sexta-feira, 9 de outubro de 2026

PRESOS POLÍTICOS SAHARAUIS EM GREVE DE FOME EM MARROCOS: REPRESÁLIAS E SOLIDARIEDADE




Rompendo com o silêncio que caracteriza a sociedade marroquina no que diz respeito ao Sahara Ocidental (uma das questões mais severamente criminalizadas pelo regime, a par da monarquia e da religião), a Associação Marroquina dos Direitos Humanos (AMDH) publicou anteontem, dia 7, um comunicado no qual “Manifesta a sua solidariedade incondicional para com os presos políticos em greve de fome e exige uma resposta imediata às suas justas reivindicações, responsabilizando o Estado marroquino e a Delegação Geral da Administração Penitenciária por qualquer complicação que ponha em risco a sua integridade física ou o seu direito à vida.”

Assegura ainda que “A Associação — partindo das suas posições firmes, baseadas no quadro universal dos direitos humanos, e remetendo-se, em particular, aos pareceres emitidos pelo Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre a Detenção Arbitrária, que já emitiu um parecer no qual considera que estes detidos se encontram em situação de detenção arbitrária e exigiu ao Estado marroquino a sua libertação imediata e incondicional, bem como a reparação dos danos causados — considera que a manutenção da sua detenção, contrariamente a esta decisão, contradiz de forma flagrante os compromissos assumidos por Marrocos nesta matéria.”

E no final “Reitera a sua exigência de que se resolva definitivamente o caso da detenção política, que se coloque um fim à abordagem repressiva e que se ponham em prática as recomendações das Nações Unidas e os pareceres emitidos pelos organismos de direitos humanos da ONU, em vez de os ignorar. A Direcção, ao mesmo tempo que alerta para a ameaça que paira sobre o estado de saúde dos grevistas, solicita a abertura de uma investigação independente e imparcial sobre as torturas e maus tratos a que foram submetidos; reitera o seu apelo a todas as forças democráticas e de defesa dos direitos humanos para que intensifiquem os seus esforços com o objetivo de impor o respeito pelos direitos humanos e de conseguir a libertação dos presos políticos saharauis, tanto do grupo de Gdein Izik como de todos os prisioneiros políticos e de opinião do nosso país.”

Quando a 24 de Julho Naâma Asfari decidiu suspender a sua greve de fome que durava há já 47 dias, as promessas da Delegação Geral da Administração Penitenciária e Reintegração foram: transferência para uma prisão próxima dos seus familiares, acesso a cuidados de saúde e retoma da comunicação com a família.

Desde que recomeçaram as greves de fome no dia 23 de Setembro, a política do regime foi brutal: transferência de alguns dos presos para outras cadeias, sempre em território marroquino, continuando a milhares de quilómetros de distância das famílias que vivem no Sahara Ocidental ocupado; suspensão de visitas e de comunicações com as famílias; ameaças constantes, castigos e humilhações suplementares; inacção face às condições de saúde precárias dos grevistas. De tal forma que quatro dos presos foram obrigados a suspender o seu protesto. No entanto, cinco, três condenados a prisão perpétua - Abdallah Abbah, Ahmed Sbai e Sidi El Bachir Boutanguiza, e dois a 25 anos - El Hassan Azaoui e Hassan Dah, encetaram hoje o seu 17º dia de greve. 

As famílias dos presos saharauis anunciaram entretanto que fariam hoje uma greve de fome de 24 horas, em solidariedade para com o protesto em curso. A sua preocupação cresce todos os dias. Sem comunicação, conhecendo o que significam 16 anos de privações e represálias de toda a ordem, isolamento, muitas vezes prolongado por meses e anos, e falta de assistência médica, temem pela vida dos seus mais próximos.

A ilegalidade, a injustiça e o sofrimento sem sentido não podem durar para sempre. A coragem de todos estes cidadãos que colocam a sua vida em risco pelo direito internacional e pela dignidade do seu povo exigem o máximo de apoio e de esforço para que a sua integridade seja respeitada e as suas exigências atendidas.

Recordamo-las aqui:

“1- Obrigar o Estado ocupante marroquino a aplicar as decisões dos mecanismos convencionais das Nações Unidas que o condenaram explicitamente por tortura sistemática e confirmaram o caráter arbitrário da nossa detenção. (...)

2- Denunciar as graves violações dos direitos humanos de que são vítimas os prisioneiros civis saharauis nas diferentes prisões do ocupante, nomeadamente as torturas físicas e psicológicas, a colocação durante longos anos em celas disciplinares de isolamento, a privação de cuidados médicos e de assistência sanitária, bem como a privação do direito de serem transferidos para as cidades do Sahara Ocidental;

3- Solicitar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao abrigo da Carta das Nações Unidas e das normas do direito internacional humanitário (…), que alargue o mandato jurídico da Missão das Nações Unidas para a Organização do Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), de modo a incluir a vigilância e a proteção dos direitos humanos, bem como a documentação de todas as violações graves cometidas contra civis saharauis desarmados na parte do território sob ocupação marroquina.

Solicitamos igualmente que seja permitido ao Comité Internacional da Cruz Vermelha aceder imediatamente e sem condições ao território, a fim de cumprir as suas missões humanitárias, que consistem em proteger a população civil e visitar as prisões e os locais de detenção (...).”

Lisboa, 9 de Outubro de 2026

Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental







Crisis Group avisa que a pressa dos EUA e da ONU pode fechar a janela negocial no Sahara Ocidental




O International Crisis Group, ‘think tank’ ou organização de análise de conflitos normalmente apontada como próxima do Partido Democrata dos EUA, considera que Washington e a ONU aceleraram demasiado as conversações entre Marrocos e a Frente Polisario e arriscam perder a abertura criada em 2025. O mandato da missão da ONU no território termina no final de outubro.

Uma abertura que durou meses

Numa análise assinada por Riccardo Fabiani, diretor de projeto para o Norte de África, o Crisis Group recorda que a resolução do Conselho de Segurança de outubro de 2025 reforçou o apoio internacional ao plano marroquino de autonomia, mas com uma formulação suficientemente ambígua para admitir outros desfechos. Foi essa ambiguidade que permitiu aos EUA, em articulação com o enviado da ONU, Staffan de Mistura, reunir de novo Marrocos e a Polisario, algo que não acontecia desde 2019. A Argélia e a Mauritânia participaram como observadoras.

Entre janeiro e fevereiro de 2026, realizaram-se duas rondas em Washington e uma em Madrid, copresididas pelo conselheiro norte-americano Massad Boulos, pelo embaixador dos EUA na ONU, Michael Waltz, e por Staffan De Mistura, enviado pessoal do SG da ONU para o Sahara Ocidental. Segundo o Crisis Group, o formato aberto permitiu às partes explorar aspetos práticos, como a organização de eleições e a reintegração de refugiados saharauis, sem abdicarem das posições sobre soberania e autodeterminação. Rabat chegou a alargar a proposta de autonomia, de quatro para cerca de 40 páginas, mas o documento continua por divulgar.

Do diálogo ao impasse

O processo travou quando EUA e ONU passaram a pedir à Polisario que se pronunciasse sobre o plano marroquino, com vista a negociações mais substantivas. A Frente recusou aceitá-lo como base única e insiste num referendo de autodeterminação. O Crisis Group sublinha que esta posição não deveria surpreender, já que o avanço das conversações dependeu justamente da ambiguidade sobre esta questão.

O ambiente deteriorou-se entre maio e junho:

A 5 de maio, a Polisario disparou mísseis contra Smara, em território sob controlo marroquino, ferindo um civil. EUA, França, UE e ONU condenaram o ataque.

A 7 de junho, forças marroquinas mataram Lahbib Abdelaziz, filho do histórico líder da Frente e potencial futuro dirigente. Os saharauis pró-independência queixaram-se da escassa reação internacional.

Em paralelo, o ativista Naama Asfari fez uma greve de fome de 47 dias, que terminou depois de Rabat aceitar transferi-lo para uma prisão mais próxima da família.

A troca de cartas entre Waltz e a liderança da Polisario não restabeleceu a confiança. Diplomatas ouvidos pelo Crisis Group indicam que Washington considerou a resposta da Frente evasiva.

Washington pondera alternativas à Polisario

A 30 de junho, Waltz recebeu uma delegação do Movimento Saharaui pela Paz (MSP), criado em 2020 e apresentado como alternativa moderada à Polisario. Um funcionário da embaixada dos EUA reuniu-se com o mesmo grupo a 28 de julho. Um diplomata ocidental resumiu a postura norte-americana como uma escolha entre “o caminho difícil e o mais difícil”. A Polisario respondeu que os EUA deviam ir ao terreno para ver quem representa os saharauis.

No Congresso norte-americano foram apresentados dois projetos de lei que obrigariam a classificar a Polisario como organização terrorista, devido a alegadas ligações ao Irão e ao Hezbollah. O Crisis Group considera improvável que sejam aprovados e aplicados, e nota que a administração não os apoiou, mas admite que sirvam como sinal do que pode vir a seguir.

Nem todos os responsáveis norte-americanos parecem dispostos a abandonar a Frente. Em entrevista à France 24, a 25 de setembro, Boulos disse esperar que a Polisario volte a envolver-se e elogiou a posição da Argélia. Dias depois, o ministro argelino dos Negócios Estrangeiros, Ahmed Attaf, avisou na Assembleia Geral da ONU que contornar a Polisario agravaria as tensões.

Marrocos, entretanto, tem reforçado a relação com a administração Trump. Em julho, o rei Mohamed VI anunciou que a estrada Tiznit-Dakhla passaria a chamar-se Rodovia Donald J. Trump. A 15 de setembro, Marrocos, Israel e EUA acordaram em Nova Iorque elevar o nível das relações bilaterais, com nomeação de embaixadores, e reafirmaram o apoio ao plano de autonomia. Segundo fontes marroquinas e europeias citadas pelo Crisis Group, Rabat espera que a renovação do mandato da MINURSO inclua apoio mais claro à autonomia como “única base” para a solução.

O futuro incerto da MINURSO

Em 2025, os EUA tentaram reduzir o mandato da missão para três meses, mas acabaram por aceitar doze, a par de uma revisão estratégica pelo secretário-geral da ONU. A missão já sofreu cortes: menos 23 postos civis, redução das horas de voo e um orçamento 11,5% inferior. Num debate no Senado, em abril, Waltz descreveu-a como uma missão que cumpriu o seu propósito. Diplomatas europeus admitem, segundo o Crisis Group, que Washington volte a pedir cortes profundos ou, menos provavelmente, o fim da missão.

A análise defende que a componente militar de monitorização deve ser preservada. Em 2022, Marrocos indicou que ocuparia a zona-tampão se a MINURSO saísse. Isso levaria provavelmente a Polisario a atacar a partir da Argélia ou da Mauritânia, com risco de arrastar os dois países para o conflito.

O que propõe o Crisis Group

A organização recomenda que Washington abandone a expectativa de um acordo rápido e aposte na reconstrução da confiança, com quatro medidas:

  • Retomar as visitas de familiares entre os campos de refugiados na Argélia e o território controlado por Marrocos, suspensas desde 2014.

  • Libertar, total ou parcialmente, os presos saharauis de Gdeim Izik, detidos desde os protestos de 2010, ou pelo menos aproximá-los das famílias.

  • Obter da Polisário uma trégua unilateral.

  • Organizar visitas de responsáveis norte-americanos e da ONU aos campos de Tindouf.

Propõe ainda regressar ao formato das três rondas de Washington e Madrid, deixando as questões de soberania para o fim, e que os EUA deixem de admitir a substituição da Polisario. Em alternativa, sugere uma via consultiva paralela com outros saharauís, incluindo eleitos em Marrocos, o MSP e a sociedade civil dos campos. À Polisario pede maior empenho, por exemplo com uma contraproposta inspirada no plano de James Baker de 2003, que previa cinco anos de autonomia seguidos de referendo. A Frente aceitou-o na altura e Marrocos rejeitou-o. A Rabat pede que aceite um processo longo, em vez de tratar a autonomia como facto consumado.

O Crisis Group conclui que um conflito com mais de cinco décadas dificilmente será resolvido apenas pela coerção.


Em números

  • Início do conflito, 1975, com a retirada de Espanha
  • Cessar-fogo da ONU, 1991; colapsou em 2020
  • Rondas de 2026, 3 (Washington ×2, Madrid ×1), as primeiras conversações diretas em sete anos
  • Proposta marroquina, de 4 páginas (2007) para cerca de 40
  • Cortes na MINURSO, 23 postos civis; orçamento reduzido em 11,5%
  • Fim do mandato da MINURSO, final de outubro de 2026


Fonte: Riccardo Fabiani, “The U.S. and UN Will Need More Patience to Resolve Western Sahara Conflict”, International Crisis Group, 9 de outubro de 2026 (crisisgroup.org).

Nota: O International Crisis Group é uma organização independente e sem fins lucrativos, fundada em 1995 e sediada em Bruxelas, que analisa conflitos armados e crises políticas e propõe formas de os prevenir ou resolver.