segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Crise de Ceuta trava turismo espanhol em Marrocos e provoca forte quebra nas reservas


O turismo espanhol para Marrocos está a sentir os efeitos da crise de Ceuta, com cancelamentos de curto prazo superiores a 80% nas agências associadas à Mesa del Turismo de España, segundo uma reportagem publicada pelo jornal espanhol El Confidencial em 12 de setembro.

A quebra surge depois de vários anos de forte crescimento do mercado espanhol em Marrocos. Em 2025, cerca de 3,8 milhões de espanhóis visitaram o país, contra 3,5 milhões no ano anterior. Os gastos realizados por residentes em Espanha durante viagens a Marrocos aumentaram de 280 milhões de euros em 2024 para 369 milhões em 2025, uma subida de 31,8%, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística espanhol (INE) citados pelo jornal.

Carlos Abella, secretário-geral da Mesa del Turismo, afirma que a situação mudou desde finais de julho e considera que, para o mercado espanhol, o destino marroquino sofreu uma forte quebra. Segundo os dados recolhidos junto das agências associadas, os cancelamentos ultrapassam 80% no curto prazo, não sendo esperada uma recuperação significativa até ao final do ano.

A principal explicação apontada é a perceção de insegurança e incerteza criada pela crise de Ceuta. José Luis Sánchez Ollero, professor de Economia Aplicada da Universidade de Málaga e especialista em turismo, considera que o viajante tende a evitar riscos e adiar deslocações enquanto não perceber que a situação está estabilizada. O académico defende também maior clareza por parte do Governo espanhol sobre as relações entre Espanha e Marrocos.

Setor apresenta leituras diferentes

A dimensão da quebra, contudo, não é consensual entre os operadores turísticos. José Manuel Lastra, presidente da Confederação Espanhola de Agências de Viagens (CEAV), citado no artigo, reconhece uma redução das reservas, mas afirma não observar cancelamentos generalizados.

Segundo dados citados pelo responsável, Agadir regista mesmo um crescimento das reservas de 10%, enquanto Marrakech apresenta uma quebra de 5,6% e Rabat e a região Tânger-Tetuão recuos entre 1% e 2%, em comparação com o verão de 2025.

Também as grandes cadeias hoteleiras espanholas presentes em Marrocos relativizam o impacto. A Barceló, que possui nove hotéis em seis cidades marroquinas, afirma que as reservas permanecem dentro dos níveis habituais para esta altura do ano. A RIU, com seis unidades no país, diz não ter registado efeitos diretos nas taxas de ocupação ou na operação dos seus hotéis, salientando que o mercado espanhol representa uma parcela reduzida dos seus clientes em Marrocos.

Apesar da atual incerteza, os grupos espanhóis mantêm planos de investimento. A Barceló prevê abrir mais quatro hotéis em Rabat, Agadir e Fez, enquanto a RIU tem programada para 2027 a renovação do Riu Palace Tikida Taghazout.

Ligações aéreas continuaram a crescer

Antes da atual crise, as ligações turísticas entre os dois países estavam em clara expansão. A Royal Air Maroc liga atualmente nove cidades espanholas a cinco destinos marroquinos, através de mais de 80 frequências semanais, tendo transportado cerca de 480 mil passageiros em 2025.

Segundo dados da Aena citados pelo El Confidencial, o número de passageiros que viajaram de aeroportos espanhóis para Marrocos aumentou 16,7% em 2025. Iberia Express, Air Europa, Vueling, Ryanair e easyJet estão igualmente entre as companhias que asseguram ligações entre os dois países.

A evolução nos próximos meses permitirá perceber se a forte quebra assinalada por parte das agências espanholas representa um impacto conjuntural da crise de Ceuta ou uma inversão mais prolongada da tendência de crescimento do turismo espanhol em Marrocos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Ex-chefe da espionagem marroquina revela bastidores de Pegasus, Ceuta e serviços secretos


Cartoon gerado por IA

Mehdi Hijaouy, antigo alto responsável dos serviços secretos de Marrocos atualmente refugiado no estrangeiro, fez ao jornal francês Le Canard enchaîné revelações sobre algumas das operações mais sensíveis atribuídas aos serviços de inteligência do reino, incluindo o caso Pegasus, a recente crise de Ceuta e o alegado envolvimento de figuras próximas de Mohamed VI.

A entrevista foi publicada em 8 de setembro pelo semanário satírico e de investigação francês Le Canard enchaîné, que apresenta Hijaouy como antigo número dois da DGED — Direction Générale des Études et de la Documentation, os serviços de informações externas de Marrocos. O antigo responsável encontra-se no estrangeiro por razões de segurança.


Fouad Ali El Himma, principal conselheiro de Mohamed VI e vulgarmente apelidado de «vice-rei» do regime


Segundo o jornal, Hijaouy dirigiu, entre outras estruturas, o Service Action da DGED e posteriormente trabalhou junto de Fouad Ali El Himma, principal conselheiro e homem de confiança do rei Mohamed VI. O Le Monde já tinha noticiado, em 2025, a sua fuga de Marrocos, o mandado de captura internacional emitido contra ele e as disputas internas que envolveram familiares e antigos colaboradores.


Pegasus e a espionagem de dirigentes estrangeiros

Um dos capítulos mais relevantes da entrevista diz respeito ao Pegasus, o programa de espionagem desenvolvido pela israelita NSO Group. Hijaouy confirma ao jornal francês, segundo a entrevista, elementos anteriormente revelados pelas investigações da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional sobre a utilização do software pelos serviços marroquinos. 

O antigo responsável atribui um papel central neste sistema a Abdellatif Hammouchi, chefe da segurança marroquina, e a Fouad Ali El Himma. Segundo Hijaouy, técnicos da NSO terão apresentado o Pegasus a Hammouchi, em Rabat, em 2017, tendo posteriormente o sistema sido utilizado para operações de vigilância.

Entre os alegados alvos associados ao caso Pegasus estiveram dirigentes e responsáveis políticos estrangeiros, incluindo Emmanuel Macron, Édouard Philippe e Pedro Sánchez, entre centenas e centenas de outras. Estas alegações sobre o uso marroquino do Pegasus têm sido contestadas por Rabat, como é habitual em todas as ações de desestabilização em que está envolvido.

Hijaouy vai mais longe e afirma ao Canard que os serviços marroquinos terão utilizado o sistema para espiar dirigentes africanos durante uma cimeira realizada em Kigali, em 2018.


Ceuta: acusações contra dois homens fortes do regime

Hijaouy aborda também a entrada de cerca de 70 mil marroquinos em Ceuta, em 30 de julho, e afirma possuir informações sobre a forma como a operação terá sido conduzida.

Aponta particularmente para Hammouchi e Fouad Ali El Himma, que o jornal descreve como braço direito de Mohamed VI e que Hijaouy conhece pessoalmente por ter trabalhado como seu conselheiro. O antigo espião questiona como seria possível uma deslocação daquela dimensão em direção à fronteira sem conhecimento das principais estruturas de segurança do reino.


O caso do pugilista Zakaria Moumni

Outro dos episódios abordados é o de Zakaria Moumni, campeão de kickboxing que denunciou ter sido sequestrado e torturado em Marrocos em 2010.



Zakaria Moumni


Hijaouy afirma ter visto Moumni depois da sua detenção e confirma ao jornal a versão segundo a qual o desportista apresentava sinais evidentes de violência. O caso provocou posteriormente uma grave crise entre Paris e Rabat, depois de a justiça francesa ter aberto uma investigação envolvendo Abdellatif Hammouchi, Diretor da Direção-Geral de Segurança Nacional e da Direção-Geral de Vigilância Territorial (DGSN-DGST).

O relacionamento entre os dois países acabaria por ser restabelecido e Hammouchi foi posteriormente distinguido pela França, tendo os serviços marroquinos também colaborado na segurança dos Jogos Olímpicos de Paris.


Uma luta no coração dos serviços secretos

As revelações surgem num contexto de fortes disputas internas no aparelho de segurança marroquino. O Le Monde já descrevera o caso Hijaouy como sintomático das rivalidades entre a DGED, a DGST, conselheiros reais e outros círculos de poder, num período marcado também pela questão da futura sucessão de Mohamed VI. O próprio Le Canard enchaîné introduz uma ressalva importante: Hijaouy «tem muitas contas a ajustar» e participou ele próprio em algumas das operações dos serviços que agora denuncia. Mas é precisamente a posição que ocupou no aparelho de Estado que torna o seu testemunho particularmente sensível.

As suas declarações colocam novamente sob escrutínio o funcionamento dos serviços secretos marroquinos, a utilização de ferramentas de vigilância como o Pegasus e o poder exercido nos bastidores por Fouad Ali El Himma e Abdellatif Hammouchi.

 

Fonte: entrevista de Jérôme Canard, «France-MarocLes confessions de l’ancien chef espion qui fait trembler le royaume», Le Canard enchaîné, 8 de setembro de 2026.