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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Desaparecidos saharauis: descoberta de três novas fossas comuns




ARGEL (APS) - Seis corpos de desaparecidos saharauis foram exumados de três novas fossas comuns descobertas recentemente por peritos espanhóis na região de Smara junto de Amgala, informou hoje o presidente da Associação das Familiares dos Presos e Desaparecidos Saharauis (AFAPREDESA), Abdesslam Omar.

A descoberta teve lugar em "novembro de 2014 por peritos científicos espanhóis, de renome internacional, que exumaram os restos mortais dos seis cidadãos saharauis descobertos em três fossas comuns em Fadret Leguiaa, região de Smara, perto de Amgala", afirmou Abdesslam Omar à APS.

Aquele dirigente disse que os "peritos espanhóis estão realizando atualmente a identificação genética dos corpos." "Trata-se de uma operação complexa que vai levar tempo", disse ele, afirmando que se "fará luz sobre a identidade dessas pessoas."

Abdesslam Omar denunciou, na ocasião, o facto da equipa médica espanhola "não ter podido estender suas investigações aos territórios ocupados por Marrocos, onde as valas comuns estão concentradas."

Denunciou, igualmente, o facto de apesar das pressões das Nações Unidas e do Parlamento Europeu, em particular, "Marrocos teimar na sua posição de recusa" em respeitar a legalidade internacional. Uma situação "que não pode continuar", disse.

O Presidente da AFAPREDESA insurgiu-se a este respeito contra a "recusa das autoridades marroquinas em permitir que as organizações internacionais possam visitar os territórios ocupados do Sahara Ocidental e dizer a verdade sobre as violações cometidas por forças marroquinas."

Segundo Abdesslam Omar, "mais de 400 saharauis estão identificados como vítimas de desaparecimentos forçados", acrescentando que muitos outros estão desaparecidos devido aos bombardeamentos da aviação marroquina em Oum Draiga, Guelta e em Tifariti em 1976.

A descoberta destas novas fossas vem juntar-se a uma outra encontrada em junho, quando oito corpos de saharauis assassinados em fevereiro de 1976 foram identificados pela mesma equipa espanhola liderada pelo Dr. Carlos Martin Beristain e o seu colega Francisco Etxeberria.

As macabras ações marroquinas já haviam sido reveladas no início de 2013 com a descoberta de duas valas comuns perto Smara, não muito longe do "muro da vergonha".


Os restos de 60 corpos, pelo menos, incluindo crianças, foram então encontrados e a identificação de nove deles tinha permitido estabelecer que se tratava de civis saharauis executados por forças marroquinas durante a invasão e a ocupação do Sahara Ocidental em 1976.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Mohamed Fadel Leili, advogado saharaui: “Continuo com a minha promessa de defender os saharauis que sofrem torturas”


Mohamed Fadel Leili


Por: Blanca Enfedaque

Ninguém como ele pode entender melhor os seus clientes: os presos políticos saharauis. Este advogado, que foi sequestrado durante 16 anos, desenvolve a sua atividade profissional num Estado ocupado, o Sahara Ocidental. Mohamed Fadel Leili licenciou-se em Direito após ter sofrido essa desaparição forçada em prisões secretas junto com toda a sua família. Após a sua libertação retomou a sua vida no mesmo ponto onde lha roubaram e completou os seus estudos. Atualmente, terminou o seu doutoramento em Direito Internacional, especializado em conflitos de fronteiras em África ante o Tribunal Internacional de Haya.

Hoje teve um dia de trabalho extenuante mas, apesar disso, a sua camisa não tem nem uma ruga arruga e conserva um sorriso sábio no rosto. Acaba de voltar ao seu escritório, junto à avenida La Meca de El Aaiun (Sahara Ocidental) depois de ter estado na sede de uma associação, onde deu uma sessão de formação em direitos humanos a ativistas saharauis, explicando aos seus compatriotas os contornos da justiça e da legalidade internacional para defender a sua causa: a independência do povo saharaui.

Mas talvez o período mais intenso do dia tenha sido o julgamento que teve pela manhã. O seu cliente, Abdeslam Loumadi, era acusado de lançar um cocktail molotov contra um carro da polícia marroquina. Um delito que no código penal da potência ocupante, Marrocos, (artigos 580 e 585), pode ir de cinco anos de prisão até à pena de morte.

O advogado saharaui está satisfeito: conseguiu uma condenação de 10 meses. Qualquer outro advogado estaria exultante, eufórico. Mas Fadel Leili não. Sabe que o seu cliente era inocente, mas é um preso político mais. Sabe que as acusações desproporcionadas são uma ferramenta das forças de segurança marroquinas, em conivência com alguns juízes, para angustiar a população autóctone. Para os desgastar, para instá-los a que abandonem o ativismo.



É por isso que, em qualquer país democrático, qualquer sistema jurídico se ateria a julgar os factos e como resultado haveria uma absolvição. Nem os três polícias que a acusação levou como testemunhas, e que asseguraram não reconhecer o acusado porque o atacante levava um turbante que lhe tapava a cara, nem a confissão sob tortura que a polícia o obrigou a assinar, serviram para ganhar este julgamento.
"Às vezes os antecedentes de um réu nem sequer são considerados como agravantes, porque os tribunais já sabem que as acusações não são verdadeiras", comenta Mohamed Fadel Leili.
Seu escritório está localizado numa humilde comunidade de um bairro pobre, é simples e austero. Chamam a atenção as grades de ferro na entrada da porta. Quando lhe pergunto se recebeu ameaças, Fadel Leili diz que, nos últimos anos, não. "No entanto, a minha secretária vive no bairro de Matala, um lugar onde é comum as forças de segurança marroquinas ou colonos derrubarem as  portas a qualquer pretexto." Ela passa muitas horas no escritório sózinha e tem medo.
Mohamed Bachir Leili forma, junto com Bachir Rguibi Lahbib, Mohamed Boukhaled e Bazaid Lehmad, a equipa jurídica que defende os ativistas saharauis no Sahara ocupado. A sua tábua de salvação nos tribunais. São poucos os saharauis que conseguem obter uma licenciatura em Direito, pois Marrocos impede o desenvolvimento do ensino superior no Sahara Ocidental e quem quer estudar tem que viajar para o território marroquino. É o que fez Fadel Leili em janeiro de 1976, mas com um interregno: os 16 anos passados em que esteve «desaparecido». Mohamed Fadel Leili, antes de ser um advogado, foi sequestrado e detido em várias prisões secretas durante 16 anos, a mesma idade que tinha quando a polícia marroquina o prendeu em Kenitra, a 40 km de Rabat.
Com 32 anos, e depois de ter sofrido torturas indescritíveis, um tratamento desumano e ter visto morrer muitos dos seus amigos e familiares na prisão, Mohamed Fadel Leili tomou a decisão de retomar a sua vida no mesmo ponto onde a deixou: aceder aos estudos para a licenciatura em Direito.
Este é o seu relato sobre os dezasseis anos de desaparecimento forçado:

"Minha família vivia em Tan Tan, mas o meu irmão e eu tínhamos ido para Kenitra, para estudar no liceu, porque em Tan Tan estávamos recebendo ameaças. O meu tio morava em Kenitra e, embora estivéssemos internos, nos fins-de-semana podíamos visitá-lo. Porém, em janeiro de 1976, prenderam o meu irmão, numa vaga de desaparecimentos forçados contra os saharauis. Meu pai, minha mãe, meu tio e minha tia desapareceram a 27 de fevereiro de 76. Eu tinha 16 anos e, embora não soubesse da minha família, tinha recebido informações que garantiam que eles estavam na delegacia da polícia de Agadir ".
Fadel Leili foi levado para a prisão (então secreta) de Derb Moulay Cherif, juntamente com opositores ao regime e presos políticos. Desse lugar lembra a roupa que o obrigaram a vestir, cheia de pulgas e muito maior do que ele, de tal modo que tinha que andar sempre a segurar as calças compridas com as mãos. Nesse lugar também perdeu o seu nome, mudaram-no para 79 ou 97, não se lembra bem.
Os guardas também eram desumanizados, não se sabia o seu nome, havia que chamar a todos “El Hash”, Chefe, sempre que era necessário. Em Derb Moulay Cherif provou o sabor da tortura, longas sessões em que é interrogado sobre a Frente Polisario. Procuram sacar informação sobre a sua estrutura dirigente, perguntam-lhe por El Ouli Mustafa Sayed e por outros dirigentes do Movimento de Libertação, entre eles, outro dos seus irmãos: Mohamed Lamin Ahmed. “Claro que os recordava! Vinham à minha casa, mas eu não passava de uma criança sem ideias políticas”, rememora.

Fossa comum com 8 cadáveres de saharauis recolhida por equipa forense basca 

O seu destino seguinte foi a prisão secreta de Agdez, para onde iam parar a maioria dos saharauis com estudos superiores ou, como ele, que ainda estavam no Liceu. Detêm gente de forma aleatória, não pela sua relação entre si, mas gente que podia construir um movimento de resistência à invasão. Recorda o dia da mudança de prisão como se fosse hoje. “Oitocentos quilómetros em furgoneta, sob um sol abrasador de julho de 1976. Éramos dez jovens, algemados e vendados. Vim um vislumbre de humanidade num dos guardas que transgrediu a proibição de dar-nos de comer ou de beber quando nos deu um trago de água às escondidas. Receberam-nos com torturas e registaram-nos. Então teve  primeira surpresa. “Enquanto me registavam li em francês que no registo de saídas só havia mortos. É então que compreendo que estamos ali para morrer”. Como afirma o médico e psicólogo forense Carlos Beristain, “os procesos repressivos são muito burocráticos”. Há sempre abundante documentação que testemunha a quantidade e qualidade de danos infligidos ao inimigo.

É em Agdez onde consegue ver por uma frincha da cela passar a sua irmã, a sua mãe e a sua tia, e mais tarde o seu pai. “Senti alívio por não estar só, necessitava da família”.

Celas de 5 ou 6 metros quadrados para dez pessoas. Habitáculos vazios com um solo irregular donde irrompem grandes pedras. Mantas do tamanho de um guardanapo grande para passarem as frias noites do deserto. Pratos oxidados que contêm água quente com uma gota de azeite, em que flutua a ferrugem ou um bocado de cenoura tão grande como uma ponta de um dedo. Pela tarde, uma papa de cereais que fica negra em contacto com o óxido. A anemia instala-se nos corpos dos presos. “Perdiam a capacidade de andar, tinham os músculos enfraquecidos. Os dentes caiam e as gengivas estavam em carne viva, houve muitos mortos por desnutrição. Então optaram por nos dar quatro ou cinco tâmaras por dia. Mas nós dávamo-las aos doentes”. “Um dia deram-nos arroz, mas um velho reparou que junto com o arroz havia também pequenas agulhas e deu a voz de alarme. A alegria converteu-se em pesadelo”.

A morte sobrevoa Agdez. Os guardas permitem-lhes realizar o rito muçulmano com os cadáveres dos companheiros. Lavam-nos, envolvem-nos com lençóis brancos e rezam pelas suas almas. Cada vez que os guardas levam um corpo voltam a entregar-nos os lençóis e dizem “estes são para vocês”. Cada vez que um preso morre torturam outro para desviar a atenção dos vivos. A urgência do sofrimento fá-los esquecer aquele que já se foi. “Os guardas quebram a coluna vertebral dos cadáveres e deitam ácido nas suas caras para que não possam ser reconhecidos se alguém vier a descobrir a fossa”.

Qual era o plano das autoridades marroquinas? “Os guardas contam-nos que ao princípio veio o governador da zona, Ouarzazate, e deu ordens para que os presos morressem lentamente, fossem enterrados os corpos e que fossem castigados duramente as sentinelas que ajudem os saharauis”.

“Os guardas não tinham sido treinados (numa referência à formação em torturas que a CIA promoveu). Os guardas de Agdez dão espancamentos sem controlo, sem técnica, com paus com picos, com folhas grandes de palmeira, com garrafas de vidro… São dois ou doze guardas ao mesmo tempo”.

Apesar de tudo isso, Mohamed Fadel Leili e a sua família sobrevivem para conhecer mais uma prisão: Kalaat M’Gouna. “A noite mais dura da minha vida”, descreve rotundo, sem hesitação. É o mês de outubro do ano de 1980. Na caixa de cada camião vão atadas 25 pessoas, todos com o mesmo rolo de corda, para que a cada movimento ou estremeção aperte mais os nós dos outros. “Os militares passam por cima de nós, agridem-nos com a culatra das espingardas na cabeça e nos joelhos. Ao chegarmos cortam a corda e atiram-nos de bruços do camião para o chão. Um companheiro morre de hemorragia interna. Em Kalaat M’Gouna, as pequenas melhorias que tínhamos conseguido em Agdez desvanecem-se”.

E a família? Também tinham sido trasladados para ali, são-lhes dados dez minutos por semana para se encontrarem. Normalmente, nas celas permanecem atados de mãos e pés quatro pessoas. Um novo membro do clã chega à prisão, seu irmão mais novo, detido em 1983. “Um guarda um dia diz à minha mãe que tem um presente para ela, e leva-a a encontrar-se com esse filho, a caminho da sala de tortura. Adverte-a com um sorriso que ele enlouqueceu”. Estão juntos numa sala cheia de soldados. O filho não conhece a sua mãe, mas após uns momentos em que ela lembra-lhe recordações de infância, ele melhora, sorri, liga à realidade. Quando os guardas reparam, levam-no.

E assim sobreviveu a sua família, até à sua libertação.

Em 1991 Marrocos liberta 300 presos saharauis, entre eles Mohammed e a sua família. Levam-nos para El Aaiún onde chegam ao meio-dia. Durante a noite falece o seu pai, após 16 anos em prisões.

Aqui termina o parêntesis, mas não acaba a dor. Com 32 anos regressa ao Liceu, compartilhando as carteiras com jovens de 16 anos. Depois de passar por muitas penúrias económicas, consegue aceder à Universidade de Marraquexe.

Entretanto, o seu irmão mais novo, que havia melhorado psicologicamente graças a um tratamento médico, desaparece. A família empreende a sua busca pelas delegacias da polícia, pelos hospitais… Até que Mohammed chega à morgue. “Dizem-me que só há um corpo, que é de um marinheiro chamado Omar. Mas eu quero vê-lo, é o meu irmão. Afirmam que morreu afogado quando fazia natação. Que se despira, deixou o seu relógio nas sapatilhas e depois o mar devolveu-o juntamente com a roupa. A sua camisa denunciava marcas de pintura, uma sandália estava rota, tinha sinais de estrangulamento…”.

Em 1996 licenciou-se e em 97 passou no seu exame de acesso à advocacia. Em 2003 obtém o título de mestrado em Direito Internacional, e posteriormente doutora-se nesse âmbito, especializando-se em conflitos de fronteiras em África ante o Tribunal Internacional de La Haya. “Hoje prossigo com a minha promessa de defender os saharauis que sofrem torturas. Faço parte de uma equipa de advogados que trabalha de forma voluntária”.

O papel de Mohammed Fadel Leili, e dos seus três companheiros, é considerado como determinante pelos membros das associações saharauis de Direitos Humanos. Em 2011 receberam o prémio da Fundación Abogados de Atocha, um prémio que o Consejo General de la Abogacía Española [Ordem de Advogados espanhola] se comprometeu a impulsionar através de um convénio subscrito no passado mês de maio.

Ninguém melhor do que esta equipa de quatro advogados saharauis, três dos quais foram vítimas de desaparecimentos forçados e tortura, pode entender o sofrimento das pessoas que defendem. “Não gostamos nada do sistema jurídico, mas temos a obrigação de controlar todas as suas facetas. Sofremos quando vemos injustiças pelo único motivo dos acusados serem saharauis. Os juízes marroquinos cometem um delito quando alteram o direito que se deveria aplicar aqui. A nossa experiencia como equipa de advogados é importante, usá-la-emos quando desenharmos o nosso próprio sistema. Quando o Sahara for livre”.




Fonte: lamarea.com

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Marrocos impede concentração pacífica das mães dos 15 jovens saharauis sequestrados




El Aaiún ocupada (SPS) - A polícia marroquina impediu na passada quinta-feira um grupo de cidadãos saharauis de se manifestarem pacificamente frente ao Tribunal de Apelações da cidade saharaui ocupada de El Aaiún para exigir ao Estado marroquino que revele o destino dos seus filhos sequestrados desde o dia 25 de dezembro del 2005.

A polícia evitou de forma brutal e selvática que as mulheres saharauis pudessem chegar ao Tribunal. As mães dos desaparecidos saharauis foram humilhadas e agredidas física e verbalmente e receberam maus-tratos.

Passaram-se nove anos depois do desaparecimento dos 15 jovens em circunstancias misteriosas. O Estado marroquino continua a recusar-se revelar as verdadeiras circunstâncias do ocorrido, ainda que tenha tentado pressionar as famílias a aceitar a sua versão dos factos de que se teriam afogado no mar ou que foram vítimas da imigração ilegal.


Os familiares do grupo dos 15 saharauis sequestrados e desaparecidos a 25 de dezembro de 2005 em El Aaiún acusam as autoridades marroquinas de sequestro dos seus filhos pela participação nas manifestações pacíficas que reivindicam o direito do povo saharaui à autodeterminação.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Espanha: juiz da Audiência Nacional Pablo Ruz ouve testemunhos de 6 familiares de 8 saharauis fuzilados e enterrados em fossas comuns pelo exército marroquino



Hoje, segunda-feira, 6 de outubro de 2014, o Juiz Pablo Ruz da Audiência Nacional [ a mais alta instância judicial em Espanha] ouviu os testemunhos de seis familiares de 8 vítimas saharauis dos desaparecimentos forçados ocorridos a 12 de fevereiro de 1976, quando Espanha ainda estava administrando oficialmente a sua antiga colónia, condição que continua ostentando de jure, em conformidade com a legalidade internacional vigente (artigo 73 da Carta das Nações Unidas).

Os seis saharauis que testemunharam são:

— ABA ALI SAID DAF, testemunha ocular dos acontecimentos que presenciou a execução de dois saharauis pelo exército marroquino.

— YAHDIH SELMA AHMED, irmão da criança desaparecida Salek Selam Ahmed.

— MAHYUB MOH MOULUD MOH LAMIN, filho do desparecido Moh Moulud Mohamed Lamin,

— MOHAMED FADEL ABDALEHE RAMDAN, filho do desaparecido Abdelahe Ramdan.

— LEHBIB SALAMA MOHAMED ALI, filho do desaparecido Salama Mohamed Ali Karcha

— SIDI MOHAMED SID AHMED SEGRI, filho do desaparecido Sid Ahmed Segri Yumani



Os cinco desaparecidos fazem parte de um grupo de oito pessoas, entre elas dois menores, que foram encontradas em duas fossas comuns em Fadret Leguiaa (perto de Amgala) em 2013 e exumadas por uma equipa de peritos da Universidade do País Vasco, Dr. Carlos Martin Berinstain e Dr. Francisco Etxeberria Gabilondo. Os dois peritos forenses prestaram testemunho no dia 12 de fevereiro de 2014 tendo por base o relatório que elaboraram após a investigação decorrida sob sua direção (ver: http://publicaciones.hegoa.ehu.es/assets/pdfs/297/Exhumaciones_Informe_peri_def.pdf?1380883397).

Os seis familiares foram acompanhados pela Asociación Pro Derechos Humanos de España (APDHE) e por Mahmud Salma Daf, representante da Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Saharauis (AFAPREDESA).


A AFAPREDESA expressa a sua satisfação por este novo passo da justiça espanhola que segue o seu curso para pôr fim a mais de 39 anos de impunidade, de indiferença e de persistência das violações dos direitos de milhares de vítimas saharauis. 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A história da AFAPREDESA




A 20 de agosto de 1989, sob a direção do Doutor Mohamed Salem Buchraya, e a colaboração de vários familiares de desaparecidos  e presos políticos saharauis, era criada nos acampamentos de refugiados saharauis de Tindouf (sudoeste da Argélia) a Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Saharauis (AFAPREDESA) com o principal objetivo de dar resposta à grave situação de violação de direitos humanos, desamparo e marginalização que o Reino de Marrocos exercia sobre a população saharaui no território do Sahara Ocidental ocupado após a retirada definitiva de Espanha em fevereiro de 1976.

Con el apoyo de la Asociación Pro Derechos Humanos de España (APDHE) y Amnistía Internacional (AI) desde un primer momento, en 1989, su primer año de actividad, se inició una campaña mundial con el objetivo de dar respuesta al paradero y estado de cientos de desaparecidos saharauis en mitad de un conflicto bélico que se prolongaba desde la invasión marroquí del territorio del Sáhara Occidental, y que finalizaría, dos años más tarde, con el alto al fuego pactado entre Marruecos y el Frente Polisario en 1991.

Gracias al trabajo llevado a lo largo de los dos primeros años de vida de AFAPREDESA, en un solo día, el 22 de junio de 1991, fueron liberados 322 desaparecidos que habían estado secuestrados, hasta 16 años, en centros clandestinos de Galaat Magouna, Agdez, Skoura (este de Marruecos) y PC CMI en El Aaiún (Sáhara Occidental). Se pudo así visibilizar un crimen que había estado negado y ocultado durante décadas por el Reino de Marruecos y que la creación de AFAPREDESA había posibilitado su conocimiento a gran parte de la comunidad internacional.

En la actualidad, bajo la dirección de Abdeslam Omar Lahsen, presidente de Afapredesa  desde el año 1998, la asociación busca dar continuidad al trabajo realizado en los últimos 25 años centrándose principalmente en dos aspectos: conocer el paradero de los más de 400 desaparecidos saharauis, inclusive los 351 fallecidos reconocidos en 2010 por Marruecos sin aportar prueba alguna[1]; y la liberación inmediata e incondicional de todos los presos políticos saharauis[2]., que actualmente ascienden hasta un total de 62.




Ha sido en 2013, con el descubrimiento de dos fosas comunes, y correspondientes exhumaciones e identificaciones, con ocho cuerpos de saharauis de nacionalidad española asesinados por Marruecos, dos de ellos menores de edad, hallados en la zona de Fadret Leguiaa[3]  (cerca de Amgla-región de Smara) cuando se ha podido demostrar que el reino de Marruecos mentía sobre el paradero de los desaparecidos saharauis. Hay que indicar que algunos de los hallados habían sido por las autoridades marroquíes en otros lugares[4]. Dicho trabajo, realizado por Carlos Martín Beristain y Francisco Etxeberria Gabilondo junto con su equipo de trabajo del Instituto Hegoa de la Universidad del País Vasco y en colaboración con AFAPREDESA, se trata de un gran impulso para nuestros intereses y futuros trabajos.

Desde su creación, AFAPREDESA ha vivido varios momentos que quedan para el recuerdo, uno de ellos fue el 26 de septiembre de 1989, cuando  una avioneta sobrevoló el cielo de Madrid con un cartel en el que se podía leer “Desaparecidos saharauis ¿dónde están?”[5], en el momento que se desarrollaba una recepción oficial de las autoridades españolas a Hassan II, de visita en España esos días. Este heroico acto fue protagonizado por Eugenio Sánchez, piloto y miembro de la Asociación Pro Derechos Humanos de España (APDHE).

En 1999, Marruecos reconoció 43 casos de desaparecidos que habrían muerto en centros clandestinos. Sin embargo, mentía sobre el resto de los desaparecidos cuando afirmaba que se encontraban instalados en los campamentos de refugiados saharauis, en Mauritania o en España. Esta fue la respuesta que dio Marruecos al Enviado Personal del Secretario General de la ONU, el Sr. James Baker.

En diciembre de 2010, bajo la presión internacional, el Consejo Consultativo de Derechos Humanos de Marruecos reconocía la muerte de 351 personas desaparecidas, entre ellas 14 menores y 22 mujeres, pero sólo facilitaba el nombre de 207 de ellas[6] (ver la traducción realizada por AFAPREDESA de su parte relaciona con los casos saharauis[7]).

El 17 de junio de 2012, se creó, dentro de la propia Afapredesa, el Grupo de No Violencia Activa (NOVA), por parte de jóvenes saharauis que desean luchar por los métodos no violentos en conseguir los derechos del pueblo y la continua vulneración de los derechos humanos por parte de las autoridades de ocupación marroquí. El grupo NOVA aspira  convertirse en puente entre todos los jóvenes del Sahara Occidental y los jóvenes de otras áreas, muy particularmente del Magreb a través del fomento del dialogo y la tolerancia, contribuyendo así a la construcción de la Paz y la Justicia, tan necesarias para el bienestar de todos los pueblos.

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[1] ANEXO 1: LOS CASOS DE LAS DESAPARICIONES FORZADAS (DISPONIBLE EN ÁRABE). HTTP://WWW.ARSO.ORG/INFORMECONSEJOCONSULTIVOCMARROQUIDERECHOSHUMANOS.PDF

[2] EN LA ACTUALIDAD SON 62 PRESOS POLÍTICOS DE LOS CUALES 21 CIVILES CONDENADOS POR UN TRIBUNAL MILITAR EN VIOLACIÓN FLAGRANTE DE LA PROPIA LEGISLACIÓN MARROQUÍ, SECUESTRADOS ANTES, DURANTE O DESPUÉS DEL DESMANTELAMIENTO VIOLENTO DEL CAMPAMENTO DE PROTESTA POPULAR DE GDEIM IZIK EN EL AAIÚN OCUPADO POR MARRUECOS EN EL AÑO 2010.

[3] VER INFORME “LA ESPERANZA POSIBLE: FOSAS COMUNES Y PRIMEROS DESAPARECIDOS SAHARAUIS IDENTIFICADOS” REALIZADO BAJO LA DIRECCIÓN DEL PR. CARLOS MARTIN BERISTAIN Y EL PR. FRANCISCO ETXEBERRIA GABILONDO. HTTP://PUBLICACIONES.HEGOA.EHU.ES/PUBLICATIONS/298

[4] EN SU INFORME EL CONSEJO CONSULTATIVO DE DERECHOS HUMANOS MARROQUÍ PRETENDE QUE CUATRO DE ESTAS PERSONAS HABRÍAN FALLECIDO EN UN CUARTEL MILITAR EN SMARA.

[5] AVIONETAS Y RETRASOS, EL PAÍS 27/09/1989 HTTP://ELPAIS.COM/DIARIO/1989/09/27/ESPANA/622854002_850215.HTML

ANEXO 1: LOS CASOS DE LAS DESAPARICIONES FORZADAS (DISPONIBLE EN ÁRABE).



Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Saharauis (AFAPRESA): 25 anos de luta




Por ocasião do seu 25.º aniversario, a direção da Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Saharauis (AFAPRESA) - que se comemora amanhã, dia 20 de agosto – divulgou um comunicado assinado pelo seu presidente, Abdeslam Omar Lahsen, em que se exige “o conhecimento do paradeiro de mais de 400 desaparecidos saharauis, incluídos os 351 reconhecidos por Marrocos como mortos mas sem que tenha apresentado qualquer prova desse facto”.


O extenso comunicado refere que “o paradeiro de todos os desaparecidos saharauis não será totalmente esclarecido enquanto não for realizada uma investigação judicial exaustiva, rápida e imparcial sobre os acontecimentos relacionados com as desaparições forçadas e outros graves violações cometidas contra os cidadãos saharauis”. “A impunidade de que gozam os responsáveis é a principal causa da perpetuação das graves violações de direitos humanos nos territórios ocupados do Sahara Ocidental”  - conclui o comunicado.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Juiz Pablo Ruz interroga cinco testemunhas da repressão marroquina no Sahara




O juiz da Audiência Nacional Pablo Ruz houve hoje cinco testemunhos, entre os quais de três saharauis, no âmbito da ação em que se investiga a repressão exercida no Sahara Ocidental pelas autoridades marroquinas após a tomada de controlo da região em finais de 1975.

O magistrado houve o testemunho de três saharauis – de nacionalidade argelina - que presenciaram as detenções ilegais que as forças marroquinas realizaram entre 12 e 13 de fevereiro de 1976, muitas das quais conduziram a desaparecimentos. Ruz ouve hoje quarta-feira o perito Carlos Martín Beristaín e o psicólogo Francisco Excheberria Gabilondo, ambos espanhóis, que descobriram em junho de 2013 uma fossa comum com oito cadáveres alegadamente executados com arma de fogo em fevereiro de 1976.
 
Fossa comum com oito cadáveres de civis saharauis descoberta em junho de 2013


As testemunhas comparecem ante o instrutor da Audiência Nacional a partir das 10.00. O magistrado decidiu citar estas cinco testemunhas na sequência da ampliação da queixa interposta pela Asociación Pro Derechos Humanos de España (Apdhe) e outros queixosos. A ação encontra-se aberta desde 2007.


Jornal ABC – 11-02-2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

El Aaiún ocupada: Conferência sobre desaparecimentos forçados e presos políticos saharauis




Na passada sexta-feira, 31 de janeiro, na cidade de El Aaiún ocupada, duas organizações saharauis de direitos humanos, a Coordenadora das mães dos presos políticos de Gdeim Izik e o Comité das mães dos 15 Jovens saharauis Desaparecidos realizaram uma conferência sobre os sequestrados, desaparecidos e presos políticos saharauis nos cárceres marroquinos, para denunciar ante a comunidade internacional o regime marroquino, responsabilizá-lo pelo paradeiro das centenas de desaparecidos saharauis e exigir-lhe a libertação imediata e sem condições de todos os presos políticos saharauis.



Na conferência participaram os defensores saharauis de direitos humanos que trabalham ilegalizados nos territórios ocupados por Marrocos, tendo-se debatido e dado a conhecer as convenções internacionais sobre os desaparecimentos forçados, o direito dos presos políticos e o papel do Comité Saharaui das mães dos 15 Jovens saharauis Desaparecidos.

Os conferencistas fizeram um veemente apelo às organizações internacionais e à ONU para investigar e inventariar as graves violações que o regime de ocupação marroquino comete nos territórios do Sahara Ocidental que ocupa.

El Aaiún/Sahara Ocidental, territórios ocupados. 02/02/2014


Fonte. Poemario por un Sahara Libre - Oficina de los Territorios Ocupados

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Mais de 20 feridos em manifestação em El Aaiún



Mais de 20 saharauis foram feridos durante uma "brutal" intervenção das forças de repressão marroquinas contra uma manifestação pacífica em El Aaiún, capital ocupada do Sahara Ocidental.

Dezenas de saharauis organizaram ontem, quarta-feira, uma manifestação pacífica em El Aiún ocupado para exigir o esclarecimento do destino de 15 jovens desaparecidos em dezembro de 2005.


O Comité das Mães dos 15 Jovens Desaparecidos refere que a descoberta de fossas comuns na região de Amgala, Sahara O, é a maior prova da política de genocídio que pra o regime de Marrocos contra o povo saharaui.


(SPS)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Descobertas mais três fossas comuns de saharauis vítimas da repressão marroquina

 
Foto: Sociedad de Ciencias Aranzadi
  • A mesma equipa da Universidade do País Basco que identificou os restos de oito saharauis em junho descobriu outras três fossas comuns de que recolheu amostras para análise


  • A descoberta ocorreu durante uma nova viagem em que foi feita a exumação e entrega às famílias e enterro definitivo dos primeiros restos mortais encontrados


  • Os investigadores solicitam ao Governo [espanhol] a abertura de uma investigação própria e denunciam a passividade institucional ante estas provas dos crimes de Marrocos



Por Gabriela Sánchez

Mahmud Salme estava absorto, enquanto observava os restos mortais de seu irmão, seu pai e seu tio regressarem à terra envoltos em lençóis brancos. Enquanto terminava a ansiedade dos familiares dos oito saharauis, executados em 1976 pelo exército marroquino, localizados e identificados em duasvalas comuns em junho passado; abria-se a esperança para as centenas de famílias ainda esperam uma resposta concreta: a mesma equipa de investigação da Universidade do País Basco, descobriu outras três fossas nos territórios libertados do Sahara Ocidental. Os investigadores retiraram amostras para posterior análise e identificação.

As novas descobertas ocorreram durante uma segunda viagem do grupo da Sociedade de Ciências Aranzadi e do Instituto de Desenvolvimento e Cooperação Hegoa que fez a primeira exumação dos restos mortais, a entrega às famílias das vítimas e seu enterro final no mesmo local onde foram localizados. Além dos entes queridos dos falecidos, estiveram presentes no evento, a equipe de pesquisa responsável pelo Governo saharaui e membros da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO).

Apesar de duas das vítimas identificadas nas primeiras descobertas terem consigo o Bilhete de Identidade espanhol e os assassinatos terem ocorrido quando as tropas espanholas estavam ainda no Sahara Ocidental — retiraram-se a 26 de fevereiro de 1976, enquanto os terríveis acontecimentos ocorreram no dia 12 do mesmo mês —, os pesquisadores ainda estão à espera de uma resposta do Governo de Espanha. "Deveriam encarar o assunto a sério, deve haver uma resposta após a apresentação das provas contundentes que temos sobre este caso. Deve abrir a sua própria investigação sobre o que aconteceu e pedir a cooperação de Marrocos", reclama Carlos Martín Beristain, antropólogo do Instituto Hegoa.

"Afinal, o que temos feito já é muito mais fácil do que o que está por vir. Agora temos que oficializar a informação. Tornar oficial este relatório técnico cheio de provas. Quem é que o vai fazer?" interroga-se o forense Etxeverria Francisco, diretor da pesquisa. Ambos explicaram que, depois de uma reunião com responsáveis do Magrebe e de Direitos Humanos do Ministério dos Negócios Estrangeiros [de Espanha], aquela instituição ainda não voltou a contactá-los.



"As mentiras de Marrocos ficaram demonstradas. Estas descobertas têm que ser conhecidas por toda a gente, tem que haver justiça a nível internacional," afirma Salme Mahmud, irmão, sobrinho e filho de três das vítimas assassinadas naquele dia 12 de fevereiro de 1976 pelo exército marroquino e cujos restos mortais foram localizados 38 anos depois. Quando utiliza a palavra "mentiras" sabe do que está a falar. Em 1995, o governo marroquino havia respondido ao pedido de informação do Grupo sobre os Desaparecimentos Forçados da ONU através de um documento que ele ainda conserva. "Diziam que o meu irmão morava em El Aaiún. O meu irmão, que eu enterrei há poucos dias no deserto do Sahara." Mostra-nos: o texto detalha até a suposta rua onde morava e já ele estava morto.

Esta informação falsa é anexada ao relatório técnico que deu visibilidade às descobertas da equipa da Universidade do País Basco. Marrocos não deu nenhuma resposta oficial sobre o paradeiro dos desaparecidos. Só em 2006, o Relatório da Instância de Equidade e Reconciliação de Marrocos assegurou que quatro dos detidos naquele dia tinham sido levados para o quartel de Smara e lá tinham morrido durante o tempo de prisão. No entanto, a equipa de investigação forense demonstrou a falsidade dessa informação: "As detenções foram coletivas e ocorreram no mesmo dia [...] Os detidos não foram transferidos para qualquer quartel, antes foram imediatamente executados no local. Embora se encontrassem indefesos."

Após a localização de outras três fossas, Etxeverria pretende voltar ao Sahara Ocidental após um período entre seis meses a um ano. De acordo com eles, esperam receber um novo financiamento já que, após as operações realizadas, esgotaram os fundos fornecidos pelo Instituto de Cooperação da Universidade do País Basco, mas confiam que vão conseguir voltar uma vez analisadas as amostras recolhidas durante esta última viagem.

Como membro do conselho da Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Saharauis (AFAPREDESA), a luta de Mahmud não termina com o funeral dos seus três parentes, mas sente a diferença. Ele esforça-se para nos explicar. "Não chega a ser alegria ... Vês os restos mortais de um pai que não pôde receber o amor que lhe querias dar. Sentes em vez de alegria muita angústia. Mas agora podemos ao menos recordá-lo em paz."

Fonte: eldiario.es

Foto: Sociedad de Ciencias Aranzadi

sábado, 26 de outubro de 2013

Parlamento Europeu vai criar Comissão Ad-Hoc para a exumação dos restos mortais de saharauis

 

O Parlamento Europeu (PE) adotou uma emenda ao relatório Tannock sobre a situação dos direitos do homem no Sahara Ocidental em que prevê o envio de uma Comissão conjunta Minurso-Cruz Vermelha Internacional a Fadret Leguiaa, região de Smara, onde restos mortais de civis saharauis foram recentemente descobertos por uma equipa de peritos médico-legistas.

Em sessão plenária para analisar e aprovar o relatório Tannock terça-feira passada, em Estrasburgo, o Parlamento Europeu apelou às autoridades marroquinas para permitir o acesso ao território do Sahara Ocidental a organizações internacionais, como a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e da Comissão de Direitos Humanos do Parlamento Europeu.

A emenda aprovada diz textualmente. "apoiar a criação de uma missão oficial MINURSO-CICV (Comité Internacional da Cruz Vermelha) na região de Fadret Leguiaa a fim de proceder à exumação e entrega dos restos mortais às famílias, na sequência da descoberta de valas comuns pela equipa de investigação da Universidade do País Basco".

Para o membro do Secretariado Nacional da Frente Polisario e ministro delegado para a Europa da RASD, Mohamed Sidati, esta iniciativa permitirá que as famílias e os descendentes dessas pessoas possam, finalmente, fazer o seu luto e oferecer uma sepultura digna aos seus entes queridos".
 
Mohamed Sidati, membro do Secretariado Nacional
da Frente Polisario e ministro delegado para a Europa da RASD

Esta descoberta macabra coube ao meritório trabalho da equipa de investigação forense da Universidade do País Basco.
"O interesse manifestado por uma grande instituição europeia, como o Parlamento Europeu, é um consolo para as vítimas e para os seus familiares", comentou Sidati, lembrando que "são mais de 400 os saharauis os que estão na mesma situação ".

Para ele, há uma "necessidade urgente para que a verdade seja conhecida quanto ao seu destino, para que a impunidade não subsista por tempo indeterminado e para que a justiça seja feita ao povo saharaui".


Ao adotar o relatório Tannock, o Parlamento Europeu afirmou que a autodeterminação do povo saharaui é "parte integrante" dos direitos humanos e permanece no "centro" do debate para que seja encontrada uma solução para o conflito do Sahara Ocidental.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Aminatou Haidar: “O Governo espanhol ainda não tomou uma posição clara sobre o Sahara Ocidental”

 

Aminetou Haidar, a ativista pacifista saharaui pelos Direitos Humanos, participou nas Jornadas sobre o conflito do Sahara realizadas durante esta semana na Universidade de Múrcia. Na sua primeira visita à Região, a ativista, juntamente com o fiscal de Alicante e secretário internacional de Juristas para o Sahara Ocidental (AIJUWS), Felipe Briones, participaram numa conferência sobre o Direito internacional e os direitos humanos nos territórios ocupados.

Mãe de dois filhos, esteve presa por duas ocasiões durante mais de quatro anos por ser ativista saharaui e lutar, de forma pacífica, pelos direitos humanos do seu povo. Foi torturada diariamente, sem direito a receber assistência médica, com os olhos vendados, e considerada como pessoa em paradeiro desconhecido, sem que durante esse período de detenção tivesse sido realizado qualquer tipo de julgamento que a ouvisse ou condenasse.

Muitos conheceram-na através do chamado ‘caso Haidar’ no ano de 2009, quando Marrocos lhe negou a entrada em El Aaiún expulsando-a para o aeroporto de Lanzarote, onde permaneceu 32 dias em greve de fome reivindicando os seus direitos como saharaui e denunciando as condições infra-humanas em que vivem os habitantes do território ocupado pelo regime marroquino.

A implicação do Estado espanhol no conflito não pode ser esquecida. No ano de 1976, Espanha abandona o território

à sua sorte, sem ter levado a cabo o processo de descolonização e o referendo de autodeterminação prometido aos saharauis nos Acordos de Madrid. Marrocos invade, através da famosa Marcha Verde, a zona ocidental do Sahara com a cumplicidade do mundo que nada faz para o evitar. Desde então, o Sahara encontra-se dividido em dois: a zona ocupada por Marrocos, o Sahara Ocidental, onde se encontra parte da população saharaui submetida ao regime ditatorial marroquino e administrador dos recursos naturais do país, e portanto da economia do território; e o Sahara livre, para onde muitos fugiram e se refugiaram em acampamentos organizados no deserto, separados ambos por um enorme muro artificial de mais de 2.700 quilómetros de extensão.


Recentemente, graças aos telegramas norte-americanos desclassificados e compilados pelo Wikileaks, podemos conhecer a suposta implicação de outros países, como os EUA, que sempre afirmou manter uma atitude totalmente neutral frente ao conflito saharaui. Segundo essas revelações, a Casa Branca aliou-se a Marrocos, a quem forneceu todo o tipo de armas, para a invasão e colonização do antigo protetorado espanhol, frustrando assim toda a possibilidade de independência do povo saharaui.

Atualmente, Espanha continua a ser legalmente a potência administrante do Sahara e muitos saharauis livres falam o espanhol como língua materna. No entanto, da zona ocupada por Marrocos a ativista Haidar denuncia que “o Estado espanhol nos deixou abandonados, o que fez desaparecer a língua castelhana. Foi-nos imposto o francês como forma estratégica de apagar a nossa identidade, a nossa cultura como povo saharaui”.

Pela sua luta pelo reconhecimento dos direitos do povo saharaui, foi galardoada com diversos prémios internacionais como o Prémio Coragem Civil em 2009 da Fundação Train pela sua defesa dos Direitos Humanos no Sahara; o Prémio de Direitos Humanos Juan María Bandrés em 2006; o Solidar Silver Rose Award em 2007, entre muitos outros, sendo nomeada para o Nobel da Paz desde 2008.

 Apesar das dificuldades idiomáticas, Aminatou Haidar concedeu-nos uns momentos para podermos falar com ela sobre o conflito saharaui e as jornadas de sensibilização.

–Em que situação se encontra o Sahara Ocidental atualmente?

–Do ponto de vista político, temos vindo a realizar negociações entre a Frente Polisario, que é o representante do povo saharaui, e o rei de Marrocos, mas não há avanços neste tema. Como ativista de direitos humanos preocupa-me muito a situação das políticas praticadas diariamente pelas autoridades marroquinas em relação à população civil saharaui. Tenho que sublinhar que no último fim-de-semana produziu-se uma altercação entre manifestantes saharauis e a polícia marroquina, que se saldou em 200 feridos saharauis. À margem da política de Marrocos, a população decidiu realizar uma manifestação para transmitir uma mensagem ao enviado pessoal das Nações Unidas Cristopher Ross, que se encontrava no território como observador. A população saharaui continua a reivindicar o seu direito à autodeterminação, mas Marrocos impede toda forma de protesto e manifestação, vulnerando os direitos humanos. Há mais de 80 presos políticos repartidos em várias prisões marroquinas. Para nós é uma situação muito alarmante, porque inclusive temos mortos, como o caso do jovem saharaui que foi assassinado recentemente no sul de Marrocos pela polícia marroquina. Há privação dos direitos mínimos fundamentais dos saharauis na zona ocupada. Do outro lado, encontram-se os saharauis que continuam a resistir em situações humanas muito difíceis. São já 38 anos nesta situação.



–  Que responsabilidade tem Espanha no conflito?

– Espanha é o responsável direto da situação do povo saharaui. Continua a ser a potência administrante do Sahara, mas vira as costas a este conflito. Lamento muito que o Governo espanhol não tenha tomado ainda uma posição clara a respeito do Sahara Ocidental. Tem que reconhecer que o povo saharaui, como povo livre, tem direito à realização de um referendo e à sua autodeterminação, e lamento que a Espanha continue a bloquear uma melhor supervisão dos direitos humanos fundamentais no conflito.
Em abril houve uma iniciativa por parte dos EUA para conseguir o cumprimento dos Direitos Humanos e para ampliar o mandato da MINURSO (Missão das NU para o Referendo no Sahara Ocidental). Mas França e Espanha bloquearam esta iniciativa. Lamento que Espanha não queira que o povo saharaui, que está sob ocupação, desfrute pelo menos desses direitos mínimos. Espanha, que é um país de liberdade e que é responsável pelo sofrimento do povo saharaui, não queira acabar com esta situação de um povo que, até há pouco, era uma região espanhola, chamada Sahara Espanhol, e que continua a estar sob sua responsabilidade. Espanha retirou-se do território do Sahara Ocidental em 1976 interrompendo o processo de descolonização, e não dando cumprimentos aos acordos alcançados com a ONU. Por isso, continua a manter as suas responsabilidades jurídicas e históricas. Tenho que recordar que a atitude do Governo espanhol não tem nada que ver com a cidadania, com o povo de Esapnha, que tem mostrado e continua a demonstrar a sua solidariedade com o povo saharaui.

– Porque acha que há um apagão informativo à população de Espanha sobre a situação do Sahara?

– Porque não interessa que se saibam informações em que podem estar visto envolvidos, ainda que indiretamente. Nós também sofremos bloqueio de informação. Para mim trata-se de uma cumplicidade, porque geralmente se há que fazer uma cobertura mediática sobre o que está acontecendo no Sahara,  deveria ser a imprensa espanhola a dá-la em primeiro lugar. Mostra a falta de interesse. O que aconteceu recentemente é muito grave (200 feridos na manifestação), e a notícia foi publicada por uma agência francesa. Sabemos que há correspondentes em uma hora ou hora e meia podem apanhar um avião e cobrir a visita, mas parecem não estar interessados em saber o que está acontecendo.

–A crise mundial está a afetar de algum modo o Sahara livre?

–Sim em vários campos, tanto a nível sanitário como educativo. As ajudas humanitárias que recebem os refugiados nos acampamentos diminuíram. Mais de 200 000 pessoas que habitam nos acampamentos dependem da ajuda internacional para poder sobreviver, já que não temos acesso aos nossos recursos naturais, controlados por Marrocos e, portanto, poder ter uma vida normal. Dependemos das ajudas de organizações não-governamentais, de ONG e de alguns governos, pelo que em virtude da crise económica as ajudas que recebemos foram consideravelmente reduzidas.

– Carlos Berintain realizou um relatório - Oasis de la memoria. De que trata esse relatório?

–É um trabalho muito importante de testemunhos recolhidos sobre o terreno. Pela primeira vez fez-se luz sobre as violações dos direitos humanos e os crimes de lesa humanidade que Marrocos cometeu no Sahara Ocidental. O relatório trata vários casos de desaparecimentos sem importar idade ou sexo. Há pouco tempo foram descobertas duas fossas comuns em que encontraram oito saharauis desaparecidos durante o reinado de Hassan II e que Marrocos tinha registado os seus nomes. Quatro deles apareceram num relatório oficial marroquino como mortos nas prisões. Graças às investigações, pudemos saber que nunca estiveram encarcerados e que foram assassinados junto às fossas comuns onde foram enterrados os seus corpos. Eu estive quatro anos presa com os olhos vendados, torturada e isolada do mundo exterior num centro clandestino. Uns 500 saharauis continuam em paradeiro desconhecido. O relatório tenta fazer luz sobre tudo o que ocorreu nesse período, por isso é muito importante.

–Há um muro artificial que divide o Sahara ocupado do Sahara livre, chamado muro da vergonha. De que forma essa construção os afetou?

– Afetou-nos muito porque há que ter em conta que as famílias estão divididas entre estas duas zonas, separadas pelo muro. Ninguém fala disto, um muro que divide as famílias e que provoca muitas violações dos direitos humanos. Há minas antipessoal ao longo do muro e muitos saharauis têm sido vítimas delas, nos dois lados, embora sobretudo no lado ocupado por Marrocos. Também nos impede de podermos aceder aos nossos recursos naturais e poder dispor de riquezas que nos permitam subsistir como sociedade economicamente desenvolvida.

–Na historia da democracia espanhola  houve algum governo ou partido político que tenha tentado solucionar este conflito de ocupação territorial e assédio da população saharaui?

–Lamentavelmente durante as eleições tudo são promessas. Ouvimos e lemos muitas declarações dos políticos a favor do povo saharaui, mas quando um partido consegue ganhar as eleições, tudo se esquece e as promessas não passam de palavras. Necessitamos apoio político do Governo espanhol, mas, até ao momento, nenhum partido político cumpriu as expectativas que o povo saharaui necessita e deseja.

–Qual é o papel político e social da mulher saharaui?

–Temos um papel muito importante. Como mulheres saharauis temos muitos direitos que, se compararmos com outras mulheres do mundo muçulmano, mostram que estamos muito avançadas. Temos os nossos direitos como mulher e somos respeitadas dentro da sociedade civil. Há casos de violência de género, mas são poucos. Na nossa sociedade isso é muito mal visto e é uma vergonha que um homem abuse e maltrate uma mulher. Mas ainda há coisas por mudar. Lutamos para chegar a uma sociedade igualitária em todos os aspetos.


Fonte: elpajarito.es

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Documentário “A semente da Verdade”



A 12 de fevereiro de 1976, dois beduínos caem mortos às mãos do exército de Marrocos, quando procuravam água.

Não se passaram sequer quatro meses desde que, num dia de outubro como o de hoje, o rei Hassan II deu início à Marcha Verde. A Espanha, que continuava a ser administradora da sua colónia saharaui, juntamente com Marrocos e Mauritânia, num governo tripartido provisório até duas semanas depois desse 12 de fevereiro, anunciara já, no entanto, que abandonava a sua colónia.

O Rei Hassan II - que vê perigar o cobiçado território com a resolução da ONU que adverte que deve ser o próprio povo saharaui a determinar se quer a independência ou a anexação de Marrocos - , envia 350 mil dos seus súbditos e 25.000 soldados para ocupar a colónia rica em recursos naturais.

É uma estratégia que procura a legitimar essa adesão, acompanhada, em paralelo, com uma caça sangrenta aos saharauis a quem se procura fazer desaparecer do mapa com bombas de fósforo e napalm. É nesta paisagem de "limpeza" que são abatidos os dois beduínos.



Quase 40 anos depois, o Instituto de Estudios sobre Desarrollo y Cooperación Internacional 'Hegoa', do País Vasco, recebe uma chamada da Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Saharauis (AFAPREDESA), desde os territórios "libertados" do Sahara Ocidental. Um beduíno que se dedica ao pastoreio de cabras e camelos na zona encontrara restos humanos, uma descoberta que coincide com o relato de uma testemunha - uma criança de 14 anos na altura - , que se salvou por pouco de ser o terceiro ocupante de uma fossa comum naquele dia 12 de fevereiro de 1976.

"O Instituto Hegoa pôs-se logo em contacto connosco [a Sociedad de Ciencias Aranzadi], dada a nossa trajetória e experiência de exumações pela recuperação da memória histórica", explica Eztizen Miranda, autora do documentário que conta a história desta primeira viagem ao Sahara Ocidental liderada pelo médico legista Francisco Etxeberria, em junho passado, e que iria acabar por descobrir duas valas comuns e oito corpos de civis mortos pelo exército marroquino, dois deles crianças.

Em pouco menos de um mês, a equipa de Etxeberria vai regressar à região em busca de mais fossas comuns. De momento, tem já localizadas outras duas. "Isto é apenas o início ", adverte Miranda.

"La semilla de la verdad", documentário que recupera o esquecimento olvido internacional a que foi submetido um povo massacrado e desterrado para o deserto mais quente do mundo, foi apresentado no passado X Festival de Cinema do Sahara (FiSahara).


Rafa Hernández