sexta-feira, 10 de julho de 2026

Mil milhões de euros num estádio para a final do Mundial 2030, enquanto 6 milhões de marroquinos vivem no limiar da pobreza absoluta...




Enquanto Marrocos trava uma intensa batalha diplomática para garantir a final do Mundial 2030 no Grande Estádio Hassan II, em Casablanca, os números por trás desse projeto — orçado em cerca de mil milhões de euros — levantam uma questão incómoda: o que significa este investimento à luz da realidade social do país?


Um estádio, mil milhões de euros

O Grande Estádio Hassan II de Casablanca, atualmente em construção e com finalização prevista para dezembro de 2027, terá um custo global estimado em cerca de mil milhões de euros, segundo responsáveis do projeto. Esta cifra inclui não apenas o estádio com capacidade para 115 mil espetadores, mas todo o complexo desportivo envolvente, com cerca de 150 hectares, incluindo cobertura, paisagismo e infraestruturas circundantes. Trata-se de um valor muito acima da estimativa inicial de 5.000 milhões de dirhams (cerca de 478 milhões de euros) anunciada quando o projeto foi lançado.


Face aos salários dos marroquinos

Em Marrocos, o salário mínimo interprofissional (SMIG), atualizado desde janeiro de 2026, situa-se em 17,92 dirhams por hora, o equivalente a cerca de 3.429 dirhams brutos por mês — pouco mais de 320 euros. No setor agrícola, a situação é ainda mais modesta: o salário mínimo diário (SMAG) foi fixado em 97,44 dirhams a partir de abril de 2026, o que equivale a pouco mais de 235 euros mensais.

Feitas as contas, o valor gasto no estádio equivaleria a pagar o salário mínimo mensal a mais de três milhões de trabalhadores marroquinos durante um mês inteiro — ou a financiar o salário mínimo anual de cerca de 260 mil pessoas.


Face à pobreza — e à vulnerabilidade

O limiar oficial de pobreza em Marrocos, definido pelo Haut-Commissariat au Plan (HCP), é extremamente baixo: uma pessoa é considerada pobre se gastar menos de cerca de 389 dirhams por mês em meio urbano, ou 359 dirhams por mês em meio rural — o equivalente a pouco mais de um euro por dia. Segundo o inquérito nacional mais recente do HCP (2022), 3,9% da população marroquina — cerca de 1,42 milhões de pessoas — vive abaixo desse limiar, um número que mais do que duplicou face aos 623 mil registados em 2019, num agravamento atribuído aos efeitos combinados da pandemia e da inflação.

Mas o retrato mais chocante está na "vulnerabilidade à pobreza", um indicador definido pelo Banco Mundial e adotado pelo HCP para medir quem, não sendo pobre, vive perigosamente perto desse limiar — ou seja, agregados familiares cuja despesa por pessoa se situa entre o limiar de pobreza e 1,5 vezes esse valor (entre cerca de 389 e 583 dirhams/mês em meio urbano). Em 2022, a taxa de vulnerabilidade em Marrocos era de 12,9% da população — cerca de 4,75 milhões de pessoas, quase o dobro dos 2,6 milhões registados em 2019. Somando pobres e vulneráveis, quase 17% da população marroquina — mais de 6 milhões de pessoas — vive hoje na pobreza ou a um único choque económico de cair nela.

O valor do estádio, dividido por essas 6 milhões de pessoas em situação de pobreza ou vulnerabilidade, equivaleria a cerca de 165 euros por pessoa — praticamente meio ano de rendimento ao nível do limiar de pobreza rural.


Imagem do interior do futuro Estádio Hassan II, em Casablanca


O próprio governo marroquino lançou recentemente um programa de apoio social dirigido a quatro milhões de agregados familiares, incluindo a revalorização de ajudas mensais para os primeiros três filhos e apoio a órfãos e crianças acolhidas em centros de proteção social.



Face à saúde e à educação

O contraste entre o investimento em infraestruturas desportivas de prestígio e o estado dos serviços públicos básicos não passou despercebido dentro do próprio Marrocos. Nas últimas semanas de 2025, protestos liderados por jovens espalharam-se pelo país, revelando profunda indignação com a pobreza e a qualidade dos serviços públicos, em contraste com projetos de infraestrutura ambiciosos e estádios modernos inaugurados tendo em vista a Copa do Mundo de 2030. A própria ministra das Finanças, Nadia Fettah Alaoui, reconheceu que os jovens manifestantes pediam "melhor educação e saúde", admitindo que o governo destina "pouco menos de 9% do PIB" a essas duas áreas combinadas.

Estes protestos, protagonizados pela chamada "Geração Z" marroquina, tiveram consequências duras: mais de 400 pessoas foram detidas no contexto das manifestações, incluindo 17 acusados em Agadir recentemente condenados a penas que, somadas, totalizam 162 anos de prisão. Os manifestantes reclamavam ainda a demissão do primeiro-ministro Aziz Akhannouch, a quem acusam de corrupção e de negligenciar as necessidades básicas da população.



Uma desproporção que salta à vista

Para colocar o valor em perspetiva adicional: Espanha, através da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), doou recentemente cerca de 228 mil euros para reforçar a medicina familiar em Marrocos. O custo do único Estádio Hassan II equivale a mais de 4.300 vezes esse valor — para um projeto que, ao contrário de um sistema de saúde, servirá sobretudo para acolher partidos de futebol e, com sorte, uma única final de Mundial em 2030.

Falávamos de um único estádio, mas a preparação de Marrocos para o Campeonato do Mundo de Futebol de 2030 poderá representar um investimento global superior a 14,9 mil milhões de euros, segundo estimativas de analistas, muito acima dos cerca de 5 mil milhões de euros apontados oficialmente por fontes marroquinas para os custos diretamente associados ao torneio.

O contraste ilustra a tensão que atravessa o Marrocos de hoje: um país que investe milhões numa candidatura desportiva de prestígio internacional, ao mesmo tempo que enfrenta contestação popular crescente sobre as prioridades do seu próprio investimento público. 

A Cadena SER confirma que Marrocos está a fazer forte lobby pela final do Mundial 2030


Estadio Hassán II de Casablanca, em Marrocos, para el Mundial 2030/Populous


A Cadena SER, uma das principais rádios espanholas, veio reforçar as informações já avançadas nos últimos dias por outros órgãos de comunicação social — incluindo a COPE e o The Objective — de que Marrocos está a desenvolver uma intensa campanha de influência junto da FIFA para garantir que a final do Mundial 2030 se dispute em Casablanca, e não em Espanha.

Segundo estas fontes, a preocupação na Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) já não é hipotética: existe um receio crescente, baseado em informação contrastada, de que a final acabe por se realizar em Marrocos devido a pressões externas. O principal impulsionador dessa manobra seria o próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que estaria a pressionar de forma clara para que Marrocos seja a sede escolhida, por considerar o país um "parceiro" estratégico dos EUA — uma relação que remonta aos Acordos de Abraão de 2020, quando Washington reconheceu a soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental em troca do reconhecimento de Israel por parte de Rabat.

O Mundial 2030 nasceu de uma candidatura conjunta entre Espanha e Portugal, oficializada em 2021, à qual Marrocos se juntou mais tarde, em 2023. Até há pouco tempo, dava-se como praticamente garantido que a final seria disputada no renovado Santiago Bernabéu, tornando-o no terceiro estádio do mundo a acolher duas finais de um Mundial, a par do Maracanã e do Estádio Azteca. Esse cenário está agora em xeque. 

O estádio Hassan II, em construção perto de Casablanca, é apresentado como o grande trunfo marroquino: terá capacidade para 115 mil espetadores, tornando-se o maior estádio de futebol do mundo, e é o símbolo maior da ambição de Marrocos em projetar-se globalmente — reforçada pelo bom momento da própria seleção nacional, atual campeã africana que conseguiu chegar aos quartos de final do Mundial 2026.

Perante este cenário, o presidente da RFEF, Rafael Louzán, tem reiterado publicamente confiança em que a final se realize em território espanhol, defendendo que Espanha reúne todas as condições organizativas para o efeito. Mas, segundo as informações citadas pela Cadena SER, essa confiança pública contrasta com um pessimismo crescente nos bastidores da federação, onde a perda da final para Marrocos é já vista como um cenário cada vez mais provável.



Um estádio com custo obsceno!

Segundo os dados mais recentes (maio de 2026), o Grande Estádio Hassan II de Casablanca terá um custo global estimado em cerca de 1.000 milhões de euros, valor confirmado por Yassir Soussi, diretor-geral adjunto da Agência Nacional de Equipamentos Públicos (ANEP), o organismo responsável pela obra.

Este montante inclui não apenas o estádio em si — com capacidade prevista para 115 mil espetadores, o que o tornará o maior do mundo —, mas todo o complexo desportivo envolvente, com cerca de 150 hectares, incluindo a cobertura, o paisagismo e as infraestruturas circundantes. 

Vale notar que os valores oficiais iniciais eram bem mais baixos: o orçamento original rondava os 5.000 milhões de dirhams (cerca de 478 milhões de euros), e um concurso de 2025 para a fase estrutural da obra tinha um valor de 3.200 milhões de dirhams (cerca de 304 milhões de euros). O valor de mil milhões de euros divulgado agora reflete o custo total do projeto, já com o complexo envolvente incluído — uma escalada significativa face às estimativas iniciais.

A construção está a decorrer no bosque de Mansouria, perto de Benslimane, cerca de 38 km a norte de Casablanca, com conclusão prevista para dezembro de 2027.

Marrocos à beira de garantir a final do Mundial 2030 em Casablanca, à frente de Espanha



Marrocos está a desenvolver uma ofensiva diplomática para arrebatar a Espanha a organização da final do Mundial de 2030, segundo revela uma investigação do jornal espanhol The Objective, citada pelo Mundo Deportivo. O objetivo de Rabat é levar o jogo decisivo para o novo estádio Hassan II, em Casablanca, em vez do favorito Santiago Bernabéu, em Madrid.

A operação, encomendada pelo rei Mohamed VI, está a ser conduzida por dois nomes: o embaixador marroquino nos Estados Unidos, Youssef Amrani, e o presidente da Federação Marroquina de Futebol, Fouzi Lekjaa — este último também ministro delegado para o orçamento no governo de Aziz Akhannouch e próximo do presidente da FIFA, Gianni Infantino. Segundo as fontes citadas, Marrocos já garantiu o apoio das confederações de África, Ásia, América do Norte e Oceânia, contando ainda com a influência da administração de Donald Trump, do Qatar e da Arábia Saudita.

De acordo com estas informações, Rabat estaria já a contar com 22 dos 37 votos do Conselho da FIFA — acima da maioria necessária —, deixando a Federação Espanhola de Futebol numa posição de crescente pessimismo. Os Estados Unidos controlam a Concacaf, a confederação norte-americana, e apoiam abertamente a candidatura marroquina; a Confederação Africana de Futebol tem historicamente respaldado as pretensões de Marrocos, onde Lekjaa detém grande peso institucional; e a componente árabe da Confederação Asiática também estaria alinhada com Rabat. A esperança espanhola reside sobretudo no bloco europeu e nos votos sul-americanos da Conmebol, mas há já receio de que alguns desses apoios não sejam tão sólidos quanto se pensava. 

O estádio Hassan II, ainda em construção, é apresentado como uma das maiores apostas de Marrocos, com capacidade projetada para mais de 100 mil espetadores. A candidatura marroquina surge também sustentada pelo crescimento desportivo da seleção nacional, que alcançou as meias-finais do Mundial do Qatar 2022 — a melhor participação de sempre de uma seleção africana — e voltou a chegar aos quartos de final na atual edição do torneio, sinal de que aquele sucesso não foi pontual.

A decisão final sobre a sede da final ainda não foi tomada pela FIFA, sendo esperada para o final deste ano. O presidente da Federação Espanhola, Rafael Louzán, tem reiterado publicamente que está a trabalhar para que a final se realize em Espanha, confiando na experiência organizativa do país. Do lado marroquino, o argumento assenta na possibilidade histórica de a final de um Mundial se realizar pela primeira vez em território africano, um feito de forte valor simbólico e com impacto económico e turístico significativo para o país. Embora o artigo não o refira, resta saber quantos milhões de dólares ou de euros estão por detrás desta iniciativa político-diplomático-desportiva do regime alauita. Mas também nesta matéria de «influência», o Reino de Marrocos goza de uma longa e vasta experiência...