domingo, 7 de junho de 2026

Drones, haxixe e cocaína: Marrocos, um narco-Estado à porta da Europa





A operação policial espanhola revelada esta semana — uma rede desmantelada entre Marrocos, Algeciras, o País Basco e a França, utilizando drones capazes de atravessar o estreito de Gibraltar carregados com vinte quilos de estupefacientes — não é um fenómeno isolado. É a expressão mais recente de uma realidade estrutural que os relatórios internacionais documentam há décadas e que as autoridades espanholas denunciam cada vez mais abertamente: Marrocos é o principal fornecedor de droga da Europa, e as suas redes deixaram há muito de se limitar ao cannabis. (Ver notícias no Infobae e El Pais)

Os números são inequívocos. Com 50.000 hectares no vale do Rife e 3.000 toneladas por ano, Marrocos é o maior produtor e exportador mundial de cannabis. Segundo o UNODC, a maioria do cannabis marroquino destinado à Europa é primeiro enviado para Espanha — principal país de trânsito — antes de ser distribuído pelos restantes países europeus. O relatório "EU Drug Market 2025" da Agência da União Europeia para as Drogas regista a apreensão de 551 toneladas de resina de cannabis ao longo dos últimos anos, em mais de 265.000 operações, sendo o cannabis marroquino a maior fatia das drogas interceptadas.

O que mudou é a escala e a natureza do tráfico. As redes do haxixe do Rife serviram de base para uma diversificação em direção à cocaína latino-americana. Os circuitos intercontinentais desenvolveram um sistema de troca direta — um quilo de haxixe por um quilo de cocaína —, um acordo considerado economicamente mais vantajoso do que os pagamentos em dinheiro, que aumenta significativamente o poder de compra das organizações criminosas. A Mocro Maffia, nascida deste comércio nos anos 1990, opera principalmente a partir da Bélgica e dos Países Baixos e controla atualmente um terço do mercado europeu de cocaína.

O porto de Tanger Med desempenha um papel central nesta engrenagem: com mais de 10 milhões de contentores TEU movimentados em 2024 — uma subida de 18,8% num ano —, tornou-se o primeiro porto do Mediterrâneo, ultrapassando Algeciras. A sua posição no estreito de Gibraltar permite-lhe receber fluxos de mercadorias provenientes de todas as regiões do mundo, que se fragmentam depois em fluxos secundários difíceis de rastrear. Um paraíso logístico para os cartéis.

O que distingue o caso marroquino de outros países produtores é a questão da cumplicidade institucional — que já não é evocada apenas por fontes militantes. Meios de comunicação espanhóis, retomando as conclusões de uma investigação da Guarda Civil, relataram que membros da marinha marroquina colaboraram com traficantes de droga para introduzir fardos de haxixe em Espanha, com um patrulheiro da marinha real a servir de navio-mãe para lanchas rápidas envolvidas no tráfico. Um comandante da Guarda Civil com décadas de combate ao narcotráfico declarou: "Quando Marrocos fez uma limpeza e deteve 30 polícias corruptos em Nador, os barcos receberam ordens para mudar o local de recolha da droga" — confirmando, segundo ele, "a capacidade do tráfico de droga para penetrar em todo o território marroquino e infiltrar as instituições".

O relatório Global Organized Crime Index 2025 constata igualmente que o crime organizado ganha terreno em Marrocos, com um crescimento particular nas atividades ligadas ao tráfico de droga, cujo impacto ultrapassa as fronteiras do país.

A operação espanhola desta semana — drones de quatro motores, esconderijos sofisticados em viaturas banalizadas, 40 quilos de cannabis e dois quilos de cocaína apreendidos — não é uma vitória sobre um fenómeno em vias de ser controlado. É um golpe numa das ramificações de um sistema cujas raízes mergulham muito mais fundo, e cujos tentáculos tocam já tanto as instituições marroquinas como os mercados de consumo de toda a Europa Ocidental.

Fonte: Maghreb Online

A Guerra no Sahara Ocidental: operações militares do ELPS em abril e maio de 2026


efetivos do ELPS em parada


O conflito no Sahara Ocidental opõe o Exército Popular de Libertação Saharaui (ELPS), braço armado da Frente Polisario, às forças armadas de Marrocos, que controla a maior parte do território desde 1975. Separados pelo chamado "Muro da Vergonha" — uma barreira militar de mais de 2.700 quilómetros —, os dois lados travam desde novembro de 2020 uma guerra de desgaste que a comunidade internacional observa com crescente preocupação, sem que qualquer processo de paz tenha avançado de forma significativa. As informações que se seguem têm como fonte os comunicados oficiais do Ministério da Defesa Nacional saharaui e da Direção Central do Comissariado Político do ELPS, não tendo sido possível obter confirmação independente dos factos relatados.

O ELPS intensificou as suas operações militares ao longo dos meses de abril e maio de 2026, com ataques declarados a posições marroquinas em vários setores do Sahara Ocidental e, em pelo menos um caso, no interior do território internacionalmente reconhecido como marroquino.


Abril: ofensiva concentrada no setor de Mahbes

O mês de abril ficou marcado por uma sequência de ataques de artilharia e operações especiais, com particular incidência no setor de Mahbes, no nordeste do Sahara Ocidental.

A 5 de abril, o ELPS anunciou um primeiro ataque a postos militares marroquinos em Mahbes, com baixas declaradas nas fileiras inimigas. No dia seguinte, 6 de abril, unidades especiais saharuisa realizaram um bombardeamento concentrado contra bases e entrincheiramentos na região de Al-Ariya, no mesmo setor.

A 12 de abril, o alto comando saharaui anunciou um ataque na zona de Emheibes Lamsamir, no setor de Touizgui, província de Assa-Zag — uma localização que se situa no interior das fronteiras internacionalmente reconhecidas de Marrocos, representando uma escalada geográfica significativa nas operações.

A 14 de abril, o Ministério da Defesa saharaui anunciou uma operação especial de comandos na zona de Guelb Adlim, no setor de Tichla, na região do Rio de Ouro, no extremo sul do Sahara Ocidental. O objetivo declarado foi um sistema fixo de vigilância e reconhecimento do Exército Real Marroquino utilizado para deteção precoce, descrito como destruído "com precisão e eficácia".

A 16 de abril, unidades do ELPS atacaram posições de artilharia marroquinas na região de Lagteitra, no setor de Hauza, no norte-nordeste do território. A 19 de abril, novo ataque em Mahbes, na zona de Udeiy Damran. A 26 de abril, o comunicado militar relatou dois ataques simultâneos no mesmo setor: um na zona de Amheibis Al-Ramth e outro, no dia anterior, contra posições de artilharia em Tanushad.




Maio: foco desloca-se para Smara e Guelta

Em maio, a atividade militar deslocou-se para os setores de Smara e Guelta, no norte e o centro do território, respectivamente.

A 5 de maio, o ELPS realizou um bombardeamento concentrado contra várias bases de retaguarda marroquinas nos arredores da terceira maior cidade saharaui ocupada de Smara, descrito como parte da estratégia de "guerra de desgaste" ao longo do muro militar.

A 22 de maio, a artilharia saharaui bombardeou bases e concentrações de tropas marroquinas de ocupação na zona de Gueililat, no setor de Guelta, com baixas declaradas. Quatro dias depois, a 26 de maio, novo ataque concentrado no mesmo setor, desta vez na região de Ichrik Tawarta, sector de Guelta, com perdas materiais e humanas reportadas pelo ELPS.


Os comunicados militares saharauis não incluem números concretos de baixas nem detalhes sobre o armamento utilizado. Marrocos não comentou publicamente a maioria destas operações. O conflito mantém-se fora do radar mediático internacional, não obstante a sua persistência e a ausência de qualquer perspetiva de resolução política no horizonte imediato.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Frente Polisario mantém abertura negocial, mas insiste no direito dos saharauis à autodeterminação

Mohamed Yeslem Beissat, ministro dos Negócios Estrangeiros
da República Árabe Saharaui Democrática (RASD)


Em entrevista ao Expresso, o chefe da diplomacia da  República Árabe Saharaui Democrática diz que as negociações mediadas pelos Estados Unidos e pela ONU prosseguem, embora acuse Marrocos de manter uma postura contraditória.


A Frente Polisário garante que continua disponível para negociar todas as soluções possíveis para o conflito do Sahara Ocidental, mas defende que a decisão final sobre o futuro do território deve caber ao povo saharaui através de um processo de autodeterminação. A posição foi expressa por Mohamed Yeslem Beissat, ministro dos Negócios Estrangei-ros da autoproclamada República Árabe Sarauí Democrática (RASD), numa entrevista ao Expresso.

Segundo o responsável saharaui, o processo diplomático impulsionado este ano pelos Estados Unidos e pelas Nações Unidas continua activo, apesar da discrição que tem marcado as conversações. Desde fevereiro realizaram-se encontros em Washington e Madrid entre representantes da Frente Polisario e de Marrocos, com mediação norte-americana e acompanhamento das Nações Unidas através do enviado pessoal do SG da ONU para o Sahara Ociden-tal Staffan de Mistura.

Beissat considera que o envolvimento directo da administração norte-americana constitui um desenvolvimento inédito no dossier do Sahara Ocidental e acredita que as negociações geraram um novo impulso político. Ainda assim, acusa Marrocos de ter endurecido posições após o apoio manifestado por países como Estados Unidos, França e Espanha à proposta marroquina de autonomia para o território.

O dirigente saharaui afirma que a Frente Polisario apresentou nas negociações uma proposta própria para uma solução política e para a estabilidade regional, rejeitando a ideia de que apenas o plano marroquino esteja em discussão. Segundo explicou ao Expresso, a Polisario aceita discutir diferentes cenários, incluindo soluções alternativas, desde que seja preservado o direito dos saharauis a escolher livremente o seu futuro.

Na entrevista, Beissat mostra-se particularmente crítico em relação à evolução da proposta marroquina. Na sua perspetiva, o plano atualmente defendido por Rabat representa um recuo face à proposta apresentada em 2007, que incluía referências explícitas ao povo saharaui, à Frente Polisario e à possibilidade de uma consulta popular.


Polisario aceita discutir diferentes cenários, incluindo soluções alternativas, desde que seja preservado o direito dos saharauis a escolher livremente o seu futuro.


Outro dos temas centrais da entrevista foi a recente iniciativa de alguns senadores norte-americanos para avaliar uma eventual classificação da Frente Polisario como organização terrorista. O negociador saharaui rejeita categoricamente essa hipótese, considerando-a resultado da ação de grupos de pressão próximos de Marrocos. Beissat acusa Rabat de manter uma atitude contraditória, negociando formalmente com a Polisario enquanto, alegadamente, promove campanhas para enfraquecer a sua legitimidade política em Washington. 

A situação militar no terreno continua igualmente a marcar o processo. O responsável recorda que a Frente Polisario considera terminado o cessar-fogo estabelecido em 1991, após os acontecimentos de novembro de 2020, e afirma que existe atualmente um estado de guerra entre as duas partes. Questionado sobre o recente ataque a Smara reivindicado pela PolisarioBeissat justificou a ação no contexto do conflito armado em curso, acusando Marrocos de realizar ataques com drones contra civis e de manter uma ocupação ilegal do território.

Apesar da continuação das hostilidades, o dirigente saharaui insiste que a solução para o conflito só poderá ser alcançada através do diálogo político. Embora admita não confiar nas intenções de Marrocos, considera que não existe alternativa às negociações.

Ao longo da entrevista ao ExpressoBeissat reservou críticas particularmente duras para França e Espanha, países que abandonaram o apoio explícito ao referendo de autodeterminação e passaram a apoiar a proposta marroquina de autonomia. Na sua leitura, estas mudanças contribuíram para reforçar a intransigência de Rabat e dificultar a procura de uma solução negociada.

O dirigente saharaui conclui, contudo, que a Frente Polisario continuará a cooperar com as Nações Unidas e com os Estados Unidos, na expectativa de que o atual processo diplomático possa conduzir a uma solução política mutuamente aceitável para o conflito, que se prolonga há mais de cinco décadas.


Fonte: Entrevista de Mohamed Yeslem Beissat ao EXPRESSOpublicada em 4 de junho de 2026 pela jornalista Salomé Fernandes.