terça-feira, 7 de abril de 2026

A Guerra no Sahara Ocidental: combates abrandam em março

 


As operações militares levadas a cabo pelo Exército de Libertação do Povo Saharaui (ELPS) em março no Sahara Ocidental apontam para uma redução da intensidade dos combates, em comparação com meses anteriores, apesar da continuação de ações ofensivas pontuais.

De acordo com comunicados do Ministério da Defesa da República Árabe Saharaui Democrática, foram registadas três ações militares ao longo do mês.


Ataques concentrados em dois setores

A 4 de março, unidades saharauis realizaram um bombardeamento contra um posto de comando na região de Ichergán, no setor de Guelta, no centro do território.

Já a 10 e 11 de março, as operações intensificaram-se no setor de Hauza, no norte do Sahara Ocidental, com ataques a postos de vigilância, bases e posições entrincheiradas nas zonas de Fadrat Legrab e Agajgal Dirit.

Segundo as mesmas fontes, os bombardeamentos terão provocado danos em infraestruturas militares, embora não tenham sido divulgados números sobre vítimas ou destruição.


Sinais de atenuação dos ataques militares

Apesar destes ataques, a frequência das operações em março foi inferior à registada em períodos anteriores, sugerindo uma atenuação relativa da atividade militar ao longo da linha de confronto (o muro). Este facto pode ser explicado pelas alterações registadas durante o mês nos comandos do ELPS.

O presidente da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) e secretário-geral da Frente Polisario, Brahim Gali, levou a cabo uma importante reorganização nas estruturas militares e governamentais. Estas mudanças, concretizadas através de decretos presidenciais, incluíram a nomeação de novos comandantes na instituição militar do Exército Popular de Libertação do Saara (EPLS) e são interpretadas como uma reconfiguração interna fundamental no contexto do conflito no Sahara Ocidental.
O conflito, que opõe Marrocos à Frente Polisario, mantém-se de baixa intensidade desde a retoma das hostilidades em 2020, após o colapso do cessar-fogo supervisionado pela ONU.
A redução do ritmo de combates não altera, contudo, o impasse político em torno do estatuto do território, considerado pelas Nações Unidas como um território por descolonizar.

As conversações promovidas pela atual administração norte-americana, reunindo as duas partes do conflito, o povo saharaui representado pela Frente POLISARIO, e o Reino de Marrocos, além da Argélia e da Mauritânia, como países vizinhos, não geraram até agora qualquer alteração neste contexto.

No entanto, o Conselho de Segurança da ONU deverá até ao final do mês de abril pronunciar-se sobre a eventual alteração do estatuto e contornos da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo do Sahara Ocidental).

Relatório denuncia aumento de ataques com drones contra civis no Sahara Ocidental

 


Um estudo divulgado pela Oficina Saharaui de Coordinación de Acción contra las Minas (SMACO) documenta um aumento significativo de ataques com drones no Sahara Ocidental entre 2021 e 2025, denunciando um padrão de ataques contra civis e potenciais violações do direito internacional humanitário.

De acordo com o relatório, foram registados 123 ataques entre 2021 e 2024, aos quais se somam seis incidentes adicionais em 2025, que terão causado mais de uma dezena de vítimas civis. O estudo baseia-se em dados de terreno e analisa a evolução das táticas militares, o perfil das vítimas e o impacto humanitário.


Ataques a civis e expansão geográfica

O documento aponta para um padrão sistemático de ataques contra civis, nomeadamente viajantes e atividades económicas vulneráveis, muitas vezes em zonas afastadas das linhas de combate e do muro militar marroquino. Segundo o estudo, esta dispersão geográfica indica que as vítimas não representavam alvos militares.

A utilização de drones é descrita como uma mudança estratégica no conflito, permitindo ataques à distância com “risco zero” para as forças envolvidas.


Impacto humanitário e psicológico

O relatório destaca consequências graves para a população, incluindo deslocações forçadas de civis de zonas como Tifariti, Mehaires ou Bir Lehlu para áreas mais seguras na Argélia e na Mauritânia.

Entre os impactos identificados estão:

  • medo generalizado entre a população

  • ansiedade e trauma psicológico

  • perturbações de stress pós-traumático, depressão e distúrbios do sono


Os drones marroquinos têm obrigado as famílias nómadas saharauis a fugir
para o interior do território da Argélia ou da Mauritânia
(Foto Jean-Baptiste François/Jornal La Croix)


Há ainda relatos de vítimas que permaneceram horas ou dias sem assistência médica devido ao receio de novos ataques.


Questões legais e cooperação militar

O estudo sustenta que muitos dos ataques ocorreram em áreas abertas, onde seria possível distinguir alvos civis de militares, levantando dúvidas sobre o respeito pelos princípios de distinção e proporcionalidade do direito internacional humanitário.

O documento refere também o reforço das capacidades militares de Marrocos, associado à cooperação com Israel, incluindo aquisição, transferência de tecnologia e produção local de drones.


Falta de responsabilização internacional

Apesar da redução do número de ataques em 2025, o relatório considera que o fenómeno permanece estrutural. O estudo denuncia ainda a ausência de resposta internacional eficaz e a fragilidade dos mecanismos de monitorização, fatores que poderão contribuir para a continuidade das alega-das violações.

Entre as recomendações, a SMACO defende o reforço dos mecanismos internacionais de acompanhamento e a abertura de investigações independentes para apurar responsabili-dades.

O relatório alerta que a persistência destes ataques poderá agravar a situação humanitária e comprometer a estabilidade regional.

Relatórios denunciam incidentes graves na final Marrocos-Senegal e levantam dúvidas sobre Mundial 2030

 


A publicação de vários relatórios sobre a final da Taça das Nações Africanas entre Marrocos e Senegal, divulgados pelo jornal Le Monde, expõe alegações de falhas graves de organização, segurança e integridade desportiva, num caso que poderá ter implicações na credibilidade do país como coorganizador do Mundial de 2030.

De acordo com os documentos — que incluem relatórios do árbitro, do comissário do jogo e de responsáveis pela logística e segurança — a final, disputada a 18 de janeiro em Rabat, ficou marcada por episódios de assédio à equipa senegalesa, suspeitas de espionagem, falhas de segurança, confrontos físicos e até casos de alegada intoxicação alimentar de jogadores.


Organização contestada e ambiente hostil

Antes do jogo, a delegação do Senegal denunciou condições logísticas inadequadas, incluindo alterações de alojamento fora das unidades inicialmente aprovadas e a obrigatoriedade de treinar em instalações marroquinas, levantando preocupações sobre confidencialidade e segurança.

À chegada a Rabat, os jogadores terão sido alvo de assédio por adeptos locais, com relatos de falhas na proteção policial. Durante a partida, registaram-se confrontos entre elementos das equipas técnicas e comportamentos considerados impróprios, num ambiente descrito como de elevada tensão.

Um dos relatórios refere ainda que três jogadores senegaleses necessitaram de assistência médica devido a suspeita de intoxicação alimentar, agravando a polémica em torno do encontro.


Resultado contestado e caso em aberto

Apesar de o Senegal ter vencido em campo por 1-0, o jogo ficou marcado pelo abandono da equipa antes do final, sendo posteriormente atribuída vitória administrativa a Marrocos. O caso permanece sob investigação e sem desfecho definitivo.


Sinal de alerta para o Mundial 2030

Os acontecimentos agora revelados surgem num momento sensível, numa altura em que Marrocos se prepara para coorganizar o Campeonato do Mundo de Futebol 2030 com Espanha e Portugal.

As alegações de falhas estruturais na organização de um evento de grande dimensão, bem como dúvidas sobre segurança e imparcialidade, poderão ser interpretadas como um mau presságio para a capacidade de garantir padrões exigidos numa competição global.

Para já, a polémica em torno da final da CAN continua a marcar o debate no futebol africano, com potenciais repercussões que extravasam o plano desportivo e atingem a dimensão institucional e internacional.

sábado, 4 de abril de 2026

Analista afasta guerra entre Marrocos e Argélia, mas alerta para risco de tensão com Espanha


Fuzileiros navais norte-americanos coordenam operações de tiro real com forças militares marroquinas e espanholas antes de se dirigirem para o campo de tiro durante o exercício «African Lion 2018», perto de Tan-Tan (Marrocos), a 19 de abril de 2018. | Exército dos EUA

A rivalidade militar entre Marrocos e Argélia tem vindo a intensificar-se, mas dificilmente evoluirá para um conflito aberto, defende Akram Kharief, diretor do portal especializado MENA Defense, numa entrevista ao jornal espanhol El Independiente.

Segundo o analista, os dois países seguem doutrinas militares distintas e não comparáveis. A Argélia aposta numa estratégia defensiva de dissuasão, preparada para enfrentar uma eventual coligação internacional, com forte investimento em sistemas antiaéreos e capacidade de resposta rápida. Já Marrocos tem vindo a transformar a sua doutrina numa lógica mais ofensiva, com foco no controlo territorial e possível expansão, incluindo no Sahara Ocidental.

Apesar da escalada armamentista, Kharief considera improvável uma guerra direta, sublinhando que ambos os países têm consciência dos elevados custos humanos e materiais de um conflito. A Argélia teria capacidade para infligir danos rápidos a infraestruturas críticas marroquinas, enquanto Marrocos poderia resistir a uma ofensiva terrestre, resultando num cenário de perdas significativas para ambos.


Fragilidades militares e dependências

O especialista aponta fragilidades nos dois lados. A Argélia enfrenta limitações logísticas devido à dimensão do território e à dependência de equipamento russo, enquanto Marrocos apresenta vulnerabilidades mais críticas, como falta de reservas de combustível, munições e meios de defesa aérea, o que compromete a sua capacidade de sustentar um conflito prolongado.


Espanha fora do radar argelino, mas alvo potencial de Marrocos

Um dos pontos mais sensíveis da análise prende-se com o papel de Espanha. Kharief afirma que a Argélia não considera Espanha uma ameaça, mantendo inclusive relações no domínio industrial e militar. Em contraste, sustenta que Marrocos tem vindo a preparar-se, tanto política como militarmente, com foco nos territórios espanhóis próximos, como Ceuta e Melilla.

O analista vai mais longe ao considerar que, em caso de tensão, os Estados Unidos tenderiam a apoiar Marrocos, num alinhamento que descreve como “bipartidário” e estrutural na política externa norte-americana.


O entrevistado, Akram Kharief


Cooperação com Israel e escolhas estratégicas

Kharief critica ainda a crescente cooperação militar entre Marrocos e Israel, considerando que resulta sobretudo de motivações políticas e não de vantagens tecnológicas ou operacionais, defendendo que Rabat teria alternativas mais eficazes junto de parceiros tradicionais como França ou Estados Unidos.


Equilíbrio instável no Magrebe

No conjunto, a entrevista traça um cenário de equilíbrio tenso, mas controlado, no Norte de África, marcado por corrida ao armamento, divergências estratégicas profundas e uma crescente dimensão geopolítica que envolve potências externas.

Embora a guerra direta seja considerada improvável, o analista alerta para riscos de escalada indireta e para o impacto potencial das dinâmicas regionais nas relações com países europeus, em particular Espanha.

ONU: Conselho de Segurança volta a abordar a questão do Sahara Ocidental

 


O Conselho de Segurança da ONU decidiu realizar duas reuniões nos dias 24 e 30 de abril para levar a cabo consultas destinadas a rever a estratégia da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) e os últimos acontecimentos no processo de paz, incluindo as conversações entre as duas partes em conflito — a Frente Polisário e a potência ocupante marroquina — sob os auspícios conjuntos de Washington e das Nações Unidas, bem como as conversações conduzidas pelo enviado da ONU com os países vizinhos, os governos e as organizações internacionais, em conformidade com as recomendações da Resolução n.º 2797, adotada em 31 de outubro de 2025


A dependência energética de Marrocos: reservas de combustíveis para cerca de dois meses em contexto de tensão energética global

 


Marrocos dispõe atualmente de reservas de gasóleo para 51 dias e de gasolina para 55 dias, enquanto os fornecimentos de carvão e gás estão assegurados até ao final de junho, segundo dados do Ministério da Energia citados pela Reuters.

A informação surge num contexto de forte volatilidade nos mercados energéticos internacionais, agravada pela guerra no Médio Oriente, que provocou uma subida acentuada dos preços do petróleo em março.

País fortemente dependente de importações, Marrocos enfrenta uma vulnerabilidade estrutural: não dispõe de capacidade de refinação doméstica desde o encerramento da refinaria de Samir, em 2015. O fecho tornou Marrocos totalmente dependente da importação de produtos petrolíferos refinados, já que também uma refinaria mais pequena situada em Sidi Kacem, também foi desativada e convertida num centro de armazenamento.

Esta situação obriga o país a importar produtos refinados, expondo-o diretamente às oscilações dos mercados internacionais.


Estratégia de diversificação energética

Apesar dessa dependência, o Governo marroquino tem apostado na diversificação do seu mix energético, nomeadamente através do desenvolvimento de energias renováveis, como a solar e a eólica, com projetos de grande escala como o complexo solar de Ouarzazate e de outros, os mais relevantes em território do Sahara Ocidental ocupado.

O orçamento do Estado para 2026 foi elaborado com base numa previsão de preço médio do petróleo de 60 dólares por barril, um valor que poderá ser pressionado em alta caso se prolonguem as tensões geopolíticas.


Exposição ao choque externo

A atual crise evidencia a fragilidade de economias dependentes de importações energéticas. O aumento dos preços internacionais tem impacto direto nos custos de transporte, produção e bens essenciais, com potenciais efeitos inflacionistas.

Num cenário de instabilidade prolongada, a capacidade de Marrocos para garantir abastecimento e controlar os custos energéticos continuará a ser um dos principais desafios económicos no curto prazo.
Fonte: Reuters.