Por Jesús Cabaleiro Larrán - Periodistas en español
26/08/2026
Menos de um por cento, apenas 0,8% do total do recenseamento oficial de Marrocos de finais de 2024, que ascendeu a 36 828 330 habitantes, falava árabe hassania, o dialeto saharaui. Os dados do último recenseamento da população marroquina foram elaborados pelo Alto Comissariado para o Planeamento (HCP, sigla em francês).
Isto significa que um total aproximado de 294 626 pessoas no território marroquino falam hassania, incluindo as regiões do sul de Marrocos e as zonas do antigo Sahara Espanhol, controladas desde a guerra de 1975-91 e divididas por um muro.
Este número assume especial relevância quando a análise se limita às duas regiões que abrangem a maior parte do Sahara: El Aaiún-Saguía el Hamra e Dajla-Rio de Ouro-Dahab, que somam uma população conjunta de 670 993 habitantes.
O árabe hassania, para além do Sahara, é falado no sudoeste da Argélia (incluindo os campos de refugiados saharauis), na Mauritânia e em zonas do Senegal, do Mali e do Níger. Difere notavelmente do dariya (árabe marroquino) em vocabulário, gramática e fonética, conservando uma maior proximidade com o árabe clássico em alguns fonemas.
A presença do árabe hassania é numericamente minoritária. De um ponto de vista teórico, se todos os falantes residissem nas três regiões, representariam pouco mais de um quarto da população total, ou seja, 26,49 %.
Administrativamente, Marrocos divide-o em três regiões e dez províncias distintas: Guelmim-Oued Noun; El Aaiún-Bojador-Saguía el Hamra e Dajla-Rio de Ouro. Estas três zonas têm uma população conjunta que ultrapassa o milhão de habitantes, mais concretamente, 1 119 678 habitantes.
A maior delas é El Aaiún-Bojador-Saguía el Hamra, criada em 2014, com 451 028 habitantes (301 744 em 2014, 245 562 em 2004), aos quais há que acrescentar os 16 228 habitantes de Tarfaya (13 082 em 2014, 5 615 em 2004), situada no território internacionalmente reconhecido pelo Marrocos.
A capital saharaui, El Aaiún, tem 262 791 habitantes; Bojador, por sua vez, conta com 57 360 habitantes (42 651 em 2014, 39 698 em 2004). Inclui-se também Smara, cidade com 56 607 habitantes, que é a povoação urbana mais antiga do território e a única cidade saharaui não fundada pelos espanhóis.

Fonte: diario La Nación de Costa Rica (2016)/Periodistas en español.
Segue-se a região de Dajla-Rio do Ouro-Dahab, a mais a sul, com 219 965 habitantes, dos quais a maior parte, 165 463, vive na segunda maior cidade saharaui, Dajla, a antiga Villa Cisneros.
A região marroquina de Guelmim-Oued-Rio Non, cuja grande maioria se situa em território marroquino, inclui uma pequena parte que pertencia ao Sahara e conta com um total de 448 685 habitantes. A zona tem uma presença histórica de tribos saharauis, os Tekna.
Acontece que há habitantes de etnia saharaui nesta zona que partilham os princípios dos seus compatriotas do sul, no que era o antigo Sahara espanhol, e defendem a Frente Polisario. Em contrapartida, nesta zona, Marrocos pretende apropriar-se da cultura autóctone e celebra um suposto festival saharaui em Tan Tan (curiosamente proibido desde 1979, tendo sido retomado em 2004).
É importante recordar que o recenseamento marroquino, nem qualquer outro documento oficial, faz distinções entre os habitantes de etnia saharaui e os não saharauis, vindos de diferentes províncias marroquinas, tanto nesta região fronteiriça como no próprio território do Sahara.
De acordo com as estimativas apresentadas num estudo, a população saharaui autóctone ascenderia a pouco mais de 177 000 pessoas num território que conta atualmente com mais de 670 000 habitantes. Paradoxalmente, os saharauis são minoria no seu território ancestral, com uma proporção de quase quatro colonos marroquinos por cada saharaui; outros apontam que a proporção é de sete para um.
Estes números diferem consideravelmente das estimativas oficiais marroquinas anteriores, que indicavam a presença de mais de 500 000 «saharauis», o que demonstra como são apresentados como assimilados ou saharauis aqueles que não o são pelo simples facto de viverem nesse território.
A transformação da composição da população, com chegadas em massa desde 1976 e antes do anunciado referendo de autodeterminação em 1991, mostra como Rabat altera a origem. Assim, as próprias estatísticas publicadas pela administração marroquina põem em causa a narrativa oficial sobre a composição demográfica do Sahara Ocidental.
Os próprios dados oficiais do HCP constituem uma prova documental significativa para compreender a evolução demográfica do território e as consequências da prolongada ocupação marroquina, alimentando assim o debate internacional sobre o direito do povo saharaui à autodeterminação e o estatuto jurídico do Sahara Ocidental.
No que diz respeito aos saharauis que se encontram nos campos de refugiados de Tindouf, distribuídos por cinco acampamentos, os dados da ONU de 2007 estimavam o seu número em 125 000; quase vinte anos depois, o último estudo da agência ACNUR aponta para mais de 173 600. As línguas oficiais são o árabe hassania e o espanhol.
Implicações na perspetiva do Direito Internacional
A mudança na composição demográfica ao longo dos últimos cinquenta anos constitui também um fator relevante do ponto de vista jurídico e político.
A análise defende que o assentamento de populações marroquinas no Sahara deve ser analisado à luz do direito internacional humanitário; mais concretamente, do artigo 49.º da Quarta Convenção de Genebra de 1949, relativo à transferência da população civil da potência ocupante para os territórios ocupados.
O estudo também associa a questão demográfica à gestão dos recursos naturais do território — incluindo os fosfatos e os recursos pesqueiros —, argumentando que os benefícios decorrentes dos investimentos em infraestruturas e da exploração económica revertem, na sua maioria, para as populações que se estabeleceram no território após o início da ocupação.
Este ponto já foi expresso no acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), que distingue Marrocos do território do Sahara, e até mesmo pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAS).

