![]() |
| U.S. Mission Photo, CC BY-NC-ND 2.0 |
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, defende que qualquer proposta para resolver o conflito do Sahara Ocidental seja objeto de uma consulta substantiva à população saharaui, que lhe permita aceitar ou rejeitar livremente a solução apresentada, e recomenda a prorrogação por mais um ano do mandato da MINURSO, até 31 de outubro de 2027.
As posições constam do relatório anual de Guterres sobre o Sahara Ocidental, datado de 1 de outubro e remetido ao Conselho de Segurança como documento S/2026/781, mas ainda não divulgado no website da ONU. O relatório será analisado este mês, antes de o Conselho decidir sobre a renovação da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental, cujo atual mandato termina em 31 de outubro.
No documento, Guterres sustenta que uma eventual solução deve permitir aos saharauis exercer livremente a sua escolha, enquadrando essa participação no direito à autodeterminação. O secretário-geral apela igualmente a um reforço do envolvimento dos Estados-membros e das organizações regionais, considerando necessárias garantias internacionais para a aplicação de qualquer acordo alcançado pelas partes – Reino de Marrocos e Frente POLISARIO.
A posição surge num contexto diplomático diferente do de anos anteriores. A resolução 2797, aprovada pelo Conselho de Segurança em outubro de 2025, passou a apontar a proposta marroquina de autonomia como base para as negociações, mantendo simultaneamente como objetivo uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável que assegure a autodeterminação. Marrocos defende uma autonomia do território sob soberania marroquina, enquanto a Frente POLISARIO insiste numa solução que permita aos saharauis exercer o direito à autodeterminação através de Referendo.
Segundo o relatório, as partes retomaram este ano negociações diretas pela primeira vez em sete anos, por iniciativa e liderança dos EUA, tendo sido realizadas três reuniões no primeiro trimestre de 2026. Apesar da reativação dos contactos, não foi alcançado até agora um entendimento capaz de aproximar as posições de Marrocos e da Frente POLISARIO.
Guterres recomenda manutenção da MINURSO
No plano operacional, Guterres recomenda ao Conselho de Segurança que mantenha a MINURSO por mais 12 meses, até 31 de outubro de 2027, enquanto prosseguem os esforços para alcançar uma solução política.
O secretário-geral considera que a missão continua a desempenhar um papel importante na prevenção de uma escalada militar. A MINURSO acompanha a situação no terreno, investiga e comunica incidentes e mantém contactos com as partes para reduzir tensões. Guterres alerta que, sem essa presença, aumentariam significativamente tanto o risco de intensificação das hostilidades como a possibilidade de o conflito produzir efeitos numa região já marcada por instabilidade.
A missão foi criada pelo Conselho de Segurança em 1991, na sequência das propostas de resolução aceites por Marrocos e pela Frente Polisário, tendo entre as suas atribuições originais a supervisão do cessar-fogo e o apoio à organização de um referendo. O cessar-fogo estabelecido naquele processo deixou de vigorar em novembro de 2020 e, desde então, registam-se hostilidades de baixa intensidade.
O relatório apela, por isso, ao restabelecimento do cessar-fogo e pede às partes que evitem ações suscetíveis de comprometer a confiança necessária ao processo político. Guterres incentiva ainda Marrocos e a Frente POLISARIO a adotarem medidas de construção de confiança propostas pelo seu enviado pessoal para o Sahara Ocidental, Staffan de Mistura.
Direitos humanos continuam entre as preocupações
Guterres volta também a manifestar preocupação com a situação dos direitos humanos no Sahara Ocidental, apelando às partes para que respeitem e protejam os direitos fundamentais, garantam o acesso à justiça e assegurem mecanismos de responsabilização em caso de violações.
O secretário-geral defende maior cooperação com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e com os restantes mecanismos da ONU, reiterando a necessidade de uma monitorização independente, imparcial, abrangente e continuada da situação dos direitos humanos.
A recomendação sobre a MINURSO será agora apreciada pelo Conselho de Segurança. Durante outubro, os membros do Conselho deverão ouvir Staffan de Mistura e o representante especial do secretário-geral e chefe da MINURSO, Alexander Ivanko, antes da votação sobre a renovação da missão.
A discussão deste ano assume particular importância porque a resolução de 2025 também solicitou a Guterres uma revisão estratégica do futuro mandato da MINURSO, tendo em conta a evolução das negociações. Entre as possibilidades em análise estão a manutenção da atual configuração ou eventuais adaptações das funções da missão caso seja alcançado um acordo político.
Assim, o debate no Conselho de Segurança deverá envolver duas questões relacionadas: o futuro imediato da presença da ONU no território e o enquadramento do processo político, num momento em que a proposta marroquina de autonomia ganhou maior peso nas negociações, mas muitos países e também o SG da ONU, António Guterres, continuam a vincular uma solução à possibilidade de a população saharaui se pronunciar sobre o seu futuro.


