quinta-feira, 2 de abril de 2026

Marrocos reforça influência em Washington para pressionar Frente Polisario

 


Marrocos tem vindo a consolidar uma rede de influência política nos Estados Unidos, colocando-se numa posição de vantagem nas negociações sobre o Sahara Ocidental, segundo a Africa Intelligence (31 de março de 2026).

De acordo com a publicação, Rabat aproveita o reforço das suas ligações em Washington para aumentar a pressão sobre a Frente Polisario, numa fase em que prosseguem contactos diplomáticos sob mediação da administração de Donald Trump.

Um dos sinais desse posicionamento é o crescente apoio, no Congresso norte-americano, à proposta de incluir a Frente Polisario na lista de organizações terroristas dos EUA. A iniciativa ganhou novo impulso a 25 de março com o apoio da congressista republicana Elise Stefanik.




A mesma responsável chegou a ser apontada como possível embaixadora dos EUA junto da ONU, o que lhe daria influência direta sobre resoluções relacionadas com a missão MINURSO, responsável pelo processo no Sahara Ocidental.


Lobby e diplomacia ativa

Segundo a Africa Intelligence, o reforço da presença marroquina em Washington tem sido apoiado por empresas de lobbying como a Akin Gump, que terá promovido contactos entre congressistas e o embaixador marroquino nos EUA, Youssef Amrani.

Entre os interlocutores figura também o congressista republicano Mario Diaz-Balart, membro do caucus parlamentar dedicado a Marrocos, que já se reuniu com o ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino, Nasser Bourita.

Outra empresa, a Scribe Strategies & Advisors, contratada por Rabat, conta com a colaboração de Rudolph Atallah, ligado ao Conselho de Segurança Nacional dos EUA, e considerado um dos promotores da agenda marroquina em Washington.


Influência crescente nas negociações

A publicação sublinha que esta estratégia de influência tem permitido a Marrocos ganhar margem nas negociações internacionais, num contexto em que o impasse sobre o futuro do Sahara Ocidental se mantém.

O reforço da presença diplomática e política em Washington surge assim como um instrumento central de Rabat para consolidar apoio externo à sua proposta de autonomia para o território, em detrimento das reivindicações de autodeterminação defendidas pela Frente Polisario.

ONU avalia futuro da MINURSO no Sahara Ocidental

 

Conselho de Segurança da ONU

O Conselho de Segurança da ONU deverá discutir em abril o futuro da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental), destacada para o território, num momento em que se registam novos esforços internacionais para desbloquear o conflito.

A análise surge no âmbito de uma revisão estratégica solicitada pelo secretário-geral das Nações Unidas, após a prorrogação do mandato da missão até outubro de 2026. Criada em 1991, a MINURSO tem como principal objetivo organizar um referendo de autodeterminação — um processo que continua por concretizar.

Nos últimos meses, os Estados Unidos intensificaram a mediação, promovendo encontros entre Marrocos, a Frente Polisario, a Argélia e a Mauritânia, retomando negociações presenciais que não ocorriam desde 2019. Marrocos terá apresentado uma versão atualizada do seu plano de autonomia, base das atuais discussões por imposição dos EUA.

O impasse mantém-se, porém, devido a posições divergentes: Rabat defende a soberania sobre o território com um regime de autonomia, enquanto a Frente Polisario insiste no direito à autodeterminação do povo saharaui.

Dentro do Conselho de Segurança, persistem divisões. Países como os Estados Unidos e a França apoiam a proposta marroquina, enquanto outros Estados continuam a defender uma solução assente no direito internacional e no referendo.

Perante a ausência de progressos concretos e limitações operacionais da MINURSO, a ONU enfrenta o desafio de redefinir o papel da missão e relançar um processo político que permanece bloqueado há décadas.

terça-feira, 31 de março de 2026

A RASD, 50 anos de resistência, dignidade e esperança

 


O intérprete e educador saharaui Abderrahman Buhaia assina no jornal El Independiente um texto comemorativo por ocasião do 50.º aniversário da proclamação da República Árabe Saharaui Democrática (RASD), no qual percorre os principais marcos históricos, políticos e militares que marcaram a trajetória do povo saharaui desde 1976 até aos dias de hoje.

domingo, 29 de março de 2026

Gás e Sahara Ocidental redesenham alianças: Itália ganha peso, Espanha oscila e Argélia impõe pragmatismo

 



A geopolítica da energia no sul da Europa está a ser redesenhada sob o duplo impacto da instabilidade internacional e do conflito do Sahara Ocidental, com a Argélia a afirmar-se como fornecedor estratégico e a Itália a consolidar uma posição de vantagem.

A recente deslocação da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a Argel insere-se numa estratégia clara: garantir segurança energética num contexto de risco acrescido no Médio Oriente e reforçar um eixo político estável no Mediterrâneo. A ligação através do gasoduto TransMed e o reforço da cooperação entre a ENI e a Sonatrach consolidam essa relação.

No centro desta reconfiguração está o Sahara Ocidental. O apoio da Espanha, em 2022, ao plano de autonomia de Marrocos para o território — contrariando décadas de posição mais equilibrada — provocou uma rutura com Argel, principal apoiante da Frente Polisario. A suspensão de relações comerciais e políticas marcou um ponto de viragem.

Esse “zig-zag” da política externa espanhola abriu espaço para Roma. Enquanto Madrid perdia margem de influência, a Itália avançava com uma estratégia coerente e contínua, assente em interesses energéticos e numa diplomacia estável, consolidando-se como principal parceiro europeu da Argélia.

Entretanto, o quadro regional voltou a alterar-se. O reforço das relações entre a França, sob liderança de Emmanuel Macron, e o Marrocos de Mohamed VI tem pressionado Argel a evitar isolamento estratégico. Neste contexto, a Argélia iniciou uma reaproximação pragmática a Espanha, sobretudo nos domínios energético e comercial.

Ainda assim, a desconfiança mantém-se. Em Argel, a mudança de posição espanhola sobre o Sahara Ocidental continua a ser vista como uma quebra de confiança, limitando a profundidade da reaproximação.

A realidade energética impõe, no entanto, pragmatismo. Num cenário de elevada volatilidade global, a Argélia reforça o seu papel como fornecedor-chave de gás à Europa, tanto para a Península Ibérica como, de forma crescente, para Itália e para a Europa Central, via Áustria e Alemanha. Este posicionamento confere-lhe margem de manobra política acrescida.

Neste novo equilíbrio, a Itália surge como o parceiro mais consistente e previsível, enquanto Espanha tenta recuperar terreno após uma inflexão diplomática com custos duradouros. No pano de fundo, o conflito do Sahara Ocidental continua a condicionar alianças, influenciar decisões energéticas e moldar o mapa estratégico do Mediterrâneo.

Human Rights Watch (HRW) alerta para “ambiguidade destrutiva” no processo de paz do Sahara Ocidental

© 2023 Ryad Kramdi/AFP via Getty Images


A organização Human Rights Watch alertou para os riscos associados à atual condução do processo de paz no Sahara Ocidental, defendendo a necessidade de maior clareza e equilíbrio nas negociações entre Marrocos e a Frente Polisario.

Segundo a análise, as recentes negociações — retomadas após quase sete anos de impasse e impulsionadas pelos Estados Unidos — representam um desenvolvimento inesperado, mas assentam numa base considerada ambígua e potencialmente prejudicial ao processo.

A crítica centra-se na resolução mais recente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que mantém o princípio da autodeterminação, mas introduz referências à proposta de autonomia de Marrocos que, segundo a HRW, geram interpretações divergentes entre as partes.

Enquanto Marrocos encara as negociações como um processo para implementar a sua proposta de autonomia, a Frente Polisario defende um quadro mais amplo que inclua a possibilidade de independência, mantendo o desacordo de fundo.

A organização considera que o envolvimento direto dos Estados Unidos, fora do quadro tradicional liderado pela ONU, poderá agravar a perceção de parcialidade e comprometer a confiança no processo.
O conflito, que dura há cerca de 50 anos, continua a opor Marrocos — que controla grande parte do território — e o movimento i
de libertação nacional saharaui, apoiado pela Argélia.

A HRW defende que um eventual acordo exige medidas prévias de confiança entre as partes, como a libertação de presos políticos e a redução das hostilidades, bem como a definição de um quadro negocial claro e consensual.

Sem essas condições, a organização considera que a atual dinâmica poderá dificultar, em vez de facilitar, uma solução duradoura para o conflito.


Espanha: CEAS-Sáhara lança campanha de emergência após inundações nos campos de refugiados

 


A Coordenadora Estatal de Associações Solidárias com o Sahara de Espanha (CEAS-Sahara) lançou uma campanha de emergência para apoiar a população refugiada saaraui afetada por inundações recentes nos campos de refugiados, com especial incidência na região de Dajla.

As chuvas intensas provocaram danos significativos em habitações e infraestruturas, agravando a situação humanitária num contexto já marcado pela redução da ajuda internacional.




De acordo com a organização, as necessidades mais urgentes identificadas pela Media Luna Roja Saharaui incluem 144 toneladas de alimentos básicos, 300 tendas (jaimas) e 1.500 kits de higiene.

A campanha visa mobilizar apoio financeiro imediato para responder às necessidades essenciais da população afetada, num cenário considerado crítico pelas entidades no terreno.



Sê SOLIDÁRIO e contribui também:

Conta bancária: ES95 0081 0655 6800 0132 7041

Assunto: INUNDACIONES WILAYA DE DAJLA