terça-feira, 31 de março de 2026

A RASD, 50 anos de resistência, dignidade e esperança

 


O intérprete e educador saharaui Abderrahman Buhaia assina no jornal El Independiente um texto comemorativo por ocasião do 50.º aniversário da proclamação da República Árabe Saharaui Democrática (RASD), no qual percorre os principais marcos históricos, políticos e militares que marcaram a trajetória do povo saharaui desde 1976 até aos dias de hoje.

domingo, 29 de março de 2026

Gás e Sahara Ocidental redesenham alianças: Itália ganha peso, Espanha oscila e Argélia impõe pragmatismo

 



A geopolítica da energia no sul da Europa está a ser redesenhada sob o duplo impacto da instabilidade internacional e do conflito do Sahara Ocidental, com a Argélia a afirmar-se como fornecedor estratégico e a Itália a consolidar uma posição de vantagem.

A recente deslocação da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a Argel insere-se numa estratégia clara: garantir segurança energética num contexto de risco acrescido no Médio Oriente e reforçar um eixo político estável no Mediterrâneo. A ligação através do gasoduto TransMed e o reforço da cooperação entre a ENI e a Sonatrach consolidam essa relação.

No centro desta reconfiguração está o Sahara Ocidental. O apoio da Espanha, em 2022, ao plano de autonomia de Marrocos para o território — contrariando décadas de posição mais equilibrada — provocou uma rutura com Argel, principal apoiante da Frente Polisario. A suspensão de relações comerciais e políticas marcou um ponto de viragem.

Esse “zig-zag” da política externa espanhola abriu espaço para Roma. Enquanto Madrid perdia margem de influência, a Itália avançava com uma estratégia coerente e contínua, assente em interesses energéticos e numa diplomacia estável, consolidando-se como principal parceiro europeu da Argélia.

Entretanto, o quadro regional voltou a alterar-se. O reforço das relações entre a França, sob liderança de Emmanuel Macron, e o Marrocos de Mohamed VI tem pressionado Argel a evitar isolamento estratégico. Neste contexto, a Argélia iniciou uma reaproximação pragmática a Espanha, sobretudo nos domínios energético e comercial.

Ainda assim, a desconfiança mantém-se. Em Argel, a mudança de posição espanhola sobre o Sahara Ocidental continua a ser vista como uma quebra de confiança, limitando a profundidade da reaproximação.

A realidade energética impõe, no entanto, pragmatismo. Num cenário de elevada volatilidade global, a Argélia reforça o seu papel como fornecedor-chave de gás à Europa, tanto para a Península Ibérica como, de forma crescente, para Itália e para a Europa Central, via Áustria e Alemanha. Este posicionamento confere-lhe margem de manobra política acrescida.

Neste novo equilíbrio, a Itália surge como o parceiro mais consistente e previsível, enquanto Espanha tenta recuperar terreno após uma inflexão diplomática com custos duradouros. No pano de fundo, o conflito do Sahara Ocidental continua a condicionar alianças, influenciar decisões energéticas e moldar o mapa estratégico do Mediterrâneo.

Human Rights Watch (HRW) alerta para “ambiguidade destrutiva” no processo de paz do Sahara Ocidental

© 2023 Ryad Kramdi/AFP via Getty Images


A organização Human Rights Watch alertou para os riscos associados à atual condução do processo de paz no Sahara Ocidental, defendendo a necessidade de maior clareza e equilíbrio nas negociações entre Marrocos e a Frente Polisario.

Segundo a análise, as recentes negociações — retomadas após quase sete anos de impasse e impulsionadas pelos Estados Unidos — representam um desenvolvimento inesperado, mas assentam numa base considerada ambígua e potencialmente prejudicial ao processo.

A crítica centra-se na resolução mais recente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que mantém o princípio da autodeterminação, mas introduz referências à proposta de autonomia de Marrocos que, segundo a HRW, geram interpretações divergentes entre as partes.

Enquanto Marrocos encara as negociações como um processo para implementar a sua proposta de autonomia, a Frente Polisario defende um quadro mais amplo que inclua a possibilidade de independência, mantendo o desacordo de fundo.

A organização considera que o envolvimento direto dos Estados Unidos, fora do quadro tradicional liderado pela ONU, poderá agravar a perceção de parcialidade e comprometer a confiança no processo.
O conflito, que dura há cerca de 50 anos, continua a opor Marrocos — que controla grande parte do território — e o movimento i
de libertação nacional saharaui, apoiado pela Argélia.

A HRW defende que um eventual acordo exige medidas prévias de confiança entre as partes, como a libertação de presos políticos e a redução das hostilidades, bem como a definição de um quadro negocial claro e consensual.

Sem essas condições, a organização considera que a atual dinâmica poderá dificultar, em vez de facilitar, uma solução duradoura para o conflito.


Espanha: CEAS-Sáhara lança campanha de emergência após inundações nos campos de refugiados

 


A Coordenadora Estatal de Associações Solidárias com o Sahara de Espanha (CEAS-Sahara) lançou uma campanha de emergência para apoiar a população refugiada saaraui afetada por inundações recentes nos campos de refugiados, com especial incidência na região de Dajla.

As chuvas intensas provocaram danos significativos em habitações e infraestruturas, agravando a situação humanitária num contexto já marcado pela redução da ajuda internacional.




De acordo com a organização, as necessidades mais urgentes identificadas pela Media Luna Roja Saharaui incluem 144 toneladas de alimentos básicos, 300 tendas (jaimas) e 1.500 kits de higiene.

A campanha visa mobilizar apoio financeiro imediato para responder às necessidades essenciais da população afetada, num cenário considerado crítico pelas entidades no terreno.



Sê SOLIDÁRIO e contribui também:

Conta bancária: ES95 0081 0655 6800 0132 7041

Assunto: INUNDACIONES WILAYA DE DAJLA

quinta-feira, 26 de março de 2026

Chuvas torrenciais destroem casas e construções no campos de refugiados saharauis

 


Chuvas torrenciais de intensidade excecional atingiram os campos de refugiados saharauis, no sudoeste da Argélia, provocando inundações e elevados danos materiais, sobretudo na wilaya de Dakhla, uma das zonas mais afetadas e também a mais afastada da cidade argelina de Tindouf.
De acordo com informações no terreno, a precipitação, que começou ao início da noite de quarta-feira, originou cheias e grandes enxurradas, após uma noite marcada por valores recorde de chuva. Cerca de uma centena de habitações ficaram inundadas, num campo que alberga aproximadamente 8 mil pessoas.

A situação é agravada pelo facto de a generalidade das construções ser feita em adobe, um material tradicional de terra crua particularmente vulnerável à água. Muitas destas estruturas, já precárias, sofreram danos significativos ou colapsaram parcialmente devido à combinação de chuva intensa e rajadas de vento.

As autoridades locais referem que as inundações foram generalizadas e alertam que o impacto poderá ser severo a nível humanitário, numa população que já vive em condições frágeis. A avaliação completa dos estragos ainda não está concluída, mas teme-se que o número de casas afetadas possa aumentar.




Nos campos de refugiados de Tindouf, no sudoeste da Argélia, vivem há décadas milhares de saharauis deslocados do Sahara Ocidental (mais de 173 mil segundo dados da ONU), enfrentando condições climáticas extremas e infraestruturas limitadas.

As autoridades continuam a monitorizar a situação, enquanto cresce a preocupação com as necessidades urgentes de abrigo e apoio à população afetada.

segunda-feira, 23 de março de 2026

MINURSO perde quadros e vê estrutura reduzida no Sahara Ocidental

 

Alexander Ivanko, Chefe da MINURSO, o Major General Md Fakhrul Ahsan (Bangladesh) MINURSO Force Commander e Yusef Jedian, Head of Tindouf Liaison Office agora despedido e enviado para Nova Iorque.

A Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) está a registar uma redução significativa da sua equipa de direção, com várias saídas recentes não substituídas, num contexto de menor protagonismo nas negociações sobre o território.

Segundo a Africa Intelligence, o diplomata palestiniano Yusef Jedian, responsável pelo gabinete de ligação da ONU nos campos de refugiados saharauis de Tindouf desde 2016, deverá deixar funções até 26 de março, após não ter obtido provimento numa ação interposta no Tribunal Administrativo das Nações Unidas.

Nos últimos meses, também o chefe de gabinete da missão, o norte-americano Kenneth Payumo, cessou funções, após um mandato de quase dois anos. A posição tinha já registado elevada rotatividade, com sucessões recentes de responsáveis em curtos períodos. Em paralelo, a responsável pelo apoio à missão, a diplomata ruandesa Veneranda Mukandoli-Jefferson, também abandonou o cargo.

Mantêm-se em funções o chefe da missão, o russo Alexander Ivanko, e o seu conselheiro, Fabrizio Scarpa.


Marginalização nas negociações

De acordo com a mesma fonte, a redução da estrutura da MINURSO reflete a crescente marginalização da ONU no processo político, com as negociações a decorrerem sobretudo sob mediação dos Estados Unidos, envolvendo Marrocos, e a Frente Polisario, e tendo como observadores a Argélia e a Mauritânia.

O enviado pessoal do secretário-geral da ONU para o Sahara Ocidental, Staffan de Mistura, terá perdido protagonismo neste processo.

Com o atual mandato a terminar a 31 de outubro, a missão poderá evoluir para um papel mais limitado, centrado na supervisão de um eventual processo de autonomia no território, pelo menos será essa, no limite, a intenção da administração norte-americana e de Marrocos, se não mesmo o seu completo desaparecimento...