Espaço de informação e debate promovido pela Associação de Amizade Portugal - Sahara Ocidental.
Pelo direito à autodeterminação do povo Saharauí.
terça-feira, 31 de março de 2026
A RASD, 50 anos de resistência, dignidade e esperança
domingo, 29 de março de 2026
Gás e Sahara Ocidental redesenham alianças: Itália ganha peso, Espanha oscila e Argélia impõe pragmatismo
A geopolítica da energia no sul da Europa está a ser redesenhada sob o duplo impacto da instabilidade internacional e do conflito do Sahara Ocidental, com a Argélia a afirmar-se como fornecedor estratégico e a Itália a consolidar uma posição de vantagem.
A recente deslocação da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a Argel insere-se numa estratégia clara: garantir segurança energética num contexto de risco acrescido no Médio Oriente e reforçar um eixo político estável no Mediterrâneo. A ligação através do gasoduto TransMed e o reforço da cooperação entre a ENI e a Sonatrach consolidam essa relação.
No centro desta reconfiguração está o Sahara Ocidental. O apoio da Espanha, em 2022, ao plano de autonomia de Marrocos para o território — contrariando décadas de posição mais equilibrada — provocou uma rutura com Argel, principal apoiante da Frente Polisario. A suspensão de relações comerciais e políticas marcou um ponto de viragem.
Esse “zig-zag” da política externa espanhola abriu espaço para Roma. Enquanto Madrid perdia margem de influência, a Itália avançava com uma estratégia coerente e contínua, assente em interesses energéticos e numa diplomacia estável, consolidando-se como principal parceiro europeu da Argélia.
Entretanto, o quadro regional voltou a alterar-se. O reforço das relações entre a França, sob liderança de Emmanuel Macron, e o Marrocos de Mohamed VI tem pressionado Argel a evitar isolamento estratégico. Neste contexto, a Argélia iniciou uma reaproximação pragmática a Espanha, sobretudo nos domínios energético e comercial.
Ainda assim, a desconfiança mantém-se. Em Argel, a mudança de posição espanhola sobre o Sahara Ocidental continua a ser vista como uma quebra de confiança, limitando a profundidade da reaproximação.
A realidade energética impõe, no entanto, pragmatismo. Num cenário de elevada volatilidade global, a Argélia reforça o seu papel como fornecedor-chave de gás à Europa, tanto para a Península Ibérica como, de forma crescente, para Itália e para a Europa Central, via Áustria e Alemanha. Este posicionamento confere-lhe margem de manobra política acrescida.
Neste novo equilíbrio, a Itália surge como o parceiro mais consistente e previsível, enquanto Espanha tenta recuperar terreno após uma inflexão diplomática com custos duradouros. No pano de fundo, o conflito do Sahara Ocidental continua a condicionar alianças, influenciar decisões energéticas e moldar o mapa estratégico do Mediterrâneo.
Human Rights Watch (HRW) alerta para “ambiguidade destrutiva” no processo de paz do Sahara Ocidental
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© 2023 Ryad Kramdi/AFP via Getty Images |
A organização Human Rights Watch alertou para os riscos associados à atual condução do processo de paz no Sahara Ocidental, defendendo a necessidade de maior clareza e equilíbrio nas negociações entre Marrocos e a Frente Polisario.
Segundo a análise, as recentes negociações — retomadas após quase sete anos de impasse e impulsionadas pelos Estados Unidos — representam um desenvolvimento inesperado, mas assentam numa base considerada ambígua e potencialmente prejudicial ao processo.
A crítica centra-se na resolução mais recente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que mantém o princípio da autodeterminação, mas introduz referências à proposta de autonomia de Marrocos que, segundo a HRW, geram interpretações divergentes entre as partes.
Enquanto Marrocos encara as negociações como um processo para implementar a sua proposta de autonomia, a Frente Polisario defende um quadro mais amplo que inclua a possibilidade de independência, mantendo o desacordo de fundo.
A
organização considera que o envolvimento direto dos Estados Unidos,
fora do quadro tradicional liderado pela ONU, poderá agravar a
perceção de parcialidade e comprometer a confiança no processo.
O
conflito, que dura há cerca de 50 anos, continua a opor Marrocos —
que controla grande parte do território — e o movimento ide
libertação
nacional
saharaui,
apoiado pela Argélia.
A HRW defende que um eventual acordo exige medidas prévias de confiança entre as partes, como a libertação de presos políticos e a redução das hostilidades, bem como a definição de um quadro negocial claro e consensual.
Sem essas condições, a organização considera que a atual dinâmica poderá dificultar, em vez de facilitar, uma solução duradoura para o conflito.
Espanha: CEAS-Sáhara lança campanha de emergência após inundações nos campos de refugiados
A Coordenadora Estatal de Associações Solidárias com o Sahara de Espanha (CEAS-Sahara) lançou uma campanha de emergência para apoiar a população refugiada saaraui afetada por inundações recentes nos campos de refugiados, com especial incidência na região de Dajla.
As chuvas intensas provocaram danos significativos em habitações e infraestruturas, agravando a situação humanitária num contexto já marcado pela redução da ajuda internacional.
A campanha visa mobilizar apoio financeiro imediato para responder às necessidades essenciais da população afetada, num cenário considerado crítico pelas entidades no terreno.
Sê SOLIDÁRIO e contribui também:
Conta bancária: ES95 0081 0655 6800 0132 7041
Assunto: INUNDACIONES WILAYA DE DAJLA
quinta-feira, 26 de março de 2026
Chuvas torrenciais destroem casas e construções no campos de refugiados saharauis
Chuvas
torrenciais de intensidade excecional atingiram os campos de
refugiados saharauis,
no
sudoeste da
Argélia, provocando inundações e elevados danos materiais,
sobretudo na wilaya de Dakhla,
uma das zonas mais afetadas e
também a mais afastada da cidade argelina de Tindouf.
De
acordo com informações no terreno, a precipitação, que começou
ao início da noite de quarta-feira, originou cheias e grandes
enxurradas, após uma noite marcada por valores recorde de chuva.
Cerca de uma centena de habitações ficaram inundadas, num campo que
alberga aproximadamente 8 mil pessoas.
A situação é agravada pelo facto de a generalidade das construções ser feita em adobe, um material tradicional de terra crua particularmente vulnerável à água. Muitas destas estruturas, já precárias, sofreram danos significativos ou colapsaram parcialmente devido à combinação de chuva intensa e rajadas de vento.
As autoridades locais referem que as inundações foram generalizadas e alertam que o impacto poderá ser severo a nível humanitário, numa população que já vive em condições frágeis. A avaliação completa dos estragos ainda não está concluída, mas teme-se que o número de casas afetadas possa aumentar.
Nos campos de refugiados de Tindouf, no sudoeste da Argélia, vivem há décadas milhares de saharauis deslocados do Sahara Ocidental (mais de 173 mil segundo dados da ONU), enfrentando condições climáticas extremas e infraestruturas limitadas.
As autoridades continuam a monitorizar a situação, enquanto cresce a preocupação com as necessidades urgentes de abrigo e apoio à população afetada.
segunda-feira, 23 de março de 2026
MINURSO perde quadros e vê estrutura reduzida no Sahara Ocidental
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Alexander Ivanko, Chefe da MINURSO, o Major General Md Fakhrul Ahsan (Bangladesh) MINURSO Force Commander e Yusef Jedian, Head of Tindouf Liaison Office agora despedido e enviado para Nova Iorque.
A Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) está a registar uma redução significativa da sua equipa de direção, com várias saídas recentes não substituídas, num contexto de menor protagonismo nas negociações sobre o território.
Segundo a Africa Intelligence, o diplomata palestiniano Yusef Jedian, responsável pelo gabinete de ligação da ONU nos campos de refugiados saharauis de Tindouf desde 2016, deverá deixar funções até 26 de março, após não ter obtido provimento numa ação interposta no Tribunal Administrativo das Nações Unidas.
Nos últimos meses, também o chefe de gabinete da missão, o norte-americano Kenneth Payumo, cessou funções, após um mandato de quase dois anos. A posição tinha já registado elevada rotatividade, com sucessões recentes de responsáveis em curtos períodos. Em paralelo, a responsável pelo apoio à missão, a diplomata ruandesa Veneranda Mukandoli-Jefferson, também abandonou o cargo.
Mantêm-se em funções o chefe da missão, o russo Alexander Ivanko, e o seu conselheiro, Fabrizio Scarpa.
Marginalização nas negociações
De acordo com a mesma fonte, a redução da estrutura da MINURSO reflete a crescente marginalização da ONU no processo político, com as negociações a decorrerem sobretudo sob mediação dos Estados Unidos, envolvendo Marrocos, e a Frente Polisario, e tendo como observadores a Argélia e a Mauritânia.
O enviado pessoal do secretário-geral da ONU para o Sahara Ocidental, Staffan de Mistura, terá perdido protagonismo neste processo.
Com o atual mandato a terminar a 31 de outubro, a missão poderá evoluir para um papel mais limitado, centrado na supervisão de um eventual processo de autonomia no território, pelo menos será essa, no limite, a intenção da administração norte-americana e de Marrocos, se não mesmo o seu completo desaparecimento...
sábado, 21 de março de 2026
Comércio UE-Marrocos: Eurodeputados contestam a Comissão sobre o Sahara Ocidental
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| O eurodeputado Thomas Waitz apela a um intercâmbio mais direto, do tipo «pingue-pongue», uma vez que a Comissão não respondeu às perguntas colocadas pelos eurodeputados. A sala responde com aplausos. |
WSRW - 19/02/2026 - Eurodeputados de todo o espectro político criticaram veementemente a Comissão Europeia pela forma como tem gerido as relações comerciais entre a UE e Marrocos no que diz respeito ao Sahara Ocidental ocupado, manifestando preocupações quanto à legalidade, à transparência e a um aparente desrespeito pelo papel do Parlamento.
A Comissão Europeia enfrentou fortes críticas por parte dos deputados ao Parlamento Europeu (MEPs) durante uma troca de pontos de vista na Comissão da Agricultura (AGRI) do Parlamento, realizada no dia 18 de março de 2025, à medida que aumentavam as preocupações quanto à legalidade, transparência e substância da sua abordagem às relações comerciais UE-Marrocos que abrangem o Sahara Ocidental.
A audiência decorreu no âmbito do novo regime comercial relativo aos produtos do Sahara Ocidental, ao abrigo do Acordo de Associação UE-Marrocos, aplicado a título provisório desde 4 de outubro de 2025. Tal facto contraria a oposição manifestada pelo Parlamento Europeu à aplicação provisória, uma vez que exclui o controlo parlamentar.
Veja o vídeo da audiência no site do Parlamento aqui. A transcrição completa do debate na Comissão AGRI pode ser consultada aqui.
Em representação da Comissão, Matthias Petschke (DG TAXUD) e Brigitte Misonne (DG AGRI) apresentaram o ponto da situação. As suas explicações, no entanto, pouco contribuíram para aliviar as tensões.
Petschke disse aos membros da Comissão da Agricultura que o acordo não é de natureza agrícola, uma vez que abrange todos os produtos provenientes do Sahara Ocidental, que, na prática, consistem principalmente em produtos da pesca, especificou. Baseou-se nos dados de importação de 2022 – uma escolha notável, dado que os dados da Comissão sobre as importações de Marrocos e do Sahara Ocidental estão incompletos desde o início do outono de 2025. A ausência de dados comerciais — a partir de setembro do ano passado — coincide com o período durante o qual a Comissão apressou asnegociações com Marrocos e fez passar o acordo pelo Conselho para aplicação provisória — contornando efetivamente o Parlamento. Petschke atribuiu a falta de dados ao facto de os Estados-Membros não terem partilhado conjuntos de dados completos.
Solução alternativa para a rotulagem rejeitada pelos eurodeputados
Misonne
confirmou que o regime proposto reflete o acordo anterior — anulado
pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) em outubro de
2024 —, mas introduz uma alteração fundamental: um novo sistema
de rotulagem baseado nas chamadas «regiões de origem». Ao abrigo
desta abordagem — estabelecida num regulamento delegado, e não no
próprio acordo — os produtos do Sahara
Ocidental seriam rotulados utilizando os nomes regionais designados
por Marrocos: Laâyoune-Sakia El Hamra e Dakhla-Oued Eddahab.
Em
novembro de 2025, a maioria dos eurodeputados votou a favor darejeição da medida, mas a moção ficou a um voto do limiar
necessário para impedir a sua adoção. O Regulamento Delegado
entrou em vigor a 23 de dezembro de 2025.
Misonne descreveu a utilização das denominações «Laâyoune-Sakia El Hamra» e «Dakhla-Oued Eddahab» como «uma melhoria considerável em termos de informação aos consumidores».
Os eurodeputados de todo o espectro político discordaram veementemente.
Lynn Boylan (Esquerda, Irlanda), relatora permanente para o Magrebe, afirmou que «não se pode esperar que nenhum consumidor saiba o que estas regiões representam, de onde vêm estes produtos», e instou a Comissão a divulgar o parecer jurídico em que se baseia a sua posição.
Carmen Crespo Díaz (PPE, Espanha) salientou que «o Tratado da União Europeia refere-se à identificação dos países. É isso que deve constar no rótulo, e não as regiões.»
Cristina Guarda (Verdes/EFA, Itália) mostrou-se convencida de que esta abordagem servia apenas para «enganar os consumidores».
Misonne respondeu que a utilização de rótulos regionais garante que o território «já não é identificado como Marrocos», alegando que este era o cerne do acórdão do Tribunal. No entanto, esta interpretação ignora a exigência explícita do Tribunal de que os produtos devem indicar «apenas o Sahara Ocidental como país de origem».
Marrocos procura o apoio da UE para o seu papel no Sahara Ocidental
Durante o debate, surgiu uma questão particularmente controversa: Marrocos solicitou formalmente à UE autorização para emitir certificados de conformidade para produtos originários do Sahara Ocidental.
Esses
certificados atestariam que os produtos cumprem as normas de
comercialização da UE, incluindo as regras de origem. Misonne
confirmou que a Comissão está atualmente a realizar uma missão no
território para avaliar se deve ser concedido este papel a
Marrocos.
Isto suscita preocupações jurídicas fundamentais.
Conceder a Marrocos a autoridade para certificar produtos do Sahara
Ocidental equivaleria, na prática, a reconhecer Marrocos como uma
potência administrativa competente no território — uma posição
que contradiz diretamente a conclusão consistente do TJUE de que
Marrocos não tem soberania nem mandato de administração sobre o
Sahara
Ocidental.
«Completamente inaceitável»: Parlamento posto de lado
Outro importante ponto de discórdia foi o facto de a Comissão continuar a não ter transmitido formalmente a proposta ao Parlamento Europeu, impedindo assim o escrutínio democrático.
Embora o acordo alterado tenha entrado em aplicação provisória no início de outubro de 2025, o Parlamento ainda não recebeu o texto oficial. Os eurodeputados de vários grupos políticos criticaram esta abordagem, questionando como se espera que exerçam a sua função de supervisão sem acesso ao texto oficial.
«Completamente inaceitável», afirmou Lynn Boylan.
Mireia Borrás Pabón, [do partido espanhol Vox] (PfE , Espanha) acusou a Comissão de «passar por cima» do Parlamento e de «tentar contornar-nos», acrescentando: «Passaram seis meses e, basicamente, durante esse tempo, não houve qualquer contributo democrático.»
Petschke desviou a responsabilidade, afirmando que a transmissão do texto «não é da competência da Comissão» e sugerindo que os eurodeputados se dirigissem ao Conselho para obter respostas.
Falta de dados e preocupações com o mercado
A ausência de dados sobre importações desde setembro de 2025 também suscitou reações fortes.
Daniel
Buda (PPE, Roménia), vice-presidente da Comissão AGRI, questionou:
«Como vamos verificar o que se passa no mercado se não dispomos dos
dados?»
Os eurodeputados manifestaram preocupações quanto ao
impacto das importações na agricultura da UE. Borrás Pabón
apontou para uma queda de 30 % na produção de tomate na região
espanhola de Almería, descrevendo a falta de dados fiáveis sobre as
importações como um «bloqueio de informação». Crespo Díaz
citou números que revelam uma queda de 25 % nas exportações
espanholas de tomate, a par de um aumento de 42 % nas importações
provenientes de Marrocos e do Sahara
Ocidental.
Jérémy Decerle (Renew, França) alertou: «A produção europeia está a diminuir, enquanto somos inundados com tomates marroquinos produzidos em condições mais favoráveis aos produtores marroquinos.»
Gilles Pennelle (PfE, França) manifestou a sua preocupação relativamente ao financiamento da UE prometido no âmbito do acordo para projetos de dessalinização na «zona em causa», concluindo: «Estamos a financiar aumentos nas exportações… o que irá prejudicar setores nos nossos países.»
O mesmo manual, os mesmos riscos jurídicos
A troca de palavras tensa na AGRI ecoa confrontos semelhantes noutras comissões parlamentares, sobre a forma como a Comissão lida com o Sahara Ocidental.
«Apesar de uma década de acórdãos consistentes do TJUE, a Comissão parece determinada a seguir uma abordagem que corre o risco de reproduzir as mesmas falhas jurídicas que levaram à anulação de acordos anteriores. Enquanto não for obtido o consentimento do povo saharaui, qualquer acordo que abranja o Sahara Ocidental permanece juridicamente vulnerável», afirma Sara Eyckmans, da Western Sahara Resource Watch. «Ao mesmo tempo, a dependência da Comissão em relação a procedimentos opacos — incluindo a aplicação provisória sem escrutínio parlamentar e o uso de práticas de rotulagem contestadas — suscita sérias preocupações quanto à transparência, à responsabilização e ao respeito pelo Estado de direito na política comercial da UE.»
Marrocos adia a visita da Relatora Especial da ONU sobre a tortura, que incluía El Aaiún
(NTOSO) 20 de Março de 2026 - A visita oficial a Marrocos da Relatora Especial das Nações Unidas sobre a tortura, Alice Jill Edwards, prevista para o período entre 23 de março e 2 de abril de 2026, foi adiada a pedido do próprio Governo marroquino. O anúncio, feito pelo Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR), surge num momento especialmente relevante, uma vez que a missão incluía deslocações a diferentes regiões do país, entre elas El Aaiún, no Sahara Ocidental ocupado.
De acordo com o comunicado oficial divulgado pelas Nações Unidas, Marrocos solicitou o adiamento da visita alegando a declaração de um feriado nacional por ocasião do Eid al-Fitr, o que teria dificultado a organização de reuniões com autoridades e instituições. A Relatora confirmou que continuará a trabalhar com o Governo para marcar novas datas.
Alice Jill Edwards referiu que a sua intenção é manter o processo em curso e convidou as partes envolvidas a continuarem a fornecer informações relevantes para que se possa avaliar a situação, mesmo enquanto se definem os novos prazos da visita.
Para além da explicação oficial, o adiamento assume uma dimensão particular se se tiver em conta que a visita incluía El Aaiún, a principal cidade do Sahara Ocidental ocupado. Este tipo de missões internacionais é especialmente sensível no território, onde há anos se denunciam restrições ao acesso de observadores independentes, jornalistas e mecanismos internacionais de direitos humanos.
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| A relatora da ONU em espera... |
A eventual presença de uma relatora da ONU especializada em tortura e maus-tratos teria permitido documentar no terreno as denúncias reiteradas de abusos contra ativistas saharauis, num contexto marcado pela ausência de mecanismos permanentes de supervisão internacional.
O adiamento insere-se, além disso, num quadro mais alargado em que o acesso ao Sahara Ocidental por parte de observadores internacionais continua a ser limitado. As organizações de direitos humanos têm denunciado, em numerosas ocasiões, obstáculos à observação independente, bem como restrições ao trabalho de jornalistas e delegações internacionais.
Neste contexto, a ausência de um mandato em matéria de direitos humanos no âmbito da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental) reforça a importância deste tipo de visitas, que constituem uma das poucas vias para obter informação direta sobre a situação no território.
O atraso da missão, portanto, não é um facto menor. Volta a pôr em evidência as dificuldades em garantir um escrutínio internacional eficaz no Sahara Ocidental, um território que continua à espera de descolonização e onde o acesso a mecanismos independentes continua a ser limitado.
sexta-feira, 20 de março de 2026
ISCTE promove webinar sobre descolonização do Sahara Ocidental
O CEI-Iscte promove no próximo dia 26 de março, pelas 16h00, o webinar “Africa’s Last Colony: Decolonising Western Sahara”, dedicado à situação política e histórica do Sahara Ocidental. A participação é gratuita e decorre online.
A sessão integra o ciclo «Middle East & North Africa Seminar Series» e pretende debater o processo de descolonização do território, considerado por muitos como a última colónia em África, mais de 50 anos após a ocupação por Marrocos.
O
webinar abordará as condições de vida da população saharaui,
tanto nos territórios ocupados como nos campos de refugiados de
Tindouf, na Argélia, bem como o papel da República Árabe Saharaui
Democrática (RASD). Em análise estarão também as questões ligadas aos
direitos humanos, ao direito internacional e à exploração de
recursos naturais na região.
A iniciativa pretende ainda
abordar os primeiros contactos históricos entre Portugal e o
território, assim como os desafios éticos da investigação
académica em contextos de ocupação.
Investigadores
convidados
O debate contará com a participação de Isabel Lourenço, investigadora em estudos africanos, e de Francisco Freire, professor de antropologia na Universidade NOVA de Lisboa e especialista na região do Sahara Ocidental.
O acesso ao webinar é feito através da plataforma Microsoft Teams, mediante link:
https://teams.microsoft.com/meet/37402356508323?p=b4laUhdIfGACPhbOfv
Meeting ID: 374 023 565 083 23
Passcode: gK3sf9P9
quinta-feira, 19 de março de 2026
Especialistas debatem em Bruxelas a questão do Sahara Ocidental
Sob
o tema “A Reafirmação do Direito Internacional: o caso do Sahara
Ocidental – as obrigações da comunidade internacional”, o
encontro decorre no Residence Palace, na sala Polak, ao longo de todo
o dia, entre as 9h30 e as 18h00.
A iniciativa estrutura-se em
três momentos principais. O primeiro painel, da
parte da manhã,
será dedicado ao enquadramento do conflito à luz do direito
internacional e ao papel das Nações Unidas e da União Africana. Já
o segundo painel, da
parte da tarde, centrará
o debate na atuação da União Europeia face à questão do Sahara
Ocidental, nomeadamente no plano jurídico e político.
A conferência inclui ainda uma mesa-redonda focada nos mecanismos legais disponíveis para o povo saharaui, bem como para sindicatos e organizações de direitos humanos, com destaque para possíveis ações em tribunais civis.
Entre
os oradores confirmados estão académicos e especialistas de várias
universidades europeias, como Isaías Barreñada Bajo, Manfred Hinz,
Juan Soroeta Liceras e Carlos Ruiz Miguel, bem como o antigo
conselheiro jurídico principal da União Africana, Ben
Kioko.
Participam ainda investigadores e especialistas em
direito internacional e direitos humanos de várias instituições
europeias, além de representantes de organizações agrícolas e
sindicais.
As conclusões da conferência estarão a cargo do dirigente saharaui Oubi Bouchraya Bachir e Pierre Galand, presidente da EUCOCO (Coordenadora Europeia de Apoio e Solidariedade com o Povo Saharaui).
O encontro pretende contribuir para o debate jurídico internacional sobre um dos conflitos territoriais mais prolongados da agenda das Nações Unidas, colocando em foco as responsabilidades dos Estados e das instituições internacionais na defesa do direito à autodeterminação do povo saharaui.
quarta-feira, 18 de março de 2026
Senegal-Marrocos: está aberta a guerra pela Taça das Nações Africanas
Na final da Taça das Nações Africanas, o Senegal fez o suficiente para ganhar em campo (1-0). Já fora dele, Marrocos terá apresentado um tipo de “recurso” que costuma pesar mais do que qualquer marcador...
Para os menos informados sobre esta disputa que opõe os dois países reproduzimos um artigo publicado no portal desportivo football.fr
Senegal–Marrocos
investigação por suspeitas de corrupção à vista
Após a retirada do título da CAN ao Senegal em favor de Marrocos, o Governo senegalês exige a abertura de uma investigação internacional por suspeitas de corrupção no seio da Confederação Africana de Futebol (CAF).
Uma verdadeira onda de choque está a abalar o futebol africano. Derrotado na final da CAN a 18 de janeiro (1-0), Marrocos acabou por ser declarado vencedor na secretaria (3-0) pela Confederação Africana de Futebol, em detrimento do Senegal. Uma decisão que ultrapassa o plano desportivo e assume contornos de caso de Estado.
A Federação Senegalesa de Futebol (FSF) anunciou rapidamente a intenção de recorrer ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), abrindo caminho a um possível desenvolvimento judicial de grande dimensão. Os “Leões da Teranga” não pretendem ficar por aqui e querem ver o título restituído.
Esta manhã, o secretário-geral da FSF, Abdoulaye Sow, criticou a decisão e procurou tranquilizar os adeptos. Entretanto, o caso ganhou dimensão nacional. O Governo senegalês divulgou um comunicado manifestando consternação perante o que considera uma injustiça sem precedentes. “Esta decisão inédita, de extrema gravidade, colide frontalmente com os princípios fundamentais que regem a ética desportiva, nomeadamente a equidade, a lealdade e o respeito pela verdade do jogo”, lê-se.
Senegal suspeita de corrupção na CAF
O Governo promete esgotar todos os meios legais e exige a abertura de uma investigação internacional independente por suspeitas de corrupção na CAF. “O Senegal não pode aceitar que uma decisão administrativa apague o empenho, o mérito e a excelência desportiva. Rejeitamos sem ambiguidades esta tentativa de desapropriação injustificada”, refere o comunicado.
A FSF e o Estado senegalês garantem que serão mobilizadas todas as vias de recurso, incluindo as jurisdições internacionais, para que seja feita justiça e que a primazia do resultado desportivo seja respeitada. Além disso, o governo manifesta a sua solidariedade para com os adeptos senegaleses detidos em Marrocos na sequência dos incidentes ocorridos na final.
Embora este caso esteja apenas a começar, o Senegal demonstra determinação e vigilância na defesa dos direitos da sua seleção. A batalha pela restituição do troféu está agora aberta, e o desfecho ainda está por escrever.
domingo, 15 de março de 2026
Fábrica de Braço de Prata exibe mostra de cinema saharaui no Cinalfama
O Cinalfama lança a partir de 18 de março, em Lisboa, um novo programa regular de cinema intitulado “Cinema Invisível”, dedicado a cinematografias raramente exibidas nos circuitos tradicionais. As sessões decorrem todas as quartas e quintas-feiras às 19h, na Fábrica do Braço de Prata, na Sala Visconti – em Marvila, Lisboa.
A iniciativa pretende dar visibilidade a obras e autores provenientes de contextos onde o cinema é produzido em condições frágeis ou fora das estruturas industriais habituais. O programa inclui filmes de arquivos esquecidos, produções amadoras e cinematografias ainda pouco conhecidas pelo público.
Segundo dados da UNESCO, grande parte do cinema produzido em várias regiões do mundo surge em contextos com poucos recursos, sem políticas públicas ou redes de distribuição estruturadas. O projeto procura precisamente criar um espaço regular para a exibição e discussão dessas obras.
Primeiro ciclo dedicado ao cinema saharaui
A estreia do programa será marcada por um ciclo dedicado ao cinema saharaui, organizado em colaboração com o FiSahara – Festival Internacional de Cinema do Sahara Ocidental.
Esta
cinematografia surgiu sobretudo nos campos de refugiados saharauis
de Tindouf, no sudoeste da Argélia, onde vivem cerca de 180
mil refugiados desde 1975, após a retirada da Espanha do Sahara
Ocidental e a subsequente ocupação do território por Marrocos.
Nos
últimos anos, realizadores saharauis
têm recorrido ao cinema para documentar a vida nos campos de
refugiados, preservar a memória coletiva e dar visibilidade
internacional à situação política do território.
Projeto cultural iniciado em Alfama
Criado em 2009 no bairro de Alfama, o Cinalfama começou por projetar filmes nas ruas e fachadas do bairro histórico de Lisboa. Com o tempo, o projeto evoluiu para um programa cultural mais amplo que inclui festival internacional, programação regular, residências artísticas e iniciativas de memória audiovisual ligadas à cidade.
Com o Cinema Invisível, a organização pretende reforçar a missão de usar o cinema como espaço de encontro, reflexão e descoberta de novas cinematografias.
Programa
18 de Março
19:00
– Toufa,
de Brahim Chagaf – Sahara Ocidental - 2020 – 32’
Toufa
recria os primórdios da chegada da população saharaui
ao deserto árido da Hamada argelina.
Esta curta-metragem retrata o sofrimento de três gerações de
mulheres saharauis
que, através do seu esforço e sacrifício, foram curando as feridas
da guerra após a sua chegada ao território inóspito desta parte do
sul da Argélia.
19:33
– Little
Sahara,
de Emilio Martín – Espanha - 2023 – 31’
Quem não conhece
o Sahara acredita que no deserto existe apenas areia. Mas aqui há
crianças que brincam, desenham e fazem filmes, tal como este
documentário que conta a história da última colónia europeia em
África, o Sahara Ocidental, e a de milhares de refugiados saharauis
que vivem no exílio.
19 de Março
19:00
– Searching
for Tirfas,
de Lafdal Mohamed Salem – Sahara Ocidental – 2020 - 14’
Quando
se nasce em campos de refugiados, cresce-se a sonhar que um dia se
viverá na terra natal e, com o passar do tempo, esse sonho nunca
deixa de o ser… Torna-se pai de família e, nesse momento, é
preciso enfrentar a vida para alcançar a autonomia. Luta-se para
concretizar os sonhos e ultrapassar os obstáculos do quotidiano;
entre dois mundos, acaba-se por fazer aquilo que nunca se pensou vir
a fazer.
19:15 – They're Just Fish, de Ana Serna e Paula Iglesias – Espanha e Sahara Ocidental - 2019 – 17’
Teslem, Dehba e Jadija trabalham numa piscicultura nos campos de refugiados saharauis. Onde? Na Argélia, no meio do deserto e longe da sua terra natal. Não há mar ali, mas há peixe.
19:33
– Running
Home,
de Michelle-Andrea Girouard – Canadá - 2019 – 30’
Inma
(24) está determinada a vencer uma maratona no Deserto do Sahara.
Mas as suas motivações vão muito além do desafio físico. Há
alguns meses, encontrou documentos de adopção que revelavam o local
de nascimento da sua mãe biológica: El Aaiún, Sahara Ocidental.
Nunca tendo ouvido falar do país, decide treinar para uma maratona
internacional que decorre nos campos de refugiados saaraui no Norte
de África. É a oportunidade perfeita para conhecer uma história
que nunca enfrentou enquanto crescia em Espanha.
25 de Março
19:00
– DESERT
PHOSfate,
de Mohamed Sleiman Labat – Sahara Ocidental - 2023 – 58’
DESERT
PHOSfate é um filme experimental que entrelaça narrativas
multilayer sobre o fosfato, partículas de areia, plantas, o
deslocamento humano e mineral, bem como a perda dos modos de vida
nómadas indígenas saharauis.
O filme também destaca fortes expressões de resiliência
comunitária através de jardins e da arte. Realizado por um artista
saharaui,
o filme procura descolonizar a sua metodologia de fazer cinema e
contar histórias, baseando-se em elementos e narrativas da sua
própria comunidade.
26 de Março
19:00
– Champs-Elysées,
de Giussepe Carrieri – Sahara Ocidental – 2023 – 23’
Um
rapaz sonha viajar pelo mundo, especialmente até Paris, onde vive o
seu tio, mas um muro construído na sua terra divide o seu país e
impede-o de viajar ou de atravessar para o outro lado da sua própria
terra.
19:24
– Soukeina,
4400 Days of Night,
de Laura Sipán – Espanha – 2017 – 28’
Após a ocupação
militar do Sahara Ocidental em 1976, o governo marroquino atacou a
população civil com forte repressão, forçando centenas de
saharauis
a “desaparecer” em prisões clandestinas. Uma morte invisível e
lenta era o único horizonte. No entanto, alguns prisioneiros
conseguiram sobreviver depois de sofrerem a sua própria “extinção”
durante mais de 10 anos, arrancados às suas famílias, sujeitos a
tortura e em total isolamento. Quando finalmente foram libertados, o
mundo que conheciam tinha mudado radicalmente.
19:53
– 3 Stolen
Cameras,
Equipe Media, RåFILM – Sahara Ocidental – 2017 – 17’
Os
membros do grupo de vídeo-activismo Equipe Media lutam para manter
as suas câmaras. Utilizam-nas para documentar as violações dos
direitos humanos cometidas pelo reino marroquino na última colónia
de África. Não é permitida a entrada de jornalistas no Sahara
Ocidental ocupado. As únicas imagens que conseguem sair do
território são aquelas que a Equipe Media filma em segredo,
escondendo-se em telhados e correndo riscos graves. Filmam
manifestações pacíficas atacadas pela polícia e pelo exército,
bem como ferimentos e testemunhos de vítimas de brutalidade
policial. Esta é uma história sobre a quebra de uma censura
absoluta, com imagens únicas de uma região onde as autoridades
marroquinas conseguiram impor um bloqueio mediático quase total.
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