A rivalidade militar entre Marrocos e Argélia tem vindo a intensificar-se, mas dificilmente evoluirá para um conflito aberto, defende Akram Kharief, diretor do portal especializado MENA Defense, numa entrevista ao jornal espanhol El Independiente.
Segundo o analista, os dois países seguem doutrinas militares distintas e não comparáveis. A Argélia aposta numa estratégia defensiva de dissuasão, preparada para enfrentar uma eventual coligação internacional, com forte investimento em sistemas antiaéreos e capacidade de resposta rápida. Já Marrocos tem vindo a transformar a sua doutrina numa lógica mais ofensiva, com foco no controlo territorial e possível expansão, incluindo no Sahara Ocidental.
Apesar da escalada armamentista, Kharief considera improvável uma guerra direta, sublinhando que ambos os países têm consciência dos elevados custos humanos e materiais de um conflito. A Argélia teria capacidade para infligir danos rápidos a infraestruturas críticas marroquinas, enquanto Marrocos poderia resistir a uma ofensiva terrestre, resultando num cenário de perdas significativas para ambos.
Fragilidades militares e dependências
O especialista aponta fragilidades nos dois lados. A Argélia enfrenta limitações logísticas devido à dimensão do território e à dependência de equipamento russo, enquanto Marrocos apresenta vulnerabilidades mais críticas, como falta de reservas de combustível, munições e meios de defesa aérea, o que compromete a sua capacidade de sustentar um conflito prolongado.
Espanha fora do radar argelino, mas alvo potencial de Marrocos
Um dos pontos mais sensíveis da análise prende-se com o papel de Espanha. Kharief afirma que a Argélia não considera Espanha uma ameaça, mantendo inclusive relações no domínio industrial e militar. Em contraste, sustenta que Marrocos tem vindo a preparar-se, tanto política como militarmente, com foco nos territórios espanhóis próximos, como Ceuta e Melilla.
O analista vai mais longe ao considerar que, em caso de tensão, os Estados Unidos tenderiam a apoiar Marrocos, num alinhamento que descreve como “bipartidário” e estrutural na política externa norte-americana.
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| O entrevistado, Akram Kharief |
Cooperação com Israel e escolhas estratégicas
Kharief critica ainda a crescente cooperação militar entre Marrocos e Israel, considerando que resulta sobretudo de motivações políticas e não de vantagens tecnológicas ou operacionais, defendendo que Rabat teria alternativas mais eficazes junto de parceiros tradicionais como França ou Estados Unidos.
Equilíbrio instável no Magrebe
No conjunto, a entrevista traça um cenário de equilíbrio tenso, mas controlado, no Norte de África, marcado por corrida ao armamento, divergências estratégicas profundas e uma crescente dimensão geopolítica que envolve potências externas.
Embora a guerra direta seja considerada improvável, o analista alerta para riscos de escalada indireta e para o impacto potencial das dinâmicas regionais nas relações com países europeus, em particular Espanha.







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