As negociações sobre o futuro do Sahara Ocidental ganharam novo impulso com a retoma de conversações diretas em Madrid, sob liderança dos Estados Unidos, embora persistam divergências profundas entre as partes envolvidas. A análise é do International Crisis Group, num texto assinado pelo especialista Riccardo Fabiani. Eis um resumo do seu artigo.
Nos dias 8 e 9 de fevereiro, delegações ministeriais de Marrocos, Argélia, Mauritânia e da Frente Polisario reuniram-se na embaixada norte-americana em Madrid, no primeiro encontro deste nível desde 2019. A reunião marcou também o primeiro contacto público entre responsáveis marroquinos e argelinos desde o corte de relações diplomáticas entre os dois países, em 2021.
s conversações foram presididas pelo conselheiro sénior dos EUA para os assuntos árabes e africanos, Massad Boulos, e pelo embaixador norte-americano junto das Nações Unidas, Mike Waltz, com a presença do enviado pessoal do secretário-geral da ONU para o Sahara Ocidental, Staffan de Mistura. Apesar da coorganização formal das Nações Unidas, Washington assumiu um papel central, relegando a ONU para uma posição secundária, numa tentativa aparente de acelerar o processo político.
O encontro introduziu mudanças relevantes face a rondas anteriores. Pela primeira vez, Argélia e Mauritânia participaram como partes plenas, abandonando o estatuto de meros “observadores regionais”. Além disso, Marrocos apresentou uma versão revista do seu plano de autonomia para o território, agora com cerca de 40 páginas, substituindo a proposta sucinta apresentada em 2007.
Apesar do simbolismo político, os resultados concretos permanecem incertos. Rabat afirma que o seu plano de autonomia foi aceite como única base de trabalho, mas fontes argelinas e da Polisario contestam essa leitura, defendendo que não houve acordo formal e que continuam em cima da mesa soluções que incluem um período de autonomia transitória seguido de um referendo de autodeterminação, com a independência como opção.
Também não ficou claro se foi aprovada a criação de um comité técnico conjunto para preparar um eventual acordo-quadro a discutir numa nova ronda prevista para maio. Algumas fontes indicam que a ideia foi discutida, mas sem decisão formal.
Ainda assim, o International Crisis Group sublinha que o principal ganho do encontro foi o relançamento do diálogo entre os atores-chave de um conflito que se arrasta desde 1975. O grande desafio para os mediadores norte-americanos será ultrapassar o impasse central: enquanto Argélia e Polisario admitem negociar um modelo de autonomia, mas continuam a exigir um referendo com opção de independência, rejeitado por Marrocos, que considera a autonomia suficiente como expressão do direito à autodeterminação.
A superação desta divergência estrutural será, segundo os analistas, longa e politicamente complexa.
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