quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Concórdia Argélia-Mauritânia preocupa Marrocos

 

Ligação rodoviária entre a cidade argelina de Tindouf e
a cidade mineira de Zouerate, na Mauritânia


Correo Diplomatico Saharaui 28-02-2024 | As preocupações de Marrocos com a concórdia entre a Argélia e a Mauritânia parecem estar relacionadas com vários factores, incluindo projectos económicos comuns, compromissos diplomáticos e implicações regionais. Eis alguns elementos-chave que podem contribuir para esta preocupação:

Novas rotas económicas: A cooperação entre a Argélia e a Mauritânia inclui projectos como a criação de uma zona franca e de uma rota estratégica. Estas iniciativas poderiam oferecer à Mauritânia uma nova rota para a África Ocidental e para o Atlântico, competindo potencialmente com os projectos marroquinos na região.

Dinâmica regional: Os meios de comunicação social marroquinos parecem realçar a conjuntura regional global que envolve estes projectos. A abertura de uma sucursal do Union Bank argelino na Mauritânia, a inauguração de uma linha marítima e outros compromissos concretos reforçam os laços entre Argel e Nouakchott, criando uma dinâmica regional susceptível de contrabalançar os interesses marroquinos.

Tributação dos produtos marroquinos: A decisão das autoridades mauritanas de impor uma pesada carga fiscal aos produtos marroquinos que atravessam a fronteira clandestina de El Guerguarat terá provavelmente exacerbado as preocupações em Rabat. Este facto poderá ser entendido como o início de um declínio da influência económica marroquina na Mauritânia.

Projectos energéticos: Marrocos está a trabalhar no projeto de gasoduto Nigéria-Marrocos, que também exige a passagem pela Mauritânia. Os projectos energéticos regionais podem ser uma fonte de rivalidade e concorrência, especialmente quando diferentes actores procuram consolidar a sua posição no panorama energético.

Desafios geopolíticos: a Mauritânia é considerada como um ator-chave nos planos de Marrocos para a região. Por conseguinte, qualquer bom entendimento entre Nouakchott e Argel é suscetível de ser interpretado como uma ameaça potencial em Rabat, especialmente se comprometer as iniciativas estratégicas marroquinas.

Em suma, as preocupações de Marrocos parecem resultar da perceção de que a concórdia entre a Argélia e a Mauritânia poderia pôr em causa a influência económica e estratégica de Marrocos na região, especialmente à luz de projectos económicos e energéticos concorrentes.

 

O 48.º aniversário da proclamação da RASD comemorado na Associação 25 de Abril

O Comandante Martins Guerreiro, da direção da Associação 25 de Abril, e Omar Mih, represente da Frente POLISARIO em Portugal

A representação em Portugal da Frente POLISARIO organizou no dia 27 de fevereiro uma sessão comemorativa do 48.º aniversário da proclamação da República Árabe Saharaui Democrática (RASD).

O movimento de libertação saharaui interpretava então os sentimentos mais profundos do seu povo e, simultaneamente, preenchia o vazio jurídico resultante do vergonhoso abandono oficial, nesse mesmo dia, proclamado pela até então potência colonial, a Espanha 

O evento comemorativo teve lugar na sede da Associação 25 de Abril, em Lisboa, local cheio de significado, num ano em que se festeja o 50º aniversário da Revolução dos Cravos em Portugal, que derrubou o regime ditatorial e colonialista e foi encetado o processo negocial com os Movimentos de Libertação das ex-colónias portuguesas que viria a conduzir a sua total libertação e independência.



Presentes, para além dos anfitriões, militares de Abril Vasco Lourenço e Martins Guerreiro, o embaixador da Argélia, vários representantes de diversas embaixadas, o presidente da Câmara Municipal de Palmela, membros de partidos políticos, organizações sindicais e associações de solidariedade.



Durante a sessão foram exibidos dois pequenos filmes, um sobre a repressão exercida pelas forças marroquinas nos territórios ocupados do Sahara Ocidental, da autoria do coletivo Equipe Media, que a partir do interior do território exerce a difícil missão de reportar o que ali se passa, e um outro da autoria do fotógrafo português Rafael Lomba, expulso pelas autoridades marroquinas de ocupação em Janeiro passado.



DIA NACIONAL DO SAHARA OCIDENTAL

48º aniversário da proclamação da RASD 

27 de fevereiro de 2024

Daqui a poucas semanas, Portugal comemora meio século da Revolução dos Cravos que realizou as expectativas do povo português de liberdade, democracia e progresso social e económico.

Assim como o nosso povo saharaui comemora no dia de hoje os 48 anos do nascimento do seu sonho em ter a sua pátria livre e independente com inteira soberania sobre a totalidade do seu território.

Os nossos dois povos levaram a cabo levantamentos revolucionários contra os dois regimes ditatoriais ibéricos no período 1973-75. Vivíamos situações parecidas e pertencemos ao mesmo espaço político e cultural ibérico.

Hoje, Portugal ergueu um regime democrático e conseguiu realizar muitas das expectativas do seu povo, contrariamente à situação do meu povo que ainda continua a lutar pelo seu direito à liberdade e à existência como país livre e soberano.

Meio século é muito tempo na vida de uma pessoa, mas é muito pouco tempo na vida dos povos e das nações.

No século X, os Almorávidas partiram da minha terra rumo às terras de Espanha e Portugal. No século XV, os portugueses chegaram às margens da minha terra e ergueram o farol de Bojador, iluminado as trevas do oceano Atlântico, nessa mesma viagem que os levou a dobrar o Cabo da Boa Esperança e a continuar o seu encontro com outros territórios e outros povos, até chegar a Timor Leste! E à China!

Na década de 70 do século passado, fizemos levantamentos revolucionários e fomos acompanhados por mais povos africanos.

Hoje, olhamos para trás com vista a tirar as lições das nossas experiências e a armarmo- nos com as ferramentas que nos permitem continuar a nossa marcha com mais segurança e determinação.

Em 1975, quando os “mais poderosos” decidiram aniquilar-nos, não esperavam que aguentássemos 50 anos! O seu principal erro foi subestimar-nos e errar no cálculo sobre a nossa resiliência! Eles não sabiam que as pessoas do deserto, tal como a sua beleza, têm muita paciência e resistência!

Passado meio século, aqui estamos, seguramente mais fortes, com mais educação, com mais gente, com mais aliados e redes solidárias, com maior capacidade de resistência e de resiliência, com mais esperança e certeza da vitória.

Paciência estratégica que faz com que os sucessos táticos de Marrocos se evaporem como bolhas vazias, paciência estratégica que transforma a traição de Espanha num sentimento de culpa eterna. A paciência que tornou o rei de Marrocos consciente da diferença entre ocupar a terra e ocupar os corações da sua gente, a paciência e a firmeza que decorrem da verdadeira na justiça divina que vencerá no final, não importa quanto tempo demore. Paciência que entra nos relatos estreitos da política real e do maquiavelismo, que não sabe que uma pessoa crente e leal é a mais forte, que não será vencida pelas armas, pelo dinheiro ou pelas as tecnologias.

Aqui estamos hoje celebrando a vitória da nossa paciência, a lealdade à nossa causa e aos nossos mártires. Temos consciência dos nossos ganhos e estamos orgulhosos da nossa vitória sobre o genocídio a que temos sido submetidos, da nossa vitória sobre a hipocrisia e a traição.

Celebramos porque as nossas gerações mais novas são mais corajosas, têm mais conhecimentos e maior determinação em avançar na concretização do nosso sonho legítimo de construir uma pátria livre e independente na nossa terra, onde esperamos que um farol de Bojador volte a iluminar as trevas e aclare o caminho dos portugueses e saharauis na direção de um futuro brilhante baseado nos valores de liberdade, democracia, igualdade e progresso, os valores incutidos pela Revolução dos Cravos.

Omar Mih

Representante da Frente POLISARIO em Portugal

 


domingo, 25 de fevereiro de 2024

CGTP-IN apela à ONU que organize o Referendo de Autodeterminação no Sahara Ocidental

 

15º Congresso da CGTP-IN

25 fevereiro 2024 - Portugal | A Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional (CGTP-IN) adoptou sábado, durante o seu XV Congresso, uma recomendação sobre a questão saharaui, na qual insta as Nações Unidas a organizar um referendo de autodeterminação no Sahara Ocidental.

Para além de apelar à realização de um referendo sobre a autodeterminação do Sahara Ocidental, a confederação sindical portuguesa apelou à comunidade internacional a "pressionar Marrocos a respeitar os direitos humanos nos territórios ocupados do Sahara Ocidental". A confederação apelou igualmente à comunidade internacional para que analise a proibição imposta pelo ocupante marroquino à entrada de delegações e observadores de ONGs de defesa dos direitos humanos nos territórios ocupados para investigar a situação dos direitos humanos.


Da esquerda para a direita: Omar Mih, representante da F. POLISARIO em Portugal,
Isabel Camarinha e Tiago Oliveira, anterior e actual líder da Central Sindical, e El Mami Aabidi, responsável pelas relações internacionais e cooperação da UGTSARIO.

A cerimónia de encerramento contou com a presença de El Mami Aabidi, responsável pelas relações internacionais e cooperação da União Geral dos Trabalhadores do Saguia El Hamra e Rio de Ouro (UGTSARIO), e de Omar Mih, representante da Frente Polisario em Portugal.

Nada melhor que o referendo como solução - afirma Brahim Gali, SG da Frente POLISARIO e presidente da RASD

 


24-02-2024 (APS) | O presidente saharaui e secretário-geral da Frente Polisario, Brahim Ghali, indicou que o referendo de autodeterminação ao povo saharaui "é a melhor solução" para a descolonização do Sahara Ocidental, informou a Agência de Imprensa saharaui (SPS) esta sexta-feira.

Em declarações à agência russa "Sputnik", Ghali afirmou que "o referendo é a melhor solução" e "somos a favor da nossa independência incondicional".

"O Sahara Ocidental trava uma guerra assimétrica e desigual, mas travamos uma guerra de desgaste que afeta a situação sócio-económica e política de Marrocos e pesa sobre o moral do exército de ocupação", acrescentou o presidente saharaui, chefiando uma delegação aos trabalhos da 37.ª sessão da cimeira da União Africana (UA) que decorreu em Addis Abeba.

"Não há igualdade numérica nem de meios, para além do facto de o regime marroquino ser um verdadeiro aliado da entidade sionista. Mas a vontade do povo saharaui continua a ser muito forte", afirmou.

Referindo-se ao papel da ONU na solução do conflito entre a República Saharaui e o Reino de Marrocos, dois Estados membros da UA, o Presidente Ghali sublinhou que "a ONU é chamada a cumprir a sua missão neste território através da organização de um referendo porque se trata de uma questão de descolonização.

"A Frente Polisario foi a primeira a aceitar o enviado especial da ONU, De Mistura", recordou, sublinhando que "Marrocos demorou cerca de seis meses a responder ao pedido do secretário-geral para a nomeação de De Mistura, tendo-o aceite depois da pressão internacional". Mas até agora, De Mistura só encontrou obstáculos colocados por Marrocos e não deu um passo em frente devido a esses obstáculos".

O Presidente Ghali sublinhou que o enviado especial da ONU "tenta estabelecer contactos e desbloquear a situação aqui e ali, e esperamos que tenha um apoio real e efetivo do Conselho de Segurança para avançar e permitir que a MINURSO cumpra a sua missão, tal como estipulada nas resoluções 690 a 658, nomeadamente a organização de um referendo de autodeterminação ao povo saharaui.

De acordo com a agência de notícias Sputnik, a posição coerente e de princípio da Rússia sobre o conflito do Sahara Ocidental continua empenhada em alcançar uma paz justa e duradoura na questão do Sahara Ocidental através de meios políticos com base no respeito pelo direito internacional, incluindo o respeito e a implementação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU e da Assembleia Geral no âmbito da legalidade internacional. (APS)

sábado, 24 de fevereiro de 2024

A ISACOM e a Right Livelihood condenam o apoio de alguns Estados à ocupação ilegal e às violações dos direitos humanos no Sahara Ocidental

 


Genebra (Conselho de Direitos Humanos da ONU) 23 de fevereiro de 2024 (SPS) - A Instância Saharaui Contra a Ocupação Marroquina (ISACOM) e a Fundação Right Livelihood, que atribui anualmente o "Prémio Nobel Alternativo" a indivíduos e organizações que defendem os direitos humanos, manifestaram a sua forte condenação às tentativas de representantes de alguns Estados em Genebra em apoiar a ocupação ilegal marroquina do Sahara Ocidental e, consequentemente, apoiar as violações sistemáticas dos direitos humanos nesta última colónia na lista das Nações Unidas para a descolonização no continente africano.

Num comunicado publicado ontem no site Right Livelihood, as duas organizações apelaram às Nações Unidas para "tomar todas as medidas adequadas para retomar o processo de descolonização do Sahara Ocidental, garantindo o direito do povo saharaui à autodeterminação e apelar urgentemente a Marrocos para alinhar com as suas obrigações internacionais em matéria de direitos humanos", no Sahara Ocidental.

As organizações salientaram que a recente visita de uma delegação do chamado "Grupo de Apoio à Integridade Territorial de Marrocos" às cidades ocupadas de Dakhla e El Aaiun no Sahara Ocidental é uma visita que apoia as reivindicações ilegítimas marroquinas de anexar o país africano e contradiz as obrigações internacionais dos países dos representantes que participam nesta visita ilegal.

As duas organizações consideraram que apoiar as reivindicações marroquinas no Sahara Ocidental é claramente uma cumplicidade nas flagrantes violações dos direitos humanos por parte das autoridades de ocupação marroquinas.

Sabe-se que a delegação do referido grupo, composto por representantes das Comores, Bahrein e Gâmbia às Nações Unidas em Genebra, visitou as cidades ocupadas de Dakhla e El Aaiun no dia 2 de Fevereiro, e fez uma série de distorcidas declarações às agências marroquinas de propaganda após conversações que mantiveram com o Ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino, Nasser Bourita, onde apoiaram abertamente as reivindicações coloniais marroquinas de anexar os territórios ocupados do Sahara Ocidental.

Esta posição expressa pelos representantes destes estados membros das Nações Unidas contradiz as obrigações impostas aos seus países pelo direito internacional, uma vez que Dakhla e El Aaiun fazem parte de um território reconhecido pelas Nações Unidas como um país não autónomo que aguarda a descolonização desde a sua ocupação ilegal por Marrocos em 1975.

As duas organizações recordaram que o Tribunal Internacional de Justiça negou, num acórdão de 1975, a existência de qualquer soberania territorial entre o Sahara Ocidental e Marrocos.

Além disso, o Tribunal de Justiça da União Europeia, nas suas decisões de 2016, 2018 e 2021, baseou-se na decisão do TIJ e reconheceu o direito do povo saharaui à autodeterminação de acordo com o direito internacional. Enfatizou particularmente o estatuto separado e independente do território do Sahara Ocidental de Marrocos.

O Tribunal Europeu concluiu nas decisões acima mencionadas que, independentemente dos alegados benefícios que Marrocos e os seus apoiantes afirmam que o povo saharaui obteve da exploração ilegal marroquina dos recursos saharauis, qualquer país ou investidor deve obter o consentimento do povo saharaui para qualquer actividade desenvolvida no Sahara Ocidental, através de consulta ao seu único representante legítimo, a Frente Popular para a Libertação de Saguia el Hamra e Rio de Oro (Frente Polisário).

A ISACOM e a Right Livelihood sublinharam ainda que “o Reino de Marrocos não só se envolve em violações do direito à autodeterminação do povo saharaui, como também reprime qualquer voz que defenda pacificamente esse direito e se envolve em violações diárias dos direitos do povo saharaui. Os recursos do Sahara Ocidental são explorados ilegalmente enquanto os saharauis vivem em situações económicas extremamente precárias.”

Entretanto, acrescentam as duas organizações, “as manifestações pacíficas são sistematicamente dificultadas e qualquer pessoa que expresse a sua posição a favor da autodeterminação enfrenta detenções arbitrárias, tortura, vigilância e congelamento de bens. Qualquer Estado que apoie as reivindicações de Marrocos estará, portanto, também a apoiar cegamente tais violações flagrantes dos direitos humanos.”

A ISACOM e a Right Livelihood “condenam todas as violações dos direitos humanos cometidas pelo Reino de Marrocos no Sahara Ocidental e estão, portanto, gravemente preocupadas com a intensificação dos esforços de Marrocos para obter apoio internacional para a sua posição ilegal, da qual esta última visita é prova”, diz o comunicado de imprensa.

Concluiu que “a posição expressa pelo “Grupo de Apoio à Integridade Territorial de Marrocos” em numerosas vias, incluindo no Conselho de Direitos Humanos, não só é ilegal, mas procura desviar a atenção da questão inacabada da descolonização e violações dos direitos humanos cometidas por Marrocos.” (SPS)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

“Mawja”, o último CD de Aziza Brahim


Aziza Brahim



“Mawja”, o último CD de Aziza Brahim
Wolfgang Kabsch Shadowbox - Wolles Kuriositätenkiste 14 de fevereiro de 2024

Mawja", que significa onda, é o quinto álbum da cantora saharaui Aziza Brahim. Nascida num campo de refugiados saharauis em 1976, é artista há muito tempo, trabalhando como cantora, compositora e actriz. Mesmo antes do seu primeiro álbum a solo, em 2012, já produzia música com bandas. É também uma activista dos direitos do seu povo.
"Mawja" é agora provavelmente o seu álbum mais cativante. Continua a usar a sua voz para canções tradicionais na sua língua materna e trabalha fortemente com percussão africana e outros instrumentos, mas neste álbum estes sons são usados num contexto de rock muito limpo, com baixo e guitarras. Isto inclui guitarra rítmica acústica, bem como uma guitarra eléctrica para solos bem tocados e bem temperados.
Todas as músicas tendem a mover-se numa faixa de ritmo médio com arranjos muito atmosféricos. O baixo bombeia estoicamente para a frente, rodeado por uma percussão excitante e muito variada. Os instrumentos secundários acima mencionados acrescentam depois o sabor rock descontraído que faz com que valha a pena ouvir cada canção.
Instrumentalmente, há aqui verdadeiros especialistas no início, mas eles conseguem apresentar a sua arte de uma forma bem temperada, sem qualquer exagero. Entre outras coisas, diz-se que o álbum tem uma secção de percussão inspirada nos The Clash. Bem, isso mostra a abordagem dos músicos a este álbum, por um lado, mas, claro, também que os Clash experimentaram percussão de inspiração africana de qualquer forma. Há também uma canção de blues muito fixe. Esta combina na perfeição com as vozes.


E os vocais um pouco mais sombrios de Aziza também se enquadram maravilhosamente neste som. Ela consegue concretizar a sua abordagem tradicional de forma limpa e clara sem soar demasiado exótica para o ouvido europeu. Pelo contrário, a voz e os vocais penetram mais profundamente nos ouvidos do ouvinte de canção para canção e os vocais "histéricos" que se encontram por vezes nas produções musicais africanas (isto não é negativo, mas para alguns ouvidos europeus estes vocais parecem por vezes demasiado excitados) estão quase completamente ausentes.



Isto faz de "Mawja" um verdadeiro álbum de introdução à música rock africana, mas também vale a pena ouvir para qualquer outro fã de rock.
Bein trab u lihjar
Thajliba
Duaa
Marhabna
Bubisher
Ljaima likbira
Mawja
Metal, madera
Haiyu ya zuwar
Fuadi


GAZA 2023-2024 | Marrocos. Perante os protestos de rua, o rei opta pelo silêncio

 

Manifestação numa praça em apoio a Gaza, 24 de dezembro de 2023, em Rabat. AFP


Entre uma população que apoia largamente a causa palestiniana, com o risco de radicalização do islamismo, e um acordo de normalização assinado em 2020 e ainda em vigor, o Reino de Marrocos optou por se entrincheirar atrás de um silêncio ensurdecedor.


ORIENTXXI - OMAR BROUKSY | 9 fevereiro 2024 - Mais de quatro meses após o início da guerra em Gaza, a mobilização anti-israelita em Marrocos não dá sinais de abrandar. Milhares de pessoas continuam a sair à rua quase todos os fins-de-semana nas principais cidades do país, de Rabat a Casablanca. Por detrás das palavras de ordem, as multidões de manifestantes reclamam o fim dos massacres da população de Gaza pelo exército israelita, mas sobretudo exigem o fim da normalização das relações diplomáticas entre o reino marroquino e o "Estado sionista".

Anunciado em dezembro de 2020, o processo de normalização entre os dois Estados assumiu a forma de um acordo tripartido: em troca do reconhecimento da soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, Marrocos comprometeu-se a "normalizar" as suas relações com Israel. Uma jogada hábil que visava trocar aquela que é considerada uma "causa sagrada" pela maioria dos marroquinos (a questão do Sahara Ocidental, assumida por Marrocos como uma das suas "províncias do sul") por outra "causa sagrada" (a questão palestiniana).

Desde então, a cooperação, nomeadamente militar, entre os dois países tornou-se oficial, depois de ter sido oficiosa durante muito tempo, embora Israel faça questão de a relegar apenas para a cooperação no domínio da defesa e das armas ligeiras. Mas o grande atentado do Hamas no coração de Israel, em 7 de outubro de 2023, não foi apenas uma rutura, mas um ponto de viragem que teve profundas repercussões na "lua de mel" israelo-marroquina, elogiada tanto pelos EUA como pela UE.

 

UMA MANOBRA POLÍTICA

No centro da manobra está a astúcia e o maquiavelismo da família real para dar o golpe de misericórdia ao Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), o partido islamista no poder na altura, cuja legitimidade religiosa corria o risco de se sobrepor à do rei, que é também o "comandante dos fiéis". Foi assim que Mohamed VI fez assinar o acordo de normalização não pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, mas pelo chefe do governo, o islamista Saâdeddine El Othmani (2017-2021), ou seja, o secretário-geral do PJD. As consequências para a identidade política e a imagem do partido foram desastrosas, porque a luta contra a normalização com a "entidade sionista" faz parte do ADN dos partidos islamistas. Derrotado eleitoralmente um ano depois nas eleições legislativas de 2021, o PJD é hoje uma sombra de si mesmo, um recipiente vazio.

Nas manifestações de apoio à Palestina que se realizam desde o dia 7 de outubro nas principais artérias das grandes cidades marroquinas, nem os dirigentes do PJD nem os seus militantes ousaram alguma vez aparecer juntos ou misturar-se com a multidão em fúria. Numa tentativa de reparar os danos causados pelo antigo secretário-geral, que tinha assinado o acordo de normalização, o novo líder do PJD, Abdelilah Benkirane, populista e antigo chefe de governo (2011-2016), intensifica as suas saídas mediáticas. "Sim, o PJD cometeu um erro ao assinar a normalização, admitimos isso. Mas o partido nunca foi a favor desta normalização", declarou em lágrimas, a 19 de novembro de 2023, perante uma plateia de militantes. Chegou mesmo a oferecer ao líder do Hamas, Khaled Meshaal, que se encontrava de visita a Marrocos, um palco a partir do qual o líder palestiniano, perante a assistência, apelou aos marroquinos para que "apelassem aos seus dirigentes (...) para que rompessem relações, interrompessem a normalização e expulsassem o embaixador", o que suscitou a ira da comitiva real, que considerou a intervenção como "uma ingerência intolerável e um apelo à revolta mal dissimulado".

Para reabilitar o seu partido, Abdelilah Benkirane chegou mesmo a fazer declarações abertamente anti-semitas: "Podem ter cientistas como Einstein, mas não são muito clarividentes. É por isso que Deus os favoreceu no início e os amaldiçoou há 2000 anos. Porque, na realidade, são parvos. A sua idiotice leva-os a acreditar que é a força que resolve o problema. Tentativas que, no entanto, não tiveram qualquer efeito significativo na imagem do partido ou dos seus dirigentes, que continuam a ser dos menos respeitados na cena política marroquina.


UMA ORGANIZAÇÃO HIERÁRQUICA

No entanto, a ausência do PJD foi rapidamente preenchida por outro movimento islamista marroquino: a organização Justiça e Espiritualidade (Al-ʿAdl wa l-Iḥsān). Considerada ilegal mas tolerada pelo regime marroquino, a Justiça e Espiritualidade é um movimento que não reconhece o estatuto religioso do rei e contesta os seus amplos poderes políticos. Está também muito presente nas manifestações pró-palestinianas através da mobilização, nomeadamente em Rabat e Casablanca, da maioria dos seus apoiantes. Conhecido pela sua organização hierárquica, pela disciplina dos seus membros e pelos meios utilizados para assegurar a máxima visibilidade no espaço público, o movimento não podia deixar passar a oportunidade do 7 de outubro para se afirmar como "a única escolha islamista possível" após o fiasco eleitoral e político do PJD.

Muito presentes nas redes sociais, logo que os meios de comunicação oficiais foram encerrados, os activistas não hesitaram em utilizar a questão palestiniana e a questão da normalização como principais argumentos para ganhar o apoio dos desencantados do PJD, mas também para os utilizar como alavancas para desafiar o regime monárquico e a sua legitimidade religiosa - o rei Mohamed VI é simultaneamente "comandante dos fiéis" e presidente do Comité Al-Quds1 para a Palestina.

 

UM SILÊNCIO TUMULAR

Quanto às outras formações políticas, continua a existir uma forte desconexão com a população que os partidos são supostos representar e enquadrar de acordo com a Constituição. Para estes partidos, totalmente domesticados pela monarquia, a questão palestiniana tornou-se, desde a assinatura do acordo de normalização, uma linha vermelha a não ultrapassar, com excepção do Partido Socialista Unido (PSU) e da Via Democrática (Annahj Addimocrati), duas organizações de esquerda ultra-minoritárias.

Se um partido se atreve a criticar os ataques israelitas a Gaza e o número assustador de vítimas, fá-lo evitando cuidadosamente apelar ao fim da normalização. O que isto significa em termos concretos é que os partidos políticos estão ausentes das manifestações pró-palestinianas. Será esta uma estratégia prudente dos dirigentes políticos, para não suscitar a ira do rei e do seu séquito? Não respondem. Um silêncio de pedra. Mesmo quando, a 12 de janeiro de 2024, a África do Sul acusou Israel de genocídio em Haia, perante o mais alto tribunal das Nações Unidas, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), que tem entre os seus membros o jurista marroquino Mohamed Bennouna. Simultaneamente, o Gabinete de Ligação marroquino em Telavive anunciou o reinício de todos os serviços consulares a partir de 22 de janeiro, após a suspensão a 19 de outubro de 2023, quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita tinha ordenado a evacuação do pessoal do Gabinete de Ligação em Rabat, em resposta à vaga de protestos de rua.

O mesmo silêncio foi mantido pela família real, à excepção de um lacónico comunicado de imprensa a 17 de outubro, no dia seguinte ao bombardeamento do hospital Al-Ma'amadani em Gaza pelo exército israelita, que causou centenas de mortos e feridos entre a população palestiniana: "O Reino de Marrocos reitera o seu apelo para que os civis sejam protegidos por todos os lados e não sejam visados. Sua Majestade o Rei Mohamed VI, que preside ao Comité Al-Quds, sublinha a urgência de unir os esforços da comunidade internacional para pôr fim às hostilidades o mais rapidamente possível, em conformidade com o direito humanitário internacional, trabalhando para evitar que a região se afunde numa nova escalada e em novas tensões".

Um silêncio que vai de par com a sua ausência do país do Rei desde 4 de dezembro. Com efeito, o Presidente do Comité Al-Quds empreendeu uma longa viagem, apenas parcialmente oficial, que o levou primeiro aos Emirados Árabes Unidos, onde foi recebido com pompa e circunstância pelo novo Presidente, o Xeque Mohammed bin Zayed, antes de voar a 17 de dezembro para as Seychelles, o arquipélago africano com 115 ilhas paradisíacas no Oceano Índico. O Rei partiu depois para Singapura, onde festejou a passagem de ano, antes de regressar finalmente a Rabat a 11 de janeiro, no dia da assinatura do Manifesto da Independência, celebrado em Marrocos.

 

Omar Brouksy

Jornalista e professor de ciências políticas em Marrocos. Foi chefe de redação do “Journal hebdomadaire” até ao seu encerramento, em janeiro de 2010, e jornalista da Agence France-Presse. É autor de “Mohamed VI derrière les masques” (2016), “Le fils de notre ami” para as Editions Nouveau-Monde, Paris, em 2014 e “La République de Sa Majesté”; “France-Maroc, liaisons dangereuses” (com um prefácio de Alain Gresh) também publicado pela Nouveau-Monde em 2017. Estes dois livros foram proibidos em Marrocos.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Marrocos e Staffan de Mistura De Mistura: o que está a acontecer era esperado desde o primeiro dia!

 

Steffan De Mistura e o Ministro de Relações Exteriores de Marrrocos, Nasser Bourita

Marrocos está a intensificar os seus ataques ao Enviado Pessoal do Secretário-Geral da ONU para o Sahara Ocidental, De Mistura, ameaçando cortar relações com ele devido à sua visita à África do Sul a convite de Pretória. A verdade é que esta visita não passa de um pretexto inventado para romper com o enviado depois de se ter verificado que ele não pode ser domesticado ao gosto de Marrocos, como o provam:

1. O atraso de Marrocos em aprovar a sua nomeação (outubro de 2021) depois de ter sido proposto pelo Secretário-Geral e aprovado pela Frente POLISARIO cinco meses antes

2. A obstrução de Marrocos ao seu mandato, impedindo De Mistura de visitar a parte ocupada do Sahara Ocidental (julho de 2022) antes de o autorizar dois meses depois,

3. Continuando a sua obstrução arrogante na crença de que "a missão do enviado é legitimar o facto consumado colonial". Ao fazê-lo, Rabat pretende criar as condições para o forçar a demitir-se, como aconteceu com o seu antecessor "Horst Köhler", que se demitiu por razões de saúde que, na verdade, não passavam de "tensão alta" causada pelo desprezo de Marrocos e pela inação do Conselho de Segurança da ONU,

4. A visita à África do Sul não passa de um pretexto e, se não tivesse tido lugar, Marrocos teria inventado outra coisa. Rabat terá chegado à conclusão de que era necessário livrar-se do homem depois de ele ter compreendido o conflito por dentro, longe da visão simplista "deslumbrada" pelas "armadilhas" da propaganda da ocupação a partir do exterior.

5. A reunião na África do Sul faz parte do mandato do PE, como confirmou o porta-voz do Secretário-Geral da ONU, Dujarric, a 31 de janeiro. Basta dizer que, desde a sua nomeação, De Mistura reuniu-se com o hemisfério, incluindo os Emirados Árabes Unidos, em mais de duas ocasiões, em 2021 e 2023. Marrocos continuará a sua campanha e, em última análise, a ONU não terá falta de "razões pessoais" ou "razões de saúde" para justificar a decisão de se demitir. Mas, se isso acontecer, nenhum deles conseguirá esconder a verdadeira razão, que é o fracasso crónico do Conselho de Segurança da ONU em cumprir o seu mandato histórico de descolonização do Sahara Ocidental.

Post em x.com (antigo Twitter) de Oubi Bouchraya Bachir, representante da Frente POLISARIO na Suiça e ante as Nações Unidas em Genebra.

Países Baixos julgam espião marroquino por roubar mais de 65 terabytes de dados confidenciais e tentar passá-los para Marrocos

 

Ilustração Freepik

ECS - 15-02-2024 | Abderrahim el M, 64 anos, de nacionalidade marroquina, residente em Roterdão (Países Baixos), que tinha trabalhado para o Coordenador Nacional Neerlandês para a Segurança e o Contraterrorismo, foi detido no aeroporto de Schiphol no ano passado, quando estava prestes a viajar para o seu país de origem, Marrocos.

Em sua casa, terão sido encontrados 300 dispositivos de armazenamento de dados, contendo um total de 65 terabytes de dados. Aquando da sua detenção, M. tinha consigo um outro suporte que continha pelo menos uma centena de documentos classificados, 23 dos quais eram segredos de Estado, relativos ao período entre 2007 e 2023, declarou o Ministério Público. Os contactos de M. com os serviços secretos marroquinos remontam a 1995, tendo-se deslocado frequentemente a Marrocos para se encontrar com os serviços secretos marroquinos, acrescentam as autoridades neerlandesas.

O espião marroquino foi descoberto pela AIVD (Serviço Geral de Informações e Segurança), que filmou M a imprimir e a embalar informações confidenciais num saco, e alertou a justiça para as actividades ilícitas de Abderrrahim El M. Os serviços secretos neerlandeses descobriram também que Abderrahim mantinha contactos regulares com o chefe da unidade marroquina de contraespionagem, que organizava também os seus voos frequentes para Marrocos. Para além da identidade de quatro membros da DGED (Serviço de Informações Marroquino) que terão sido encontrados no seu telemóvel.

Um dos documentos da AIVD, datado de 2021, continha uma análise das actividades dos serviços secretos marroquinos nos Países Baixos, que poderia "prejudicar os interesses vitais dos Países Baixos se fosse tornada pública", afirmou o Ministério Público. A investigação durará pelo menos um ano. "Há cerca de 46 terabytes de informação nos dispositivos, o equivalente a 11,5 mil milhões de páginas A4", disse.

O julgamento de Abderrahim teve início a 2 de fevereiro e, se for condenado, poderá passar até 15 anos na prisão. Não esteve presente durante a audiência. Invocou o seu direito ao silêncio, segundo o seu advogado, porque o seu antigo trabalho como agente da polícia e agente secreto o obriga a manter a confidencialidade. No entanto, nas palavras do seu advogado, Bart Nooitgedagt, o seu cliente continua a ser leal aos Países Baixos.

Foi também detida uma outra mulher relacionada com o caso, que alegadamente ajudou M a imprimir os documentos a partir dos computadores. Afirmou que não sabia o que M queria com os documentos. Foi libertada, mas continua a ser suspeita.

Este caso de alegada espionagem poderá afetar ainda mais as relações entre Marrocos e os Países Baixos. Nos últimos anos, os dois países têm tentado ultrapassar um período de tensão diplomática resultante das críticas holandesas à reação de Marrocos aos protestos registados na região do Rif. Esta situação tem sido agravada pelos escândalos de espionagem que têm afetado Marrocos na UE.

A União Africana expulsa da sua sede uma delegação israelita que pretendia participar na sua Cimeira

 


15-02-2024 | ECS - A União Africana impediu uma delegação israelita de entrar na sua sede na véspera do início da Cimeira Africana em Adis Abeba. A delegação acabou por ser expulsa.

A organização continental recusou-se a permitir que o diretor-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita participasse nas suas reuniões preparatórias. "Os esforços da delegação israelita para persuadir os Estados membros a aceitarem o estatuto de observador de "Israel" na União Africana foram rejeitados pela coligação anti-normalização liderada pela Argélia e pela África do Sul", segundo fontes diplomáticas.

Delegação israelita expulsa da Cimeira da UA, chegou secretamente de mãos dadas com Marrocos.

A delegação israelita chegou na passada terça-feira a Adis Abeba, sede da UA, para realizar reuniões e consultas com países aliados e apoiantes do estatuto de observador de Israel na União Africana. A delegação israelita que chegou a Adis Abeba incluía o Diretor-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Yakov Blichstein, e o Diretor do Departamento de Gestão de África, Amit Bias.

A delegação de Telavive chegou a Adis Abeba numa nova tentativa de persuadir alguns países a apoiar a adesão de "Israel" à União Africana com o estatuto de observador, depois de todos os pedidos anteriores terem sido rejeitados. As tentativas de "Israel" prosseguem apesar da expulsão, no ano passado, da delegação israelita, chefiada pelo responsável africano, Barley Sharon.

De acordo com fontes diplomáticas, a África do Sul e a Argélia expulsaram a delegação israelita e rejeitaram Telavive como membro observador da UA.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

O Presidente da Irlanda recebe Brahim Ghali, Presidente da RAD e SG da Frente POLISARIO

 

O Presidente irlandês, Michael Daniel Higgins, recebe Brahim Ghali

Dublin (Irlanda), 15 de fevereiro de 2024 (SPS) – O Presidente da República e Secretário-Geral da Frente POLISARIO, Brahim Ghali, foi recebido pelo seu homólogo irlandês, Michael Daniel Higgins, no Palácio Presidencial.

Durante o encontro, que se insere no âmbito de uma visita de dois dias à Irlanda que leva a cabo o Presidente Brahim Ghali, foram discutidos os desenvolvimentos na questão saharaui, bem como as perspectivas de trabalho futuro, especialmente no domínio da solidariedade na Irlanda, na Europa e no resto do o mundo.

A reunião, que se expandiu para incluir as delegações dos dois países, discutiu também as posições da Frente POLISARIO relativamente aos acontecimentos que ocorrem no mundo e à questão saharaui à luz da realidade da guerra.

Neste contexto, o Presidente Michael Daniel Higgins renovou a posição do seu país em apoio ao direito do povo saharaui à liberdade, à autodeterminação e à independência, em linha com o respeito pelo direito internacional, pelo direito humanitário internacional e pela Carta das Nações Unidas e pelas resoluções relevantes no Ocidente.





O Presidente da República saharaui era acompanhado nesta visita, que prosseguiu na quinta-feira, por uma delegação que incluia membros do Secretariado Nacional, o Ministro Assessor da Presidência responsável pelos Assuntos Diplomáticos, Mohamed Salem Ould Salek, o Embaixador-designado para a Europa e as instituições europeias, Omar Mansour, o Representante da Frente POLISARIO junto das Nações Unidas e Coordenador junto da MINURSO, Sidi Mohamed Omar, o Conselheiro da Presidência, Salha Al-Abd, e o Representante da Frente POLISARIO na Irlanda, Nafi Al-Rayes.

A Guerra no Sahara Ocidental de 01 a 15 de Fevereiro


Durante a primeira quinzena de fevereiro prosseguiram as acções do Exército de Libertação do Povo Saharaui (ELPS) contra as forças de ocupação marroquinas ao longo do muro defensivo erigido pelas Forças Armadas Reais marroquinas. Os combates concentraram-se particularmente nas regiões do nordeste e norte do território do Sahara Ocidental, nomeadamente em nas zonas de Mahbes, Housa e Guelta.

Entre as várias operações de desgaste e flageração das posições inimigas, o ELPS divulgou a destruição da sede de um batalhão das FAR localizado na região de Tukkat, no sector de Housa.


domingo, 11 de fevereiro de 2024

Omar Mansur: "Estamos a tentar manter o conflito saharaui a uma baixa intensidade"

Omar Mansur

Por Héctor Santorum - NuevaRevolucion.es | 10/02/2024

Omar Mansur, membro do Secretariado da Frente Polisario e responsável pelas relações com a União Europeia, faz um balanço da situação atual no Sahara Ocidental. Nesta entrevista, o dirigente saharaui aborda vários temas que vão desde a situação atual do conflito saharaui até às relações com a União Europeia e as instituições europeias.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Ex-enviado do SG da ONU para o Sahara Ocidental reconhece "fortes pressões" de Marrocos para apoiar a sua tese

 

Christopher Ross

Madrid (ECS) 07-02-2024 - O antigo enviado pessoal do secretário-geral da ONU para o Sahara Ocidental, o embaixador norte-americano Christopher Ross, exerceu o seu direito de resposta ao artigo publicado pelo jornal online marroquino "Maroc Diplomatique". No passado dia 4 de fevereiro, o referido jornal digital marroquino publicou um artigo intitulado "Sahara marocain: Staffan de Mistura, de quelle "magouille" est-il le nom ?" ("Sahara marroquino: Staffan de Mistura, de que tipo de "esquema" está a falar?), no qual o diplomata norte-americano Ross era mencionado. No dia 6 de fevereiro, Ross reagiu e o referido órgão de comunicação social publicou a sua resposta na qual o ex-enviado reconhece que Rabat exerceu pressões sobre os enviados da ONU.

O ex-diplomata norte-americano deu a entender que entre os factores que torpedearam as negociações está o medo de Marrocos, a sua certeza do resultado do referendo, que será a escolha do povo saharaui pela independência. Além disso, o responsável deixou claro que Marrocos está certo de que os saharauis querem a independência em benefício do seu Estado, a RASD.


Omar Hilale, representante do Reino de Marrocos na ONU

"O meu amigo, o embaixador Hilale [representante do Reino de Marrocos na ONU], chamou-me uma vez publicamente o melhor advogado que a Argélia alguma vez teve. No seu último artigo no Maroc Diplomatique, ele superou-se não só repetindo o seu «bon mot», mas também chamando-me membro da 'junta sem lei' da Argélia e acusando-me de ser incrivelmente hostil para com Marrocos. Estas tentativas de difamação merecem uma resposta que a ética jornalística exige que seja publicada", lamenta Ross na sua resposta publicada pelo digital marroquino.

Ross recorda que exerceu durante oito anos as funções de enviado pessoal do Secretário-Geral da ONU para o Sahara Ocidental. "A minha missão, tal como definida nas sucessivas resoluções do Conselho de Segurança, era facilitar as negociações directas entre Marrocos e a Frente Polisario, com vista a alcançar "uma solução política mutuamente aceitável, que preveja a autodeterminação do povo do Sahara Ocidental". Para esse efeito, as duas partes apresentaram as suas propostas em abril de 2007", lê-se na resposta do antigo enviado da ONU.

O diplomata norte-americano esclarece dúvidas e confirma que, durante os oito anos em que foi mediador da ONU, nunca apoiou nenhuma das propostas apresentadas por Marrocos e pela Frente Polisario, apesar das fortes pressões exercidas por Rabat para que defendesse a sua proposta de autonomia sob a soberania marroquina. "Defendi uma solução política como previsto nas resoluções do Conselho de Segurança. Nunca defini a forma que a autodeterminação deveria assumir e desafio os meus amigos marroquinos a citar qualquer declaração que eu tenha feito ao longo de oito anos a favor de um referendo. Acreditava firmemente que os termos da autodeterminação deveriam ser abordados em negociações entre as partes", acrescenta Ross.

O antigo mediador da ONU para o Sahara Ocidental acrescenta que, em cada uma das suas visitas à Argélia nos últimos oito anos, teve a oportunidade de pedir ao antigo presidente argelino Abdelaziz Bouteflika que o ajudasse na sua missão. "A sua resposta foi invariavelmente que a Argélia apoiaria qualquer decisão da Polisario, mas que, na sua opinião, qualquer acordo deveria passar por um referendo, como é o caso na própria Argélia. Marrocos está claramente dececionado com o facto de a Argélia não poder ser forçada a fazer mais para promover uma solução a seu gosto. Como Estado soberano, manteve a sua posição. Este foi o primeiro elemento de insatisfação de Marrocos em relação a mim", reconheceu Ross.

Ao longo dos anos, continua Ross, e vendo-me repetir constantemente a minha declaração de missão tal como consta das resoluções da ONU, Marrocos lamentou que eu nunca abandonasse a minha neutralidade para dar à sua proposta a "preeminência" que procurava. "Parece que Marrocos queria aplicar o princípio de que se eu não estou com ele, devo necessariamente estar contra ele. Para dizer a verdade, nunca me passou pela cabeça ser hostil a Marrocos, um país onde passei três anos maravilhosos da minha vida no início da minha carreira de diplomata americano e onde sempre tive amigos. Custa-me que o governo marroquino e alguns meios de comunicação social marroquinos me considerem hostil porque a minha neutralidade como mediador me impediu de promover a posição de Marrocos. Mas é uma pena. A vida é assim mesmo", conclui Ross.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

UE cedeu a “chantagem” de Marrocos nas migrações? Sim, como já aconteceu no passado. Sara Ocidental tem razões para se preocupar

 


A contrapartida que Rabat privilegia no acordo alcançado com Bruxelas é o reconhecimento pelos 27 da sua soberania sobre um território que anexou há quase meio século. Não é a primeira vez que a UE se mostra “vulnerável” a exigências de países terceiros por ser incapaz de lidar com as migrações, lembram especialistas. O representante da Frente Polisário em Portugal equipara o Sara Ocidental a Timor-Leste e apela a esforços diplomáticos para a realização de um referendo de autodeterminação. “Somos os timorenses do Magrebe”, afirma ao Expresso.

 

Hélder Gomes - Jornalista | EXPRESSO

 

Após sete anos de negociações, Marrocos e a União Europeia (UE) chegaram a acordo, em dezembro, para um pacto das migrações.

O diretor executivo da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira (Frontex), Hans Leijtens, deslocou-se a Rabat com um objetivo na agenda: reforçar o diálogo e a cooperação com as autoridades marroquinas de gestão fronteiriça. “Marrocos destaca-se como parceiro crucial em África”, afirmou.

Mas o estatuto crescente de Marrocos como ‘guardião’ das fronteiras da UE não agrada a Rabat apenas pelas contrapartidas financeiras. Há outro preço com forte carga simbólica: o Governo marroquino pretende que os 27 Estados-membros aceitem a sua reivindicação sobre o Sara Ocidental.

“A equação é que a UE apoie a reivindicação territorial de Marrocos e que Marrocos apoie a política de refugiados da Europa”, disse Sonja Hegasy, vice-diretora do centro de investigação alemão Leibniz-Zentrum Moderner Orient, à Deutsche Welle.

O Sara Ocidental é uma antiga colónia espanhola anexada por Marrocos em 1975. A reivindicação marroquina sobre este território não é reconhecida pelas Nações Unidas e a ocupação é, para todos os efeitos, ilegal à luz do direito internacional. A Frente Polisário, movimento apoiado pela Argélia, representa o povo sarauí na sua luta de quase meio século pela autodeterminação e autonomia do Sara Ocidental, tendo proclamado a República Árabe Sarauí Democrática.

Jacob Öberg, professor de Direito da UE na Universidade da Dinamarca do Sul, diz que os 27 não deveriam ter chegado a acordo com Marrocos nestes termos, porque tal significou uma cedência à “chantagem” de Rabat. No entanto, acrescenta ao Expresso, “a UE não está, de forma alguma, legalmente obrigada a aceitar a reivindicação” marroquina sobre o Sara Ocidental. Nem deve fazê-lo, defende o académico.

 

“GOVERNOS DA UE VULNERÁVEIS, COLETIVA E INDIVIDUALMENTE, À ‘MILITARIZAÇÃO’ DAS MIGRAÇÕES”

Os números mostram, contudo, uma relação de forte dependência. Segundo comunicado recente das Forças Armadas Reais Marroquinas, cerca de 87 mil migrantes foram detidos no ano passado, um aumento acentuado em comparação com os cerca de 56 mil detidos entre janeiro e agosto de 2022. Marrocos tem servido de zona-tampão que impede, através de medidas repressivas, a entrada de migrantes no espaço europeu.

Referindo-se ao acordo entre Marrocos e a UE, Susi Dennison, diretora sénior do grupo de reflexão European Council on Foreign Relations (ECFR) para a transformação e estratégia, prefere o termo weaponisation – ou seja, ‘militarização’ do assunto. “Os governos da UE continuam a ser, coletiva e individualmente, vulneráveis à ‘militarização’ das migrações, devido à incapacidade coletiva de resistir ao enquadramento populista da migração como ameaça e à consequente preocupação dos governos europeus em gerir o número de chegadas que, na realidade, são bastante fáceis de absorver”, diz ao Expresso.

Este modo de agir não é novo e a investigadora do ECFR dá três exemplos recentes, incluindo um que envolveu Marrocos há quase três anos. “À medida que governos de países terceiros veem os países da UE ceder, uma e outra vez, à ameaça da weaponisation, a Europa torna-se progressivamente mais vulnerável”, sentencia Dennison.

Em 2021, a Turquia ameaçou enviar refugiados para a Europa se a UE não satisfizesse as suas exigências nas negociações sobre um pacote de apoio a refugiados sírios, lembra. Outro exemplo foi a decisão da Bielorrússia, no mesmo ano, de encorajar migrantes do Médio Oriente a entrarem na Polónia – “e a recusa de Varsóvia em cooperar com a Comissão Europeia na gestão do assunto”.

 

ESTADOS-MEMBROS ENCARARAM MIGRAÇÕES “APENAS SOB O PRISMA DOS INTERESSES NACIONAIS”

A Turquia e a Bielorrússia agiram deste modo por acreditarem que “a UE cederia à sua coerção”. “O mesmo fez Marrocos quando usou migrantes africanos para pressionar Espanha no verão de 2021. E tinha razão: na esperança de responder às preocupações da opinião pública sobre a migração, o Governo espanhol decidiu, em março de 2022, pôr fim à sua rejeição de longa data da reivindicação de Marrocos sobre o Sara Ocidental”, refere. Esta decisão de Madrid “enfureceu” a Argélia, “país que poderia tornar-se um fornecedor de energia cada vez mais importante para a Europa”.

As dificuldades em chegar a acordo sobre o pacto das migrações revelam que “muitos Estados-membros não só não dispõem dos sistemas necessários para trabalharem em conjunto no sentido de reforçar a soberania em matéria de migração como não têm a vontade coletiva de o fazer”. Mais: “Ao continuarem a encarar a questão apenas sob o prisma dos interesses nacionais”, os 27 “têm reduzido a capacidade das instituições da UE para enfrentar os desafios nesta área”.

O ‘umbiguismo’ que vai enformando a política migratória no conjunto da UE acaba por ter consequências domésticas. França é exemplo disso, adianta Douglas Yates, professor da American Graduate School (AGS) em Paris. “A relação do Presidente Emmanuel Macron com Marrocos tem sofrido com esta política”, avalia. Uma política que “deve ser entendida antes como esforço para reconquistar [o partido de direita] Os Republicanos e talvez afastar os eleitores do Reagrupamento Nacional [antiga Frente Nacional, de Marine Le Pen, extrema-direita]”. Para o docente da AGS, “os marroquinos continuam a ser uma das maiores comunidades de imigrantes a viver em França e, por boas razões, continuarão a sê-lo, apesar desta política”.

 

A “CHANTAGEM” DE MARROCOS E O VOLTE-FACE DE ESPANHA (E NÃO SÓ)

Omar Mih, representante da Frente Polisário em Portugal desde maio de 2022, é perentório. “Ninguém pode dar a Marrocos a legitimidade de uma soberania sobre um território que há mais de 50 anos está inscrito na agenda das Nações Unidas como território não autónomo e a descolonizar”, diz, numa conversa com o Expresso em Lisboa. O desejo de Marrocos de conseguir essa legitimidade através de acordos sobre a imigração é, por isso, “uma perda de tempo”, mas é o modus operandi de um país “especialista em chantagem e numa política de corrupção”.

A companhia aérea nacional Royal Air Maroc transporta imigrantes para Rabat, Casablanca e outras cidades, e depois Marrocos usa-os para chantagear, acusa Mih, que elege a transportadora como “primeiro ator da imigração ilegal [irregular]”. “Chamamos-lhe Aero Patera”, diz, sendo que patera é, em espanhol, um barco improvisado e, neste contexto, uma alusão às embarcações sem condições de segurança em que muitos migrantes viajam, acabando frequentemente por ser detidos ou morrer.

Em troca da cooperação fronteiriça com Marrocos, Espanha apoiou em 2022 um plano de autonomia limitada para o Sara Ocidental. Não foi o único país a protagonizar um volteface. Dois anos antes, os Estados Unidos, ainda sob a administração de Donald Trump, já haviam reconhecido a soberania de Marrocos sobre o território como contrapartida pela normalização das relações diplomáticas de Rabat com Israel. Os países do Golfo também apoiaram a reivindicação marroquina sobre uma região rica em fosfatos com investimentos em infraestruturas e energia.

“Espanha tem responsabilidade histórica, jurídica, moral e política com o povo do Sara Ocidental. Para as Nações Unidas, até hoje, Espanha é a potência administradora do território”, insiste o representante da Frente Polisário. Segundo Mih, “o que aconteceu em 2022 foi surpreendente, porque não foi uma decisão tomada no Conselho de Ministros e não foi discutida nas Cortes [Parlamento] nem com as forças políticas”. E os espanhóis souberam que o seu país passaria a considerar “a proposta de autonomia como a mais realista” através de uma carta publicada pelo Palácio Real de Marrocos, lamenta. 

 

“SOMOS OS TIMORENSES DO MAGREBE”

Mih tem-se esforçado por equiparar a situação do Sara Ocidental com a de Timor-Leste. Foram ambos “invadidos por países vizinhos” – Marrocos no primeiro caso, Indonésia no segundo – no mesmo ano. E para ambos as Nações Unidas defenderam um referendo de autodeterminação. A diferença é que a consulta popular foi realizada na antiga colónia portuguesa, e Timor-Leste tornou-se, em 2002, o primeiro novo Estado soberano do século XXI.

“Somos os timorenses do Magrebe”, declara o representante da Polisário, para quem haverá “muito a ganhar” com um referendo no Sara Ocidental: “estabilidade da região, travão à imigração, intercâmbios comerciais”. Desde que chegou a Lisboa, Mih tem reiterado que “Portugal pode convencer os vizinhos, pode convencer e ajudar Espanha a fazer o que fez em Timor-Leste, ensiná-la como foi feito”. Mesmo no âmbito da UE, “Portugal pode ser um dos protagonistas” na pressão diplomática para que se realize um referendo.

Os povos do Magrebe estão “um pouco fartos” de que a UE olhe para a região e só veja Marrocos. “Há outros povos que estão a lutar para se desenvolverem e contra o terrorismo e a imigração ilegal [irregular], e têm de ser escutados”, frisa, apelando, de caminho, a uma mudança da posição europeia para que a UE deixe de ser “um ator dentro do problema” e passe a ser “um ator que é parte da solução para resolver o problema”.

 

“E, DEPOIS, O QUE PEDIRÁ MARROCOS?”

Mih deixa um alerta aos 27: “E, depois, o que pedirá Marrocos? Ceuta e Melilha? Que entreguem os refugiados políticos marroquinos? Que bombardeiem e liquidem os sarauís? O que se seguirá? Haverá sempre migrantes. E a Europa terá de pagar todos os anos, ou talvez em ciclos mais curtos, algo importante pelos seus recursos, valores e dignidade. E continuará a chantagem, porque quando se aceita uma vez, tem de se aceitar sempre. Hoje, o preço são os direitos dos sarauís. Amanhã será a dignidade dos europeus. E depois, quem sabe, outras coisas que agora nem conseguimos imaginar”.

Por sua vez, Susi Dennison deixa uma nota de otimismo e manifesta um desejo. A nota de otimismo da responsável do ECFR: “Os Estados Membros fizeram progressos em matéria de migração desde que a Rússia iniciou a sua invasão em larga escala da Ucrânia, em particular através da decisão coletiva de ativar a diretiva de proteção temporária”.

E o desejo: “Espera-se que o pacto das migrações demonstre maior sensibilização para a necessidade de refletir, a nível europeu, sobre a melhor forma de garantir que o medo político não continue a orientar a tomada de decisões europeias em matéria de migração e, consequentemente, a limitar o poder geopolítico dos europeus neste domínio”.