Quando se cumprem 10 anos do atentado que mudou o rumo da
Espanha, persistem, embora isso desgoste a alguns, dúvidas importantes. O presidente
da Sala Penal da Audiência Nacional que julgou o caso afirmou, nada mais nada
menos, que "Diez
años después, no sabemos quién dio la idea de atentar el 11-M".
Dado que, no mínimo, esse aspeto está em aberto convém recordar a possibilidade
de que "quem deu essa ideia" pretendia mudar a política espanhola. E mais
em concreto, a política externa espanhola. E, mais precisamente ainda, a política
exterior sobre uma questão essencial: o Sahara Ocidental.
I. O MINISTRO
MORATINOS APONTA, PUBLICAMENTE, A CONEXÃO ENTRE O 11-M E O CONFLITO DO SAHARA
OCIDENTAL
No dia 15 de julho de 2004, o então ministro de Negócios
Estrangeiros, Miguel Ángel Moratinos
Cuyaubé, participou nos cursos de verão do El Escorial. Ali proferiu umas
declarações que, na altura, foram recolhidas pelas agências EFE e EUROPA PRESS,
e que hoje são quase impossíveis de encontrar.
“hoy es imposible” realizar un referéndum en el Sahara
“sin un mínimo de acuerdo”, porque se “desestabilizaría” el Magreb. A su
juicio, si no se alcanza una solución aceptable para todas las partes
“seguiremos teniendo situaciones como la que vivimos el 11 de marzo en Madrid”.
.
II. O DIRETOR-GERAL
PARA A ÁFRICA DO NORTE DO MNE ESPANHOL APONTA, SECRETAMENTE, A CONEXÃO ENTRE O 11-M
E O CONFLITO DO SAHARA OCIDENTAL
As declarações de Moratinos não foram fruto da improvisação.
Num despacho secreto da Embaixada norte-americana em Espanha e com data de UM DIA
ANTES, a saber, 14 de julho de 2004, o Conselheiro político da embaixada dos
Estados Unidos informa da sua conversa com Álvaro
Iranzo Gutiérrez que, desde maio de 2004 até julho de 2008, foi Diretor-Geral
de Política Exterior para o Mediterrâneo, Próximo Oriente e África.
Nesse despacho revelado
por Wikileaks e ao qual, surpreendentemente, NINGUÉM se referiu, afirma-se,
textualmente:
4. (C) Noting recent press statement by Moratinos,
PolCouns asked whether the new Spanish government had adopted a new policy on
the Western Sahara. Iranzo responded by expressing support for the broad
outline of the Baker Plan but said Spain is seeking a new "approach"
to overcome the impasse over the issue of the Polisario referendum.
(...)
5. (C) Iranzo acknowledged that Spain's new approach
carries international and domestic risks. President Zapatero, Minister
Moratinos, and State Secretary for Foreign Policy Bernardino Leon have been
consulting with France, Morocco, Algeria, and the Polisario on the Western
Sahara issue. Iranzo said that the GOS is concerned that failure in the Western
Sahara would jeopardize the MINURSO mandate, radicalize Moroccans, and possibly
increase illegal immigration and terrorism in Spain.
Traduzido:
4. (C) Observando uma recente declaração à imprensa de Moratinos,
o conselheiro político (da embaixada dos EUA) perguntou se o novo governo
espanhol havia adotado uma nova política em relação ao Sahara Ocidental. Iranzo
respondeu expressando o seu apoio às linhas gerais do Plano Baker, mas disse
que a Espanha está procurando uma nova "abordagem" para superar o
impasse sobre a questão do referendo da Polisario (sic).
(...)
5. (C) Iranzo reconheceu que a nova abordagem de Espanha
envolve riscos internos e externos. O Presidente Zapatero, o ministro Moratinos
e o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Bernardino León, têm consultado
França, Marrocos, Argélia e a Frente Polisario sobre a questão do Sahara
Ocidental. Iranzo disse que o Governo da Espanha está preocupado porque um
fracasso no Sahara Ocidental poderia pôr em risco o mandato da MINURSO,
radicalizar os marroquinos e, provavelmente, aumentar a imigração ilegal e o
terrorismo em Espanha.
As declarações de Iranzo não foram as únicas.
Num outro
despacho, datado de 1 de outubro de 2007, e igualmente ignorado, de forma não
menos surpreendente, pelos media, diz
Iranzo:
8. (C) DG Iranzo talked at enormous length about the
Spanish perspective on Western Sahara; about the importance of the Maghreb to
Spain; and about Spanish concerns about terrorism coming from or through the
Maghreb. "Western Sahara is our Iraq," said Iranzo
Traduzido:
8. (C) O Diretor-Geral Iranzo falou muito extensamente
sobre a perspetiva espanhola acerca do Sahara Ocidental; sobre a importância do
Magrebe para Espanha; e sobre as preocupações espanholas em relação ao terrorismo
proveniente de ou através do Magrebe. "O Sahara Ocidental é o nosso Iraque", afirmou Iranzo.
III. ANTECEDENTES: AS
AMEAÇAS DE MARROCOS EM 1973
As ameaças marroquinas do Makhzen tinham antecedentes.
Num outro
despacho do Departamento de Estado datado de 31 de março de 1973, também revelado
recentemente por Wikileaks e, tal como os anteriores, inexplicavelmente ignorado
pela imprensa espanhola, diz-se:
1. When Ambassador Rockwell in Washington March 30 asked
Moroccan FonMin Benhima what was the outcome of the meeting between himself and
Spanish FonMin Lopez Bravo in Rabat march 26. Benhima replied that he had
spoken categorically to Lopez Bravo. He said that if Spain intended to present
Morocco with fait accompli of referendum which would result either in decision
of continued association of Spanish Sahara with Spain or for independence,
Morocco would create situation of great insecurity for Spain in Sahara and had
means to do so. (el original contiene el párrafo íntegramente en mayúsculas).
Traduzido:
Quando o Embaixador Rockwell perguntou a 30 de março, em
Washington, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino Benhima qual foi o
resultado do seu encontro com o Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol
López Bravo em Rabat a 26 de março, Benhima
respondeu que ele tinha falado em termos categóricos a Lopez
Bravo. Disse que se a Espanha pretende apresentar a Marrocos o facto consumado
de um referendo que pudesse resultar na decisão de continuar a associação do Sahara
Espanhol com Espanha ou a independência, Marrocos criaria uma situação de
grande insegurança a Espanha no Sahara e que tem meios para o fazer.
IV. A INTERPRETAÇÃO DE
GABRIEL ALBIAC SOBRE AS DECLARAÇÕES DE MORATINOS
Na sua obra "Contra los políticos" (Temas de Hoy,
Madrid, 2007), o prestigiado Catedrático de Filosofia e conhecido colunista de imprensa
Gabriel Albiac, conhecendo só então as declarações de Moratinos (as de Iranzo foram
reveladas por Wikileaks tempo depois de ter a sua obra), afirma (página 63):
Lo ha dicho Moratinos, vicario alauí ante Zapatero. No se
admiten preguntas. “Lo único que importa es que la relación con el Rey de
Marruecos sea buena.” Seamos humildes súbditos. No vaya a ser que profetice.
Nuevamente Moratinos, 15 de Julio: si interferimos la anexión por Mohamed del
Sahara, “seguiremos teniendo situaciones como la que vivimos el 11 de Marzo en
Madrid”.
Todo quedó en hipótesis. Pero, pasado el ecuador de la
Legislatura, el Sahara fue entregado a Marruecos. Sin condiciones.
O que diria hoje Albiac se conhecesse as palavras de Iranzo:
"El Sahara Occidental es nuestro Iraq"?
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