quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A Guerra no Sahara Ocidental de 01 a 31 de janeiro

 


Durante o mês de janeiro de 2026, as ações militares do ELPS tiveram como alvo posições das forças marroquinas situadas sobretudo nas regiões centro e norte do território ocupado, com especial incidência nas áreas de Mahbes e Guelta, no nordeste e centro do Sahara Ocidental.

O Exército de Libertação do Povo Saharaui (ELPS) mantém, desde novembro de 2020, uma ofensiva militar contínua contra as forças marroquinas no Sahara Ocidental, na sequência do colapso do cessar-fogo mediado pelas Nações Unidas que vigorava desde 1991. Esse acordo, apoiado igualmente pela então Organização da Unidade Africana, previa a realização de um referendo de autodeterminação — entre a independência ou a integração em Marrocos — que nunca chegou a concretizar-se e que, segundo várias análises, algumas potências internacionais, como os Estados Unidos e a França, parecem hoje dispostas a afastar definitivamente.

Criada para organizar esse referendo, a MINURSO vê atualmente o seu papel reduzido à monitorização dos confrontos no terreno, sem mandato para intervir militarmente nem para supervisionar ou investigar violações dos direitos humanos no território.

As operações do ELPS concentram-se sobretudo ao longo do chamado “muro de areia”, também designado por “muro da vergonha” — uma estrutura militar construída por Marrocos entre 1980 e 1987, com cerca de 2.720 quilómetros de extensão, composta por valas, campos minados e aproximadamente 200 bases fortificadas. Este sistema defensivo divide o território do Sahara Ocidental em duas áreas distintas:

- a oeste, a zona sob controlo marroquino, onde se localizam cidades como El Aaiún, Smara e Dakhla, bem como toda a faixa atlântica;

- a leste, o interior sob controlo da Frente Polisario, conhecido como “zona libertada”.




Operações militares em janeiro

09 de janeiro - Unidades do Exército de Libertação do Povo Saharaui (ELPS) efetuaram um bombardeamento concentrado contra uma base de apoio e reforço do exército invasor na zona de Zaraziat, no setor de Guelta, na zona centro do Sahara Ocidental, causando baixas nas fileiras do exército ocupante.

10 de janeiro - A sede de comando dde um batalhão das Forças Armadas Reais marroquinas é atacado por unidades saharauis na zona de Russ Lehteiba, no setor de Mahbes, no extremo nordeste do SO. O ataque causou mortais nas fileiras do ocupante.

No mesmo dia, foi também bombardeado um «grupo tático» das forças invasoras na zona de Um Lagta, ainda no setor de Mahbes.

12 de janeiro - Forças do ELPS atacam uma base de apoio e logística das forças ocupantes estacionadas na região de Ichrik Tawarta, no setor de Guelta, causando baixas humanas e materiais.

13 de janeiro - Unidades do ELPS levam a cabo um intenso bombardeamento contra bases e posições defensivas do exército de ocupação situadas na região de Rus Sadrat Tamat, no setor de Hauza, no norte do território do Sahara Ocidental.

14 de janeiro – Unidades do ELPS desencadearam uma ação de bombardeamento contra uma base de apoio e logística do exército marroquino de ocupação na região de Ichergan, no setor de Guelta.

18 de janeiro - Concentrações de tropas marroquinas estacionadas em bases nas zonas de Alfeyin e Lagsebiyin, ambas no setor de Farsia, no norte do SO, foram alvo de bombardeamentos concentrados por parte de unidades do ELPS, tendo sofrido diversas baixas mortais.

21 de janeiro – Uma base de apoio logístico das forças ocupantes marroquinas, situada na região de Ichrik Lagrab, no setor de Guelta, everamente atingida por um bombardeamento levado a cabo por unidades do ELPS, tendo sofrido consideráveis perdas humanas e materiais

23 de janeiro - .Forças do ELPS atacam a sede a sede de um batalhão do exército invasor marroquino na zona de Agrarat AlL-Atàsa, assim como posições entrincheiradas das FAR na zona de Tanushad, ambas ambas no setor de Mahbes, com um saldo de diversas baixas entre o dispositivo militar inimigo.

25 de janeiro – Um comunicado da Direção Central do Comissariado Político do ELPS, informa que unidades saharauis efetuaram um ação de bombardeamento concentrado contra bases e posições entrincheiradas do inimigo nas zonas de Arkeyeiz e Tharzariàt, ambas no setor de Guelta, ataque que causou divarsas baixas entre o exército invasor.

26 de janeiro - Segundo o comunicado de guerra divulgado pelo Ministério da Defesa Nacional, destacamentos avançados do Exército Saharaui realizaram esta segunda-feira um bombardeamento concentrado contra posições e entrincheiramentos das forças de ocupação marroquinas localizados na região de Ichrik Awarta, no setor de Guelta.

27 de janeiro - Segundo o comunicado de guerra divulgado pelo Ministério da Defesa Nacional, unidades avançadas do Exército de Libertação Nacional realizaram, na manhã desta terça-feira, um bombardeamento concentrado contra várias bases e posições entrincheiradas das forças de ocupação marroquinas na região de Ichrik Lagrab, no setor de Guelta.

28 de janeiro - Segundo o comunicado de guerra divulgado pelo Ministério da Defesa Nacional, unidades avançadas do Exército de Libertação Nacional realizaram, na manhã desta quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, um bombardeamento concentrado contra várias bases das forças inimigas, em particular postos de comando da retaguarda, incluindo um posto de comando instalado na região de Alaidiyat, no setor de Guelta.

Autoridade saharaui do Petróleo e da Mineração alerta para exploração ilegal de minerais no Sahara Ocidental por Marrocos



A Saharawi Petroleum and Mining Authority (SPMA) alertou esta quinta-feira para o que classifica como comércio ilegal de minerais estratégicos por parte de Marrocos nos territórios ocupados do Sahara Ocidental, sublinhando que Rabat não detém qualquer soberania ou direito legal sobre os recursos naturais da região.
Em comunicado divulgado a partir de Bir Lehlu, nos territórios libertados, a autoridade da República Árabe Saharaui Democrática reagiu à participação do ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino, Nasser Bourita, numa reunião ministerial sobre minerais críticos realizada em Washington, sob a égide do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
A SPMA recorda que, de acordo com o direito internacional, Marrocos não tem jurisdição sobre o Sahara Ocidental nem sobre os seus recursos naturais, posição que, segundo o organismo, tem sido reiteradamente confirmada por pareceres e decisões judiciais internacionais. Entre estes, destaca-se o parecer jurídico das Nações Unidas de 2002, que considera ilegal qualquer exploração de recursos do Sahara Ocidental sem o consentimento do povo saharaui e do seu representante legítimo, a Frente Polisario.
O comunicado refere ainda decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia, bem como de tribunais no Reino Unido, África do Sul e Nova Zelândia, além de um acórdão do Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos, que reconhecem o Sahara Ocidental como um território distinto de Marrocos e consideram ilegais os acordos celebrados por Rabat que incluam essa região.




Segundo a SPMA, o Sahara Ocidental possui recursos naturais significativos, como ouro, minério de ferro, zinco e terras raras, que pertencem exclusivamente ao povo saharaui. A participação de responsáveis marroquinos em fóruns internacionais sobre minerais críticos é classificada como “enganadora” e suscetível de envolver terceiros em atividades que podem configurar a exploração de recursos “roubados”.
A autoridade saharaui alerta que qualquer empresa ou instituição que desenvolva atividades no Saara Ocidental através das autoridades marroquinas o faz sem base legal e em violação do direito internacional. Em paralelo, reafirma a disponibilidade da RASD para dialogar com parceiros internacionais e investidores interessados em operar no território, desde que esse envolvimento ocorra de forma transparente, reconhecida internacionalmente e fora do quadro da ocupação marroquina.
A SPMA conclui reiterando que o Estado saharaui está aberto a investimento responsável e a iniciativas que promovam o desenvolvimento sustentável e o crescimento económico, desde que respeitem o direito do povo saharaui à autodeterminação e à soberania permanente sobre os seus recursos naturais.

Fonte: Saharawi Petroleum and Mining Authority (SPMA).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Resumo das declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, à Lusa sobre o Sahara Ocidental

O MNE, Paulo Rangel, e o seu homólogo argelino, Ahmed Attaf

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, afirmou que existe atualmente um “momento único” para avançar com uma “solução construtiva” para o conflito do Sahara Ocidental, sublinhando o empenho de vários parceiros internacionais nesse sentido. Em declarações à Lusa, a partir de Argel, defendeu que qualquer desenvolvimento deve ocorrer sob a égide das Nações Unidas e conduzir, a médio prazo, a uma solução pacífica e harmoniosa.

Rangel referiu que abordou o tema com o ministro argelino dos Negócios Estrangeiros, Ahmed Attaf, tendo registado convergência quanto à existência de uma oportunidade política para relançar negociações. Segundo o governante português, não sentiu resistência por parte da Argélia face à atual posição de Lisboa.

O ministro recordou que Portugal ajustou a sua posição em julho de 2025, passando a considerar a proposta marroquina de autonomia para o Sahara Ocidental, sob soberania de Rabat, como a base “mais séria, credível e construtiva” para uma solução, afastando-se da defesa exclusiva do referendo de autodeterminação previsto no acordo de 1991 entre Marrocos e a Frente Polisario. Acrescentou ainda que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em outubro, veio de algum modo corroborar esta orientação portuguesa.  

O Plano de Paz de 1991 - recorde-se - foi promovido pelas Nações Unidas (ONU) e pela Organização da Unidade Africana (OUA). Este processo incluiu a criação da missão MINURSO para supervisionar o cessar-fogo e organizar um referendo de autodeterminação.

As declarações surgem num contexto de fortes tensões entre Argélia e Marrocos, agravadas pela questão do Sahara Ocidental, e após o rei Mohammed VI ter manifestado publicamente gratidão pelo apoio de países como Portugal à proposta marroquina.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Muito barulho, nenhuma mudança: o que realmente diz o comunicado UE-Marrocos | Carlos C. García



O novo comunicado UE-Marrocos (divulgado na quinta-feira, dia 29 de janeiro) não representa nenhuma reviravolta, nenhum apoio e nenhum reconhecimento da soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental, por mais que algumas manchetes insistam em vendê-lo como tal. Não há mudança de estatuto, não há aval jurídico e não há alinhamento europeu com a ocupação: há apenas um texto diplomático deliberadamente ambíguo e uma amplificação mediática que confunde menção com apoio e ruído político com factos. Tudo o resto é propaganda.

Nos últimos dias, a imprensa espanhola tem multiplicado as notícias que apresentam o comunicado conjunto entre a União Europeia e Marrocos como um suposto ponto de inflexão na posição europeia sobre o Sahara Ocidental. No entanto, uma leitura atenta e honesta do texto demonstra que não existe nenhuma mudança substancial em relação à posição mantida até agora pela UE. A distância entre o que o comunicado realmente diz e a narrativa mediática construída em torno dele é tão significativa quanto reveladora.

O documento não reconhece, explícita ou implicitamente, a soberania de Marrocos sobre o Sahara Ocidental, não altera o estatuto jurídico do território e não altera o seu enquadramento como questão pendente de descolonização no âmbito das Nações Unidas. As referências ao chamado «plano de autonomia» marroquino inscrevem-se na retórica ambígua habitual de Bruxelas: é mencionado como mais uma proposta, sem valor jurídico, sem caráter exclusivo e sem se tornar a base obrigatória de uma solução. Em nenhum ponto o comunicado se afasta do quadro da ONU nem contradiz as resoluções internacionais que negam qualquer título de soberania a Marrocos.

Apesar disso, muitos títulos optaram por fórmulas como «a UE apoia o plano marroquino», «Bruxelas alinha-se com Rabat» ou «novo apoio europeu a Marrocos». Nenhuma dessas afirmações se sustenta à luz do texto. Não há reconhecimento, não há alinhamento e não há apoio jurídico. O que há é uma interpretação política forçada, que confunde deliberadamente menção com aval, diplomacia com direito e ambiguidade com mudança de posição. Esta narrativa não informa: constrói um quadro favorável à ocupação.

Convém recordar, além disso, que a União Europeia continua a não reconhecer a anexação marroquina do Sahara Ocidental e que este comunicado não altera em nada as obrigações decorrentes do direito internacional nem das sentenças do Tribunal de Justiça da União Europeia. Essas resoluções foram inequívocas ao afirmar que o Sahara Ocidental é um território distinto e separado de Marrocos e que qualquer relação jurídica ou económica que o afete requer o consentimento do povo saharaui. Nenhum comunicado político, por mais ampla que seja a sua divulgação, pode apagar esse quadro jurídico nem substituí-lo por títulos complacentes.

Estamos, mais uma vez, perante uma operação de confusão calculada: linguagem diplomática deliberadamente imprecisa, reprodução acrítica em grande parte dos meios de comunicação e uso propagandístico imediato por parte de Rabat. Perante esse ruído, convém insistir no essencial e não ceder um milímetro na análise: não há reconhecimento de soberania, não há mudança de estatuto e não há aval europeu à ocupação do Sahara Ocidental. A única coisa que se confirma é a persistência de uma ambiguidade política que evita enfrentar de forma coerente as exigências do direito internacional e o direito do povo saharaui de decidir livremente o seu futuro.

Muito ruído, sim. Mas nenhuma mudança. E pretender o contrário não é informação: é narrativa.

(*) Carlos C. García integra a plataforma No te Olvides del Sahara Occidental

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sahara Ocidental: na ausência de um plano marroquino credível, Trump poderá impor uma autodeterminação adaptada aos interesses americanos - Afrik.com

 

Ilustração da Afrik.com


Nota: O texto agora publicado no Afrik.com, da autoria de Ali Attar, pode ser lido como excessivamente otimista face ao historial da atuação norte-americana na gestão dos conflitos em que se envolve. Se, no plano conceptual, o enquadramento teórico apresentado pode mesmo ser acusado de «naif», maiores reservas se colocam quanto à sua aplicação prática no terreno, num contexto marcado por assimetrias de poder e bloqueios políticos persistentes.

Ainda assim, importa reconhecer que o artigo cumpre um papel relevante: é intelectualmente estimulante e convida à consideração de pontos de vista e leituras alternativas que nem sempre são tidos em conta no debate dominante.

Importa igualmente sublinhar que a análise de Ali Attar não traduz, necessariamente, a posição da AAPSO, nem compromete a defesa do direito legítimo à autodeterminação do povo saharaui, num momento particularmente delicado da questão do Sahara Ocidental.


Ali Attar(*) - 28 de janeiro de 2026 – Afrik

Enquanto Massad Boulos percorre o Norte de África, o crescente apetite de Washington por minerais críticos poderá baralhar as cartas no Sahara e dar razão àqueles que reclamam uma autonomia real.

A visita de Massad Boulos, conselheiro principal de Donald Trump para África e o Médio Oriente, a Argel na terça-feira, 27 de janeiro de 2026, ocorre num momento crucial para a questão do Sahara. Embora a administração Trump tenha repetidamente qualificado o plano de autonomia marroquino de 2007 como «sério, credível e realista», uma questão fundamental permanece sem resposta: onde está o plano concreto?

Quase duas décadas depois de Marrocos ter apresentado à ONU a sua «Iniciativa para a negociação de um estatuto de autonomia para a região do Sahara», o reino nunca produziu um quadro jurídico detalhado que especificasse como essa autonomia funcionaria na prática. O documento original de 2007, com apenas 35 pontos de princípios gerais, permaneceu congelado na ambarização diplomática, enquanto Rabat conseguiu obter apoio internacional para um projeto que, na prática, não existe.


O plano de autonomia fantasma: uma ficção política?

A proposta de autonomia marroquina, inicialmente apresentada a pedido de Washington, de acordo com documentos desclassificados do Departamento de Estado americano, deveria ser um ponto de partida para as negociações, e não uma oferta definitiva. No entanto, 18 anos depois, ainda não foi definido nenhum estatuto detalhado que especifique os poderes reais, as instituições ou os mecanismos de partilha de recursos que definiriam a autogovernança saharaui.

Esta ambiguidade calculada serviu bem Rabat no plano diplomático. Os países podem apoiar o «conceito» de autonomia sem se comprometerem com disposições específicas e sem dar a impressão de violar o direito internacional, que é muito claro quanto ao estatuto do Sahara Ocidental como país a ser descolonizado. Mas para a administração Trump, que se orgulha de concluir acordos em vez de gerir processos, a ausência de resultados concretos torna-se cada vez mais problemática.

«A proposta de autonomia não pode ser considerada um princípio autónomo», observava uma análise do Middle East Institute. «O reconhecimento da autonomia como princípio do direito internacional assenta em bases frágeis», sem mecanismos de implementação detalhados.

A Argélia e a Frente Polisario tiveram razão em denunciar, desde o início, o caráter ilusório desta proposta. O quadro de «regionalização avançada» existente em Marrocos, inscrito na Constituição de 2011, é uma prova flagrante disso: nenhuma região marroquina controla atualmente os seus recursos estratégicos, dispõe de soberania fiscal ou pode legislar de forma autónoma. Nos territórios saharauis ocupados, esta realidade é ainda mais brutal: administração vertical, omnipresença da segurança e economia extrativa voltada para a pilhagem das riquezas locais.

Como salientou um analista, «qualquer concessão real ao Sahara Ocidental abriria imediatamente um precedente para outras regiões marginalizadas e reprimidas, a começar pelo Rif. O regime marroquino não governa através da partilha do poder, mas sim através da sua concentração». Concretamente, isto significa que Marrocos não pode apresentar um plano de autonomia, pois isso criaria um precedente com repercussões importantes para o reino.


O cálculo transacional de Trump: uma oportunidade histórica

Ao contrário das administrações anteriores, satisfeitas com um incrementalismo diplomático favorável ao status quo marroquino, a Casa Branca de Trump funciona segundo uma lógica fundamentalmente transacional. A equipa do presidente tinha evocado abertamente a possibilidade de chegar a um acordo de paz entre Marrocos e a Argélia em 60 dias, durante a análise do dossier na ONU. Um prazo já ultrapassado sem resultados, prova de que as promessas marroquinas continuam por cumprir.

Mais significativamente, a vontade agressiva da administração de garantir os minerais críticos para a indústria americana redefine a sua abordagem aos territórios ricos em recursos em todo o mundo. Nos últimos meses, Washington adquiriu participações sem precedentes em exploradores de terras raras, produtores de lítio e transformadores de minerais críticos. O acordo do Pentágono com a MP Materials, o investimento de 1,6 mil milhões de dólares na USA Rare Earth anunciado esta semana e os acordos bilaterais sobre minerais com a Austrália sinalizam uma nova era de aquisição estratégica de recursos.

O Sahara Ocidental insere-se plenamente neste contexto. O território contém não só as maiores reservas mundiais de fosfatos em Bou Craa, essenciais para a segurança alimentar mundial, mas também importantes jazidas inexploradas de terras raras, minério de ferro, titânio, vanádio e, potencialmente, urânio. Um estudo geológico russo da região de Tiris revelou concentrações notavelmente elevadas de elementos estratégicos, incluindo 30% de óxido de titânio, 30% de óxido de zircónio e cerca de 16% de óxidos de terras raras totais.

Para uma administração obcecada em quebrar o domínio chinês sobre os minerais críticos, esses depósitos representam um preço estratégico que justifica uma reestruturação das ortodoxias diplomáticas. E isso inclui abandonar a ficção de uma «autonomia» que só tem o nome, dada a ausência de avanços significativos por parte de Marrocos.


Rumo a uma autonomia real: a «terceira via» que a Argélia e a Frente Polisario desejam

Um número crescente de analistas sugere que a equipa de Trump poderá finalmente contornar as promessas intermináveis de Marrocos e impor a sua própria visão do que deveria ser a autonomia. Uma visão que, paradoxalmente, se alinharia com as reivindicações históricas da Frente Polisario e da Argélia por uma autodeterminação efetiva do povo saharaui.

Esta «terceira via» representaria um quadro de autonomia verdadeira, aquela que Marrocos sempre se recusou a conceder, em vez da concha vazia de descentralização administrativa que Rabat brandia há duas décadas. Os elementos-chave poderiam incluir:

  • Soberania efetiva sobre os recursos naturais: Ao contrário da proposta de 2007, que mantinha os recursos estratégicos sob controlo marroquino, permitindo a pilhagem denunciada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, um acordo negociado por Trump poderia conceder à região do Saara autoridade real sobre os seus fosfatos, terras raras e potencial em energias renováveis. É precisamente isso que o povo saharaui reivindica há 50 anos.

  • Parcerias económicas independentes: O território poderia negociar os seus próprios acordos comerciais e joint ventures, pondo fim à exploração unilateral das suas riquezas por parte de Marrocos em violação do direito internacional.

  • Garantias internacionais: Em vez de deixar as disposições de autonomia sujeitas à boa vontade de Rabat e a uma eventual revisão constitucional marroquina, qualquer acordo poderia incluir garantias da ONU ou dos EUA quanto à sua implementação. Esta evolução responderia assim às exigências legítimas da Polisário no que diz respeito a mecanismos de controlo internacionais.

  • Um sistema judicial e legislativo próprio: Permitindo aos saharauis gerir verdadeiramente os seus assuntos, tal como estipulado pelo direito à autodeterminação reconhecido pelas Nações Unidas.


A agência pública norte-americana de financiamento ao desenvolvimento (DFC) já expressou o seu interesse em investir até 5 mil milhões de dólares na região do Sahara, com foco nas energias renováveis e na «exploração de recursos minerais raros essenciais para a indústria tecnológica». Tais investimentos exigiriam uma segurança jurídica que o vago conceito de autonomia marroquina não pode proporcionar, mas que uma verdadeira autodeterminação garantiria. Para Trump, os negócios prevalecem sobre as alianças, e a vontade de Mohamed VI de participar e financiar o «Clube da Paz» não será suficiente.


A Argélia, parceira indispensável para qualquer solução duradoura

A visita de Boulos a Argel antes de qualquer outra capital magrebina não é fortuita. A administração Trump compreendeu o que outros levaram décadas a reconhecer: nenhuma solução para o Sahara Ocidental pode ser alcançada sem a Argélia, nem contra ela.

Durante meio século, Argel defendeu o direito do povo saharaui à autodeterminação, fiel aos princípios de descolonização que fundaram a Argélia independente. Esta constância diplomática, durante muito tempo apresentada como um obstáculo, surge hoje como uma garantia de seriedade em qualquer negociação.

A administração Trump tem sido notavelmente franca sobre o seu desejo de acesso comercial americano ao mercado argelino. Washington compreende que a Argélia, potência regional estável e parceira económica fiável, representa um trunfo valioso.

A presença simultânea em Argel esta semana de Boulos e Claver Gatete, secretário executivo da CEA nas Nações Unidas, sugere que Washington e a ONU poderão finalmente coordenar uma abordagem que leve a sério os direitos do povo saharaui, em vez de continuar a apoiar a ocupação marroquina em nome de uma «autonomia» que nunca existiu senão no papel.


Cinquenta anos de luta saharaui finalmente reconhecidos?

Para a Frente Polisario e os 200 000 refugiados saharauis que esperam há décadas nos campos de Tindouf, a evolução da posição americana pode representar um reconhecimento tardio, mas bem-vindo, da justeza da sua luta.
A Polisario abriu recentemente a porta a uma aceitação condicional de um plano de autonomia. No entanto, manteve a condição de que este fosse submetido ao voto dos saharauis como opção referendária e que garantisse uma autodeterminação real. Esta flexibilidade, saudada por muitos observadores, contrasta com a intransigência marroquina, que há 30 anos recusa qualquer referendo.
Para Trump, o Sahara Ocidental representa exatamente o tipo de problema que a sua abordagem da «arte do negócio» foi concebida para resolver: posições rígidas, recursos estratégicos e partes que precisam do apoio americano mais do que Washington precisa delas.

Um acordo ao estilo Trump provavelmente daria algo a cada um, ao mesmo tempo que extrairia o máximo benefício para os Estados Unidos: Marrocos manteria uma presença simbólica, mas cederia a autoridade económica real que nunca deveria ter assumido; a Argélia obteria o reconhecimento da justiça da luta travada há 50 anos pelos direitos dos saharauis; o povo saharaui ganharia finalmente uma autogovernança significativa e o controlo dos seus recursos, em conformidade com o direito internacional; e as empresas americanas obteriam acesso privilegiado a minerais críticos num quadro juridicamente seguro.


A hora da verdade

Enquanto Boulos viaja entre as capitais do Norte de África esta semana, a questão já não é saber se o conflito do Sahara Ocidental será resolvido, mas se essa resolução refletirá a autonomia cosmética que Marrocos prometeu, mas nunca cumpriu, ou a verdadeira autodeterminação que a Argélia e a Polisario defendem há meio século e de que os Estados Unidos podem precisar para garantir o seu futuro em minerais críticos.

A história poderá recordar que foi um presidente americano conhecido pelo seu pragmatismo transacional que acabou por dar razão aos defensores do direito internacional e da autodeterminação dos povos. E todos esquecerão que essa escolha foi, na verdade, ditada pelos interesses das empresas americanas.


(*) Ali Attar é um especialista reconhecido em assuntos atuais do Magrebe. As suas análises políticas e o seu conhecimento das redes fazem dele uma referência em assuntos atuais da região.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Sahara Ocidental na Ordem Jurídica Internacional - 50 anos após o Parecer Consultivo do TIJ - Conferência na Universidade Nova

 

Haia (1975): sessão do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) sobre o Sahara Ocidental


No próximo dia 30 de janeiro (sexta-feira), realiza-se na Nova School of Law (situada no Campus de Campolide 18, Lisboa, junto à Mesquita de Lisboa) a Conferência "Sahara Ocidental na Ordem Jurídica Internacional - 50 anos após o Parecer Consultivo do TIJ". Eis o programa




30 de janeiro 2026 | NOVA School of Law


Cinquenta anos após o Parecer Consultivo do Tribunal Internacional de Justiça sobre o Sahara Ocidental, o estatuto jurídico do território continua a constituir uma das questões mais persistentes e complexas do direito internacional.

Esta conferência reúne especialistas de referência para reavaliar a questão do Sahara Ocidental no quadro da ordem jurídica internacional contemporânea, analisando desenvolvimentos em matéria de autodeterminação, responsabilidade internacional, segurança e atividade económica.

Ao longo de vários painéis temáticos, pretende-se promover uma reflexão crítica sobre os percursos passados e os desafios futuros.



Programa

Local: Sala do Conselho Científico | NOVA School of Law


9h00-9h20 | Sessão de abertura

Francisco Pereira Coutinho, Professor NOVA School of Law


9h20-10h35 | Painel 1

Moderação: Stephen Robert Allen, Professor, Faculdade de Direito, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Queen Mary University of London


Oradores:

«Digital Self-Determination of the Sahrawi People and the EU-Marocco association agreement»

Anže Mediževec

«The Future of International law, the United States and ‘Africa’s Last Colony’»

Heidi Gilchrist

«Spot the difference: The international stance towards Western Sahara and towards the occupied Palestinian territories»

Yaël Ronen

10h35-10h50 | Coffee-break

10h50-12h00 | Painel 2

Moderação: Miguel de Lemos


Oradores:

«Western Sahara and the limits of the Security Council»

Edi Rexhaj

«Polisario’s Litigation Strategy and the Evolving Legal and Political Landscape of Western Sahara»

Francesca Martines

«Hook, Line… and Sinker? The Weaponisation of Migration in Western Sahara’s Self-Determination»

José Tomás Simeão

12h00-14h00 | Pausa para almoço

(Almoço no Campus)



14h00-15h40 | Painel 3

Moderação: João Diogo, Professor NOVA School of Law


Oradores:

«The Western Sahara Conflict and Its Implications for Global (In)Security»

Cristiano d’Orsi

«Spain, Morocco and the Western Sahara: The Price of Aligning with Morocco’s Autonomy Plan»

Bernardo Mayor

«Assessing the Legal Regime Governing the Airspace over Western Sahara as a Non-Self-Governing Territory under Occupation»

Andrea Caligiuri

15h40-16h00 | Coffee-break

16h00-17h30 | Painel 4

Moderação: Francisco Pereira Coutinho, Professor NOVA School of Law


Oradores:

«Western Sahara after UNSC Resolution 2797: Implications for Economic Activity»

Waleed Mahmoud Elfarrs

«Settlers, Sovereignty, and Self-Determination: Legal Implications of Demographic Engineering in Western Sahara»

Andrea Maria Pelliconi

«2026: 50 years of Sahrawi statehood»

Manfred Hinz

«Knowledge Against Silence: Academic Responsibility in the Western Sahara Question»

Miguel de Lemos

17h30-17h40 | Considerações finais

Francisco Pereira Coutinho

Inscrições


Para assistir à conferência, inscreva-se através do e-mail

miguel.lemos@novalaw.unl.pt