O confronto diplomático entre os Estados Unidos e a Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidas, que impediu a renovação do mandato da MINURSO, abriu uma nova fase de incerteza no Sahara Ocidental e poderá agravar as tensões militares na região. A análise é do jornalista espanhol Ignacio Cembrero, num artigo publicado esta segunda-feira, 2 de novembro, no El Confidencial que alerta para as consequências da retirada da missão da ONU, presente no território há 35 anos.
Segundo Cembrero, o veto russo à proposta de resolução apresentada pelos Estados Unidos representou um revés para a diplomacia marroquina, que pretendia consagrar o plano de autonomia de Rabat como única base para as negociações e afastar definitivamente a possibilidade de um referendo de autodeterminação do povo saharaui.
O projeto norte-americano obteve 11 votos favoráveis, mas foi bloqueado pela Rússia, que apresentou uma proposta alternativa destinada a manter o mandato da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO). Esta iniciativa também não foi aprovada, após reunir apoio insuficiente e receber o voto contrário dos Estados Unidos.
O jornalista considera que Washington e Rabat procuraram ir demasiado longe nas alterações ao processo político, provocando uma reação de Moscovo que poderia ter sido evitada com uma formulação menos favorável às posições marroquinas.
Retirada da MINURSO poderá alterar equilíbrio militar
A principal consequência do impasse é, segundo Cembrero, o desaparecimento da presença da MINURSO, que, embora há muito afastada da organização do referendo previsto em 1991, continuava a desempenhar um papel de acompanhamento da situação militar e de prevenção de incidentes.
A retirada dos observadores internacionais poderá facilitar uma intensificação das operações militares marroquinas contra unidades da Frente Polisario, particularmente na zona situada a leste do muro militar que divide o território.
O artigo admite mesmo a possibilidade de Marrocos tentar ocupar militarmente essa área, correspondente a cerca de 20% do Sahara Ocidental, atualmente fora do controlo de Rabat. Trata-se, contudo, de um cenário prospetivo apresentado pelo jornalista, e não de uma operação anunciada pelas autoridades marroquinas.
Cembrero considera que uma eventual ofensiva poderia aumentar o risco de envolvimento da Argélia, principal apoiante da Frente Polisario, agravando a instabilidade regional.
O consultor geopolítico Luis Romero Díaz, citado no artigo, sustenta que a saída da MINURSO representa a passagem de uma situação de dissuasão institucionalizada para um cenário de maior liberdade de ação militar.
O cessar-fogo entre Marrocos e a Frente Polisario foi interrompido em novembro de 2020, embora os confrontos tenham permanecido de baixa intensidade. Perante o novo contexto, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou à máxima contenção para evitar uma escalada das hostilidades.
Marrocos pretende afastar o Sahara Ocidental da agenda da ONU
De acordo com o jornalista espanhol, a diplomacia marroquina procura agora aproveitar o fim do mandato da MINURSO para reduzir a intervenção das Nações Unidas na questão do Sahara Ocidental.
Num comunicado divulgado após as votações, o rei Mohamed VI defendeu que a não renovação da missão deveria conduzir ao fim da apreciação periódica do conflito pelo Conselho de Segurança.
Apesar de alguns meios de comunicação marroquinos terem apresentado o resultado como um avanço diplomático, outros reconheceram o bloqueio provocado pelo veto russo, incluindo as publicações TelQuel e Médias24.
Cembrero sublinha, contudo, que retirar o Sahara Ocidental dos mecanismos de descolonização das Nações Unidas constitui um objetivo muito mais difícil de alcançar.
O território permanece inscrito na lista de territórios não autónomos, sendo acompanhado pelo Comité Especial de Descolonização, conhecido como Comité dos 24, e pela Quarta Comissão da Assembleia Geral.
Segundo o artigo, a Assembleia Geral aprovou recentemente, por 152 votos favoráveis, dois contra e sete abstenções, um texto que reafirma o direito do povo saharaui à autodeterminação e à independência.
Guterres reafirma compromisso com a autodeterminação
Apesar do impasse no Conselho de Segurança, António Guterres reiterou a intenção de continuar a procurar uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável, que garanta o direito à autodeterminação da população do Sahara Ocidental.
Para Ignacio Cembrero, o confronto entre Washington e Moscovo não representa uma vitória definitiva de qualquer das partes: a Rússia conseguiu bloquear a orientação pretendida por Marrocos, mas não assegurou a continuidade da MINURSO.
O resultado é uma situação de maior incerteza diplomática e militar, num território onde o processo de descolonização permanece por concluir e onde a ausência da missão das Nações Unidas poderá aumentar o risco de novos confrontos.



