A crise migratória em Ceuta expôs a crescente capacidade de Marrocos para pressionar Espanha através do controlo dos fluxos migratórios e revelou a influência do rei Mohamed VI sobre o Governo de Pedro Sánchez, sustenta uma análise publicada pelo Financial Times.
Segundo o jornal britânico, a entrada de cerca de 60 mil migrantes em Ceuta constituiu o ponto culminante de uma estratégia que Rabat tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos cinco anos, transformando a gestão da migração numa importante alavanca diplomática sobre Madrid.
O Financial Times considera que, apesar da economia marroquina representar apenas cerca de um décimo da espanhola, Marrocos beneficia de uma posição estratégica única: controla uma das principais portas de entrada da imigração africana para a Europa e detém capacidade para aumentar ou reduzir a pressão migratória conforme os seus interesses políticos.
Uma relação de dependência
O jornal refere que Pedro Sánchez procurou preservar uma relação cordial com Mohamed VI desde a crise diplomática de 2021, evitando confrontos públicos para garantir a cooperação marroquina no controlo da imigração irregular, sobretudo na rota das Canárias.
Contudo, antigos responsáveis espanhóis citados pelo Financial Times consideram que essa estratégia acabou por ser interpretada em Rabat como um sinal de fragilidade política.
A viragem sobre o Sahara Ocidental
A análise recorda que a crise começou a intensificar-se em 2021, quando Espanha acolheu para tratamento hospitalar Brahim Ghali, líder da Frente Polisario.
Em resposta, Marrocos relaxou o controlo fronteiriço e cerca de 8.000 migrantes entraram em Ceuta.
No ano seguinte, Madrid alterou a sua posição histórica sobre o Sahara Ocidental, passando a apoiar o plano marroquino de autonomia para o território, decisão considerada pelo Financial Times como uma importante vitória diplomática para Rabat.
Persistem divergências estratégicas
Apesar da aproximação, o jornal identifica três grandes pontos de tensão entre os dois países:
- as relações privilegiadas de Espanha com a Argélia, rival regional de Marrocos;
- a reivindicação marroquina sobre Ceuta e Melilha;
- o alinhamento oposto de Madrid e Rabat em relação à Administração Trump.
Enquanto Pedro Sánchez tem protagonizado vários confrontos políticos com Donald Trump, Mohamed VI consolidou uma relação privilegiada com Washington através dos Acordos de Abraão, que levaram os Estados Unidos a reconhecerem a soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental.
Ceuta e Melilha podem entrar na agenda americana
O Financial Times cita especialistas que admitem que Marrocos poderá tentar aproveitar a proximidade com Donald Trump para reforçar internacionalmente as suas reivindicações sobre Ceuta e Melilha, considerando existir uma oportunidade política rara durante o atual mandato presidencial norte-americano.
Sánchez evita responsabilizar Rabat
Apesar da dimensão da crise migratória, Pedro Sánchez recusou atribuir responsabilidades ao Governo marroquino.
Segundo o Financial Times, o primeiro-ministro espanhol responsabilizou sobretudo as redes de tráfico de seres humanos e a desinformação difundida nas redes sociais, agradecendo simultaneamente a colaboração de Rabat no rápido regresso da maioria dos migrantes a Marrocos.
O jornal conclui que a crise demonstrou como Marrocos conseguiu transformar a gestão da migração numa ferramenta de influência política sobre Espanha, consolidando uma posição de força numa relação bilateral cada vez mais assimétrica.
Fonte: Financial Times (4 de agosto de 2026).



