Novas revelações sobre a alegada utilização do programa espião Pegasus pelos serviços de informação marroquinos voltaram a colocar sob pressão a relação entre Paris e Rabat, numa altura em que o Governo francês reafirma o seu apoio à posição de Marrocos sobre o Sahara Ocidental.
Segundo um artigo de Ali Attar, publicado a 17 de julho de 2026, no AFRIK.COM as novas informações foram divulgadas pela organização Forbidden Stories e por um consórcio de 14 órgãos de comunicação internacionais. A investigação sustenta que o Pegasus terá sido utilizado pelos serviços marroquinos contra jornalistas, opositores, defensores dos direitos humanos e responsáveis políticos estrangeiros.
Entre os alegados alvos encontra-se o atual primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, que, precisamente no dia anterior à publicação da investigação, reafirmou em Rabat o apoio “inabalável” de França à soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental.
A investigação baseia-se no testemunho de um antigo agente da Direção-Geral da Vigilância do Território de Marrocos, identificado pelo pseudónimo “Safir”, em documentação de um processo judicial nos Estados Unidos, em dados técnicos e em relatórios dos serviços secretos franceses. Outros dois antigos agentes marroquinos terão confirmado parte das informações.
Documentos internos da empresa israelita NSO Group, criadora do Pegasus, fazem ainda referência a um cliente com o nome de código “Morgan”, que várias fontes da empresa associam a Marrocos. As autoridades marroquinas e a NSO Group não responderam aos pedidos de esclarecimento do consórcio jornalístico.
Sete telemóveis de governantes franceses com sinais de intrusão
O caso assume particular gravidade em França. Em 2021, o número de Emmanuel Macron e os de 15 membros do Governo francês surgiram numa lista de potenciais alvos atribuída ao operador marroquino do Pegasus.
Embora os resultados da análise ao telemóvel do Presidente francês nunca tenham sido tornados públicos, a Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação francesa terá identificado “vestígios de comprometimento” em sete equipamentos pertencentes a ministros ou antigos ministros.
Entre os governantes referidos encontram-se Florence Parly, Jean-Michel Blanquer, François de Rugy e Sébastien Lecornu. Os indicadores técnicos detetados seriam semelhantes aos encontrados nos aparelhos de jornalistas e opositores alegadamente vigiados pelos serviços marroquinos.
O artigo sublinha, contudo, que não existem provas públicas de que Emmanuel Macron tenha sido alvo de chantagem ou de que Marrocos tenha obtido e utilizado informações comprometedoras. Ainda assim, a suspeita de espionagem levanta dúvidas políticas sobre as decisões posteriormente tomadas por Paris em benefício de Rabat.
Justiça francesa sem cooperação de Marrocos
A investigação judicial aberta em Paris em 2021 continua, segundo o artigo, condicionada pela falta de cooperação das autoridades marroquinas, que não terão dado seguimento a uma comissão rogatória francesa.
Em fevereiro de 2026, dois antigos dirigentes da NSO Group, ouvidos em França, recusaram identificar os clientes da empresa, invocando a legislação israelita. Cinco anos depois das primeiras revelações, permanecem por esclarecer várias questões sobre a dimensão e os responsáveis pela operação.
Durante esse período, Emmanuel Macron alterou profundamente a posição francesa sobre o Sahara Ocidental. Numa carta enviada ao rei Mohamed VI, em julho de 2024, afirmou que o presente e o futuro do território se inscreviam no quadro da soberania marroquina, considerando o plano de autonomia apresentado por Rabat em 2007 como a única base para uma solução política.
Paris e Rabat preparam atualmente um tratado bilateral descrito como inédito entre França e um país não europeu, apesar de Marrocos continuar sem colaborar com a justiça francesa no processo relacionado com a alegada espionagem dos mais altos responsáveis do Estado.
Próximo Presidente francês poderá reavaliar posição
O segundo mandato de Emmanuel Macron termina em maio de 2027. O seu sucessor herdará uma posição diplomática fortemente favorável a Marrocos, mas que, segundo o artigo, poderá ser revista por não resultar de uma votação parlamentar nem de um tratado juridicamente vinculativo.
Entre as opções apontadas encontram-se condicionar o aprofundamento das relações bilaterais à cooperação judicial marroquina, divulgar as análises técnicas dos serviços franceses e submeter a política sobre o Sahara Ocidental ao Parlamento.
O direito europeu poderá igualmente pesar num eventual reexame da posição francesa. O Tribunal de Justiça da União Europeia continua a considerar o Sahara Ocidental um território distinto de Marrocos, cuja população deve consentir na aplicação de acordos económicos. O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros francês mantém o território classificado como “não autónomo”, de acordo com a Carta das Nações Unidas.
As novas revelações reforçam, assim, a questão que poderá marcar o debate político francês antes das eleições presidenciais de 2027: saber se a aproximação diplomática a Marrocos foi decidida com plena independência, enquanto vários dirigentes franceses eram alegadamente alvo de espionagem por parte desse mesmo parceiro.
Fonte: Ali Attar, “Lecornu espionné par Pegasus: l’encombrant dossier marocain de l’Élysée”, publicado em 17 de julho de 2026.