terça-feira, 9 de junho de 2026

Tomás Bárbulo regressa ao Sahara com "Aaiún", um thriller de amor e guerra na última colónia espanhola




Em "Aaiún", o jornalista Tomás Bárbulo desenvolve a trama num cenário que conhece profundamente: o antigo Sahara Espanhol, atual Sahara Ocidental. O autor viveu no território até aos momentos que antecederam a Marcha Verde, em 1975, e é também autor do ensaio "La historia prohibida del Sáhara Español", obra que o escritor Javier Reverte classificou como "o livro de referência" sobre o conflito.

Construído sob a forma de um thriller, o romance combina elementos de ficção histórica com uma história de amor, assumindo-se, de certa forma, como herdeiro do trabalho de investigação realizado por Bárbulo no seu ensaio sobre a história do Sahara Espanhol.


Tomás Barbulo

"Aaiún" é o primeiro título da coleção "O Romance do Verão" da editora Archiletras Libros. Com esta nova aposta, a chancela editorial alarga o seu catálogo ao domínio da ficção narrativa, depois de se ter dedicado até agora às áreas da Poesia e da Linguística.

Diário francês «Libération» destaca alegadas tensões nos serviços secretos marroquinos e disputas de influência no círculo de Mohamed VI




Uma investigação publicada pelo jornal francês «Libération aborda alegadas rivalidades internas nos serviços de segurança marroquinos e disputas de influência em torno do rei Mohamed VI, num contexto marcado por especulações sobre a sucessão e pela crescente visibilidade do príncipe herdeiro Moulay Hassan.

Segundo o diário francês, as tensões envolveriam diferentes centros de poder ligados ao aparelho de segurança e ao chamado Makhzen — o sistema político e institucional que gravita em torno da monarquia. A reportagem sugere que algumas figuras dos serviços de informações procuram reforçar o seu posicionamento numa fase considerada sensível para o futuro do regime.

O artigo refere-se particularmente ao papel de responsáveis dos serviços de inteligência e segurança, destacando alegadas rivalidades entre diferentes estruturas de informações e segurança interna. O «Libération» sustenta que estas disputas ganharam visibilidade após várias fugas de informação e episódios que expuseram fragilidades dentro do aparelho de segurança marroquino.

A publicação enquadra ainda estas movimentações num contexto mais amplo de especulação sobre a evolução futura da monarquia. Nos últimos anos, a saúde do rei Mohammed VI, as suas ausências prolongadas da vida pública e o papel crescente do príncipe herdeiro têm alimentado análises sobre uma eventual reorganização dos equilíbrios internos do poder marroquino. 

De acordo com a investigação, os serviços de segurança continuam a desempenhar um papel central na estabilidade do regime, mas enfrentam desafios relacionados com rivalidades internas, exposição mediática e crescente pressão política. O jornal sugere que estas dinâmicas reflectem uma fase de reajustamento dentro das estruturas de poder marroquinas, embora sem colocar em causa, para já, a centralidade da monarquia no sistema político do país.

A reportagem do «Libération» insere-se numa série de trabalhos da imprensa francesa dedicados às transformações em curso no círculo próximo de Mohamed VI, abordando questões relacionadas com os serviços secretos, os equilíbrios entre diferentes grupos de influência e a preparação das futuras gerações da monarquia marroquina.

Ler artigo do Libération

domingo, 7 de junho de 2026

Drones, haxixe e cocaína: Marrocos, um narco-Estado à porta da Europa





A operação policial espanhola revelada esta semana — uma rede desmantelada entre Marrocos, Algeciras, o País Basco e a França, utilizando drones capazes de atravessar o estreito de Gibraltar carregados com vinte quilos de estupefacientes — não é um fenómeno isolado. É a expressão mais recente de uma realidade estrutural que os relatórios internacionais documentam há décadas e que as autoridades espanholas denunciam cada vez mais abertamente: Marrocos é o principal fornecedor de droga da Europa, e as suas redes deixaram há muito de se limitar ao cannabis. (Ver notícias no Infobae e El Pais)

Os números são inequívocos. Com 50.000 hectares no vale do Rife e 3.000 toneladas por ano, Marrocos é o maior produtor e exportador mundial de cannabis. Segundo o UNODC, a maioria do cannabis marroquino destinado à Europa é primeiro enviado para Espanha — principal país de trânsito — antes de ser distribuído pelos restantes países europeus. O relatório "EU Drug Market 2025" da Agência da União Europeia para as Drogas regista a apreensão de 551 toneladas de resina de cannabis ao longo dos últimos anos, em mais de 265.000 operações, sendo o cannabis marroquino a maior fatia das drogas interceptadas.

O que mudou é a escala e a natureza do tráfico. As redes do haxixe do Rife serviram de base para uma diversificação em direção à cocaína latino-americana. Os circuitos intercontinentais desenvolveram um sistema de troca direta — um quilo de haxixe por um quilo de cocaína —, um acordo considerado economicamente mais vantajoso do que os pagamentos em dinheiro, que aumenta significativamente o poder de compra das organizações criminosas. A Mocro Maffia, nascida deste comércio nos anos 1990, opera principalmente a partir da Bélgica e dos Países Baixos e controla atualmente um terço do mercado europeu de cocaína.

O porto de Tanger Med desempenha um papel central nesta engrenagem: com mais de 10 milhões de contentores TEU movimentados em 2024 — uma subida de 18,8% num ano —, tornou-se o primeiro porto do Mediterrâneo, ultrapassando Algeciras. A sua posição no estreito de Gibraltar permite-lhe receber fluxos de mercadorias provenientes de todas as regiões do mundo, que se fragmentam depois em fluxos secundários difíceis de rastrear. Um paraíso logístico para os cartéis.

O que distingue o caso marroquino de outros países produtores é a questão da cumplicidade institucional — que já não é evocada apenas por fontes militantes. Meios de comunicação espanhóis, retomando as conclusões de uma investigação da Guarda Civil, relataram que membros da marinha marroquina colaboraram com traficantes de droga para introduzir fardos de haxixe em Espanha, com um patrulheiro da marinha real a servir de navio-mãe para lanchas rápidas envolvidas no tráfico. Um comandante da Guarda Civil com décadas de combate ao narcotráfico declarou: "Quando Marrocos fez uma limpeza e deteve 30 polícias corruptos em Nador, os barcos receberam ordens para mudar o local de recolha da droga" — confirmando, segundo ele, "a capacidade do tráfico de droga para penetrar em todo o território marroquino e infiltrar as instituições".

O relatório Global Organized Crime Index 2025 constata igualmente que o crime organizado ganha terreno em Marrocos, com um crescimento particular nas atividades ligadas ao tráfico de droga, cujo impacto ultrapassa as fronteiras do país.

A operação espanhola desta semana — drones de quatro motores, esconderijos sofisticados em viaturas banalizadas, 40 quilos de cannabis e dois quilos de cocaína apreendidos — não é uma vitória sobre um fenómeno em vias de ser controlado. É um golpe numa das ramificações de um sistema cujas raízes mergulham muito mais fundo, e cujos tentáculos tocam já tanto as instituições marroquinas como os mercados de consumo de toda a Europa Ocidental.

Fonte: Maghreb Online

A Guerra no Sahara Ocidental: operações militares do ELPS em abril e maio de 2026


efetivos do ELPS em parada


O conflito no Sahara Ocidental opõe o Exército Popular de Libertação Saharaui (ELPS), braço armado da Frente Polisario, às forças armadas de Marrocos, que controla a maior parte do território desde 1975. Separados pelo chamado "Muro da Vergonha" — uma barreira militar de mais de 2.700 quilómetros —, os dois lados travam desde novembro de 2020 uma guerra de desgaste que a comunidade internacional observa com crescente preocupação, sem que qualquer processo de paz tenha avançado de forma significativa. As informações que se seguem têm como fonte os comunicados oficiais do Ministério da Defesa Nacional saharaui e da Direção Central do Comissariado Político do ELPS, não tendo sido possível obter confirmação independente dos factos relatados.

O ELPS intensificou as suas operações militares ao longo dos meses de abril e maio de 2026, com ataques declarados a posições marroquinas em vários setores do Sahara Ocidental e, em pelo menos um caso, no interior do território internacionalmente reconhecido como marroquino.


Abril: ofensiva concentrada no setor de Mahbes

O mês de abril ficou marcado por uma sequência de ataques de artilharia e operações especiais, com particular incidência no setor de Mahbes, no nordeste do Sahara Ocidental.

A 5 de abril, o ELPS anunciou um primeiro ataque a postos militares marroquinos em Mahbes, com baixas declaradas nas fileiras inimigas. No dia seguinte, 6 de abril, unidades especiais saharuisa realizaram um bombardeamento concentrado contra bases e entrincheiramentos na região de Al-Ariya, no mesmo setor.

A 12 de abril, o alto comando saharaui anunciou um ataque na zona de Emheibes Lamsamir, no setor de Touizgui, província de Assa-Zag — uma localização que se situa no interior das fronteiras internacionalmente reconhecidas de Marrocos, representando uma escalada geográfica significativa nas operações.

A 14 de abril, o Ministério da Defesa saharaui anunciou uma operação especial de comandos na zona de Guelb Adlim, no setor de Tichla, na região do Rio de Ouro, no extremo sul do Sahara Ocidental. O objetivo declarado foi um sistema fixo de vigilância e reconhecimento do Exército Real Marroquino utilizado para deteção precoce, descrito como destruído "com precisão e eficácia".

A 16 de abril, unidades do ELPS atacaram posições de artilharia marroquinas na região de Lagteitra, no setor de Hauza, no norte-nordeste do território. A 19 de abril, novo ataque em Mahbes, na zona de Udeiy Damran. A 26 de abril, o comunicado militar relatou dois ataques simultâneos no mesmo setor: um na zona de Amheibis Al-Ramth e outro, no dia anterior, contra posições de artilharia em Tanushad.




Maio: foco desloca-se para Smara e Guelta

Em maio, a atividade militar deslocou-se para os setores de Smara e Guelta, no norte e o centro do território, respectivamente.

A 5 de maio, o ELPS realizou um bombardeamento concentrado contra várias bases de retaguarda marroquinas nos arredores da terceira maior cidade saharaui ocupada de Smara, descrito como parte da estratégia de "guerra de desgaste" ao longo do muro militar.

A 22 de maio, a artilharia saharaui bombardeou bases e concentrações de tropas marroquinas de ocupação na zona de Gueililat, no setor de Guelta, com baixas declaradas. Quatro dias depois, a 26 de maio, novo ataque concentrado no mesmo setor, desta vez na região de Ichrik Tawarta, sector de Guelta, com perdas materiais e humanas reportadas pelo ELPS.


Os comunicados militares saharauis não incluem números concretos de baixas nem detalhes sobre o armamento utilizado. Marrocos não comentou publicamente a maioria destas operações. O conflito mantém-se fora do radar mediático internacional, não obstante a sua persistência e a ausência de qualquer perspetiva de resolução política no horizonte imediato.