domingo, 29 de março de 2026

Gás e Sahara Ocidental redesenham alianças: Itália ganha peso, Espanha oscila e Argélia impõe pragmatismo

 



A geopolítica da energia no sul da Europa está a ser redesenhada sob o duplo impacto da instabilidade internacional e do conflito do Sahara Ocidental, com a Argélia a afirmar-se como fornecedor estratégico e a Itália a consolidar uma posição de vantagem.

A recente deslocação da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a Argel insere-se numa estratégia clara: garantir segurança energética num contexto de risco acrescido no Médio Oriente e reforçar um eixo político estável no Mediterrâneo. A ligação através do gasoduto TransMed e o reforço da cooperação entre a ENI e a Sonatrach consolidam essa relação.

No centro desta reconfiguração está o Sahara Ocidental. O apoio da Espanha, em 2022, ao plano de autonomia de Marrocos para o território — contrariando décadas de posição mais equilibrada — provocou uma rutura com Argel, principal apoiante da Frente Polisario. A suspensão de relações comerciais e políticas marcou um ponto de viragem.

Esse “zig-zag” da política externa espanhola abriu espaço para Roma. Enquanto Madrid perdia margem de influência, a Itália avançava com uma estratégia coerente e contínua, assente em interesses energéticos e numa diplomacia estável, consolidando-se como principal parceiro europeu da Argélia.

Entretanto, o quadro regional voltou a alterar-se. O reforço das relações entre a França, sob liderança de Emmanuel Macron, e o Marrocos de Mohamed VI tem pressionado Argel a evitar isolamento estratégico. Neste contexto, a Argélia iniciou uma reaproximação pragmática a Espanha, sobretudo nos domínios energético e comercial.

Ainda assim, a desconfiança mantém-se. Em Argel, a mudança de posição espanhola sobre o Sahara Ocidental continua a ser vista como uma quebra de confiança, limitando a profundidade da reaproximação.

A realidade energética impõe, no entanto, pragmatismo. Num cenário de elevada volatilidade global, a Argélia reforça o seu papel como fornecedor-chave de gás à Europa, tanto para a Península Ibérica como, de forma crescente, para Itália e para a Europa Central, via Áustria e Alemanha. Este posicionamento confere-lhe margem de manobra política acrescida.

Neste novo equilíbrio, a Itália surge como o parceiro mais consistente e previsível, enquanto Espanha tenta recuperar terreno após uma inflexão diplomática com custos duradouros. No pano de fundo, o conflito do Sahara Ocidental continua a condicionar alianças, influenciar decisões energéticas e moldar o mapa estratégico do Mediterrâneo.

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