claude Mangin, está há anos impedida de visitar o marido
na prisão marroquina de Kenitra  


O comunicado recorda que o caso de Naâma Asfari já foi objeto de decisões de organismos das Nações Unidas. O Comité contra a Tortura concluiu que o ativista foi vítima de tortura e maus-tratos, instando Marrocos a assegurar uma reparação efetiva, enquanto o Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbitrária considerou, em 2023, que a sua privação de liberdade é arbitrária e defendeu a sua libertação, bem como uma reparação em conformidade com o direito internacional.

Face ao agravamento da situação, a família apela à comunidade internacional para que intervenha sem demora, de forma a evitar consequências irreversíveis, proteger a vida de Naâma Asfari e assegurar o respeito pelos seus direitos fundamentais e pelas obrigações internacionais de Marrocos em matéria de direitos humanos.

Caso Pegasus volta a ensombrar aproximação entre França e Marrocos - Primeiro-ministro francês também foi espiado!

 


Novas revelações sobre a alegada utilização do programa espião Pegasus pelos serviços de informação marroquinos voltaram a colocar sob pressão a relação entre Paris e Rabat, numa altura em que o Governo francês reafirma o seu apoio à posição de Marrocos sobre o Sahara Ocidental.

Segundo um artigo de Ali Attar, publicado a 17 de julho de 2026, no AFRIK.COM as novas informações foram divulgadas pela organização Forbidden Stories e por um consórcio de 14 órgãos de comunicação internacionais. A investigação sustenta que o Pegasus terá sido utilizado pelos serviços marroquinos contra jornalistas, opositores, defensores dos direitos humanos e responsáveis políticos estrangeiros.

Entre os alegados alvos encontra-se o atual primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, que, precisamente no dia anterior à publicação da investigação, reafirmou em Rabat o apoio “inabalável” de França à soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental.

A investigação baseia-se no testemunho de um antigo agente da Direção-Geral da Vigilância do Território de Marrocos, identificado pelo pseudónimo “Safir”, em documentação de um processo judicial nos Estados Unidos, em dados técnicos e em relatórios dos serviços secretos franceses. Outros dois antigos agentes marroquinos terão confirmado parte das informações.

Documentos internos da empresa israelita NSO Group, criadora do Pegasus, fazem ainda referência a um cliente com o nome de código “Morgan”, que várias fontes da empresa associam a Marrocos. As autoridades marroquinas e a NSO Group não responderam aos pedidos de esclarecimento do consórcio jornalístico.


Sete telemóveis de governantes franceses com sinais de intrusão

O caso assume particular gravidade em França. Em 2021, o número de Emmanuel Macron e os de 15 membros do Governo francês surgiram numa lista de potenciais alvos atribuída ao operador marroquino do Pegasus.

Embora os resultados da análise ao telemóvel do Presidente francês nunca tenham sido tornados públicos, a Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação francesa terá identificado “vestígios de comprometimento” em sete equipamentos pertencentes a ministros ou antigos ministros.

Entre os governantes referidos encontram-se Florence Parly, Jean-Michel Blanquer, François de Rugy e Sébastien Lecornu. Os indicadores técnicos detetados seriam semelhantes aos encontrados nos aparelhos de jornalistas e opositores alegadamente vigiados pelos serviços marroquinos.

O artigo sublinha, contudo, que não existem provas públicas de que Emmanuel Macron tenha sido alvo de chantagem ou de que Marrocos tenha obtido e utilizado informações comprometedoras. Ainda assim, a suspeita de espionagem levanta dúvidas políticas sobre as decisões posteriormente tomadas por Paris em benefício de Rabat.


Justiça francesa sem cooperação de Marrocos

A investigação judicial aberta em Paris em 2021 continua, segundo o artigo, condicionada pela falta de cooperação das autoridades marroquinas, que não terão dado seguimento a uma comissão rogatória francesa.

Em fevereiro de 2026, dois antigos dirigentes da NSO Group, ouvidos em França, recusaram identificar os clientes da empresa, invocando a legislação israelita. Cinco anos depois das primeiras revelações, permanecem por esclarecer várias questões sobre a dimensão e os responsáveis pela operação.

Durante esse período, Emmanuel Macron alterou profundamente a posição francesa sobre o Sahara Ocidental. Numa carta enviada ao rei Mohamed VI, em julho de 2024, afirmou que o presente e o futuro do território se inscreviam no quadro da soberania marroquina, considerando o plano de autonomia apresentado por Rabat em 2007 como a única base para uma solução política.

Paris e Rabat preparam atualmente um tratado bilateral descrito como inédito entre França e um país não europeu, apesar de Marrocos continuar sem colaborar com a justiça francesa no processo relacionado com a alegada espionagem dos mais altos responsáveis do Estado.


Próximo Presidente francês poderá reavaliar posição

O segundo mandato de Emmanuel Macron termina em maio de 2027. O seu sucessor herdará uma posição diplomática fortemente favorável a Marrocos, mas que, segundo o artigo, poderá ser revista por não resultar de uma votação parlamentar nem de um tratado juridicamente vinculativo.

Entre as opções apontadas encontram-se condicionar o aprofundamento das relações bilaterais à cooperação judicial marroquina, divulgar as análises técnicas dos serviços franceses e submeter a política sobre o Sahara Ocidental ao Parlamento.

O direito europeu poderá igualmente pesar num eventual reexame da posição francesa. O Tribunal de Justiça da União Europeia continua a considerar o Sahara Ocidental um território distinto de Marrocos, cuja população deve consentir na aplicação de acordos económicos. O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros francês mantém o território classificado como “não autónomo”, de acordo com a Carta das Nações Unidas.

As novas revelações reforçam, assim, a questão que poderá marcar o debate político francês antes das eleições presidenciais de 2027: saber se a aproximação diplomática a Marrocos foi decidida com plena independência, enquanto vários dirigentes franceses eram alegadamente alvo de espionagem por parte desse mesmo parceiro.

Fonte: Ali Attar, “Lecornu espionné par Pegasus: l’encombrant dossier marocain de l’Élysée”, publicado em 17 de julho de 2026.

terça-feira, 21 de julho de 2026

AAPSO envia carta ao embaixador de Marrocos apelando pela vida de Naâma Asfari, ao 42.º dia de greve de fome


Cartaz de solidariedade com o preso Naâma Asfari


A Associação de Amizade Portugal–Sahara Ocidental (AAPSO) enviou esta segunda-feira, dia 21 de julho, uma carta ao embaixador do Reino de Marrocos em Portugal, Othmane Bahnini, apelando à proteção urgente da vida de Naâma Asfari, defensor saharaui dos direitos humanos, atualmente em greve de fome no estabelecimento penitenciário de Kenitra.

Segundo a carta, Asfari — sentenciado a 30 anos de prisão — encontra-se em greve de fome desde 8 de junho, perfazendo já 42 dias, tendo perdido mais de nove quilogramas. A AAPSO alerta que o agravamento do seu estado de saúde coloca a sua vida em risco iminente, exigindo uma resposta urgente das autoridades marroquinas.

A associação recorda que o caso de Asfari já foi objeto de pronunciamentos formais por parte de mecanismos das Nações Unidas. No Parecer n.º 23/2023, o Grupo de Trabalho da ONU sobre a Detenção Arbitrária concluiu que a sua privação de liberdade é arbitrária, enquadrando-se nas categorias I, III e V, e instou Marrocos a adotar medidas para sanar a situação, incluindo a libertação imediata e uma reparação adequada. A carta recorda ainda que, em 2017, o Comité das Nações Unidas contra a Tortura já tinha concluído que as declarações usadas para fundamentar a condenação de Asfari foram obtidas sob tortura, recomendando uma investigação eficaz, reparação dos danos e indemnização — recomendações que, segundo a AAPSO, permanecem por cumprir.

Na carta, a associação associa-se ao apelo das Nações Unidas, recordando que, segundo os Procedimentos Especiais da ONU, ninguém deveria ser forçado a colocar a própria vida em risco para exercer o direito de defender os direitos humanos.




A AAPSO solicita ao embaixador que transmita às autoridades marroquinas quatro pedidos concretos: a garantia imediata da integridade física, da vida e do acesso de Asfari a cuidados médicos independentes e adequados; a implementação integral das recomendações da ONU relativas ao caso; a autorização, sem mais demoras, do acesso regular da família — em particular da esposa de Asfari, Claude Mangin — à prisão de Kenitra; e a facilitação de diligências humanitárias por parte de organizações internacionais competentes, incluindo o Comité Internacional da Cruz Vermelha.

A associação apela ainda a que Marrocos honre, na prática, os princípios do direito internacional, dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana que o país subscreve e reafirma publicamente, tanto através das suas instituições nacionais como enquanto membro do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Saharauis de Laayoune celebram nas ruas vitória de Espanha com gigantesca caravana de veículos


Um vídeo gravado no domingo em Laayoune (El Aaiún), principal cidade do Sahara Ocidental, mostra uma caravana de cerca de uma centena de veículos cujos ocupantes celebravam a vitória da seleção espanhola, buzinando e percorrendo as principais ruas da cidade, segundo avança o órgão canário "Lancelot Digital".

Segundo o periódico, as imagens chamaram a atenção pelo ambiente festivo e pelo simbolismo de uma celebração que evidencia os laços estreitos que parte da população saharaui mantém com Espanha. Durante décadas, o Sahara Ocidental foi província espanhola e, apesar do tempo entretanto passado, continuam a existir importantes ligações históricas, culturais e familiares entre os dois territórios.

Antes da final, já era conhecido que boa parte da população saharaui simpatizava com Espanha em detrimento da Argentina. Para além das preferências desportivas, muitos adeptos valorizavam o estilo de jogo da seleção espanhola, enquanto as críticas à equipa argentina se centravam no facto de esta ter chegado à final beneficiando de circunstâncias favoráveis, além de contar com o contributo decisivo da sua principal estrela, Leo Messi.

A celebração ocorreu num território cuja situação política permanece por resolver. O Sahara Ocidental continua à espera de um referendo de autodeterminação, previsto no âmbito das resoluções das Nações Unidas, mas bloqueado há décadas devido à rejeição do Reino de Marrocos em o concretizar. 

Marrocos bloqueou o processo assim que a Comissão de Identificação da MINURSO concluiu os trabalhos de identificação, em dezembro de 1999, com a publicação da segunda lista provisória em janeiro de 2000. Dessa identificação resultou uma lista provisória de 86.412 eleitores considerados elegíveis para votar num eventual referendo de autodeterminação. No entanto, o recenseamento eleitoral definitivo nunca chegou a ser concluído, uma vez que o processo ficou paralisado na fase de recursos, apresentados sobretudo por Marrocos, que contestou a exclusão de milhares de candidatos a eleitores — um impasse que, mais de duas décadas depois, continua a impedir a realização do referendo previsto pelas resoluções das Nações Unidas.


Viva Espanha!

As imagens divulgadas a partir de Laayoune reabrem também o debate sobre a identidade de parte da população saharaui. Segundo o Lancelot Digital, muitos dos participantes na celebração manifestaram publicamente o seu apoio a Espanha, refletindo um sentimento de proximidade com o país com quem partilharam um longo período de história comum, não obstante a antiga potência colonial os haver traído ao longo de um processo que desembocou em 50 anos de ocupação marroquina.

Este episódio ocorre num contexto marcado pela mudança de posição do Governo espanhol relativamente ao conflito do Sahara Ocidental. O executivo do PSOE apoiou o plano de autonomia proposto por Marrocos como base "mais séria, realista e credível" para uma solução do conflito, uma decisão justificada por razões de estabilidade e cooperação bilateral, mas que foi recebida com críticas pela Frente Polisario e por quem defende a realização do referendo de autodeterminação.

Fonte: Lancelot Digital


Antes da final, já era conhecido que boa parte da população saharaui simpatizava com Espanha em detrimento da Argentina. Para além das preferências desportivas, muitos adeptos valorizavam o estilo de jogo da seleção espanhola, enquanto as críticas à equipa argentina se centravam no facto de esta ter chegado à final beneficiando de circunstâncias favoráveis, além de contar com o contributo decisivo da sua principal estrela, Leo Messi.

A celebração ocorreu num território cuja situação política permanece por resolver. O Sara Ocidental continua à espera de um referendo de autodeterminação, previsto no âmbito das resoluções das Nações Unidas, mas bloqueado há décadas devido a divergências sobre o recenseamento eleitoral e outros aspetos do processo.

As imagens divulgadas a partir de Laayoune reabrem também o debate sobre a identidade de parte da população saharaui. Segundo o Lancelot Digital, muitos dos participantes na celebração manifestaram publicamente o seu apoio a Espanha, refletindo um sentimento de proximidade com o país com quem partilharam um longo período de história comum.

Este episódio ocorre num contexto marcado pela mudança de posição do Governo espanhol relativamente ao conflito do Sara Ocidental. O executivo do PSOE apoiou o plano de autonomia proposto por Marrocos como base "mais séria, realista e credível" para uma solução do conflito, uma decisão justificada por razões de estabilidade e cooperação bilateral, mas que foi recebida com críticas pela Frente Polisário e por quem defende a realização do referendo de autodeterminação.

Fonte: Lancelot Digital


sexta-feira, 17 de julho de 2026

A máquina de espionagem do "vice-rei" de Marrocos: Pegasus terá visado mais de 250 telemóveis espanhóis, segundo investigação do El Confidencial




Uma investigação jornalística internacional revela que os serviços de informação de Marrocos construíram um sistema estrutural de vigilância em massa que ultrapassa o uso isolado de programas espiões, integrando ferramentas como o Pegasus numa verdadeira cadeia de comando destinada a controlar tanto dissidentes internos como líderes internacionais — incluindo, segundo o apurado, o próprio presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez.

De acordo com a investigação, coordenada pela organização Forbidden Stories e publicada em Espanha pelo El Confidencial, através dos jornalista E. Torrico, G. M. Piantadosi, M. Á. Gavilanes,  Ignacio Cembrero, José Bautista e Hicham Mansouri, esta arquitetura de vigilância estaria sob supervisão de Fouad Ali El Himma, conselheiro principal e colaborador próximo do rei Mohamed VI, conhecido internamente nos serviços secretos marroquinos como o "vice-rei" ou "o rei na sombra". A operação seria conduzida através da Direção-Geral de Vigilância do Território (DGST), o serviço de informação interno de Marrocos, dirigido por Abdellatif Hammouchi.


Mais de 250 telemóveis espanhóis visados entre 2018 e 2019

Segundo o apurado pela investigação, os serviços marroquinos tentaram infetar com o Pegasus — programa espião da empresa israelita NSO Group — pelo menos 250 telemóveis com número espanhol entre maio de 2018 e junho de 2019, dois anos antes de se confirmar a infeção dos dispositivos de Pedro Sánchez e de vários ministros do seu Governo. Nesse período, foram registadas 768 tentativas de infeção, com um máximo de 106 ataques num único dia, a 16 de março de 2019.

De acordo com o El Confidencial, quando os alvos eram dirigentes de topo — como membros do Governo espanhol ou o presidente francês Emmanuel Macron —, as operações eram autorizadas diretamente por El Himma. Já a Direção-Geral de Estudos e Documentação (DGED), o serviço de informação externo marroquino, não tinha acesso direto ao Pegasus, mas podia propor alvos à DGST, segundo dois antigos funcionários citados pelo consórcio jornalístico.


Ativistas saharauis, jornalistas e diplomatas argelinos entre os alvos

A investigação identifica dezenas de pessoas visadas em Espanha, com particular incidência sobre cidadãos marroquinos residentes no país, muitos deles originários do Rife, além de ativistas e representantes saharauis ligados à Frente Polisario. Entre os nomes identificados constam Mohamed Beisat, atual responsável da diplomacia da República Saharaui, Mouloud Said, delegado da Frente Polisario em Washington, e a ativista Aminatou Haidar, juntamente com o professor da Universidade Pública de Navarra Abderrahman Taleb Omar e o doutorando da Universidade de Sevilha Bachir Mohamed Lahcen, diretor do portal "España en Árabe".

A lista inclui ainda vários jornalistas e académicos, como El Houssine Majdoubi, que terá acumulado 42 tentativas de infeção — a cifra mais elevada registada em Espanha —, o académico Aboubakr Jamai, os opositores marroquinos Karim el Otmani e Faouzi Hliba, o jornalista Ali Lmrabet, o correspondente neerlandês Koen Greven e o próprio jornalista espanhol Ignacio Cembrero, autor da reportagem. Entre os alvos militares e diplomáticos figura ainda o coronel da Guarda Civil Alberto Aguilera, então chefe de Informações para a Catalunha, alvo de cinco tentativas de infeção em março de 2019, bem como vários diplomatas argelinos destacados em Espanha, incluindo a então embaixadora Taous Feroukhi.

O Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional, que prestou apoio técnico à investigação, sublinha que a documentação obtida comprova tentativas de infeção, mas não permite concluir, sem uma análise forense individual de cada dispositivo, que todas tenham sido bem-sucedidas.


Cartoon gerado por IA


O caso Pedro Sánchez e o silêncio das autoridades

Segundo a investigação, a DGST terá continuado a utilizar o Pegasus até finais de 2021, altura em que Israel começou a retirar a Marrocos a autorização para usar o software, após a revelação pública do chamado Pegasus Project. Emmanuel Macron terá transmitido pessoalmente as suas queixas a Mohamed VI depois de se saber que o seu telemóvel e os de vários membros do seu Governo estavam entre os alvos — o monarca marroquino negou qualquer envolvimento, segundo declarações do escritor Tahar Ben Jelloun a uma televisão israelita.

Os jornalistas do consórcio assinalam ainda não ter havido conhecimento de qualquer protesto formal do Governo espanhol junto de Marrocos pela espionagem ao telemóvel de Pedro Sánchez, nem ações judiciais contra a NSO Group, cuja exportação do Pegasus deveria ser autorizada pelo Ministério da Defesa israelita. O caso ganha um contorno adicional de contradição institucional: o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, viria mais tarde a atribuir a Grã-Cruz da Ordem do Mérito da Guarda Civil a Abdellatif Hammouchi, enquanto o chefe de Informações da Guarda Civil, general Luis Peláez, viajou a Rabat para participar numa cerimónia de condecoração de responsáveis marroquinos. 


Uma operação de escala global

Segundo o consórcio jornalístico, os 250 telemóveis espanhóis fazem parte de uma operação de alcance muito mais amplo, que terá selecionado mais de 12.000 dispositivos espalhados por cerca de vinte países, sobretudo pertencentes a cidadãos marroquinos, argelinos e franceses — números que recordam a investigação original de 2021 da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional, que já então tinha revelado tentativas de espionagem contra mais de 12.000 pessoas através do Pegasus.

A investigação atual foi conduzida por um consórcio de 39 jornalistas coordenado pela Forbidden Stories, com a participação do El Confidencial, Le Monde, Radio France, The Guardian, Haaretz, Die Zeit, Der Spiegel, Der Standard, OCCRP, Código Morse, Paper Trail Media, Hawamich e Tamedia, novamente com apoio técnico do Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional. Segundo o El Confidencial, até ao fecho da investigação não tinham respondido aos pedidos de esclarecimento os ministérios espanhóis do Interior, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, nem a DGST, a DGED, a Casa Real marroquina ou a israelita NSO Group.

Fonte: El Confidencial, com base em investigação do consórcio coordenado pela Forbidden Stories.