domingo, 4 de outubro de 2026

Rota Dakhla-Nuaquechote: pressão marroquina, ambiguidade mauritana e financiamento dos Emirados


Imagem gerado pot IA

Num artigo de opinião, Amar Belani, ex-embaixador argelino em vários países e organizações e agora com 73 anos de idade, analisa o acordo-quadro assinado a 21 de setembro em Rabat entre Marrocos e a Mauritânia para a reabilitação e alargamento da estrada RN4, que liga Nuaquechote a Nuadibu. Segundo o autor, embora o projeto seja apresentado como uma forma de facilitar o comércio entre as duas cidades mauritanas, o seu alcance estratégico é muito mais amplo. 


Um eixo que chega a Dakhla

Belani sublinha que o traçado não termina em Nuadibu: prolonga-se até ao PK55, em frente a Guerguerat, abrindo assim uma continuidade terrestre até Dakhla, em território saharaui ocupado — ligação que o próprio ministro marroquino do Equipamento, Nizar Baraka, já evocou publicamente. Segundo o autor, face ao projeto concorrente de corredor argelino para a África Ocidental, Rabat está a acelerar esforços para captar os futuros fluxos comerciais em direção à Mauritânia, ao Sahel e à África Ocidental, consolidando o eixo Dakhla-Guerguerat-Nuadibu-Nuaquechote como coluna vertebral terrestre da sua ambição regional.

O futuro porto de Dakhla Atlântico, com um custo estimado próximo de mil milhões de dólares e entrada em serviço prevista para 2028, deverá dar a esta estratégia o seu escoadouro marítimo, surgindo como um dos instrumentos da chamada "Iniciativa Atlântica" lançada por Rabat — oficialmente destinada a dar aos países saelianos sem litoral acesso ao Atlântico.

A posição central, e ambígua, da Mauritânia

Segundo Belani, esta iniciativa não parte de um espaço vazio: a Mauritânia já dispõe de um corredor rodoviário que liga Nuaquechote a Bamaco, com cerca de 1.350 quilómetros, ligando a fachada atlântica aos mercados malianos. O desafio para Rabat é, assim, transformar Dakhla e o eixo Dakhla-Nuaquechote no prolongamento desta profundidade comercial em direção ao Sahel.

O autor argumenta que a Mauritânia se encontra, desta forma, no centro de dois projetos de corredores concorrentes, podendo tirar partido desta posição para atrair investimento e fluxos comerciais — o que considera legítimo. No entanto, sublinha que esta centralidade coloca também à prova a reivindicação mauritana de uma "neutralidade construtiva" na questão do Sahara Ocidental, território que a ONU mantém na lista de territórios não autónomos, e cujo povo saharaui conserva o direito imprescritível à autodeterminação, segundo o direito internacional. Belani questiona até que ponto uma neutralidade "diplomática" se pode distinguir de uma integração económica crescente no dispositivo marroquino. 

O gasoduto e outros projetos convergentes

O autor identifica a mesma ambiguidade no Gasoduto Africano Atlântico Nigéria-Marrocos, projeto que envolve também a Mauritânia, que deve concluir com Marrocos os acordos necessários à sua concretização — com a ONHYM (Office National des Hydrocarbures et des Mines) a já ter realizado estudos offshore ao largo de Dakhla. Segundo Belani, estrada, porto e gasoduto desenham progressivamente a mesma lógica: fazer de Dakhla uma cabeça de ponte económica para a África Ocidental e o Sahel, com a Mauritânia como território de passagem incontornável.

O papel dos Emirados Árabes Unidos

Belani identifica um terceiro ator relevante: os Emirados Árabes Unidos, que — segundo refere, remetendo para um artigo anterior seu — estariam plenamente empenhados numa operação de apoio à estratégia marroquina de penetração na África Ocidental e no Sahel, procurando simultaneamente afastar a Mauritânia da Argélia e aproximá-la da órbita dos países aderentes aos Acordos de Abraão.

Segundo o autor, os Emirados estão implantados na Mauritânia há muito tempo, tendo já anunciado em 2020 dois mil milhões de dólares para projetos de investimento e desenvolvimento, associados a um empréstimo concessional, com o Fundo de Abu Dhabi para o Desenvolvimento a financiar várias infraestruturas rodoviárias no país. Belani sustenta que Abu Dhabi joga paralelamente a sua própria partida, que se cruza largamente com os interesses marroquinos: consolidar a sua influência sobre portos, corredores comerciais e cadeias logísticas africanas, através de operadores como a AD Ports Group e a DP World, que formam, segundo o autor, os dois braços armados desta projeção emiratina entre concessões portuárias, investimentos e corredores comerciais que ligam o Golfo aos mercados africanos.

Uma batalha mais ampla

Belani conclui que a Mauritânia se encontra assim no cruzamento de duas estratégias: um corredor de passagem para a ambição marroquina em direção à África Ocidental, e um espaço de expansão para a estratégia portuária e logística emiratina. Segundo o autor, por detrás da estrada Dakhla-Nuadibu-Nuaquechote joga-se uma batalha mais ampla em torno dos corredores, dos portos, da energia e do controlo dos futuros fluxos entre o Magrebe, o Sahel e a África Ocidental — uma dinâmica que, conclui, se desenrola infelizmente em detrimento do povo saharaui.

Documentário sobre ativista saharaui Nakhla Mohamed Lamin é destaque no Festival de Cinema de Zurique



O documentário "Minha Casa de Vento e Areia" acompanha a ativista Nakhla Mohamed Lamin ao longo de dez anos de luta pelos direitos do povo do Sahara Ocidental. Através do registo da sua resistência pacífica, o filme traça um retrato íntimo de um povo frequentemente ignorado pela comunidade internacional. 


A entrevista 

No âmbito da estreia, o realizador Patrick Wally e Nakhla Mohamed Lamin participaram numa entrevista frente a frente, na qual abordam a injustiça no Sul Global, as suas ligações à Europa e o papel que a esperança e o próprio filme desempenham na luta por mudança. 


Equipa de produção 

A direção e edição da entrevista são da autoria de Jon Trachsel, com câmara e som a cargo de Aaron Hautle, Joelle Junker, Leila Sekandari e Lena Hohl. 


Festival de Cinema de Zurique 

O conteúdo foi produzido no âmbito do Festival de Cinema de Zurique (ZFF), evento anual que exibe cerca de 100 filmes selecionados ao longo de onze dias, incluindo estreias mundiais e europeias. Por decorrer no outono, o festival tem a particularidade de antecipar frequentemente filmes que, meses depois, veem a ser distinguidos nos Óscares. 

A peça integra o projeto "ZFF Insight", desenvolvido pela área de estudos de Mídia Audiovisual da Universidade de Artes de Zurique. Sob a orientação de Nadia Holdener, Alun Meyerhans, Naomi Erlich e Adrian Graf, alunos do 3.º e 5.º semestres produzem conteúdos audiovisuais aplicando conhecimentos de animação, edição, filmagem e redes sociais adquiridos ao longo do curso. 

sábado, 3 de outubro de 2026

A guerra no Sahara Ocidental em agosto e setembro



Durante agosto e setembro de 2026, o Exército de Libertação do Povo Saharaui (ELPS) anunciou uma série de ataques contra posições das forças marroquinas ao longo do muro militar que atravessa o Sahara Ocidental. As operações incidiram sobretudo nos setores de Mahbes, mas também em Amgala, Smara, Um Dreiga, Tichla e Hauza.

Os confrontos de baixa intensidade prosseguem desde novembro de 2020, quando entrou em colapso o cessar-fogo estabelecido em 1991 entre Marrocos e a Frente Polisário sob os auspícios das Nações Unidas. A ONU continua a considerar que o cessar-fogo foi quebrado em 2020 e que se mantêm hostilidades de baixa intensidade no território.

O acordo de 1991 estava associado a um plano de resolução que previa um referendo no qual a população do Sahara Ocidental escolheria entre independência e integração em Marrocos. Foi nesse contexto que nasceu a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), Referendo que nunca se chegou a realizar. 

As operações militares concentram-se sobretudo junto do chamado muro de areia, sistema defensivo construído por Marrocos durante a guerra. Segundo dados das Nações Unidas, a estrutura tem cerca de 2.700 quilómetros, dos quais aproximadamente 1.465 dividem diretamente o território em duas partes, estando as zonas adjacentes fortemente contaminadas por minas e outros engenhos explosivos.

A oeste do muro encontra-se a maior parte do território controlado por Marrocos, incluindo cidades como El Aaiún, Smara e Dakhla e a costa atlântica. A leste situam-se as áreas controladas pela Frente Polisário.


Operações em agosto

Segundo os comunicados militares divulgados pelo ELPS, a 31 de julho/1 de agosto foram bombardeadas posições marroquinas nas zonas de Amigli Lghalia e Amigli Dachra, no setor de Amgala.

Em 5 de agosto, o ELPS anunciou um ataque contra um posto de apoio das forças marroquinas em Wein Tirguet, no setor de Smara.

Nos dias 8 e 9 de agosto, as operações concentraram-se no setor de Mahbes. O ELPS afirmou ter atingido posições de retaguarda e, no dia seguinte, bases militares na região de Laagad.

A mesma área voltou a ser alvo de ataques em 19 e 20 de agosto, com bombardeamentos contra posições em Russ Sabti e Grarat Alfarsik, igualmente no setor de Mahbes.


Operações em setembro

Em 2 de setembro, o ELPS anunciou ataques contra várias posições marroquinas na região sul do Sahara Ocidental, nos setores de Um Dreiga e Tichla, incluindo bombardeamentos na região de Galb Adlim.

No dia 3 de setembro, segundo novo comunicado militar saharaui divulgado no dia seguinte, unidades do ELPS voltaram a atacar posições no setor de Um Dreiga, na região sul de Rio de Ouro.

Em 9 de setembro, as operações regressaram a Mahbes, com bombardeamentos contra bases e posições marroquinas na região de Laagad.

Por fim, em 12 de setembro, o ELPS anunciou um ataque contra concentrações das forças marroquinas em Agajdal Dirit, no setor de Hauza, no norte do território ocupado.