ENTREVISTA
| AHMED ETTANJI, JORNALISTA SAHARAUI
Francisco Carrión @fcarrionmolina - EL INDEPENDIENTE
Quebrar
o bloqueio informativo, essa outra barreira que separa e isola o
Sahara Ocidental ocupado por Marrocos do resto do mundo. É a missão
da Équipe Média, a organização que Ahmed Ettanji co-dirige há 16
anos. Sob a sua liderança, uma equipa de cerca de vinte jornalistas
saharauis tenta lançar luz sobre «um buraco negro informativo»,
como a antiga província espanhola é apelidada por Repórteres Sem
Fronteiras.
Ettanji
(El Aaiún ocupada, 1988) reconhece que a sua tarefa é lutar contra
a repressão e a censura, bem como contra o silêncio que o conflito
do Sahara — o mais antigo de África — suscita nos meios de
comunicação internacionais. «Gravar uma manifestação,
entrevistar uma vítima ou simplesmente documentar a realidade pode
significar prisão, tortura ou condenações judiciais forjadas»,
explica Ettanji numa entrevista ao El
Independiente
durante uma das suas escalas em Madrid.
Pergunta:
Como é ser jornalista nos territórios ocupados do Sahara Ocidental?
Resposta:
Ser jornalista nos territórios ocupados do Sahara Ocidental é
exercer a profissão na clandestinidade e em condições de repressão
constante. Informar implica enfrentar vigilância, intimidações,
detenções arbitrárias e restrições severas à liberdade de
expressão.
«A
autonomia de Marrocos para o Sahara não é credível quando se
criminalizam os jornalistas e se negam todas as liberdades»
Nós, jornalistas saharauis, não contamos com proteção
legal real e qualquer tentativa de documentar violações dos
direitos humanos, protestos pacíficos ou a vida quotidiana sob
ocupação pode ter consequências pessoais e familiares. Mesmo
assim, o jornalismo torna-se uma forma de resistência: uma maneira
de quebrar o silêncio, preservar a memória e levar ao mundo uma
realidade que muitas vezes se tenta ocultar.
P.-
Que limitações vocês sofrem na Equipe Media para realizar o vosso
trabalho diário?
R.-
Na Equipe Media, trabalhamos sob uma repressão sistemática e uma
criminalização constante por parte da lei marroquina. O nosso dia a
dia é marcado pela vigilância permanente, perseguições, detenções
arbitrárias, agressões físicas e confiscação de equipamentos.
Não existimos legalmente e o nosso trabalho jornalístico é
criminalizado, o que permite às forças de ocupação agir com total
impunidade contra nós. Gravar uma manifestação, entrevistar uma
vítima ou simplesmente documentar a realidade pode significar
prisão, tortura ou condenações judiciais forjadas. As nossas
comunicações são controladas e tentam isolar o nosso trabalho
através da censura e da expulsão de jornalistas internacionais.
Mesmo assim, continuamos a informar na clandestinidade, porque dizer
a verdade nos territórios ocupados do Sahara Ocidental é um ato de
resistência.
P.-
Em comparação com as vossas limitações, que privilégios têm os
jornalistas dos meios de comunicação oficiais marroquinos no
Sahara?
R.-
Os jornalistas dos meios de comunicação oficiais marroquinos gozam
de total proteção e privilégios. Têm credenciais oficiais, acesso
livre aos territórios ocupados, escolta policial quando necessário
e apoio. São impunes. Podem gravar, publicar e divulgar sem
obstáculos o discurso e a propaganda do Estado, mesmo quando
desinformam ou negam as violações dos direitos humanos. Enquanto os
jornalistas saharauis são perseguidos, presos e silenciados, os
meios de comunicação oficiais têm garantida a impunidade e os
recursos para impor uma narrativa única. Esta criminalização
atinge até mesmo o âmbito profissional: a Equipe Media foi
denunciada pelo sindicato dos jornalistas marroquinos, mais uma prova
de como as estruturas oficiais são utilizadas para silenciar
qualquer voz independente no Sahara Ocidental. Além disso, eles
divulgaram comunicados atacando e difamando jornalistas saharauis ou
estrangeiros que escreveram sobre a situação do Sahara Ocidental.
P.-
Receberam ameaças? Pode citar algumas?
R.-
Recebemos ameaças de morte após publicar informações sobre os
recursos naturais do Sahara Ocidental. Além disso, recebemos
constantemente mensagens de ódio e ameaças nas redes sociais, e
atualmente um indivíduo identificou-se falsamente como membro da
gendarmerie, avisando-nos de detenções e represálias graves. Estas
ameaças fazem parte de um padrão sistemático para silenciar o
nosso trabalho. Estamos proibidos de aceder a outras cidades
saharauis, como aconteceu com o meu colega Mohamed Mayara e comigo
mesmo em Bojador.
P.-
Durante 2025, o mundo assistiu ao bloqueio informativo na Faixa de
Gaza. A situação nos territórios ocupados do Sahara Ocidental é
comparável?
R.-
A situação nos territórios ocupados do Sahara Ocidental é
comparável ao bloqueio informativo que sofre Gaza. Tal como na
Faixa, os jornalistas saharauis enfrentam censura, vigilância
constante, perseguição e isolamento dos meios de comunicação
internacionais. Somos impedidos de documentar a realidade sobre
direitos humanos, recursos naturais ou manifestações pacíficas.
Somos as únicas fontes para os meios de comunicação
internacionais, enquanto os meios oficiais marroquinos controlam a
narrativa. Embora os contextos geopolíticos sejam diferentes, em
ambos os casos existe uma tentativa sistemática de silenciar o povo
e limitar o acesso do mundo à informação.
«Exigimos
que se abra a zona a jornalistas e observadores, que se respeite a
liberdade de imprensa e que se deixe de criminalizar o nosso
trabalho»
P.-
Sentem-se os jornalistas saharauis abandonados pela comunidade
internacional? O que pedem e o que precisam?
R.-
Nós, jornalistas saharauis, sentimo-nos abandonados pela comunidade
internacional. Exigimos que a zona seja aberta a jornalistas e
observadores, que a liberdade de imprensa seja respeitada e que se
deixe de criminalizar o nosso trabalho, face à repressão
sistemática e à impunidade daqueles que nos perseguem. Partes da
comunidade internacional e Estados como Espanha, França e Estados
Unidos são cúmplices.
P.-
Não sei se alguma vez pensou em abandonar o jornalismo...
R.-
Em alguns momentos, considerei essa possibilidade, sobretudo quando
as ameaças atingiram a minha família. Mas abandonar o jornalismo
significa aceitar o silêncio imposto e, por isso, continuamos a
informar, apesar dos riscos.
P.-
Marrocos insiste na sua proposta de autonomia para o Sahara. É
credível para vocês, tendo em conta as limitações das liberdades
públicas e de imprensa que sofrem?
R.-
A proposta de autonomia de Marrocos não é de todo credível. Como
se pode falar de «autonomia» sob uma ocupação militar contínua,
uma repressão sistemática e a negação das liberdades públicas e
de imprensa mais básicas? Vivemos sob vigilância constante, onde
jornalistas e ativistas são detidos simplesmente por documentarem a
realidade ou cobrirem protestos pacíficos. A credibilidade de
qualquer solução política não pode ser separada da situação
real das liberdades no terreno: que valor tem uma autonomia onde se
impõe uma narrativa única, se silencia a população autóctone e
se criminaliza os meios de comunicação independentes?
Reafirmo
ainda que esta proposta contradiz fundamen-talmente a Carta das Nações
Unidas, que consagra o direito dos povos à autodeterminação e
independência, bem como a Resolução 1514 adotada pela Assembleia
Geral em 1960, sob a qual o Sahara Ocidental foi incluído três anos
depois. O direito à autodeterminação é um direito permanente,
inerente e inalienável.
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Mohammed Mayara e Ahmed Ettanji, dirigentes da Equipe Media, durante uma passagem por Portugal (Foto AAPSO) |
A
Espanha foi a potência administradora do território e conti-nua a
ser, até hoje, a potência responsável pela sua administração de
acordo com o direito internacional, enquanto que o único titular do
direito legítimo é o povo saharaui, não a potência ocupante nem
os seus aliados. O que vemos hoje são tentativas de pressão
psicológica, política e diplomática sobre a Frente Polisario para
forçar mais concessões, mas estão condenadas ao fracasso, como a
história nos ensinou. A vontade popular saharaui é indomável e a
justiça histórica pre-valecerá.
P.-
Há colegas jornalistas saharauis na prisão? Qual é a sua situação?
R.-
Há jornalistas saharauis na prisão, condenados a penas extremamente
longas entre 10 e 30 anos ou mesmo prisão perpétua e submetidos a
um regime de isolamento prolongado, dispersão entre prisões,
insalubridade, maus-tratos e falta de assistência médica.
Permanecem incomunicáveis durante anos, criminalizados apenas por
informarem sobre o Sahara Ocidental.
«A
vontade popular saharaui é indomável, e a justiça histórica
prevalecerá»
P.-
Por que vale a pena continuar a informar a partir da El Aaiún
ocupada?
R.-
Vale a pena continuar a informar a partir da El Aaiún ocupada porque
somos testemunhas insubstituíveis no coração do sofrimento. Não
somos meros correspondentes que reportam a partir do exterior, mas
parte do próprio tecido desta dolorosa realidade. Cada reportagem
que produzimos é uma gota no rio da memória coletiva que desafia as
tentativas de apagamento e esquecimento.
Continuamos
porque o silêncio significa cumplicidade, e abandonar a nossa
profissão seria deixar o povo saharaui à mercê de uma narrativa
única e distorcida, promovida por uma máquina mediática apoiada
pelo Estado ocupante. Damos voz àqueles que foram silenciados e
iluminamos os recantos obscuros que as forças de ocupação querem
manter longe da vista do mundo.
Embora
o preço deste trabalho possa ser a detenção arbi-trária, a tortura
ou as ameaças às nossas famílias, é a nossa fé na justiça da
nossa causa e a determinação inabalável do nosso povo em alcançar
a sua liberdade que nos impulsiona. Informamos porque a verdade é
uma arma e porque documentar as violações de hoje é a prova para o
tribunal da história de amanhã. Em El Aaiún, onde o Estado
ocupante tenta impor a sua presença, a nossa existência como
jornalistas saharauis é a prova viva de que a terra pertence ao seu
povo e que a sua vontade não será quebrada.