A muito aguardada e publicitada estreia mundial do filme “Odisseia”, de Christopher Nolan, teve lugar ontem, 6 de Julho, em Londres. Em Lisboa iniciará a sua exibição no dia 16. O FiSahara - Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental, apelou ao boicote do seu visionamento. “Odisseia” foi em parte filmado nas praias de Dakhla, cidade do Sahara Ocidental que, de acordo com as Nações Unidas, é um território não-autónomo pendente de descolonização, ilegalmente ocupado por Marrocos desde 1975.
«Quando Christopher Nolan pisar o tapete vermelho a caminho da exibição da estreia, estará também a pisar o Direito Internacional, nomeadamente o direito do povo saharaui ao seu território e aos seus recursos, que estão a ser explorados ilegalmente por Marrocos, e o direito dos saharauis a realizarem os seus próprios filmes nesse território, sem receio de serem presos», afirmou Maria Carrión, diretora executiva do FiSahara.
Em Julho de 2025, Nolan e a sua equipa, incluindo Matt Damon, Zendaya e Charlize Theron, filmaram em Dakhla. Ao longo do último ano, o FiSahara procurou obter uma resposta de Nolan, das produtoras Syncopy e Universal Pictures a estas questões: por que razão escolheram este local? Estão cientes da repressão brutal de Marrocos contra o povo saharaui e irão incluir no filme as cenas filmadas sem o consentimento dos legítimos proprietários da Duna de Areia Branca, onde foram filmadas? O silêncio foi a resposta. «Christopher Nolan teve um ano para conhecer a terra de onde a minha família foi forçada a fugir em 1975 sob bombas de fósforo branco», afirmou o cineasta saharaui Brahim Chagaf, cuja curtametragem Toufa retrata o êxodo de milhares de saharauis para o exílio na Argélia durante a invasão militar marroquina. «Cresci nos campos de refugiados saharauis na Argélia e hoje, como cineasta saharaui da cidade ocupada de Dakhla, não posso entrar livremente na minha terra natal para contar as minhas próprias histórias. Essa é a grande contradição por trás desta paisagem: enquanto algumas pessoas privilegiadas, como Nolan, podem transformá-la num filme, outras continuam à espera do dia em que possam simplesmente regressar a ela».
O actor Javier Bardem declarou: «Gostaria de encorajar o Sr. Nolan a compreender a história da repressão do regime marroquino contra o povo saharaui e as suas violações sistemáticas dos direitos humanos contra os saharauis que vivem sob a sua ocupação ilegal, as quais estão documentadas por organizações como a Amnistia Internacional e muitas outras. Realizei um filme sobre o Sahara Ocidental há alguns anos; esta é uma questão profundamente pessoal para mim».
A Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental (AAPSO) junta-se ao apelo do FiSahara e de outras organizações de vários países de boicote activo do “Odisseia”, explicando os motivos que fundamentam esta opção e divulgando a causa saharaui. Pede também à comunicação social e aos críticos de cinema que não ignorem o facto de parte do filme ter sido rodado num território ocupado ilegalmente, normalizando assim a ocupação, utilizando os seus recursos a convite da potência colonizadora e ignorando a população saharaui, que é deliberadamente discriminada e reprimida. Tal como Ulisses na “Odisseia” procura regressar a Ítaca e recuperar a sua pátria, o povo saharaui quer regressar ao Sahara Ocidental através da realização de um referendo de autodeterminação, sob supervisão da ONU, há muito prometido e há muito bloqueado por Marrocos e pelos seus principais aliados. Esta é uma verdadeira odisseia do nosso tempo.





