terça-feira, 5 de maio de 2026

A MINURSO opera com empréstimos e apenas um mês de liquidez, segundo um relatório oficial da ONU



Um documento das Nações Unidas alerta para a grave crise financeira das operações de paz e coloca a missão no Sahara Ocidental entre as mais afetadas.

Um relatório oficial das Nações Unidas revelou que a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) está a operar em condições financeiras precárias, recorrendo a empréstimos para sustentar a sua atividade e com um nível de liquidez que cobre apenas um mês de funcionamento.

O documento, elaborado pela Comissão Consultiva em Assuntos Administrativos e Orçamentais da ONU, adverte para uma crise estrutural no financiamento das operações de manutenção da paz, com implicações diretas para missões como a do Sahara Ocidental.


Uma missão com liquidez crítica

Segundo o relatório, a MINURSO apresentava uma situação de caixa negativa de -9,2 milhões de dólares, o que obrigou a ONU a conceder-lhe empréstimos no valor de 14,9 milhões de dólares para manter as suas operações.

Após esse apoio financeiro, a missão dispunha de apenas 5,7 milhões de dólares em caixa — uma quantia que cobre somente um mês de despesas operacionais, muito abaixo dos níveis considerados adequados para garantir a estabilidade de uma missão internacional.

O próprio documento refere que esta situação faz parte de um problema mais amplo: várias operações de paz, incluindo a MINURSO, estão a funcionar através de empréstimos entre missões, uma prática que evidencia a falta estrutural de recursos no sistema.




Uma crise de liquidez que afeta o cumprimento dos mandatos

A Comissão Consultiva adverte que os problemas de liquidez são "persistentes e cada vez mais graves" e podem comprometer diretamente a capacidade das missões para cumprir os seus mandatos.

No caso do Sahara Ocidental, este dado adquire especial relevância: a MINURSO foi criada em 1991 com o objetivo de organizar um referendo de autodeterminação que, mais de três décadas depois, continua por realizar.

A precariedade financeira da missão soma-se assim a um bloqueio político prolongado, configurando um cenário em que a capacidade operacional da ONU no território fica ainda mais limitada.


Falta de transparência e dificuldades de gestão

O relatório aponta igualmente problemas na qualidade e disponibilidade da informação orçamental fornecida pela Secretaria da ONU, alertando para deficiências em matéria de transparência, comparabilidade e coerência dos dados.

Estas lacunas, segundo a Comissão, dificultam a análise e a tomada de decisões por parte dos Estados-membros, e podem afetar a supervisão efetiva das missões no terreno.


Uma missão-chave numa situação frágil

A inclusão da MINURSO entre as missões que necessitam de financiamento através de empréstimos reforça a imagem de uma operação internacional enfraquecida, tanto no plano político como no financeiro.

Enquanto o conflito do Sahara Ocidental continua sem solução política, os próprios dados da ONU revelam que a missão encarregada de facilitar esse processo opera em condições de fragilidade crescente.

(In Por un Sahara Libre

O ator Javier Bardem encerra FiSahara com críticas à posição de Espanha sobre o Sahara Ocidental


O ator Javier Bardem marcou o encerramento do FiSahara – Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental – com uma intervenção à distância do deserto argelino onde decorreu o evento, em que criticou a posição do Governo espanhol sobre o conflito e manifestou apoio ao povo saharaui.

Durante a ligação em direto ao campo de refugiados de Auserd, em Tindouf, Bardem afirmou que os saharauis são “um exemplo de dignidade” e sublinhou que “a sociedade espanhola está ao seu lado”, acrescentando que “os governantes não nos representam”, numa referência ao primeiro-ministro Pedro Sánchez e à mudança de posição de Espanha em 2022 sobre o Sahara Ocidental.

O ator, habitual defensor da causa saharaui, recordou ainda a responsabilidade histórica de Espanha enquanto antiga potência administradora do território, defendendo que o país não deve abandonar o povo saharaui.

A intervenção ocorreu no final da edição deste ano do FiSahara, que decorreu ao longo de cinco dias nos campos de refugiados no extremo sudoeste do terrirório argelino e reuniu mais de um milhar de participantes de cerca de 20 países. O evento voltou a combinar cinema, cultura e ativismo, com foco no direito ao regresso do povo saharaui.

O prémio principal do festival foi atribuído ao filme “Todo lo que fuimos”, de Cherien Dabis, um drama que acompanha várias gerações de uma família palestiniana. O segundo e terceiro lugares foram atribuídos, respetivamente, aos filmes “Mariem”, de Javier Corcuera, e “La recompensa”, de Aicha Chej Blal.

Criado em 2003, o FiSahara é um festival único por decorrer em campos de refugiados saharauis, na Argélia, e assume-se como uma plataforma de promoção cultural e de sensibilização internacional para o conflito do Sahara Ocidental e para a defesa dos direitos humanos.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Sahara Ocidental: A troca estratégica entre Marrocos e Espanha no fundo do Atlântico...


Cartoon gerado por IA


A evolução recente das relações entre Espanha e Marrocos não pode ser compreendida apenas à luz dos interesses energéticos e dos recursos estratégicos existentes na bacia das Canárias. Para além do valor crescente dos metais raros — como o cobalto, o telúrio ou as terras raras —, fundamentais para a transição energética e a autonomia tecnológica europeia, subsiste um contexto político mais complexo, marcado por episódios de tensão e vulnerabilidade.

Entre estes, destaca-se o caso Pegasus, que revelou operações de espionagem sobre responsáveis políticos espanhóis, incluindo o próprio chefe do Governo espanhol Pedro Sanchez e demais membros do Governo, num momento particularmente sensível das relações bilaterais. 

Fontes de inteligência confirmam que o Marrocos infetou o telemóvel de Pedro Sánchez com o software Pegasus em maio de 2021. A infeção terá ocorrido durante uma visita de Sánchez a Ceuta e Melila, num momento de alta tensão diplomática devido à crise migratória e à entrada de Brahim Ghali, SG da Frente Polisario, em Espanha atacado pelo Covid.

O operação resultou na extração massiva de dados, calculada em cerca de 2,6 GB do dispositivo de Sánchez. Os telefones de outros ministros, como Margarita Robles (Defesa), também foram visados.

Este episódio expôs fragilidades no equilíbrio diplomático e reforçou a perceção de que a relação entre Madrid e Rabat é pautada por uma lógica de interdependência estratégica e chantagem, onde segurança, recursos e soberania se cruzam.

Neste enquadramento, o dossiê do Sahara Ocidental, a gestão das migrações e o acesso a recursos no Atlântico não surgem como temas isolados, mas como peças de uma negociação mais ampla, onde interesses económicos, pressão política e equilíbrio geoestratégico se articulam de forma discreta, mas determinante.


A transação «Sahara por fundo marinho»: a troca estratégica entre Marrocos e Espanha no fundo do Atlântico



Panorama estratégico — Soberania em terra, poder no fundo do mar

African Security Analysis (ASA) - Dez 2025 *

Empresa sueca especializada em inteligência, consultoria de segurança e análise de risco em África.

Batizado de Tropic, o monte próximo às Ilhas Canárias tem 3 mil metros de altura e apenas um terço dele se destaca na superfície do Atlântico - BBC News Brasil 


Os dados atuais indicam que a evolução das relações entre Marrocos e Espanha não se trata de um realinhamento diplomático convencional, nem de um mero processo de normalização.


Trata-se da estrutura de um acordo transacional:

  • A Espanha apoia publicamente as reivindicações marroquinas sobre o Sahara Ocidental, redefinindo a ambivalência de longa data da Europa.

  • Marrocos congela silenciosamente o seu expansionismo marítimo, permitindo à Espanha o acesso sem contestação aos recursos minerais do leito marinho da Bacia das Canárias.


O acordo é simples na sua lógica, impossível de assinar e já está em vigor.

O Sahara Ocidental, pedra angular da doutrina estatal marroquina desde 1975, torna-se moeda de troca política.

Os campos minerais em águas profundas das Canárias, um tesouro geológico de cobalto, telúrio e terras raras, tornam-se uma compensação estratégica.


Nenhum governo europeu poderia sobreviver a um tratado que formalizasse tal acordo.

No entanto, Rabat e Madrid estão a comportar-se como se ele já existisse.


A reviravolta da Espanha foi motivada pela segurança, não pela simpatia

A declaração de Madrid de 2022, que classificou o plano de autonomia de Marrocos para o Sahara como «a opção mais séria, realista e credível»,
não foi um gesto simbólico.


Foi uma decisão de sobrevivência motivada por três receios:

1. A escassez energética e a dependência de minerais críticos controlados pela China.
2. A desestabilização migratória, repetidamente utilizada como arma através da pressão nas fronteiras.

3. O deslocamento estratégico no seio da UE, especialmente contra a França e a Itália.


A elite da política externa espanhola conhece bem as regras do jogo:

  • O Sahara é a primeira linha vermelha de Marrocos.

  • A soberania marítima é a segunda linha vermelha de Marrocos.

  • A migração é o instrumento de pressão de Rabat.

O reconhecimento espanhol não é um alinhamento ideológico. É um seguro geopolítico adquirido ao menor custo: palavras.


O fundo marinho como o verdadeiro prémio

O Monte Submarino Tropic, a sudoeste da ilha canária de El Hierro, não é apenas geologia teórica.

É um ativo estratégico com consequências globais:

Reservas de cobalto capazes de satisfazer a procura industrial durante décadas.
Concentrações de telúrio entre as mais elevadas conhecidas no planeta, essenciais para a eficiência fotovoltaica e a eletrónica de mísseis.

Metais de terras raras indispensáveis para a soberania tecnológica da UE.


Para a Europa, que passou 15 anos dependente das cadeias de abastecimento chinesas, este leito marinho não é apenas valioso — é uma questão de sobrevivência.

A Espanha não está a defender interesses económicos locais.

Está a salvaguardar uma linha de vida continental numa era de autonomia estratégica.

Marrocos situa-se geograficamente no ponto nevrálgico dessa linha de vida.


A «pistola legislativa» de Rabat (Leis Marítimas de 2020)

Em 2020, Marrocos aprovou duas leis de extensão marítima que alargam:

  • Águas territoriais

  • Zona Económica Exclusiva (ZEE)

Estas linhas sobrepõem-se ou roçam de perto as reivindicações marítimas das Canárias.

Fundamentalmente:

Foram redigidas,

nunca foram totalmente ativadas,

nunca foram revogadas.


São uma arma no coldre.



A mensagem para Madrid é implícita:

«Vocês mantêm a vossa posição sobre o Sahara.

Nós mantemos o silêncio sobre os vossos minerais.»

A pistola está à vista.

Ainda não disparou.

Não precisa de o fazer — por enquanto.



O Sahara Ocidental como moeda de troca diplomática

O apoio da Espanha proporciona a Marrocos o que décadas de sessões da ONU nunca conseguiram: um apoio europeu estruturalmente importante.

Isto traz três vantagens estratégicas:

1. Neutralização de um dos patrocinadores históricos da Polisario.

2. Corredor logístico através dos portos espanhóis para as exportações marroquinas, contornando os atritos com a UE.

3. Mecanismos reforçados de controlo da migração, neutralizando a vulnerabilidade interna da Espanha.

A doutrina de Marrocos é consistente:

  • Consolidar o estatuto político do Sahara Ocidental.

  • Expandir o acesso ao Atlântico.

  • Utilizar a migração como arma de forma assimétrica.

  • Tornar a Europa estruturalmente dependente da cooperação marroquina.

A Espanha não é a primeira a compreender isto. É a primeira a render-se publicamente.



Diplomacia de alto nível — Políticas formais, realidades informais

  • Espera-se que a Reunião de Alto Nível (HLM) de Madrid-Rabat resulte em acordos sobre:

    Transportes
    Energia
    Formação
    Logística portuária

  • Gestão da migração

  • Coordenação conjunta em torno do Campeonato do Mundo de 2030


Nenhum dos documentos oficiais mencionará o verdadeiro acordo.

Os decisores políticos africanos devem interpretar esse silêncio:

Os interesses estatais estão a ser negociados à margem dos registos oficiais.


Fragilidades ocultas

Espanha.
- A sociedade civil continua a defender a autodeterminação.

- A oposição acusa Sánchez de capitulação geopolítica.

- As autoridades regionais das Canárias temem a destruição ambiental e a perda da soberania marítima.

Marrocos
- As elites nacionalistas querem uma ativação marítima, não contenção.

- Plano de autonomia ≠ reconhecimento da soberania.

- O establishment militar encara as concessões como um sinal de fraqueza.


Este acordo pode durar 20 anos ou ruir em 24 horas.


O princípio em jogo: Geografia vs. Legitimidade

Para Rabat, o Sahara Ocidental não é um dossiê diplomático. É um pilar da continuidade do regime.

Para Madrid, os minerais do fundo marinho das Canárias não são uma curiosidade técnica. São a sobrevivência industrial na era pós-fóssil.

Ambos os intervenientes estão a negociar influência, não princípios:

  • Marrocos negocia o silêncio.

  • Espanha negocia a legitimidade.

As populações esquecidas

Duas populações continuam a ser estruturalmente ignoradas:

  • Os saharauis, abandonados num limbo político.

  • Os habitantes das Ilhas Canárias, que temem a exploração em águas profundas, o colapso do ecossistema e a intromissão geopolítica.

Nenhum destes grupos terá influência no acordo.

Apenas o poder estatal o terá.


Fase de validação — Diplomática ou industrial

O verdadeiro teste não é diplomático. É industrial.

A extração tem início por volta de 2030–2032.


Três trajetórias:

1. Marrocos mantém-se em silêncio.

→ O pacto é válido, Madrid assegura os minerais, Rabat assegura a narrativa do Sahara Ocidental.


2. Marrocos aplica as suas leis marítimas.

→ Madrid invoca as proteções da UE e da UNCLOS, Rabat reivindica direitos sobre a plataforma continental.

→ A relação rompe-se.


3. Intervenção da UE.

→ Espanha perde a exclusividade, Marrocos torna-se parceiro industrial e logístico.

→ O acordo torna-se continental, não bilateral.


Cenários de Inteligência

A. Equilíbrio Estratégico (Cenário Base — 55–60%)

  • A Espanha mantém a sua posição sobre o Sahara.

  • Marrocos evita a ativação da ZEE.

  • A exploração nas Canárias prossegue.

  • Ambas as partes afirmam que se trata de uma situação «vantajosa para todos».

Estabilidade através da negação mútua.


B. Marrocos Assertivo (20–25%)

Fatores desencadeantes:

  • Pressão nacionalista interna

  • Reação política da UE

  • Crise migratória

Mecanismo:

  • Rabat ativa as leis marítimas.

  • A Espanha recorre a Bruxelas.

  • Inicia-se o processo de arbitragem.

Resultado: tensão duradoura, mas sem ruptura.


C. Colapso (15–20%)

Catalisadores:

  • Agitação saharaui

  • Revolta ambiental nas Canárias

  • Um acordo falhado sobre migração

Resultado:

  • Congelamento diplomático

  • A Polisario volta a entrar no discurso da Espanha

  • As comissões conjuntas entram em colapso


D. Assunção de controlo pela UE (10–15%)

A UE centraliza a exploração através da política industrial.

Efeito:

  • A Espanha perde a exclusividade

  • Marrocos torna-se operador do corredor

  • A negociação é neutralizada a nível supranacional


Avaliação da African Security Analysis (ASA)

Isto não é cooperação.

É uma necessidade política disfarçada de parceria.


A Espanha precisa de minerais.

Marrocos precisa de reconhecimento.


Nenhum dos dois pode dar-se ao luxo de um tratado.

Ambos operam através de gestos, vetos e limites implícitos.


Se o acordo se mantiver, irá remodelar a economia geopolítica do Atlântico
e confirmar uma lição mais ampla:

No século XXI, a soberania é negociada acima do solo — e sob o fundo do oceano.



Análise de Segurança Africana (ASA) — Dezembro de 2025

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sahara Ocidental: os presos saharauis mantêm-se firmes nas suas posições

 

Abdelmoula El Hafidi

  • As forças de segurança marroquinas mantêm cercada a residência da família do estudante e ativista dos direitos humanos Abdelmoula El Hafidi, recentemente libertado.
  • O estudante afirma que os presos saharauis se mantêm firmes e constantes nas posições e opiniões políticas pelas quais foram detidos,
  • e declara estar disposto a expressar as suas opiniões, mesmo que isso lhe custe regressar novamente à prisão.



Por Alfonso Lafarga

Madrid (ECS).- Os presos políticos saharauis, que cumprem penas severas em prisões marroquinas, mantêm-se firmes nas suas posições e dispostos a continuar a luta.

É o que afirma o estudante e ativista saharaui dos direitos humanos Abdelmoula El Hafidi, que no passado dia 16 de abril recuperou a liberdade após passar dez anos numa prisão marroquina.

Em declarações à Equipe Media - o grupo de jornalistas saharauis que trabalha na clandestinidade nos territórios do Sahara Ocidental ocupados por Marrocos -, Abdelmoula El Hafidi assegura que os presos saharauis se mantêm firmes e constantes nas posições e opiniões políticas pelas quais foram detidos.

Afirma que a tortura e as humilhações sistemáticas de que são alvo não os dissuadiram, nem o farão, de resistir e desafiar os maus-tratos dos seus algozes, e que o seu ânimo permanece inabalável.

O ativista saharaui, pertencente ao grupo de estudantes saharauis El Uali, detidos pela sua defesa pacífica do direito à autodeterminação do Sahara Ocidental, foi preso a 16 de abril de 2016 e condenado num julgamento realizado em Marraquexe que não respeitou as garantias básicas, segundo a Associação para a Proteção dos Presos Saharauis nas Prisões Marroquinas, que salienta que, apesar da presença de observadores internacionais, o processo foi apontado como um exemplo das práticas repressivas contra aqueles que defendem o direito à autodeterminação do povo saharaui.

Durante o tempo que passou na prisão, denuncia ter sido submetido a torturas físicas e psicológicas, o que não abalou as suas convicções; pelo contrário, afirma estar pronto para expressar as suas opiniões, mesmo que isso lhe custe regressar novamente às profundezas da prisão.

Na declaração à EM, El Hafidi manifesta a sua gratidão ao povo saharaui, que levantou a voz em apoio aos detidos, e salienta que isto tem sido uma fonte inesgotável de energia para manter a sua firmeza.

Após ter sido libertado, as autoridades de ocupação impuseram na cidade de Bojador um intenso bloqueio à casa da família de Abdelmoula El Hafidi, segundo fontes de ativistas dos direitos humanos saharauis.


Uma mãe saharaui reclama a libertação do seu filho
e de todos os presos políticos saharauis


Nas ruelas que conduzem à habitação, há uma ampla presença de veículos e efetivos de diferentes forças de segurança marroquinas, com o objetivo de intimidar a família e os saharauis que tentem visitar o estudante libertado.

A Associação Saharaui para a Defesa dos Direitos Humanos e a Proteção dos Recursos condenou o cerco opressivo e responsabiliza o Estado marroquino por quaisquer danos que possam ser sofridos pela família ou por quem for felicitar o ex-preso. A ONG apelou à população saharaui para que se dirija à casa da família e rompa o bloqueio, ao mesmo tempo que exige a libertação de todos os presos políticos saharauis.

O Coletivo de Defensores Saharauis dos Direitos Humanos no Sahara Ocidental (CODESA), por seu lado, condenou o cerco, a agressão física e o tratamento degradante infligidos à ativista e defensora saharaui dos direitos humanos El Ouara Sidi Brahim Khaya no passado dia 17 de abril, quando tentava visitar em Bojador a família do prisioneiro libertado.

Afirma que o delegado do governo marroquino (o paxá da cidade) e um agente da polícia supervisionaram pessoalmente os atos de tortura e as práticas humilhantes a que a ativista foi sujeita, antes de ordenarem a sua expulsão a bordo de um táxi coletivo com destino a El Aaiún.

Sahara Ocidental: Marrocos e Argélia reativam a sua ofensiva diplomática na Europa

 


No te Olvides del Sahara Occidental - 24/04/2026 | O Sahara Ocidental volta a situar-se no centro de uma intensa atividade diplomática regional e internacional. Na véspera de novas discussões nas Nações Unidas sobre a MINURSO, Marrocos e a Argélia parecem mover as suas peças na Europa com objetivos distintos, mas ligados a um mesmo cenário: o futuro do conflito saharaui e o equilíbrio de forças no Magrebe.

Por um lado, Marrocos intensificou os seus contactos com parceiros europeus para consolidar apoios à sua proposta de autonomia. A recente visita do seu ministro dos Negócios Estrangeiros a Londres insere-se nessa estratégia, num contexto em que países como o Reino Unido demonstraram o seu apoio a esta abordagem como base para uma solução política (Reuters). Este tipo de apoios reforça a narrativa de Rabat de que a sua proposta ganha terreno a nível internacional.

O interesse de Marrocos por Londres não é menor. Como membro permanente do Conselho de Segurança, a posição britânica assume especial relevância num momento em que se discute o futuro da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO). Paralelamente, várias análises apontam para que diversos países europeus se tenham vindo a alinhar progressivamente com a tese marroquina, reforçando uma tendência que Rabat procura consolidar no âmbito diplomático.

Ao mesmo tempo, a Argélia também está a reconfigurar a sua estratégia na Europa. A preparação de contactos ao mais alto nível com países como a Espanha ou a Alemanha reflete uma tentativa de recuperar margem diplomática num contexto marcado pela tensão acumulada nos últimos anos. No caso espanhol, a recente reativação do diálogo bilateral após a crise que eclodiu em 2022 confirma que o Saara Ocidental continua a condicionar a relação entre ambos os países (Europa Press).

Esta dupla dinâmica põe em evidência que o conflito está longe de estar congelado. Embora o processo político formal permaneça bloqueado, o Sahara Ocidental continua a influenciar alianças, agendas diplomáticas e relações estratégicas. A disputa não se limita ao âmbito das Nações Unidas, mas estende-se também às capitais europeias e aos espaços de negociação bilateral.


«O Sahara Ocidental continua a ser um território pendente de descolonização. E qualquer solução que não passe pelo consentimento do povo saharaui continuará a enfrentar limites tanto políticos como jurídicos».


Neste contexto, devem ser interpretadas com cautela algumas informações provenientes dos meios de comunicação marroquinos sobre supostas pressões dos Estados Unidos em relação aos campos de refugiados saharauis. Mais do que factos confirmados, estas narrativas refletem a dimensão informativa do conflito e a disputa pela narrativa no plano internacional.

O elemento de fundo continua a ser o mesmo: enquanto Marrocos procura consolidar a sua proposta como única via possível, a Argélia tenta manter em aberto a centralidade do direito à autodeterminação. Entre ambas as estratégias, o povo saharaui continua a ser o titular de um direito reconhecido pelo direito internacional, mas cuja aplicação efetiva ainda está pendente.

A questão não é menor. Nenhuma ofensiva diplomática pode substituir o princípio jurídico que define o conflito: o Sahara Ocidental continua a ser um território pendente de descolonização. E qualquer solução que não passe pelo consentimento do povo saharaui continuará a enfrentar limites tanto políticos como jurídicos.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Espanha reforça combate ao narcotráfico após apreensão de 800 kg de haxixe e descoberta de túnel em Ceuta



A droga que nos chega de Marrocos...

As autoridades espanholas intensificaram as investigações sobre redes de narcotráfico entre Marrocos e Espanha, após a apreensão de cerca de 800 quilos de haxixe e a descoberta de um túnel subterrâneo na zona fronteiriça de Ceuta.

De acordo com a Guardia Civil, uma mulher foi detida ao tentar atravessar o posto fronteiriço de Tarajal, que liga Ceuta a Marrocos, ao volante de uma autocaravana onde a droga estava escondida num compartimento oculto.

A operação surge na sequência da descoberta, no final de Março, de um túnel subterrâneo equipado com carris e vagonetas, alegadamente utilizado para o transporte de haxixe entre os dois territórios. O caso foi inicialmente investigado pelo Tribunal Nacional de Espanha e deverá agora ser apreciado pelo Supremo Tribunal de Espanha, tendo em conta a dimensão transnacional da rede.

Segundo o Ministério do Interior de Espanha, a investigação está centrada na existência de uma estrutura organizada de tráfico de droga a operar entre o Norte de África e o sul da Europa.

O caso ocorre num contexto de reforço das operações contra o narcotráfico na região do estreito de Gibraltar, uma das principais rotas de entrada de haxixe na Europa, frequentemente associado a redes criminosas que operam em vários países.