No dia em que se comemora o 50º aniversário da proclamação da República Árabe Saharaui Democrática (RASD), a Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental (AAPSO) preparou uma tomada de posição subscrita por 26 personalidades que são uma expressão da sociedade portuguesa no apoio à luta do povo saharaui pela sua autodeterminação.
26
Intelectuais Portugueses subscrevem moção de solidariedade com o
Povo Saharaui no 50.º Aniversário da Proclamação da RASD
Sahara
Ocidental:
concretizar o direito à autodeterminação
Há
50 anos nascia um novo país, que ainda não é membro das Nações
Unidas, mas é co-fundador da União Africana. A Frente POLISARIO, em
nome do povo saharaui, proclamou, a 27 de fevereiro de 1976, a
República Árabe Saharaui Democrática (RASD), como forma de
responder ao vazio legal deixado pela partida da potência colonial,
a Espanha, e quando Marrocos e a Mauritânia já tinham tomado pela
força uma parte do território.
O
direito do povo saharaui à autodeterminação fora reafirmado pouco
antes, através do parecer do Tribunal Internacional de Justiça,
divulgado a 16 de outubro de 1975. Desde então, todas as resoluções
da Assembleia Geral da ONU e do Conselho de Segurança mantêm, de
acordo com a Carta das Nações Unidas, a atualidade desse direito
inalienável. O mesmo é também reconhecido pela União Africana e
pela União Europeia, incluindo, neste caso, de forma clara, pelo seu
Tribunal de Justiça.
O
Sahara Ocidental é assim, ao mesmo tempo, a última colónia de
África, e um Estado no exílio que, ao longo dos anos, foi
aperfeiçoando o seu modelo institucional, desde os 18 Artigos do Ato
Constitucional Provisório de fevereiro de 1976, até aos 149 Artigos
da Constituição de janeiro de 2023, data da 11ª e última revisão
constitucional. Enquanto não é possível exercer plenamente a
soberania no território do Sahara Ocidental, o governo e o
parlamento saharauis têm assumido a responsabilidade de organizar e
dirigir os Acampamentos de população refugiada na região de
Tindouf (Argélia), e de garantir os interesses e direitos do povo
saharaui, em particular nas áreas da Defesa e da Diplomacia.
Cinquenta
anos é muito tempo, duas gerações de saharauis já nasceram nos
Acampamentos ou na diáspora sem conhecer o seu país. Aqueles que
vivem no Sahara Ocidental ocupado enfrentam um colonialismo de
povoamento agressivo e, sistematicamente, todas as violações
possíveis dos Direitos Humanos. Os recursos naturais saharauis são
ilegalmente explorados, sob uma teia de cumplicidades com a potência
colonizadora. Esta dá as boas-vindas a investidores e turistas, mas
mantém o território fechado a jornalistas, parlamentares, advogados
e juristas, representantes de organizações de direitos humanos e
humanitárias e até ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e à Cruz
Vermelha Internacional. Desde 2014, até 31 de janeiro de 2026, foram
expulsas 329 pessoas de 21 países de quatro continentes.
Vemos
como o povo saharaui continua a lutar por manter a sua identidade, a
sua unidade, a sua luta pela liberdade, pelo direito à sua terra.
Juntamos
a nossa voz à do povo do Sahara Ocidental para reafirmar que é
urgente encontrar por via diplomática uma solução política que
concretize o direito à autodeterminação, dando aos saharauis a
possibilidade de tomarem decisões sobre o seu futuro através de um
referendo livre e justo, organizado e supervisionado pelas Nações
Unidas.
Portugal,
agora candidato a membro do Conselho de Segurança, defendeu
exigentemente o Direito Internacional no caso de Timor-Leste. Se a
Ucrânia e a Gronelândia merecem, por parte da Europa, o mesmo
empenho, o Sahara Ocidental e a Palestina não podem ser tratados
diferentemente. A coerência política é um bem inestimável. No
tempo perigoso que atravessamos, são os princípios e as causas que
nos podem guiar, para não nos perdermos no labirinto dos interesses
pouco defensáveis e das promessas inconse-quentes e de curto prazo.
Ninguém
se pode substituir à expressão genuína da vontade do povo
saharaui. Nisto acreditamos, por isso nos mani-festamos.
27
de Fevereiro de 2026
Subscrevem:
Alexandra
Lucas Coelho,
escritora
Ana
Drago,
investigadora
Ana
Gomes,
embaixadora aposentada
Anabela
Mota Ribeiro,
jornalista e escritora
António
Vitorino de Almeida,
compositor e maestro
Daniel
Oliveira,
jornalista
Francisco
Pereira Coutinho,
professor universitário
Helena
Roseta,
arquiteta
João
Salaviza,
realizador de cinema
João
Vieira Lopes,
gestor de empresas
José
Manuel Pereira de Almeida,
médico, Vice-Reitor da Universidade Católica
Manuel
Loff,
historiador
Margarida
Gil,
cineasta
Mário
Mourão,
Secretário-Geral da UGT
Miguel
Guedes,
músico
Pedro
Bacelar de Vasconcelos,
professor de Direito Público
Renée
Nader Messora,
cineasta
Ricardo
Paes Mamede,
economista e professor universitário
Ricardo
Sá Fernandes,
advogado
Rita
Rato,
politóloga
Rui
Vieira Nery,
musicólogo
Teresa
Almeida Cravo,
professora universitária
Teresa
Villaverde,
cineasta
Tiago
Oliveira,
Secretário-Geral da CGTP-IN
Vasco
Lourenço,
Militar de Abril
Wladimir
Brito,
advogado e professor universitário