sábado, 7 de março de 2026

Protestos crescem nos campos de Marrocos apesar do 'boom' das exportações agrícolas

 

Camponesa marroquina. Foto Via Campesina

Os trabalhadores agrícolas de Marrocos têm intensificado protestos contra baixos salários, precariedade laboral e desigualdades sociais, apesar do forte crescimento das exportações agrícolas destinadas sobretudo à Europa. A análise é apresentada por Eva Tapiero num artigo publicado no Le Monde Diplomatique (Março 2026).

Segundo a reportagem, a região de Souss-Massa, no sul do país, tornou-se um dos principais polos agrícolas de Marrocos, responsável por 85% das exportações nacionais de produtos hortícolas e 65% das exportações de citrinos, grande parte destinada ao mercado europeu. Este crescimento foi impulsionado pelo Plano Marrocos Verde, lançado em 2008 para modernizar o setor agrícola e aumentar a produção orientada para exportação.
Apesar do aumento das receitas agrícolas e do valor gerado para a economia marroquina, os trabalhadores do setor continuam a beneficiar pouco dessa riqueza. O salário mínimo agrícola ronda 93 dirhams por dia (cerca de 8,5 euros), significativamente abaixo do salário mínimo de outros setores.

O artigo descreve as difíceis condições de trabalho enfrentadas por muitos operários agrícolas, que frequentemente cumprem jornadas superiores a 12 horas, com baixos rendimentos e transportes inseguros para as explorações. Acidentes com trabalhadores transportados em veículos inadequados são relatados com frequência.

Região onde foi realizada a reportagem do Le Monde Diplomatique

Nos últimos anos, sindicatos e trabalhadores têm organizado greves e protestos para exigir melhores condições, incluindo reconhecimento legal do trabalho, acesso à segurança social e melhores salários. As mobilizações têm contado com forte participação de mulheres trabalhadoras, muito presentes nas atividades agrícolas e de embalagem.

Estas reivindicações cruzam-se com o movimento de protesto juvenil “Gen Z212”, que surgiu em 2025 denunciando desigualdades sociais, corrupção e dificuldades de acesso a serviços básicos como saúde e emprego. Para vários investigadores citados na reportagem, existe uma ligação crescente entre as reivindicações do mundo rural e os protestos da juventude urbana.


Camponesas marroquinas. Foto Reuters

De acordo com especialistas citados pelo Le Monde Diplomatique, a expansão do modelo agrícola orientado para exportação tem beneficiado sobretudo grandes empresas agro-industriais e mercados externos, enquanto muitas comunidades rurais continuam a enfrentar pobreza, falta de infraestruturas e condições de vida precárias.

Apesar de o movimento de protesto ter sido reprimido após detenções e intervenções policiais, o artigo conclui que as desigualdades persistentes no campo marroquino podem alimentar novas ondas de contestação social no futuro.

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