sábado, 17 de outubro de 2026

Marrocos: o jornalista que denunciava opositores tinha um pequeno defeito — não existia! Era IA...


Cartoon gerado por IA

Chamava-se Daniel Robson, era canadiano, especialista em terrorismo e cibercrime e tinha revelações comprometedoras sobre opositores da monarquia marroquina. Publicava em jornais respeitáveis e parecia ter fontes privilegiadas. Só havia um problema: o jornalista não existia. Era uma personagem fabricada com inteligência artificial.

O caso, revelado pelo jornal turco Türkiye Today e retomado pelo semanário satírico francês Le Canard enchaîné, a 14 de outubro, tem todos os ingredientes de uma história de espionagem: opositores políticos, serviços secretos, piratas informáticos, gravações suspeitas e um jornalista que, afinal, era tão verdadeiro como a sua fotografia.

Daniel Robson apresentava-se como jornalista de investigação canadiano, especializado em terrorismo, extremismo e cibercriminalidade. Durante meses, publicou artigos em vários meios de comunicação canadianos, incluindo o Ottawa Citizen, o Western Standard e a revista Open Canada. Construiu assim uma reputação profissional suficientemente convincente para ninguém se lembrar de verificar se existia.

Entre os seus alvos estavam Hicham Jerando, empresário e youtuber marroquino radicado no Canadá, conhecido pelas críticas ao rei Mohamed VI, e Mehdi Hijaouy, antigo alto responsável dos serviços de informações externos de Marrocos.

Jerando foi acusado de envolvimento numa alegada rede internacional de tráfico de droga e branqueamento de capitais, enquanto Hijaouy foi associado ao tráfico de migrantes. Como provas, Robson apresentava documentos financeiros e gravações atribuídos ao grupo de piratas informáticos marroquinos Atlas Hackers.

O problema surgiu quando o falso jornalista tentou publicar as suas revelações no Türkiye Today. A redação interessou-se pelo assunto e pediu-lhe uma entrevista por vídeo.

Foi então que Robson, até aí tão disponível para escrever sobre conspirações internacionais, revelou uma inesperada fragilidade: uma dor de dentes que, segundo explicou, o impedia de falar. Preferia continuar a comunicar por escrito.

Desconfiados, os jornalistas analisaram a fotografia do suposto colega e descobriram indícios de que tinha sido gerada artificialmente. A investigação posterior revelou uma identidade fictícia, textos produzidos ou assistidos por inteligência artificial e credenciais profissionais impossíveis de confirmar.

A descoberta levou vários órgãos de comunicação canadianos a retirar os artigos assinados por Robson. O Ottawa Citizen e a revista Policy Options reconheceram publicamente problemas na verificação da identidade do colaborador.

Um jornalista artificial e acusações muito reais

Segundo o Le Canard enchaîné, a campanha surgiu num contexto particularmente delicado para as autoridades marroquinas.

Mehdi Hijaouy, apresentado como antigo número dois dos serviços de informações externos, tinha feito revelações à imprensa sobre assuntos sensíveis da monarquia, incluindo o escândalo Pegasus, o programa de espionagem informática utilizado para vigiar personalidades estrangeiras.

Hijaouy afirmou ao semanário francês que as gravações divulgadas contra si poderiam ter sido produzidas através de tecnologias de escuta e clonagem de voz que atribui aos serviços secretos marroquinos.

A investigação levanta suspeitas sobre uma possível operação de desinformação destinada a desacreditar opositores de Rabat, mas não estabelece de forma conclusiva quem criou e dirigiu a personagem Daniel Robson.

O Morocco Mail, que retomou a investigação do semanário francês, refere ainda que alguns meios marroquinos retiraram referências ao falso jornalista depois de descoberta a fraude, sem esclarecerem aos leitores o sucedido.

No fim, Daniel Robson conseguiu aquilo com que muitos jornalistas verdadeiros apenas sonham: publicar em vários jornais, construir uma carreira internacional, dispensar honorários e nunca precisar de comparecer numa redação.

O seu único erro foi ter escolhido uma dor de dentes para justificar a ausência numa entrevista por vídeo. A inteligência artificial já consegue fabricar jornalistas, fotografias e revelações bombásticas. Mas, pelos vistos, ainda não encontrou uma desculpa suficientemente convincente para evitar uma chamada de vídeo.

E assim terminou uma carreira jornalística promissora, sem despedimento, sem indemnização e, sobretudo, sem jornalista.

Jovens ativistas dos DDHH saharauis divulgam situação no Sahara Ocidental aos universitários portugueses

 A Digressão Solidária 2026 — organizada pela Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental (AAPSO), com o apoio da Representação da Frente POLISARIO em Portugal — tem



como objetivo dar a conhecer, na primeira pessoa, o envolvimento da nova geração saharaui na luta pela autodeterminação e independência do seu país, bem como consciencializar estudantes de diversas áreas sobre a ocupação ilegal deste território.

A ativista Asma Mohamed e o jornalista Mohamed Mayara serão os convidados de várias sessões dedicadas à situação no Sahara Ocidental, que terão lugar em diversas faculdades entre os dias 20 e 26 de outubro.
Asma Mohamed nasceu e vive nos Acampamentos de população refugiada saharaui na região de Tindouf (Argélia).
Mohamed Mayara vem de El Aiun, capital do território do Sahara Ocidental, onde nasceu e vive sob a ocupação militar marroquina.
Venham conhecê-los e ouvir de viva voz as justíssimas razões e as diferentes formas de luta do povo saharaui.
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NOTA: Todas as sessões serão faladas em inglês.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Autoridade irlandesa considera enganosa publicidade da Ryanair sobre o Sahara Ocidental


Cartoon gerado por IA


A autoridade reguladora da publicidade na Irlanda considerou preliminarmente enganosa uma campanha da Ryanair que apresenta Dakhla, no Sahara Ocidental, como destino turístico marroquino, na sequência de uma queixa apresentada pela eurodeputada irlandesa Lynn Boylan.

Segundo o jornal The Irish Times, citado pelo portal Morocco Mail, a Advertising Standards Authority (ASA) concluiu, numa decisão preliminar de 12 de outubro, que a publicidade da companhia aérea poderá induzir os consumidores em erro, uma vez que Dakhla não faz parte de Marrocos.

A campanha, divulgada por correio eletrónico, promovia viagens à cidade saharaui como uma experiência turística marroquina, destacando as praias, o deserto e a cultura local.

A queixa foi apresentada por Lynn Boylan, eurodeputada do Sinn Féin, que acusou a transportadora de ignorar o estatuto internacional do território e a identidade do povo saharaui.

A autoridade irlandesa recomendou que o seu conselho independente confirme a queixa e determine que a publicidade deixe de circular nos moldes atuais. A decisão definitiva ainda está pendente.

Adiada audiência de 4 saharauis detidos em manifestação de solidariedade com os presos de Gdeim Izik

 


O tribunal de Rabat decidiu adiar a audiência dos quatro detidos que foram presos no âmbito da manifestação de solidariedade em apoio aos prisioneiros de Gdeim Izik. A audiência foi remarcada para 23 de outubro.

A equipa de defesa solicitou o adiamento para dispor de tempo para analisar e preparar o processo e os documentos relacionados, incluindo os relatórios médicos dos detidos.

Após a audiência, os quatro presos políticos saharauis foram transferidos para a prisão. São eles:


* Mohamed Lmrabet

* Brahim Babit

* Salah Eddine Sabbar

* El Houssein Chihab

Presos saharauis de Gdeim Izik terminam greve de fome após 23 dias



Os presos políticos saharauis do grupo de Gdeim Izik terminaram uma greve de fome de 23 dias, após a administração prisional marroquina se ter comprometido a responder às suas reivindicações, anunciou esta sexta-feira a Liga para a Proteção dos Presos Saharauis nas Prisões Marroquinas.

Entre as principais exigências estão o fim da dispersão dos detidos por várias prisões de Marrocos, a sua transferência para um único estabelecimento prisional no Sahara Ocidental, a melhoria das condições de detenção e o respeito pelos seus direitos fundamentais.

Em comunicado, a organização sublinha que o fim da greve de fome não significa o abandono das reivindicações e exige o cumprimento dos compromissos assumidos, incluindo assistência médica, contactos regulares com as famílias e o fim do isolamento.

A Liga denuncia ainda a proibição de visitas de Claude Mangin ao marido, Naâma Asfari, um dos presos do grupo, e recorda a intervenção das forças de segurança marroquinas numa manifestação de solidariedade realizada em Rabat, a 12 de outubro, que terá provocado feridos e detenções.

Os presos integram o grupo de Gdeim Izik, condenado na sequência dos acontecimentos relacionados com o desmantelamento, pelas forças marroquinas, de um acampamento de protesto saharaui nos arredores de El Aaiún, em 8 de novembro de 2010.

Presos de Gdeim Izik: famílias denunciam 16 anos de silêncio e pedem que o mundo olhe




O acampamento da Dignidade de Gdeim Izik teve início a 10 de outubro de 2010.
A 08 de novembro viria a ser desmantelado a ferro e fogo pelas forças de ocupação marroquinas. Foto Equipe Media


Familiares dos 19 saharauis condenados após o desmantelamento do acampamento de Gdeim Izik, em 2010, acusam Marrocos de maus-tratos e de lhes negar informação sobre os presos. Cinco continuam em greve de fome, segundo os dados que as famílias conseguiram recolher até 14 de outubro. 

Numa conferência de imprensa com meios de comunicação de vários países, a 15 de outubro, Fatma Zaoui disse não saber se o pai, Hussein Zaoui, está vivo. Passaram 14 dias sem notícias. Tinha quatro anos quando o viu em liberdade pela última vez, e tem hoje 20. 

O pai é um dos 19 condenados após a destruição do acampamento, em novembro de 2010, nos territórios ocupados do Sahara Ocidental. Um mês antes, centenas de saharaus tinham-no montado para protestar contra a falta de oportunidades. Segundo o diário Público, de Espanha, os acampados foram recebidos com violência policial e militar e detenções arbitrárias. 


A greve de fome 

A 23 de setembro, nove condenados iniciaram uma greve de fome contra os maus-tratos. As famílias indicam que, a 14 de outubro, cinco se mantinham: Hassan Dah, Sidi Abdallah Abbahah, Mohamed Bachir Boutenguiza, Ahmed Sbaai e Hussein Zaoui. Os outros quatro suspenderam o protesto por motivos de saúde, por comunicações falsas emitidas pelas prisões ou pelo agravamento das medidas contra eles, segundo os familiares. Fatma Zaoui sublinha que a suspensão não significa que as causas tenham desaparecido. 

Hassan Dah teve de interromper a greve devido ao agravamento do estado de saúde. As famílias dizem que esteve dois dias sem se saber onde estava e que foi encontrado em estado “extremamente delicado”. Segundo o próprio, foi transferido nu e maltratado. Os familiares exigem uma investigação independente. 


Condenações e pareceres da ONU 

As penas, aplicadas em 2013 por um tribunal militar e, após novo julgamento civil, em 2017, vão de 15 anos a prisão perpétua. Os condenados foram acusados de participar nos confrontos em que morreram 11 agentes marroquinos. A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch advertiram que as confissões foram obtidas sob tortura. 

Em 2023, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenções Arbitrárias considerou a detenção dos 19 arbitrária, por falta de acesso a advogado e de julgamento justo, e pediu a libertação imediata. Segundo o Público, Marrocos não respondeu e não voltou a autorizar visitas do Comité da ONU contra a Tortura nem da Cruz Vermelha Internacional às prisões. Rabat tem rejeitado ligar estas greves às condições de detenção. 

O caso de Naama Asfari, também do grupo e condenado a 30 anos, é apontado pelas famílias como exemplo. Em julho, após mais de 40 dias de greve de fome, perdeu-se o contacto com a prisão durante quase duas semanas. Cumpre pena em Kenitra. 


Familiares dos presos políticos saharauis do grupo de Gdeim Izik, durante a conferência de imprensa esta Quinta-feira. 

Famílias sob pressão 

Fatma Zaoui descreve um castigo que se estende às famílias: vigilância constante dos familiares que vivem nos territórios ocupados, dificuldades de emprego e de educação, e o caso de uma filha de outro preso que abandonou a escola devido ao bullying. Denuncia ainda a dispersão dos presos por prisões distantes e esperas de três ou quatro horas à porta, por vezes sem conseguir ver os familiares. Segundo a sua informação, uma manifestação em Rabat, a 12 de outubro, terminou com cargas policiais e detenções. 

As famílias pedem a advogados, observadores internacionais e imprensa que visitem os presos, e que o embaixador de Espanha em Marrocos se reúna com elas. “De que serve a ONU expor estas violações se os nossos familiares continuam assim?”, questiona Fatma Zaoui.