sábado, 14 de fevereiro de 2026

Mohamed VI – O Mistério: Anatomia de um Reinado Opaco




Em «Mohamed VI – Le mystère» (Editions Flammarion), Thierry Oberlé conduz uma investigação densa e sensível sobre um dos monarcas mais enigmáticos do mundo contemporâneo. Ao longo de trinta anos de observações, entrevistas e trabalho de terreno, o jornalista revela uma figura paradoxal: um rei moderno na imagem, mas herdeiro de um poder absoluto moldado por séculos de monarquia xerifiana. A obra é simultaneamente retrato íntimo, mergulho político e narrativa da transformação ambígua de Marrocos.


Um soberano discreto, esquivo e omnipresente

Mohamed VI é descrito como um rei misterioso, praticamente silencioso do ponto de vista mediático. Não concede entrevistas, não improvisa e mantém-se à margem do debate político. A sua autoridade assenta mais na sacralidade, na simbologia monárquica, na herança religiosa e na encenação do poder do que na expressão pública.

O livro retrata um monarca pouco à vontade com o exercício quotidiano do poder, preferindo delegar nos seus conselheiros históricos (El Himma, Majidi, Mansouri), embora conservando a decisão final. Esta delegação informal gera um sistema profundamente opaco, no qual o círculo real detém os verdadeiros instrumentos de poder do Estado.


Um rei fisicamente fragilizado, mas ainda no centro do jogo

A saúde do soberano constitui um dos fios condutores do livro: intervenções cirúrgicas, perda de peso acentuada, ausências prolongadas no estrangeiro, aparições públicas espaçadas… A obra documenta a fragilidade de um rei envelhecido e as precauções extremas adotadas pelo Palácio para ocultar o estado real do monarca.

Essa fragilidade confere particular destaque à crescente visibilidade de Moulay Hassan, príncipe herdeiro já amplamente exposto na cena pública, apresentado como garantia da continuidade monárquica.


Herança de Hassan II: autoridade, violência, fausto e razão de Estado

Oberlé dedica uma parte substancial do livro a enquadrar Mohamed VI na continuidade do legado do seu pai, Hassan II:

    • um poder sacralizado;

    • um sistema policial tentacular;

    • os “anos de chumbo”: repressão, desaparecimentos, tortura;

    • o caso Ben Barka, analisado nas suas dimensões visíveis e subterrâneas;

    • a reafirmação do controlo sobre o Sahara Ocidental;

    • a construção de uma monarquia omnipresente na economia.

Esta genealogia ajuda a compreender as zonas de sombra do reinado atual: a centralidade do Palácio, a opacidade orçamental, a persistência de uma justiça politizada e a dificuldade em promover reformas estruturais profundas do Estado.


Reformas, modernização… e bloqueios estruturais

Os primeiros anos do reinado abriram-se com gestos marcantes:

  • regresso de exilados políticos (Serfaty, família Ben Barka);
  • criação da Instância Equidade e Reconciliação;
  • revisão da Moudawana (Código da Família) em 2004, considerada um avanço histórico;
  • grandes projetos de infraestruturas (TGV, autoestradas, Tanger Med).


Estes progressos alimentaram a imagem de um reino em transformação.

Contudo, Oberlé evidencia também os limites profundos dessas reformas:

  • ausência de uma separação real de poderes;
  • reconfiguração do Makhzen sob novas formas;
  • corrupção endémica;
  • imprensa amordaçada e criminalização de vozes críticas;
  • instrumentalização da justiça, nomeadamente através de processos de natureza sexual.

Marrocos modernizou-se, mas sem entrar na lógica democrática prometida no início do reinado.


O Sahara Ocidental: a obsessão diplomática

O livro sublinha como o Sahara se tornou o dossiê existencial do rei, no centro de toda a sua política externa. Marrocos investe massivamente nas chamadas «Províncias do Sul», mobiliza a sua rede diplomática e utiliza a imigração, a economia e o comércio como instrumentos de pressão, inclusive junto da Europa.

A evolução das posições norte-americana e europeia no sentido do reconhecimento do plano de autonomia é descrita como uma vitória diplomática maior para Mohamed VI.


Primavera Árabe, islamistas e controlo social

Perante o movimento de 20 de Fevereiro em 2011, Mohamed VI demonstrou uma notável capacidade de gestão política: promoveu rapidamente uma reforma constitucional, canalizou as aspirações democráticas e integrou de forma controlada o Partido da Justiça e Desenvolvimento (PJD) no poder — antes de assistir à sua progressiva eliminação eleitoral.

Segundo a análise apresentada:

  • o islamismo político é enquadrado, mas não erradicado;
  • a sociedade mantém-se conservadora;
  • a organização Justiça e Espiritualidade (Al Adl Wal Ihsane) continua a ser um ator discreto, mas influente.


O Rif: a fratura territorial

A revolta do Rif constitui, para Oberlé, a ferida mais profunda do reinado. A revolta das populações de Al Hoceïma, a repressão, as pesadas condenações judiciais, o caso de Nasser Zefzafi — tudo isso revela um mal-estar estrutural entre o poder central e uma região historicamente marginalizada.

Este episódio simboliza a rutura entre a imagem reformista do início do reinado e a realidade autoritária do sistema.


Vida privada, divórcio e desaparecimento da princesa Lalla Salma

O livro revela, com prudência mas também com precisão, os bastidores de um acontecimento marcante:

    • a separação silenciosa do casal real;

    • o desaparecimento total de Lalla Salma da cena pública;

    • o controlo rigoroso da sua nova vida;

    • a gestão, pelo Palácio, de uma crise mediática sem precedentes.

Lalla Salma, que simbolizava um Marrocos moderno, desaparece tanto por decisão política como por imperativos protocolares — um momento-chave na narrativa construída pela obra.


O « rei errante »: viagens, luxo e redes de influência

Outro grande paradoxo retratado por Thierry Oberlé é o de um rei discreto, mas altamente móvel, frequentemente ausente de Marrocos, dividindo o seu tempo entre Paris, Gabão, Seychelles, Dubai ou Tânger.

O autor explora:

    • o gosto do monarca pelo luxo internacional;

    • o vasto património imobiliário;

    • os iates e residências exclusivas;

    • a prática de um «governo à distância»;

    • e as consequências dessas ausências para a governação do país.

Para alguns observadores, estas deslocações funcionam como válvula de escape pessoal; para outros, são interpretadas como sinal de distanciamento político.


Irmãos e redes de influência: o caso Azaitar

A entrada em cena dos irmãos Azaitar, lutadores de MMA (Artes Marciais Mistas) próximos do rei, simboliza, segundo o livro, uma deriva do sistema: o acesso de perfis informais e controversos ao círculo real. O episódio ilustra um funcionamento do poder marcado por relações pessoais e imprevisibilidade, capaz de promover rapidamente determinadas figuras e, com igual rapidez, afastá-las, conforme o humor do soberano ou a agenda do Palácio.


Conclusão: um reinado contrastado, uma monarquia intacta


Thierry Oberlé traça um balanço matizado:

  • modernização real, mas inacabada;
  • abertura controlada seguida de um endurecimento autoritário;
  • dinamismo económico contrastando com desigualdades sociais persistentes;
  • prestígio internacional, mas recuo diplomático fora da questão do Sahara;
  • monarquia poderosa, encarnada por um rei fragilizado e frequentemente ausente.


O «mistério Mohamed VI» reside precisamente nessa tensão: um monarca entre modernidade proclamada e arcaísmo político, entre liberdade pessoal e opacidade institucional, entre popularidade efetiva e contestação profunda.

Um livro essencial para compreender o Marrocos contemporâneo e os bastidores de um reinado singular. (in Maghreb Online)


O autor: Thierry Oberlé 

Thierry Oberlé é um jornalista francês especializado em política internacional e geopolítica do Magrebe e do Médio Oriente.

É repórter sénior do jornal Le Figaro, onde acompanhou durante décadas temas ligados a Marrocos, Argélia, Tunísia e ao mundo árabe em geral. Ao longo da sua carreira realizou inúmeras reportagens de terreno, entrevistas com líderes políticos e cobertura de crises regionais.

É autor do livro «Mohammed VI – Le mystère», uma investigação aprofundada sobre o rei de Marrocos, baseada em cerca de 30 anos de observação e fontes diplomáticas, políticas e institucionais. A obra analisa tanto a dimensão pessoal do monarca como os bastidores do sistema de poder marroquino.

Oberlé é reconhecido pelo acesso privilegiado a fontes no Magrebe e pela abordagem detalhada às dinâmicas internas do regime marroquino.


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