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domingo, 8 de novembro de 2026
Jurista Manuel Devers defende regresso da questão do Sahara Ocidental à Assembleia Geral da ONU
Assembleia Geral da ONU debate a 10 de novembro vetos dos EUA e da Rússia sobre o Sahara Ocidental
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Fim da MINURSO aumenta risco de escalada no Sahara Ocidental - alertam especialistas
sábado, 7 de novembro de 2026
Sahara Ocidental: a disputa territorial como instrumento de legitimação da monarquia marroquina
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| Cartoon gerado por IA |
EUA terão aceitado fim da MINURSO após falharem imposição do plano marroquino
Na análise intitulada «Sáhara Occidental y límites del Consejo de Seguridad», Ana Palacio examina as circunstâncias que conduziram ao encerramento da missão das Nações Unidas no Sahara Ocidental, após 35 anos de presença no território.
A antiga chefe da diplomacia espanhola considera particularmente significativo que os Estados Unidos tenham votado contra uma proposta russa destinada a prolongar o mandato da MINURSO, depois de Moscovo ter vetado o projeto norte-americano que privilegiava a autonomia sob soberania marroquina.
Palacio não apresenta provas de um entendimento prévio entre Washington e Moscovo, mas admite que a administração Trump tenha considerado politicamente aceitável o desaparecimento de uma missão que não conseguiu transformar de acordo com os seus objetivos.
Washington tentou alterar as regras das negociações
Segundo a antiga ministra, a proposta inicial norte-americana pretendia estabelecer a autonomia sob soberania marroquina como única solução viável para o Sahara Ocidental e transformar o plano apresentado por Rabat, em 2007, na única base das negociações.
O projeto previa igualmente uma profunda reconfiguração da MINURSO, reduzindo a sua componente militar e afastando a referência ao referendo de autodeterminação que esteve na origem da missão.
Para Ana Palacio, não se tratava de uma simples atualização de uma operação internacional criada em 1991, mas de uma tentativa de modificar as regras do processo político e antecipar o resultado das negociações.
As objeções de vários membros do Conselho de Segurança obrigaram Washington a introduzir alterações sucessivas no texto, recuperando referências à Carta das Nações Unidas e ao direito à autodeterminação.
Contudo, os Estados Unidos mantiveram a pretensão de fazer do plano marroquino a única base negocial, o que acabou por provocar o veto russo.
A China também manifestou reservas, considerando inadequado que o Conselho de Segurança antecipasse o resultado das negociações através do reconhecimento implícito da soberania marroquina.
Onze votos favoráveis não significam onze reconhecimentos de soberania
Ana Palacio contesta a interpretação de que os onze votos favoráveis à proposta norte-americana representaram um reconhecimento coletivo da soberania de Marrocos sobre o Sahara Ocidental.
A antiga ministra recorda que vários países que apoiaram o projeto, incluindo a Dinamarca e a Letónia, esclareceram que o seu voto não significava reconhecer a soberania marroquina.
Também França e Reino Unido, apesar de apoiarem a iniciativa norte-americana, manifestaram reservas quanto às consequências do desaparecimento da missão.
Paris alertou para os riscos de perder um instrumento internacional de estabilização, enquanto Londres reiterou a necessidade de uma solução mutuamente aceitável que respeitasse o direito à autodeterminação.
A distinção é central na análise de Palacio: apoiar politicamente uma proposta de autonomia não equivale a reconhecer juridicamente a soberania de Marrocos sobre o território.
Porque celebra Rabat o desaparecimento da missão?
Outro dos aspetos destacados pela antiga ministra é a reação das autoridades marroquinas ao encerramento da MINURSO.
Palacio considera paradoxal que Rabat celebre o desaparecimento de uma missão das Nações Unidas num período em que a diplomacia marroquina acumulou importantes avanços internacionais.
A autora admite que Marrocos possa ter concluído que já obteve das Nações Unidas o máximo de concessões politicamente possível, sem conseguir alcançar o objetivo final de transformar o apoio à autonomia num reconhecimento jurídico da sua soberania.
O veto russo, as reservas chinesas e as posições diferenciadas de outros membros do Conselho de Segurança demonstraram os limites dessa estratégia.
Neste contexto, Rabat poderá considerar mais vantajoso consolidar o controlo efetivo do território e multiplicar os reconhecimentos bilaterais do que continuar a submeter a sua posição à avaliação periódica de uma instituição internacional.
A antiga ministra recorda ainda que o ministro marroquino dos Negócios Estrangeiros, Nasser Bourita, reconheceu que Rabat conhecia antecipadamente a intenção russa de vetar a proposta norte-americana e tinha avaliado as consequências desse cenário.
A celebração do encerramento da missão surge, assim, na sua análise, como uma opção política calculada e não necessariamente como uma reação inesperada ao fracasso das negociações.
Espanha mantém silêncio sobre o seu papel
Ana Palacio chama igualmente a atenção para a ausência de esclarecimentos sobre a posição assumida pelo Governo espanhol durante as consultas diplomáticas que antecederam o fim da MINURSO.
Espanha integra o Grupo de Amigos do Sahara Ocidental, juntamente com Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia, participando tradicionalmente no acompanhamento diplomático do conflito.
Em março de 2022, Pedro Sánchez abandonou a posição espanhola tradicional de equidistância entre as partes, ao considerar a proposta marroquina de autonomia a base mais séria, credível e realista para uma solução política.
Embora Madrid não tenha reconhecido formalmente a soberania marroquina sobre o território, a mudança aproximou o Governo espanhol das posições defendidas por Rabat.
Palacio observa que continua por conhecer a posição que o executivo de Sánchez assumiu nas consultas que conduziram ao fracasso das negociações no Conselho de Segurança.
A questão assume especial relevância atendendo ao papel histórico de Espanha no Sahara Ocidental e à sua participação nos mecanismos diplomáticos internacionais relacionados com o território, tanto mais que à luz da jurisprudência internacional a antiga potência colonial do Sahara Ocidental continua a ser a entidade «administrante» do território.
Fim da missão não altera estatuto do Sahara Ocidental
A antiga ministra rejeita a ideia de que o encerramento da MINURSO possa ser interpretado como uma solução definitiva para a questão do Sahara Ocidental.
O território continua inscrito na lista das Nações Unidas de territórios não autónomos e o fim da missão não transfere soberania para Marrocos, não extingue as competências da Assembleia Geral nem resolve o conflito com a Frente Polisario.
Ana Palacio recorda também que o cessar-fogo estabelecido em 1991 foi quebrado em novembro de 2020, dando origem a hostilidades de baixa intensidade.
A retirada da MINURSO elimina, por isso, um mecanismo de observação e contenção num contexto em que a estabilidade militar continua precária.
Crítica à política externa da administração Trump
A reflexão de Ana Palacio ultrapassa o conflito do Sahara Ocidental e transforma-se numa crítica à evolução da política externa norte-americana e ao enfraquecimento do multilateralismo.
A antiga ministra recorda que os Estados Unidos desempenharam, durante décadas, um papel central na construção e preservação de mecanismos internacionais de negociação, mesmo quando estes não correspondiam integralmente às suas prioridades.
Como exemplo, refere o Plano Baker II, valorizado pelo Conselho de Segurança em 2003 como uma proposta de solução política para o Sahara Ocidental, mas que acabou por não ser aplicado devido à rejeição marroquina.
Na sua interpretação, a novidade de 2026 reside na menor disposição de Washington para preservar instrumentos multilaterais quando estes não podem ser adaptados aos seus objetivos imediatos.
O caso da MINURSO ilustra, assim, uma transformação mais ampla: as normas internacionais podem continuar formalmente em vigor, enquanto os mecanismos destinados a garantir a sua aplicação são progressivamente desmantelados.
Para Ana Palacio, esta evolução ameaça a capacidade do sistema internacional de conter conflitos, gerir rivalidades e preservar vias de negociação.
O desaparecimento da MINURSO não encerra, portanto, a questão do Sahara Ocidental. Pelo contrário, deixa o território sem um dos principais mecanismos internacionais de acompanhamento, enquanto a disputa sobre a soberania e o direito à autodeterminação permanece por resolver.
Fonte: Ana Palacio, El Mundo, 7 de novembro de 2026, artigo «Sáhara Occidental y límites del Consejo de Seguridad», com base no texto integral disponibilizado.






