quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Hackers do Jabaroot divulgam dados de 70 mil agentes dos serviços secretos marroquinos, em plena crise de Ceuta

Imagem gerada por IA



A ameaça lançada pelo grupo de hackers Jabaroot concretizou-se. Segundo um artigo publicado pelo El Confidencial a 24 de agosto, da autoria de Alicia Alamillos e Ignacio Cembrero, começaram a circular nas redes sociais, esta segunda-feira, listas com nomes, números de identificação nacional e outros dados sensíveis alegadamente pertencentes a milhares de agentes das agências de inteligência interna e da polícia de Marrocos.


O conteúdo da fuga de informação

De acordo com o artigo, os documentos incluem dados de identificação — bilhete de identidade nacional e número de funcionário da Administração Pública — e o ano de recrutamento de pelo menos 70 mil supostos agentes da Direção-Geral de Supervisão do Território (DGST, serviços secretos internos) e da Direção-Geral de Segurança Nacional (DGSN, a polícia). Uma segunda lista inclui ainda as patentes e os números de identificação bancária de uma seleção de 1.400 agentes. 


Abdellatif Hammouchi


Segundo o El Confidencial, a lista foi considerada autêntica, pelo menos parcialmente, por vários ex-agentes dos serviços secretos marroquinos contactados pelo jornal, que confirmaram que alguns dos nomes divulgados pertencem efetivamente à DGST — entre os quais o diretor de recursos humanos da agência, o diretor-adjunto de contraespionagem e o chefe da Unidade de Investigação. O artigo admite a possibilidade de a lista ter sido obtida há algum tempo e apenas divulgada agora.


Uma fuga sem precedentes, em plena crise diplomática

Os autores descrevem esta fuga de informação como a maior falha de segurança alguma vez enfrentada pelos serviços marroquinos, coincidindo com a crise diplomática entre Espanha e Marrocos em torno de Ceuta. Dias antes, o Jabaroot já tinha ameaçado publicar estes documentos, apontando Abdellatif Hammouchi — alto responsável de ambas as agências — como o principal culpado pela recente entrada massiva de migrantes na cidade autónoma. Na sequência dessa ameaça, o grupo foi banido do Telegram, plataforma onde publicava os seus comunicados, presumivelmente a pedido de Rabat. 


"O grande presente do Jabaroot para a Europa"

Segundo o artigo, uma das mensagens que acompanha esta divulgação descreve-a como "o grande presente de Jabaroot para a Europa, e especialmente para Espanha". O grupo — cuja identidade ou afiliação permanece desconhecida, ainda que em Marrocos se aponte a vizinha e rival Argélia como possível responsável — afirma que a publicação expõe "70 mil agentes dos serviços de inteligência e segurança marroquinos, que percorreram a Europa a levar a cabo as missões de inteligência mais sujas, como espionagem, instalação de dispositivos de escuta e suborno de políticos e empresários". Os hackers acrescentam que a divulgação visa confirmar que a emigração de marroquinos para a Europa, a começar por Espanha, constitui "um plano oficial marroquino".


Nova ameaça: identificar os responsáveis pelo "plano de Ceuta"

O artigo revela ainda uma nova promessa do grupo: a publicação de uma lista adicional com os nomes específicos dos agentes que terão "orquestrado e coordenado o plano de Ceuta". Segundo o Jabaroot, citado pelo El Confidencial, os hackers afirmam ter obtido cópias das ordens destinadas "aos agentes que viajaram para Fnideq (Castillejos) antes e durante os acontecimentos".


Fouad Ali el Himma, principal conselheiro do rei


A narrativa do grupo sobre a crise de Ceuta

Segundo o artigo, o Jabaroot publica conteúdos sobre Ceuta desde 7 de agosto, tendo já exigido desculpas oficiais, luto nacional e a suspensão das eleições legislativas marcadas para 23 de setembro em Marrocos. O grupo atribui a responsabilidade pela crise a Fouad Ali el Himma, principal conselheiro do rei, em colaboração com outro conselheiro não identificado, afirmando que "foram eles que planearam o ataque para colocar a Espanha numa situação difícil", com o conhecimento de "um grande país e de outro Estado fictício" — numa alusão aos Estados Unidos e a Israel. Segundo o mesmo relato, o rei Mohamed VI "não sabia de nada", enquanto Hammouchi estaria agora "com medo" e a "jogar as suas últimas cartas", por saber que será o "bode expiatório" do episódio.

Os autores do artigo notam que esta versão coincide parcialmente com uma investigação anterior do próprio El Confidencial, publicada a 12 de agosto e baseada em testemunhos de dois ex-agentes marroquinos exilados, segundo os quais o núcleo de poder liderado por Himma e Hammouchi terá deixado propositadamente fluir a emigração para Ceuta como retaliação contra artigos publicados em julho por 14 meios de comunicação social — entre os quais o próprio El Confidencial — sobre as práticas dos serviços secretos marroquinos.


Um historial de fugas de informação

O artigo recorda que o Jabaroot mantém, desde abril do ano passado, um extenso historial de divulgações através do Telegram, incluindo a lista de 3.400 funcionários dos palácios reais e a de dois milhões de segurados da Segurança Social marroquina. Os ciberataques do grupo já revelaram também documentos sobre bens imobiliários de Nasser Bourita, ministro dos Negócios Estrangeiros, de Yassin Mansouri, diretor da agência de informações externas (DGED), e de Mohamed Raji, número dois da DGST e responsável pelas escutas.

Segundo o El Confidencial, para tentar travar estas fugas, o rei demitiu em setembro o general Mostafa Rabil, até então à frente da Direção-Geral de Segurança dos Sistemas de Informação, substituindo-o pelo general Abdellah Boutrig.

Os autores traçam ainda um paralelo histórico com um episódio do outono de 2014, quando centenas de documentos e e-mails da diplomacia e dos serviços secretos externos marroquinos foram divulgados no Twitter — um ataque atribuído à Direção-Geral de Segurança Externa (DGSE) francesa, em retaliação por uma agressão sofrida pouco antes pela sua então representante em Rabat.


Uma nova provocação em espanhol

O artigo termina com uma nota adicional: horas depois de os hackers terem constatado que as suas listas tinham chegado tanto aos serviços marroquinos como aos espanhóis, e após a publicação deste mesmo artigo, o grupo acrescentou um novo comentário, desta vez diretamente em espanhol: "Quem está interessado nos dados originais do Pegasus relacionados com Pedro Sánchez?"

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Muro marroquino no Sahara Ocidental: quatro décadas depois, continua a dividir território e famílias

O muro em 2002. Imagem AFP PHOTO / PATRICK HERTZOG

Um artigo publicado pelo  Gizmodo em espanhol - publicação digital internacional dedicada à tecnologia, ciência e atualidade -, da autoria de Martín Nicolás Parolari, revisita o chamado muro marroquino do Sahara Ocidental, uma infraestrutura militar erguida por Marrocos entre 1981 e 1987 com apoio e aconselhamento de peritos de várias nacionalidades, nomeadamente israelitas. Essa infraestrutura divide o território ocupado por Marrocos e que o reino alauita designou por «sahara útil» e o território controlado pela Frente Polisario. Mais de 40 anos depois da sua construção, ele continua a funcionar como uma fronteira militar e um símbolo da ocupação.


Uma estrutura à escala da fronteira EUA-México

Segundo o artigo, somando as suas diferentes linhas e prolongamentos, a estrutura atinge aproximadamente 2.700 quilómetros de extensão — uma dimensão próxima da fronteira completa entre os Estados Unidos e o México, que ronda os 3.200 quilómetros segundo o Departamento de Estado norte-americano.


O texto descreve o muro não apenas como uma linha visível do ar sobre a areia, mas como uma sucessão de montículos, valas, arame farpado, posições militares e campos onde sair do trajeto conhecido pode ser fatal — uma referência direta aos extensos campos minados que acompanham toda a extensão da estrutura.


Mais do que uma linha defensiva

O foco central do artigo é mostrar que o muro deixou de ser apenas uma obra de defesa militar erigida durante a guerra entre Marrocos e a Frente Polisario para se tornar, décadas depois, uma fronteira de facto que separa território, população e famílias saharauis — perpetuando uma divisão humana e territorial que persiste sem resolução política à vista.

sábado, 22 de agosto de 2026

Grupo de hackers Jabaroot ameaça revelar identidade de milhares de agentes secretos marroquinos



Um artigo do jornalista Ignacio Cembrero, publicado no El Confidencial a 20 de agosto, dá conta de uma nova ameaça lançada pelo grupo de "hackers" Jabaroot (Poder), que na terça-feira anunciou poder divulgar os nomes de todos os espiões ao serviço da agência de inteligência interna de Marrocos, num aparente ataque dirigido a Abdellatif Hammouchi, apontado como o responsável pela recente entrada massiva de migrantes em Ceuta.


A ameaça e as provas apresentadas

Segundo o artigo, para demonstrar a seriedade da ameaça, o Jabaroot publicou no seu canal do Telegram uma amostra com nomes e datas de nascimento de cerca de vinte agentes da Direção-Geral de Supervisão do Território (DGST), organismo dirigido por Hammouchi, que acumula ainda a chefia da polícia marroquina (DGSN). O grupo afirma dispor de uma base de dados adicional com cerca de 70 mil nomes.

Cembrero sublinha que as ameaças destes "hackers" devem ser levadas a sério, uma vez que praticamente sempre as cumpriram, e que todos os documentos e bases de dados que já divulgaram se revelaram autênticos. Segundo o artigo, as autoridades marroquinas acusam o grupo de atuar a soldo da Argélia, embora especialistas em cibersegurança e fontes de inteligência duvidem dessa origem sem, contudo, terem certezas sobre a verdadeira proveniência do coletivo — a consultora Navakintelligence chega a atribuir esta atividade a um único ex-agente.


A versão do Jabaroot sobre a crise em Ceuta

De acordo com o texto, os piratas informáticos têm publicado conteúdos sobre Ceuta desde 7 de agosto, tendo já exigido desculpas oficiais, luto nacional e a suspensão das eleições legislativas marcadas para 23 de setembro em Marrocos. Esta semana, porém, o grupo apresentou a sua própria versão dos acontecimentos, atribuindo a responsabilidade pela crise a Fouad Ali el Himma, principal conselheiro do rei Mohamed VI, em colaboração com outro conselheiro não identificado. Segundo o Jabaroot, citado no artigo, "foram eles que planearam o ataque para colocar a Espanha numa situação difícil", com o conhecimento de "um grande país e de outro Estado fictício" — numa alusão aos Estados Unidos e a Israel.

O grupo isenta o rei de qualquer responsabilidade, afirmando que "não sabia de nada", enquanto descreve Hammouchi como estando "com medo" e a "jogar as suas últimas cartas", por saber que será o "bode expiatório" do episódio. A mensagem termina com uma advertência em espanhol dirigida a Hammouchi, prometendo que as autoridades espanholas irão descobrir a "farsa dos teus agentes fracassados".


Coincidência com investigação jornalística anterior

Cembrero nota que esta versão do Jabaroot coincide parcialmente com uma peça publicada pelo próprio El Confidencial a 12 de agosto, baseada em testemunhos de dois ex-agentes marroquinos exilados, segundo os quais o núcleo de poder liderado por Himma e Hammouchi terá deixado propositadamente fluir a emigração para Ceuta como forma de retaliação contra artigos publicados em julho por 14 meios de comunicação social — entre os quais o próprio El Confidencial — sobre as práticas dos serviços secretos marroquinos.


Histórico de fugas de informação

O artigo recorda que o Jabaroot mantém, desde abril do ano passado, um historial de fugas de dados através do Telegram, incluindo a lista de 3.400 funcionários dos palácios reais e a de dois milhões de afiliados à Segurança Social marroquina. Os ciberataques do grupo já revelaram também documentos sobre bens imobiliários de Nasser Bourita, ministro dos Negócios Estrangeiros, de Yassin Mansouri, diretor da agência de inteligência externa (DGED), e de Mohamed Raji, número dois da DGST e responsável pelas escutas.

Segundo Cembrero, para tentar travar estas fugas, o rei demitiu em setembro o general Mostafa Rabil, até então à frente da Direção-Geral de Segurança dos Sistemas de Informação, substituindo-o pelo general Abdellah Boutrig.


Precedente histórico

O artigo estabelece ainda um paralelo com um episódio anterior, remontando ao outono de 2014, quando centenas de documentos e e-mails da diplomacia e dos serviços secretos marroquinos foram divulgados no Twitter — um ataque atribuído, segundo Cembrero, à Direção-Geral de Segurança Externa (DGSE) francesa, em retaliação por um ataque anteriormente sofrido pela sua representante em Rabat.