terça-feira, 7 de julho de 2026

APELO AO BOICOTE DO FILME “ODISSEIA”: O QUE ESTÁ EM CAUSA - Comunicado da AAPSO

 


A muito aguardada e publicitada estreia mundial do filme “Odisseia”, de Christopher Nolan, teve lugar ontem, 6 de Julho, em Londres. Em Lisboa iniciará a sua exibição no dia 16.  O   FiSahara - Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental, apelou ao boicote do seu visionamento. “Odisseia” foi em parte filmado nas praias de Dakhla, cidade do Sahara Ocidental que, de acordo com as Nações Unidas, é um território não-autónomo pendente de descolonização, ilegalmente ocupado por Marrocos desde 1975. 

«Quando Christopher Nolan pisar o tapete vermelho a caminho da exibição da estreia, estará também a pisar o Direito Internacional, nomeadamente o direito do povo saharaui ao seu território e aos seus recursos, que estão a ser explorados ilegalmente por Marrocos, e o direito dos saharauis a realizarem os seus próprios filmes nesse território, sem receio de serem presos», afirmou Maria Carrión, diretora executiva do FiSahara.

Em Julho de  2025, Nolan e a sua equipa,  incluindo Matt Damon,  Zendaya e Charlize  Theron, filmaram em Dakhla. Ao longo do último ano, o FiSahara procurou obter uma resposta de Nolan, das produtoras Syncopy e Universal Pictures a estas questões: por que razão escolheram este local? Estão cientes da repressão brutal de Marrocos contra o povo saharaui e irão incluir no filme as cenas filmadas sem o consentimento dos legítimos proprietários da Duna de Areia Branca, onde foram filmadas? O silêncio foi a resposta. «Christopher Nolan teve um ano para conhecer a terra de onde a minha família foi forçada a fugir em 1975 sob bombas de fósforo branco», afirmou o cineasta saharaui Brahim Chagaf, cuja curtametragem Toufa retrata o êxodo de milhares de saharauis para o exílio na Argélia durante a invasão militar marroquina. «Cresci nos campos de refugiados saharauis na Argélia e hoje, como cineasta saharaui da cidade ocupada de Dakhla, não posso entrar livremente na minha terra natal para contar as minhas próprias histórias. Essa é a grande contradição por trás desta paisagem: enquanto algumas pessoas privilegiadas, como Nolan, podem transformá-la num filme, outras continuam à espera do dia em que possam simplesmente regressar a ela».

O actor Javier Bardem declarou: «Gostaria de encorajar o Sr. Nolan a compreender a história da repressão do regime marroquino contra o povo saharaui e as suas violações sistemáticas dos direitos  humanos  contra  os  saharauis  que  vivem  sob  a  sua  ocupação  ilegal,  as  quais  estão documentadas por organizações como a Amnistia Internacional e muitas outras. Realizei um filme sobre o Sahara Ocidental há alguns anos; esta é uma questão profundamente pessoal para mim».

A  Associação  de  Amizade  Portugal-Sahara  Ocidental  (AAPSO)  junta-se  ao  apelo  do FiSahara e de outras organizações de vários países de boicote activo do “Odisseia”, explicando os motivos que fundamentam esta opção e divulgando a causa saharaui. Pede também à comunicação social e aos críticos de cinema que não ignorem o facto de parte do filme ter sido rodado num território ocupado ilegalmente, normalizando assim a ocupação, utilizando os seus  recursos  a  convite  da  potência  colonizadora  e  ignorando  a  população  saharaui,  que  é deliberadamente discriminada e reprimida. Tal como Ulisses na “Odisseia” procura regressar a Ítaca e recuperar a sua pátria, o povo saharaui quer regressar ao Sahara Ocidental através da realização de um referendo de autodeterminação, sob supervisão da ONU, há muito prometido e há muito bloqueado por Marrocos e pelos seus principais aliados. Esta é uma verdadeira odisseia do nosso tempo.  


Lisboa, 6 de Julho de 2026



domingo, 5 de julho de 2026

Agrava-se o estado de saúde de Naâma Asfari após 28 dias de greve de fome


Naâma Asfari


A Liga para a Proteção dos Presos Políticos Saharauis nas Prisões Marroquinas (LPPS) alerta para o agravamento do estado de saúde do preso político saaraui Naâma Asfari, que cumpre há 28 dias uma greve de fome em protesto contra as condições da sua detenção e a alegada violação dos seus direitos fundamentais.

Num comunicado divulgado este sábado, a organização refere que Asfari perdeu mais de oito quilos e apresenta níveis de açúcar considerados críticos, denunciando um acentuado agravamento do seu estado físico.

A LPPS acusa ainda a administração prisional marroquina de negar ao detido acompanhamento médico adequado, considerando que existe uma política de "negligência médica deliberada" e de represália contra os presos políticos saharauis.

A organização responsabiliza as autoridades marroquinas pela integridade física de Naâma Asfari e alerta para o risco de consequências irreversíveis caso a situação se mantenha. 

No comunicado, a LPPS apela à intervenção urgente das Nações Unidas, do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e de outras organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, para pressionarem Marrocos a garantir assistência médica imediata ao preso.


Prisão de Kenitra, em Marrocos

A Liga critica ainda o que considera ser o silêncio da comunidade internacional perante as alegadas violações dos direitos humanos no Sahara Ocidental e reafirma o compromisso de continuar a acompanhar o caso até à libertação de Naâma Asfari e dos restantes presos políticos saharauis. 

As ambições expansionistas de Marrocos infiltram-se no Mundial





Um artigo publicado no periódico espanhol El Independiente Las ambiciones expansionistas de Marruecos se cuelan en el Mundial analisa como a atual edição do Campeonato do Mundo de futebol se tornou também um palco para gestos políticos — com destaque para episódios ligados às reivindicações territoriais de Marrocos.

O texto começa por recordar que o futebol tem sido historicamente palco de simbolismo político, da "mão de Deus" de Maradona contra Inglaterra à vitória da Alemanha comunista sobre a Alemanha ocidental em plena Guerra Fria, passando pela presença da seleção iraniana a jogar em solo norte-americano depois de meses de guerra no Médio Oriente. Mas o protagonista maior deste Mundial, segundo o artigo, foi um adepto congolês conhecido como "Lumumba Vea", que se notabilizou por posar durante os 90 minutos do jogo entre a República Democrática do Congo e a Colômbia, imitando a estátua de Patrice Lumumba, líder da independência congolesa assassinado com colaboração da CIA e das autoridades belgas.

Segundo o artigo, esse gesto inspirou um adepto marroquino, que na bancada do jogo entre Marrocos e os Países Baixos reproduziu a mesma pose de Lumumba Veamas vestindo um chapéu ao estilo fez e uma daraa, a túnica tradicional dos homens saharauis. A peça, azul ou branca e bordada a dourado no pescoço e ombros, é descrita no artigo como central na cultura saharaui. O adepto, no entanto, trazia sobreposto um mapa de Marrocos que incluía o Sahara Ocidental como território marroquinoum pormenor que o artigo aponta como impensável no traje tradicional saharaui. 

O texto enquadra este episódio numa estratégia mais ampla de assimilação cultural do território saharaui por parte de Marrocos, ocupado desde 1976 sem conclusão do processo de descolonização definido pela ONU. Segundo o artigo, várias organizações saharauis denunciaram tentativas marroquinas de impor o dialeto dariya sobre o hassania nas escolas, bem como a proibição das jaimas, as tendas tradicionais saharauis, nos territórios ocupados — medidas que, argumenta o texto, visam apagar a cultura própria da região para justificar planos de anexação. 

O artigo relata ainda um segundo episódio: um vídeo tornado público no início da competição, em que o guarda-redes marroquino Munir Mohand Mohamedi, nascido em Melilla e com passagem por clubes espanhóis como o Málaga e o Numancia, afirmava a brincar com colegas que "Ceuta e Melilha são de Marrocos". Segundo o texto, as declarações surgem num momento de aparente distensão nas relações entre Madrid e Rabat, com o ministro espanhol José Manuel Albares a descrever a relação com Marrocos como "um exemplo mundial" e a classificar de "absurda" a hipótese de Marrocos pedir apoio dos Estados Unidos para uma eventual "descolonização" de Ceuta e Melilhaainda que um relatório não vinculativo da Câmara dos Representantes norte-americana se tenha referido às duas cidades como território marroquino administrado por Espanha.


A seleção nacional de futebol marroquina

Por fim, o artigo liga estas tensões ao Mundial de 2030, que Espanha, Portugal e Marrocos vão organizar em conjunto, e à disputa em torno do estádio que acolherá a final — com Marrocos a tentar impor o estádio Hassan II, ainda em construção e projetado para 115 mil espetadores, frente ao favorito Santiago Bernabéu. O texto recorda também que o mapa apresentado por Marrocos na candidatura oficial à FIFA incluía o Sahara Ocidental como parte do país, uma opção que a própria FIFA acabou por corrigir.