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| Cartoon gerado por IA |
A escalada de tensão no Estreito de Ormuz poderá colocar Marrocos perante uma nova fase de forte pressão económica e orçamental, numa altura em que o reino continua altamente dependente das importações de petróleo e gás natural para sustentar a sua economia, produção elétrica, transportes e atividade industrial.
O estreito, situado entre o Irão e Omã, é um dos mais importantes corredores energéticos do planeta. Cerca de um quinto do petróleo consumido mundialmente transita diariamente por aquela rota marítima estratégica. O Estreito de Ormuz é absolutamente crítico não apenas para o petróleo e o gás (cerca de 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) atravessa a região), mas também para cadeias globais ligadas à agricultura, fertilizantes e segurança alimentar. Qualquer ameaça ao tráfego marítimo, aumento dos prémios de risco ou agravamento militar na região tende a refletir-se quase imediatamente nos preços internacionais do crude, do gás natural liquefeito (GNL) e dos seguros marítimos.
Para Marrocos, país praticamente desprovido de reservas significativas de petróleo e gás, o impacto poderá revelar-se particularmente severo.
Dependência energética estrutural
Marrocos importa mais de 90% das suas necessidades energéticas, sobretudo combustíveis fósseis. O país depende fortemente da compra de petróleo refinado, gás natural e carvão nos mercados internacionais, ficando extremamente vulnerável à volatilidade dos preços globais da energia.
Marrocos é uma potência mundial dos fosfatos (existentes no seu território nacional como na mina de Fous BuCraa, no Sahara Ocidental que ocupa militarmente), mas continua dependente do Golfo e do mercado energético internacional para transformar plenamente essa riqueza mineral em produção agrícola e fertilizantes competitivos.
Para produzir fertilizantes completos — especialmente fertilizantes azotados (nitrogenados) — é necessário: amoníaco; ureia; hidrogénio industrial; gás natural barato. E o gás natural é a matéria-prima crítica...
O encerramento, em 2021, do gasoduto Magrebe-Europa — consequência da deterioração das relações diplomáticas entre Marrocos e Argélia — agravou ainda mais essa dependência. Rabat perdeu então uma importante fonte regional de abastecimento de gás argelino, passando desde então a recorrer a importações de GNL através de Espanha, utilizando fluxos invertidos do mesmo gasoduto.
Apesar dos investimentos em energias renováveis, especialmente solar e eólica, os hidrocarbonetos continuam essenciais para:
transportes;
indústria;
produção elétrica;
logística;
agricultura intensiva;
dessalinização de água;
produção de fertilizantes e fosfatos.
A situação torna-se ainda mais sensível devido ao crescimento demográfico, à urbanização acelerada e à ambição marroquina de se afirmar como plataforma industrial e logística entre África e Europa.
Choque energético ameaça contas públicas
Uma subida prolongada dos preços do petróleo e do gás poderá exercer forte pressão sobre as contas públicas marroquinas.
O Estado tem procurado limitar o impacto social da inflação energética através de mecanismos indiretos de apoio ao consumo, compensações fiscais e subsídios a setores estratégicos, sobretudo transportes, eletricidade e produtos alimentares. Contudo, um choque energético internacional de grande dimensão poderá obrigar Rabat a:
aumentar despesas de compensação;
reforçar apoios sociais;
absorver parte da inflação importada;
aumentar o défice orçamental;
recorrer a mais endividamento externo;
reduzir investimento público;
pressionar reservas cambiais.
O risco é agravado pelo facto de Marrocos enfrentar simultaneamente:
inflação alimentar persistente;
stress hídrico estrutural;
forte dependência cerealífera externa;
elevado desemprego jovem;
necessidades crescentes de investimento em infraestruturas;
custos sociais elevados;
e um esforço militar cada vez mais pesado.
Além disso, o aumento do custo energético afeta diretamente setores considerados estratégicos para o crescimento marroquino, como:
automóvel;
agroindústria;
cimento;
turismo;
fosfatos;
transportes marítimos;
aviação;
construção civil.
Energia tornou-se questão de segurança nacional
Nos últimos anos, Rabat acelerou a sua estratégia de diversificação energética e redução parcial da dependência externa. Entre os principais projetos destacam-se:
expansão da energia solar no Complexo Solar Noor Ouarzazate;
desenvolvimento de terminais de GNL;
novas interligações elétricas com Espanha e Portugal;
projetos de hidrogénio verde orientados para exportação para a Europa;
exploração offshore de gás natural ao largo da costa atlântica;
reforço das capacidades de armazenamento estratégico.
Ainda assim, a transição energética marroquina permanece insuficiente para reduzir rapidamente a exposição do país aos mercados internacionais de petróleo e gás.
O peso crescente da despesa militar
A vulnerabilidade económica torna-se ainda mais delicada devido ao aumento contínuo das despesas militares marroquinas.
Nos últimos anos, Rabat intensificou o seu esforço de rearmamento devido:
à rivalidade estratégica com a Argélia;
à questão do Sahara Ocidental;
à modernização acelerada das Forças Armadas;
às compras de armamento aos Estados Unidos, Israel e França.
Segundo estimativas internacionais, Marrocos gastou cerca de 6,3 mil milhões de dólares em defesa em 2025, o equivalente a aproximadamente 3,5% do PIB (a maior parte dos analistas considera este número bastante abaixo do real...) e mais de 12% da despesa pública do Estado.
O esforço militar marroquino é considerado particularmente elevado para um país:
importador líquido de energia;
fortemente dependente de capitais externos;
sujeito a stress hídrico;
com forte dependência alimentar;
e com necessidades sociais significativas.
Nos últimos anos, Rabat adquiriu:
drones israelitas e norte-americanos;
sistemas antiaéreos;
helicópteros Apache;
caças F-16 modernizados;
sistemas de vigilância e guerra eletrónica;
armamento naval e missilístico.
Num cenário de petróleo caro e tensão prolongada no Estreito de Ormuz, o orçamento marroquino poderá ficar pressionado simultaneamente por:
dependência energética;
inflação importada;
rearmamento militar;
pressão social interna;
aumento do serviço da dívida.
Monarquias do Golfo poderão ter menor margem de apoio
Outro fator potencialmente sensível prende-se com a capacidade financeira das monarquias do Golfo para continuarem a apoiar economicamente Marrocos nos níveis observados em crises anteriores.
Historicamente, países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos desempenharam um papel importante no financiamento de projetos, apoio orçamental e investimentos estratégicos em Marrocos.
Contudo, um eventual agravamento regional envolvendo o Irão poderá obrigar essas monarquias a concentrarem recursos financeiros:
na defesa;
na proteção de infraestruturas energéticas;
no reforço militar;
e na reconstrução de ativos eventualmente atingidos por ataques ou sabotagens.
Isso
poderá reduzir a disponibilidade de apoio financeiro externo a Rabat
precisamente num momento de maior vulnerabilidade energética e
orçamental.
Contraste com a Argélia
O contexto beneficia parcialmente a vizinha Argélia, grande exportadora de gás e petróleo, que tende a lucrar com preços energéticos elevados através do aumento das receitas externas e fiscais.
Esse contraste energético reforça uma das principais fragilidades estruturais marroquinas: a ausência de recursos fósseis relevantes num momento em que a energia voltou a assumir um papel central na geopolítica mundial e na estabilidade económica dos Estados.










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