sábado, 15 de agosto de 2026

Ban Ki-moon revela segredos do dossiê do Sahara Ocidental em livro de memórias e critica "comportamento" de Marrocos





O ex-secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-moon recupera, nas suas memórias "Filho da Guerra, Homem de Paz", os detalhes do confronto diplomático que protagonizou com Marrocos a propósito do Sahara Ocidental, formulando críticas duras ao que descreve como um comportamento sem precedentes por parte de Rabat durante o seu mandato à frente da organização.


O livro

A obra relata o percurso de Ban Ki-moon, desde a infância marcada pela guerra na Coreia do Sul até à liderança das Nações Unidas, cargo que ocupou durante dez anos, no qual defendeu causas como a igualdade de género, a proteção ambiental e a manutenção da paz entre nações. O livro aborda ainda outros episódios que marcaram o seu mandato, como a Primavera Árabe, a intensificação de conflitos em África, o terramoto no Haiti e a epidemia de Ébola.

Entre os episódios recuperados nas memórias está a controvérsia diplomática desencadeada depois de Ban Ki-moon ter classificado o Sahara Ocidental como um "território ocupado", uma caracterização que na altura gerou fortes reações por parte de Marrocos.



O confronto com Rabat

Segundo o relato de Ban Ki-moon, citado por vários meios de comunicação, o ex-secretário-geral terá sido alvo de pressões diretas por parte de responsáveis marroquinos após uma visita à região e um encontro com a missão da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental) — deslocação que, segundo o próprio, se inseria nas suas funções de acompanhamento do conflito e de apoio aos esforços para alcançar uma solução política. 

De acordo com o livro, a disputa atingiu o seu ponto mais alto quando o então ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino exigiu a Ban Ki-moon um pedido de desculpas. Este recusou, afirmando que, ao longo de uma década à frente das Nações Unidas, nunca tinha encontrado um comportamento semelhante por parte de um Estado-membro.



Contexto e alcance do episódio

O relato não se limita a recordar um incidente diplomático isolado, situando-o antes num contexto mais amplo sobre a relação entre as Nações Unidas e a questão do Sahara Ocidental, bem como sobre os limites da pressão política que os Estados-membros podem exercer sobre os responsáveis da organização. O episódio teve repercussões nas relações de Rabat com diversos atores internacionais e regionais na altura.

Segundo informações divulgadas, Ban Ki-moon defende no livro a sua própria versão dos acontecimentos, considerando que "disse a verdade" ao referir-se ao Sahara Ocidental, remetendo tanto para a defesa do princípio de neutralidade das Nações Unidas como para a linguagem que utilizou para descrever o conflito.



Uma versão pessoal, não um pronunciamento jurídico

Importa sublinhar que o conteúdo divulgado corresponde ao relato pessoal de Ban Ki-moon tal como apresentado no seu livro, não constituindo um pronunciamento jurídico definitivo sobre o conjunto da questão do Sahara Ocidental. Ainda assim, a dureza das expressões que lhe são atribuídas é suficiente para reavivar o debate sobre a forma como Rabat lidou ( ainda lida...) com as posições das Nações Unidas e sobre os limites da linguagem diplomática quando confrontada com um conflito regional de longa duração.

Editora: UNIVERSIDAD DE LO ANDES

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

NOTÍCIAS DE NAÂMA ASFARI

Naâma Asfari

Na semana passada, a família de Naâma Asfari conseguiu falar com ele por telefone.

Nessa ocasião, ele expressou a sua profunda gratidão e os seus sinceros agradecimentos a todas as pessoas que o apoiaram e que continuam a defender a sua causa, bem como a dos seus companheiros de prisão do grupo de Gdeim Izik.

No que diz respeito ao seu estado de saúde, tranquilizou a família: o seu estado está a melhorar progressivamente após o período difícil que se seguiu aos seus 48 dias de greve de fome. Pela primeira vez em dez anos, foi autorizado a consultar um oftalmologista. Considera esta medida como um dos primeiros resultados do diálogo iniciado.

A sua decisão de suspender a greve de fome constitui um gesto de boa vontade destinado a dar à Delegação Geral Marroquina para a Administração Penitenciária e a Reintegração (DGAPR) a oportunidade de honrar os compromissos assumidos durante a sessão de diálogo realizada com ele a 24 de julho de 2026.

Isto não significa, de forma alguma, que renuncie às suas reivindicações legítimas.

Constitui, antes, um teste à vontade real da DGAPR de cumprir os compromissos assumidos durante essa sessão de diálogo, realizada na prisão de Kénitra.

Caso a DGAPR volte atrás nos seus compromissos ou persista na sua política de atrasos e manobras dilatórias, nomeadamente a transferência para uma prisão do Sahara Ocidental, Naâma Asfari está decidido a RETOMAR A SUA GREVE DE FOME ilimitada NO PRÓXIMO MÊS DE SETEMBRO.

Nesta base, a família apela a todas as organizações de defesa dos direitos humanos e aos seus apoiantes para que continuem a sua mobilização em favor de Naâma Asfari e dos seus codetidos, e para que se empenhem em incitar as autoridades marroquinas a responder às suas reivindicações legítimas, em conformidade com as decisões do Comité contra a Tortura (CAT/C/59/ D/606/2014) e ao parecer do Grupo de Trabalho sobre a Detenção Arbitrária das Nações Unidas (A/HRC/WGAD/2023/23), que apelaram à libertação de Naâma Asfari e dos seus companheiros de prisão do grupo de Gdeim Izik, no respeito pelas obrigações do Marrocos perante o direito internacional dos direitos humanos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Mohamed VI reforça influência sobre Espanha através da crise migratória em Ceuta, diz o Financial Times

 


A crise migratória em Ceuta expôs a crescente capacidade de Marrocos para pressionar Espanha através do controlo dos fluxos migratórios e revelou a influência do rei Mohamed VI sobre o Governo de Pedro Sánchez, sustenta uma análise publicada pelo Financial Times.

Segundo o jornal britânico, a entrada de cerca de 60 mil migrantes em Ceuta constituiu o ponto culminante de uma estratégia que Rabat tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos cinco anos, transformando a gestão da migração numa importante alavanca diplomática sobre Madrid.

O Financial Times considera que, apesar da economia marroquina representar apenas cerca de um décimo da espanhola, Marrocos beneficia de uma posição estratégica única: controla uma das principais portas de entrada da imigração africana para a Europa e detém capacidade para aumentar ou reduzir a pressão migratória conforme os seus interesses políticos.


Uma relação de dependência

O jornal refere que Pedro Sánchez procurou preservar uma relação cordial com Mohamed VI desde a crise diplomática de 2021, evitando confrontos públicos para garantir a cooperação marroquina no controlo da imigração irregular, sobretudo na rota das Canárias.

Contudo, antigos responsáveis espanhóis citados pelo Financial Times consideram que essa estratégia acabou por ser interpretada em Rabat como um sinal de fragilidade política.


A viragem sobre o Sahara Ocidental

A análise recorda que a crise começou a intensificar-se em 2021, quando Espanha acolheu para tratamento hospitalar Brahim Ghali, líder da Frente Polisario.

Em resposta, Marrocos relaxou o controlo fronteiriço e cerca de 8.000 migrantes entraram em Ceuta.

No ano seguinte, Madrid alterou a sua posição histórica sobre o Sahara Ocidental, passando a apoiar o plano marroquino de autonomia para o território, decisão considerada pelo Financial Times como uma importante vitória diplomática para Rabat.


Persistem divergências estratégicas

Apesar da aproximação, o jornal identifica três grandes pontos de tensão entre os dois países:

  • as relações privilegiadas de Espanha com a Argélia, rival regional de Marrocos;
  • a reivindicação marroquina sobre Ceuta e Melilha;
  • o alinhamento oposto de Madrid e Rabat em relação à Administração Trump.

Enquanto Pedro Sánchez tem protagonizado vários confrontos políticos com Donald Trump, Mohamed VI consolidou uma relação privilegiada com Washington através dos Acordos de Abraão, que levaram os Estados Unidos a reconhecerem a soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental.


Ceuta e Melilha podem entrar na agenda americana

O Financial Times cita especialistas que admitem que Marrocos poderá tentar aproveitar a proximidade com Donald Trump para reforçar internacionalmente as suas reivindicações sobre Ceuta e Melilha, considerando existir uma oportunidade política rara durante o atual mandato presidencial norte-americano.


Sánchez evita responsabilizar Rabat

Apesar da dimensão da crise migratória, Pedro Sánchez recusou atribuir responsabilidades ao Governo marroquino.

Segundo o Financial Times, o primeiro-ministro espanhol responsabilizou sobretudo as redes de tráfico de seres humanos e a desinformação difundida nas redes sociais, agradecendo simultaneamente a colaboração de Rabat no rápido regresso da maioria dos migrantes a Marrocos.

O jornal conclui que a crise demonstrou como Marrocos conseguiu transformar a gestão da migração numa ferramenta de influência política sobre Espanha, consolidando uma posição de força numa relação bilateral cada vez mais assimétrica.

Fonte: Financial Times (4 de agosto de 2026).

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Estará Marrocos a jogar a carta de Ceuta para conquistar a final do Mundial 2030?

Cartoon gerado por IA


O que está a acontecer no perímetro fronteiriço de Ceuta resulta da convergência entre uma profunda desespero socioeconómico interno em Marrocos — que empurra milhares de jovens a arriscar a vida na travessia — e uma estratégia fria do Estado marroquino, que aproveita esse contexto e a margem de manobra concedida pelas disputas entre potências externas, nomeadamente a administração Trump, para relaxar os seus controlos fronteiriços e pressionar Espanha em várias frentes.


Quatro cartas na mão de Rabat

No centro desta tensão está o desagrado marroquino com a recente visita do presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, à Argélia — principal rival regional de Marrocos —, um gesto que Rabat interpreta como um agravo estratégico que exige resposta imediata. A este desentendimento soma-se a fricção estrutural em torno da posição espanhola sobre o Sahara Ocidental, onde qualquer nuance, atraso ou declaração ambígua no apoio aos interesses territoriais do reino alauita é penalizado com a abertura da torneira migratória.

Além destes problemas, e como pano de fundo, estão as pretensões territoriais de Marrocos em relação às posições que Espanha detém no Norte de África, junto às suas fronteiras: Ceuta, Melilha, Peñón de Vélez de la Gomera, Peñón de Alhucemas, Ilhas Chafarinas, Ilha de Alborán e Ilha de Perejil

As motivações de Rabat estendem-se ainda ao domínio do prestígio internacional e do soft power — em particular, à disputa pela organização da final do Mundial de futebol de 2030. Marrocos procura garantir que a grande final do torneio se dispute em Rabat, usando a pressão fronteiriça para forçar as instituições espanholas a alinhar os seus interesses e a apoiar ativamente esta candidatura junto da FIFA.


Um contexto que favorece Marrocos

Vários fatores reforçam a posição marroquina nesta disputa. Desde que Marrocos se juntou à candidatura ibérica de Espanha e Portugal para organizar o Mundial de 2030, a sua pretensão de acolher a final do torneio tem sido pública e notória. A boa relação entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o líder norte-americano, Donald Trump — que recentemente deu o seu próprio nome a uma autoestrada que liga Marrocos ao Sahara Ocidental —, é apenas um dos fatores que jogam a favor do país africano.

Porém, apesar desta pressão, o próprio uso da alavanca migratória tem um custo reputacional crescente para Marrocos: as imagens de milhares de cidadãos marroquinos a tentar abandonar o país contrastam com o discurso de estabilidade, modernização e liderança regional que Rabat tem construído ao longo dos anos para atrair investimento e consolidar o seu papel como parceiro privilegiado da Europa — um contraste que choca também com as ambições do país de se afirmar como um destino seguro, capaz de acolher um evento de multidões como a final do Mundial de 2030. 

Fontes: Catalunyapress, Vozpopuli, La Vanguardia.