O
Cinalfama lança a partir de 18 de março, em Lisboa, um novo
programa regular de cinema intitulado “Cinema Invisível”,
dedicado a cinematografias raramente exibidas nos circuitos
tradicionais. As sessões decorrem todas as quartas e quintas-feiras
às 19h, na Fábrica do Braço de Prata, na Sala Visconti – em
Marvila, Lisboa.
A
iniciativa pretende dar visibilidade a obras e autores provenientes
de contextos onde o cinema é produzido em condições frágeis ou
fora das estruturas industriais habituais. O programa inclui filmes
de arquivos esquecidos, produções amadoras e cinematografias ainda
pouco conhecidas pelo público.
Segundo
dados da UNESCO, grande parte do cinema produzido em várias regiões
do mundo surge em contextos com poucos recursos, sem políticas
públicas ou redes de distribuição estruturadas. O projeto procura
precisamente criar um espaço regular para a exibição e discussão
dessas obras.
Primeiro
ciclo dedicado ao cinema saharaui
A
estreia do programa será marcada por um ciclo dedicado ao cinema
saharaui,
organizado em colaboração com o FiSahara – Festival Internacional
de Cinema do Sahara
Ocidental.
Esta
cinematografia surgiu sobretudo nos campos de refugiados saharauis
de Tindouf, no sudoeste da Argélia, onde vivem cerca de 180
mil refugiados desde 1975, após a retirada da Espanha do Sahara
Ocidental e a subsequente ocupação do território por Marrocos.
Nos
últimos anos, realizadores saharauis
têm recorrido ao cinema para documentar a vida nos campos de
refugiados, preservar a memória coletiva e dar visibilidade
internacional à situação política do território.
Projeto
cultural iniciado em Alfama
Criado
em 2009 no bairro de Alfama, o Cinalfama começou por projetar filmes
nas ruas e fachadas do bairro histórico de Lisboa. Com o tempo, o
projeto evoluiu para um programa cultural mais amplo que inclui
festival internacional, programação regular, residências
artísticas e iniciativas de memória audiovisual ligadas à cidade.
Com
o Cinema Invisível, a organização pretende reforçar a missão de
usar o cinema como espaço de encontro, reflexão e descoberta de
novas cinematografias.
Programa
18
de Março
19:00
– Toufa,
de Brahim Chagaf – Sahara Ocidental - 2020 – 32’
Toufa
recria os primórdios da chegada da população saharaui
ao deserto árido da Hamada argelina.
Esta curta-metragem retrata o sofrimento de três gerações de
mulheres saharauis
que, através do seu esforço e sacrifício, foram curando as feridas
da guerra após a sua chegada ao território inóspito desta parte do
sul da Argélia.
19:33
– Little
Sahara,
de Emilio Martín – Espanha - 2023 – 31’
Quem não conhece
o Sahara acredita que no deserto existe apenas areia. Mas aqui há
crianças que brincam, desenham e fazem filmes, tal como este
documentário que conta a história da última colónia europeia em
África, o Sahara Ocidental, e a de milhares de refugiados saharauis
que vivem no exílio.
19
de Março
19:00
– Searching
for Tirfas,
de Lafdal Mohamed Salem – Sahara Ocidental – 2020 - 14’
Quando
se nasce em campos de refugiados, cresce-se a sonhar que um dia se
viverá na terra natal e, com o passar do tempo, esse sonho nunca
deixa de o ser… Torna-se pai de família e, nesse momento, é
preciso enfrentar a vida para alcançar a autonomia. Luta-se para
concretizar os sonhos e ultrapassar os obstáculos do quotidiano;
entre dois mundos, acaba-se por fazer aquilo que nunca se pensou vir
a fazer.
19:15
– They're
Just Fish,
de Ana Serna e Paula Iglesias – Espanha e Sahara Ocidental - 2019 –
17’
Teslem,
Dehba e Jadija trabalham numa piscicultura nos campos de refugiados
saharauis.
Onde? Na Argélia, no meio do deserto e longe da sua terra natal. Não
há mar ali, mas há peixe.
19:33
– Running
Home,
de Michelle-Andrea Girouard – Canadá - 2019 – 30’
Inma
(24) está determinada a vencer uma maratona no Deserto do Sahara.
Mas as suas motivações vão muito além do desafio físico. Há
alguns meses, encontrou documentos de adopção que revelavam o local
de nascimento da sua mãe biológica: El Aaiún, Sahara Ocidental.
Nunca tendo ouvido falar do país, decide treinar para uma maratona
internacional que decorre nos campos de refugiados saaraui no Norte
de África. É a oportunidade perfeita para conhecer uma história
que nunca enfrentou enquanto crescia em Espanha.
25
de Março
19:00
– DESERT
PHOSfate,
de Mohamed Sleiman Labat – Sahara Ocidental - 2023 – 58’
DESERT
PHOSfate é um filme experimental que entrelaça narrativas
multilayer sobre o fosfato, partículas de areia, plantas, o
deslocamento humano e mineral, bem como a perda dos modos de vida
nómadas indígenas saharauis.
O filme também destaca fortes expressões de resiliência
comunitária através de jardins e da arte. Realizado por um artista
saharaui,
o filme procura descolonizar a sua metodologia de fazer cinema e
contar histórias, baseando-se em elementos e narrativas da sua
própria comunidade.
26
de Março
19:00
– Champs-Elysées,
de Giussepe Carrieri – Sahara Ocidental – 2023 – 23’
Um
rapaz sonha viajar pelo mundo, especialmente até Paris, onde vive o
seu tio, mas um muro construído na sua terra divide o seu país e
impede-o de viajar ou de atravessar para o outro lado da sua própria
terra.
19:24
– Soukeina,
4400 Days of Night,
de Laura Sipán – Espanha – 2017 – 28’
Após a ocupação
militar do Sahara Ocidental em 1976, o governo marroquino atacou a
população civil com forte repressão, forçando centenas de
saharauis
a “desaparecer” em prisões clandestinas. Uma morte invisível e
lenta era o único horizonte. No entanto, alguns prisioneiros
conseguiram sobreviver depois de sofrerem a sua própria “extinção”
durante mais de 10 anos, arrancados às suas famílias, sujeitos a
tortura e em total isolamento. Quando finalmente foram libertados, o
mundo que conheciam tinha mudado radicalmente.

19:53
– 3 Stolen
Cameras,
Equipe Media, RåFILM – Sahara Ocidental – 2017 – 17’
Os
membros do grupo de vídeo-activismo Equipe Media lutam para manter
as suas câmaras. Utilizam-nas para documentar as violações dos
direitos humanos cometidas pelo reino marroquino na última colónia
de África. Não é permitida a entrada de jornalistas no Sahara
Ocidental ocupado. As únicas imagens que conseguem sair do
território são aquelas que a Equipe Media filma em segredo,
escondendo-se em telhados e correndo riscos graves. Filmam
manifestações pacíficas atacadas pela polícia e pelo exército,
bem como ferimentos e testemunhos de vítimas de brutalidade
policial. Esta é uma história sobre a quebra de uma censura
absoluta, com imagens únicas de uma região onde as autoridades
marroquinas conseguiram impor um bloqueio mediático quase total.