sábado, 14 de fevereiro de 2026

Sahara Ocidental num Encruzilhada Estratégica



Um artigo publicado pela African Security Analysis (ASA)


À medida que Marrocos falha na apresentação de um plano de autonomia credível, Washington poderá impor um quadro de autodeterminação moldado pelos EUA


Resumo Executivo

O dossier do Sahara Ocidental está a entrar numa fase decisiva. À medida que o enviado especial norte-americano Massad Boulos conduz consultas de alto nível em todo o Norte de África, o crescente foco de Washington nos minerais críticos e nas cadeias de abastecimento estratégicas está a reformular o seu cálculo político. Quase duas décadas após Marrocos ter apresentado a sua iniciativa de autonomia, em 2007, a ausência de um quadro concreto e operacional tornou-se cada vez mais difícil de ignorar — sobretudo para uma administração orientada por resultados transacionais, mais do que por diplomacia processual.

Este contexto em evolução levanta uma possibilidade credível: os Estados Unidos poderão ir além do apoio retórico ao conceito de autonomia defendido por Marrocos e avançar para a promoção de um modelo substantivo de autodeterminação alinhado com os interesses estratégicos norte-americanos — um modelo que poderia convergir, paradoxalmente, com as exigências históricas argelinas e saharauis de uma autonomia genuína.


A Proposta Marroquina de Autonomia: Um Conceito sem Arquitetura

A “Iniciativa para a Negociação de um Estatuto de Autonomia”, apresentada por Marrocos em 2007, tem sido amplamente descrita como “séria, credível e realista”. No entanto, quase 20 anos depois, não foi produzida qualquer arquitetura jurídica, institucional ou fiscal detalhada que permita a sua operacionalização.

A proposta original continua a ser uma lista de princípios gerais, carecendo de:

  • poderes legislativos ou executivos claramente definidos;

  • soberania fiscal ou autoridade orçamental independente;

  • controlo sobre os recursos naturais;

  • garantias executórias de implementação.

Esta ambiguidade estratégica serviu Rabat no plano diplomático, permitindo que parceiros internacionais apoiassem a ideia de autonomia sem confrontarem a sua ausência prática. Contudo, para uma administração que privilegia resultados concretos e acordos executáveis, a falta de progressos tangíveis torna-se cada vez mais insustentável.

Além disso, o próprio modelo de governação marroquino fragiliza a credibilidade da proposta. A chamada “regionalização avançada”, consagrada na Constituição de 2011, não se traduziu numa descentralização significativa. Nenhuma região marroquina exerce controlo soberano sobre recursos estratégicos, tributação ou legislação — o que levanta dúvidas legítimas sobre a possibilidade de o Sahara Ocidental vir a ser tratado de forma diferente, sem criar precedentes potencialmente desestabilizadores dentro do próprio Reino.



A Lente Transacional de Trump: Porque o Status Quo Está a Perder Valor

Ao contrário de anteriores administrações norte-americanas, que toleraram o incrementalismo diplomático, a administração Trump encara os diferendos geopolíticos através de um quadro transacional: os problemas devem ser resolvidos, não geridos indefinidamente.

O conflito do Sahara Ocidental enquadra-se plenamente nesta lógica. Indicações anteriores de que Washington pretendia alcançar um avanço rápido — outrora enquadrado publicamente num horizonte de 60 dias — não resultaram em quaisquer concessões concretas por parte de Marrocos. Em paralelo, as prioridades estratégicas dos EUA deslocaram-se de forma acentuada para a garantia de acesso a minerais críticos essenciais para a defesa, a tecnologia e a transição energética.

Ações recentes dos Estados Unidos sublinham esta mudança:

  • investimento federal direto no processamento de terras raras;

  • parcerias estratégicas para contrariar a hegemonia chinesa;

  • reposicionamento agressivo em territórios ricos em recursos naturais.

Neste contexto, o potencial mineral do Sahara Ocidental adquire uma importância acrescida.


Perfil Estratégico de Recursos do Sahara Ocidental

Para além das conhecidas reservas de fosfatos de Bou Craa — das maiores a nível mundial e essenciais para a segurança alimentar — o território apresenta um potencial significativo ainda por explorar em:

  • terras raras;

  • minério de ferro;

  • titânio e vanádio;

  • zircónio;

  • e possivelmente urânio.

Estudos geológicos identificaram concentrações invulgarmente elevadas de minerais estratégicos, posicionando o Sahara Ocidental como um potencial elo crítico nas futuras cadeias de abastecimento não dependentes da China.

Para Washington, a contínua ambiguidade jurídica quanto à soberania e ao controlo dos recursos é incompatível com investimentos de grande escala e de longo prazo. O atual conceito de autonomia marroquino, desprovido de garantias executórias e de soberania efetiva sobre os recursos, não oferece a segurança jurídica exigida pelo capital estratégico norte-americano.


Rumo a uma “Terceira Via”: Autonomia Imposta através da Autodeterminação

Um número crescente de análises sugere que os Estados Unidos poderão, eventualmente, contornar a proposta marroquina — atualmente bloqueada — e avançar com o seu próprio enquadramento, impondo uma forma de autonomia suficientemente robusta para salvaguardar os interesses norte-americanos, ao mesmo tempo que respeita os padrões do direito internacional.

Tal enquadramento poderá incluir:

  • soberania efetiva sobre os recursos naturais por parte da entidade saharaui, em conformidade com o direito internacional e decisões judiciais relevantes;

  • capacidade económica e comercial independente, permitindo parcerias diretas e joint ventures;

  • garantias internacionais, potencialmente sob supervisão da ONU ou dos EUA, para assegurar a implementação;

  • instituições legislativas e judiciais próprias, permitindo uma autogovernação genuína.

Este modelo representaria um afastamento claro da narrativa marroquina de descentralização administrativa, aproximando-se mais do direito do povo saharaui à autodeterminação.

Importa notar que já foram sinalizados financiamentos significativos de desenvolvimento por parte dos EUA para a região, nomeadamente nos sectores das energias renováveis e dos minerais críticos — investimentos que exigem precisamente o tipo de clareza jurídica que Marrocos não conseguiu proporcionar.


Argélia: O Ator Indispensável

A priorização de Argel no recente envolvimento diplomático dos Estados Unidos não é simbólica nem circunstancial. Washington reconhece cada vez mais que nenhuma solução duradoura será possível sem o consentimento e a participação da Argélia.

O apoio consistente de Argel à autodeterminação saharaui — durante anos descrito por críticos como obstrucionista — surge agora como uma postura estratégica coerente, enraizada nos princípios da descolonização. Do ponto de vista norte-americano, a Argélia representa igualmente:

  • uma potência regional estável;

  • um parceiro económico e energético credível;

  • e uma porta de entrada para uma maior estabilidade no Norte de África e no Sahel.

Qualquer solução imposta que ignore a Argélia carecerá de capacidade de execução; qualquer acordo moldado com a sua participação terá maiores probabilidades de ser duradouro.


Implicações para a Frente Polisario e a População Saharaui

Para a Frente Polisario e para a população saharaui refugiada, o crescente pragmatismo norte-americano poderá representar um ponto de viragem há muito aguardado. A Polisario tem demonstrado abertura condicional a uma solução de autonomia — desde que sujeita a referendo e que garanta uma autodeterminação efetiva.

Esta flexibilidade contrasta com a rejeição persistente de Marrocos a qualquer consulta que inclua a independência como opção. Do ponto de vista estratégico, esta assimetria tende a fragilizar a posição de Rabat num ambiente negocial orientado para resultados concretos.


Perspetiva Estratégica

A questão do Sahara Ocidental deixou de ser apenas um diferendo herdado do processo de descolonização. Transformou-se num dossiê estratégico ligado a recursos naturais e modelos de governação, cruzando-se com a competição entre grandes potências, a segurança das cadeias de abastecimento e a estabilidade regional.

Para os Estados Unidos, a margem de escolha está a estreitar-se:

  • manter um quadro simbólico de autonomia que não garante nem paz nem acesso estratégico;

  • ou impor uma solução substantiva que reconfigure o equilíbrio regional, ao mesmo tempo que assegura os interesses norte-americanos.

Caso Washington opte pela segunda via, a História poderá registar que uma administração norte-americana de natureza transacional — motivada por minerais mais do que por princípios normativos — acabou por promover, de forma mais decisiva do que décadas de diplomacia convencional, os princípios do direito internacional e da autodeterminação genuína.

------

Nota: 

O artigo publicado pela African Security Analysis (ASA) contribui para enquadrar o “terreno em que nos movemos” relativamente ao dossiê do Sahara Ocidental na era Trump, oferecendo uma leitura estratégica das dinâmicas políticas e diplomáticas em curso. Trata-se de uma entidade com credibilidade na área da análise de risco e segurança, cujas avaliações e projeções merecem ser consideradas no debate.

A African Security Analysis é uma empresa privada com base administrativa na Suécia, sendo sueca a sua nacionalidade jurídica e sede corporativa. Contudo, a organização desenvolve atividade operacional em vários países africanos — como a Costa do Marfim, a República Democrática do Congo ou o Gabão — o que reflete o seu foco especializado na realidade política, económica e securitária do continente.

A ASA presta serviços de análise de risco, inteligência estratégica e consultoria em segurança a clientes públicos, privados e governamentais. O seu trabalho centra-se na antecipação de ameaças e na avaliação de mudanças no contexto africano, apoiando decisões de investimento, planeamento operacional e proteção de ativos e pessoas.




Sem comentários:

Enviar um comentário