sábado, 4 de abril de 2026

Analista afasta guerra entre Marrocos e Argélia, mas alerta para risco de tensão com Espanha


Fuzileiros navais norte-americanos coordenam operações de tiro real com forças militares marroquinas e espanholas antes de se dirigirem para o campo de tiro durante o exercício «African Lion 2018», perto de Tan-Tan (Marrocos), a 19 de abril de 2018. | Exército dos EUA

A rivalidade militar entre Marrocos e Argélia tem vindo a intensificar-se, mas dificilmente evoluirá para um conflito aberto, defende Akram Kharief, diretor do portal especializado MENA Defense, numa entrevista ao jornal espanhol El Independiente.

Segundo o analista, os dois países seguem doutrinas militares distintas e não comparáveis. A Argélia aposta numa estratégia defensiva de dissuasão, preparada para enfrentar uma eventual coligação internacional, com forte investimento em sistemas antiaéreos e capacidade de resposta rápida. Já Marrocos tem vindo a transformar a sua doutrina numa lógica mais ofensiva, com foco no controlo territorial e possível expansão, incluindo no Sahara Ocidental.

Apesar da escalada armamentista, Kharief considera improvável uma guerra direta, sublinhando que ambos os países têm consciência dos elevados custos humanos e materiais de um conflito. A Argélia teria capacidade para infligir danos rápidos a infraestruturas críticas marroquinas, enquanto Marrocos poderia resistir a uma ofensiva terrestre, resultando num cenário de perdas significativas para ambos.


Fragilidades militares e dependências

O especialista aponta fragilidades nos dois lados. A Argélia enfrenta limitações logísticas devido à dimensão do território e à dependência de equipamento russo, enquanto Marrocos apresenta vulnerabilidades mais críticas, como falta de reservas de combustível, munições e meios de defesa aérea, o que compromete a sua capacidade de sustentar um conflito prolongado.


Espanha fora do radar argelino, mas alvo potencial de Marrocos

Um dos pontos mais sensíveis da análise prende-se com o papel de Espanha. Kharief afirma que a Argélia não considera Espanha uma ameaça, mantendo inclusive relações no domínio industrial e militar. Em contraste, sustenta que Marrocos tem vindo a preparar-se, tanto política como militarmente, com foco nos territórios espanhóis próximos, como Ceuta e Melilla.

O analista vai mais longe ao considerar que, em caso de tensão, os Estados Unidos tenderiam a apoiar Marrocos, num alinhamento que descreve como “bipartidário” e estrutural na política externa norte-americana.


O entrevistado, Akram Kharief


Cooperação com Israel e escolhas estratégicas

Kharief critica ainda a crescente cooperação militar entre Marrocos e Israel, considerando que resulta sobretudo de motivações políticas e não de vantagens tecnológicas ou operacionais, defendendo que Rabat teria alternativas mais eficazes junto de parceiros tradicionais como França ou Estados Unidos.


Equilíbrio instável no Magrebe

No conjunto, a entrevista traça um cenário de equilíbrio tenso, mas controlado, no Norte de África, marcado por corrida ao armamento, divergências estratégicas profundas e uma crescente dimensão geopolítica que envolve potências externas.

Embora a guerra direta seja considerada improvável, o analista alerta para riscos de escalada indireta e para o impacto potencial das dinâmicas regionais nas relações com países europeus, em particular Espanha.

ONU: Conselho de Segurança volta a abordar a questão do Sahara Ocidental

 


O Conselho de Segurança da ONU decidiu realizar duas reuniões nos dias 24 e 30 de abril para levar a cabo consultas destinadas a rever a estratégia da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) e os últimos acontecimentos no processo de paz, incluindo as conversações entre as duas partes em conflito — a Frente Polisário e a potência ocupante marroquina — sob os auspícios conjuntos de Washington e das Nações Unidas, bem como as conversações conduzidas pelo enviado da ONU com os países vizinhos, os governos e as organizações internacionais, em conformidade com as recomendações da Resolução n.º 2797, adotada em 31 de outubro de 2025


A dependência energética de Marrocos: reservas de combustíveis para cerca de dois meses em contexto de tensão energética global

 


Marrocos dispõe atualmente de reservas de gasóleo para 51 dias e de gasolina para 55 dias, enquanto os fornecimentos de carvão e gás estão assegurados até ao final de junho, segundo dados do Ministério da Energia citados pela Reuters.

A informação surge num contexto de forte volatilidade nos mercados energéticos internacionais, agravada pela guerra no Médio Oriente, que provocou uma subida acentuada dos preços do petróleo em março.

País fortemente dependente de importações, Marrocos enfrenta uma vulnerabilidade estrutural: não dispõe de capacidade de refinação doméstica desde o encerramento da refinaria de Samir, em 2015. O fecho tornou Marrocos totalmente dependente da importação de produtos petrolíferos refinados, já que também uma refinaria mais pequena situada em Sidi Kacem, também foi desativada e convertida num centro de armazenamento.

Esta situação obriga o país a importar produtos refinados, expondo-o diretamente às oscilações dos mercados internacionais.


Estratégia de diversificação energética

Apesar dessa dependência, o Governo marroquino tem apostado na diversificação do seu mix energético, nomeadamente através do desenvolvimento de energias renováveis, como a solar e a eólica, com projetos de grande escala como o complexo solar de Ouarzazate e de outros, os mais relevantes em território do Sahara Ocidental ocupado.

O orçamento do Estado para 2026 foi elaborado com base numa previsão de preço médio do petróleo de 60 dólares por barril, um valor que poderá ser pressionado em alta caso se prolonguem as tensões geopolíticas.


Exposição ao choque externo

A atual crise evidencia a fragilidade de economias dependentes de importações energéticas. O aumento dos preços internacionais tem impacto direto nos custos de transporte, produção e bens essenciais, com potenciais efeitos inflacionistas.

Num cenário de instabilidade prolongada, a capacidade de Marrocos para garantir abastecimento e controlar os custos energéticos continuará a ser um dos principais desafios económicos no curto prazo.
Fonte: Reuters.

Empresa canadiana avança com exploração de lítio no Sahara Ocidental à margem da legalidade internacional

 


A empresa canadiana Lithium Africa Resources está a desenvolver trabalhos preliminares de exploração de lítio numa área de 585 km² em Tichla, no Sahara Ocidental, território cuja soberania permanece por resolver à luz do direito internacional e que é ocupado por Marrocos.

Segundo informação divulgada pela própria empresa, foram concluídas no segundo trimestre de 2025 campanhas de cartografia geológica e amostragem de superfície, consideradas uma fase inicial antes de eventuais perfurações. O projeto não apresenta, para já, qualquer estimativa de recursos ou avaliação certificada de reservas.

A iniciativa é desenvolvida em parceria com o Office national des hydrocarbures et des mines (ONHYM), entidade marroquina, que assegura o enquadramento administrativo do projeto. No entanto, não foram divulgados os termos financeiros nem os mecanismos de autorização associados.


Carl Esprey, diretor-geral da empresa canadiana da Lithium Africa Resources Corp e Amina Benkhadra, diretora-geral da marroquina ONHYM assinam o acordo para exploração do lítio saharaui


Questões de legalidade internacional

A exploração de recursos naturais no Sahara Ocidental levanta questões jurídicas sensíveis, uma vez que o território é considerado pelas Nações Unidas como não autónomo, pendente de um processo de autodeterminação. Diversos pareceres jurídicos internacionais sublinham que qualquer atividade económica na região deve respeitar a vontade e os interesses do povo saharaui.
Neste contexto, projetos de exploração promovidos sob a égide de autoridades marroquinas têm sido alvo de contestação, por configurar
em a exploração de recursos naturais sem o consentimento do povo do território.


Estratégia e incerteza

Apesar da ausência de dados concretos sobre reservas, a Lithium Africa Resources enquadra o projeto numa estratégia de expansão em África, apostando em regiões ainda pouco exploradas. A empresa aponta também para uma eventual integração futura em cadeias de valor do lítio direcionadas para os mercados europeu e norte-americano, embora sem apresentar investimentos ou capacidades industriais detalhadas.

O avanço ocorre num cenário em que África representa apenas cerca de 7% dos investimentos globais em exploração de lítio, mantendo-se marginal face às principais regiões produtoras.
Para já, o projeto permanece numa fase embrionária. No entanto, a sua evolução poderá intensificar o debate sobre a legalidade e legitimidade da exploração de recursos naturais no Sa
hara Ocidental, frequentemente descrito como a última colónia de África.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Marrocos reforça influência em Washington para pressionar Frente Polisario

 


Marrocos tem vindo a consolidar uma rede de influência política nos Estados Unidos, colocando-se numa posição de vantagem nas negociações sobre o Sahara Ocidental, segundo a Africa Intelligence (31 de março de 2026).

De acordo com a publicação, Rabat aproveita o reforço das suas ligações em Washington para aumentar a pressão sobre a Frente Polisario, numa fase em que prosseguem contactos diplomáticos sob mediação da administração de Donald Trump.

Um dos sinais desse posicionamento é o crescente apoio, no Congresso norte-americano, à proposta de incluir a Frente Polisario na lista de organizações terroristas dos EUA. A iniciativa ganhou novo impulso a 25 de março com o apoio da congressista republicana Elise Stefanik.




A mesma responsável chegou a ser apontada como possível embaixadora dos EUA junto da ONU, o que lhe daria influência direta sobre resoluções relacionadas com a missão MINURSO, responsável pelo processo no Sahara Ocidental.


Lobby e diplomacia ativa

Segundo a Africa Intelligence, o reforço da presença marroquina em Washington tem sido apoiado por empresas de lobbying como a Akin Gump, que terá promovido contactos entre congressistas e o embaixador marroquino nos EUA, Youssef Amrani.

Entre os interlocutores figura também o congressista republicano Mario Diaz-Balart, membro do caucus parlamentar dedicado a Marrocos, que já se reuniu com o ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino, Nasser Bourita.

Outra empresa, a Scribe Strategies & Advisors, contratada por Rabat, conta com a colaboração de Rudolph Atallah, ligado ao Conselho de Segurança Nacional dos EUA, e considerado um dos promotores da agenda marroquina em Washington.


Influência crescente nas negociações

A publicação sublinha que esta estratégia de influência tem permitido a Marrocos ganhar margem nas negociações internacionais, num contexto em que o impasse sobre o futuro do Sahara Ocidental se mantém.

O reforço da presença diplomática e política em Washington surge assim como um instrumento central de Rabat para consolidar apoio externo à sua proposta de autonomia para o território, em detrimento das reivindicações de autodeterminação defendidas pela Frente Polisario.

ONU avalia futuro da MINURSO no Sahara Ocidental

 

Conselho de Segurança da ONU

O Conselho de Segurança da ONU deverá discutir em abril o futuro da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental), destacada para o território, num momento em que se registam novos esforços internacionais para desbloquear o conflito.

A análise surge no âmbito de uma revisão estratégica solicitada pelo secretário-geral das Nações Unidas, após a prorrogação do mandato da missão até outubro de 2026. Criada em 1991, a MINURSO tem como principal objetivo organizar um referendo de autodeterminação — um processo que continua por concretizar.

Nos últimos meses, os Estados Unidos intensificaram a mediação, promovendo encontros entre Marrocos, a Frente Polisario, a Argélia e a Mauritânia, retomando negociações presenciais que não ocorriam desde 2019. Marrocos terá apresentado uma versão atualizada do seu plano de autonomia, base das atuais discussões por imposição dos EUA.

O impasse mantém-se, porém, devido a posições divergentes: Rabat defende a soberania sobre o território com um regime de autonomia, enquanto a Frente Polisario insiste no direito à autodeterminação do povo saharaui.

Dentro do Conselho de Segurança, persistem divisões. Países como os Estados Unidos e a França apoiam a proposta marroquina, enquanto outros Estados continuam a defender uma solução assente no direito internacional e no referendo.

Perante a ausência de progressos concretos e limitações operacionais da MINURSO, a ONU enfrenta o desafio de redefinir o papel da missão e relançar um processo político que permanece bloqueado há décadas.