sábado, 16 de maio de 2026

Marrocos sob pressão energética: tensão no Estreito de Ormuz ameaça agravar dependência externa e fragilidade financeira do reino

 

Cartoon gerado por IA


A escalada de tensão no Estreito de Ormuz poderá colocar Marrocos perante uma nova fase de forte pressão económica e orçamental, numa altura em que o reino continua altamente dependente das importações de petróleo e gás natural para sustentar a sua economia, produção elétrica, transportes e atividade industrial.

O estreito, situado entre o Irão e Omã, é um dos mais importantes corredores energéticos do planeta. Cerca de um quinto do petróleo consumido mundialmente transita diariamente por aquela rota marítima estratégica. O Estreito de Ormuz é absolutamente crítico não apenas para o petróleo e o gás (cerca de 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) atravessa a região), mas também para cadeias globais ligadas à agricultura, fertilizantes e segurança alimentar. Qualquer ameaça ao tráfego marítimo, aumento dos prémios de risco ou agravamento militar na região tende a refletir-se quase imediatamente nos preços internacionais do crude, do gás natural liquefeito (GNL) e dos seguros marítimos.

Para Marrocos, país praticamente desprovido de reservas significativas de petróleo e gás, o impacto poderá revelar-se particularmente severo.




Dependência energética estrutural

Marrocos importa mais de 90% das suas necessidades energéticas, sobretudo combustíveis fósseis. O país depende fortemente da compra de petróleo refinado, gás natural e carvão nos mercados internacionais, ficando extremamente vulnerável à volatilidade dos preços globais da energia.

Marrocos é uma potência mundial dos fosfatos (existentes no seu território nacional como na mina de Fous BuCraa, no Sahara Ocidental que ocupa militarmente), mas continua dependente do Golfo e do mercado energético internacional para transformar plenamente essa riqueza mineral em produção agrícola e fertilizantes competitivos.

Para produzir fertilizantes completos — especialmente fertilizantes azotados (nitrogenados) — é necessário: amoníaco; ureia; hidrogénio industrial; gás natural barato. E o gás natural é a matéria-prima crítica...

O encerramento, em 2021, do gasoduto Magrebe-Europa — consequência da deterioração das relações diplomáticas entre Marrocos e Argélia — agravou ainda mais essa dependência. Rabat perdeu então uma importante fonte regional de abastecimento de gás argelino, passando desde então a recorrer a importações de GNL através de Espanha, utilizando fluxos invertidos do mesmo gasoduto.

Apesar dos investimentos em energias renováveis, especialmente solar e eólica, os hidrocarbonetos continuam essenciais para:

  • transportes;

  • indústria;

  • produção elétrica;

  • logística;

  • agricultura intensiva;

  • dessalinização de água;

  • produção de fertilizantes e fosfatos.

A situação torna-se ainda mais sensível devido ao crescimento demográfico, à urbanização acelerada e à ambição marroquina de se afirmar como plataforma industrial e logística entre África e Europa.


Choque energético ameaça contas públicas

Uma subida prolongada dos preços do petróleo e do gás poderá exercer forte pressão sobre as contas públicas marroquinas.

  • O Estado tem procurado limitar o impacto social da inflação energética através de mecanismos indiretos de apoio ao consumo, compensações fiscais e subsídios a setores estratégicos, sobretudo transportes, eletricidade e produtos alimentares. Contudo, um choque energético internacional de grande dimensão poderá obrigar Rabat a:

  • aumentar despesas de compensação;

  • reforçar apoios sociais;

  • absorver parte da inflação importada;

  • aumentar o défice orçamental;

  • recorrer a mais endividamento externo;

  • reduzir investimento público;

  • pressionar reservas cambiais.



O risco é agravado pelo facto de Marrocos enfrentar simultaneamente:


  • inflação alimentar persistente;

  • stress hídrico estrutural;

  • forte dependência cerealífera externa;

  • elevado desemprego jovem;

  • necessidades crescentes de investimento em infraestruturas;

  • custos sociais elevados;

  • e um esforço militar cada vez mais pesado.

Além disso, o aumento do custo energético afeta diretamente setores considerados estratégicos para o crescimento marroquino, como:

  • automóvel;

  • agroindústria;

  • cimento;

  • turismo;

  • fosfatos;

  • transportes marítimos;

  • aviação;

  • construção civil.


Energia tornou-se questão de segurança nacional

Nos últimos anos, Rabat acelerou a sua estratégia de diversificação energética e redução parcial da dependência externa. Entre os principais projetos destacam-se:

  • expansão da energia solar no Complexo Solar Noor Ouarzazate;

  • desenvolvimento de terminais de GNL;

  • novas interligações elétricas com Espanha e Portugal;

  • projetos de hidrogénio verde orientados para exportação para a Europa;

  • exploração offshore de gás natural ao largo da costa atlântica;

  • reforço das capacidades de armazenamento estratégico.

Ainda assim, a transição energética marroquina permanece insuficiente para reduzir rapidamente a exposição do país aos mercados internacionais de petróleo e gás.


O peso crescente da despesa militar

A vulnerabilidade económica torna-se ainda mais delicada devido ao aumento contínuo das despesas militares marroquinas.

Nos últimos anos, Rabat intensificou o seu esforço de rearmamento devido:

  • à rivalidade estratégica com a Argélia;

  • à questão do Sahara Ocidental;

  • à modernização acelerada das Forças Armadas;

  • às compras de armamento aos Estados Unidos, Israel e França.


Segundo estimativas internacionais, Marrocos gastou cerca de 6,3 mil milhões de dólares em defesa em 2025, o equivalente a aproximadamente 3,5% do PIB (a maior parte dos analistas considera este número bastante abaixo do real...) e mais de 12% da despesa pública do Estado.

O esforço militar marroquino é considerado particularmente elevado para um país:

  • importador líquido de energia;

  • fortemente dependente de capitais externos;

  • sujeito a stress hídrico;

  • com forte dependência alimentar;

  • e com necessidades sociais significativas.

Nos últimos anos, Rabat adquiriu:

  • drones israelitas e norte-americanos;

  • sistemas antiaéreos;

  • helicópteros Apache;

  • caças F-16 modernizados;

  • sistemas de vigilância e guerra eletrónica;

  • armamento naval e missilístico.

Num cenário de petróleo caro e tensão prolongada no Estreito de Ormuz, o orçamento marroquino poderá ficar pressionado simultaneamente por:

  • dependência energética;

  • inflação importada;

  • rearmamento militar;

  • pressão social interna;

  • aumento do serviço da dívida.


Monarquias do Golfo poderão ter menor margem de apoio

Outro fator potencialmente sensível prende-se com a capacidade financeira das monarquias do Golfo para continuarem a apoiar economicamente Marrocos nos níveis observados em crises anteriores.

Historicamente, países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos desempenharam um papel importante no financiamento de projetos, apoio orçamental e investimentos estratégicos em Marrocos.

Contudo, um eventual agravamento regional envolvendo o Irão poderá obrigar essas monarquias a concentrarem recursos financeiros:

  • na defesa;

  • na proteção de infraestruturas energéticas;

  • no reforço militar;

  • e na reconstrução de ativos eventualmente atingidos por ataques ou sabotagens.

Isso poderá reduzir a disponibilidade de apoio financeiro externo a Rabat precisamente num momento de maior vulnerabilidade energética e orçamental.

Contraste com a Argélia

O contexto beneficia parcialmente a vizinha Argélia, grande exportadora de gás e petróleo, que tende a lucrar com preços energéticos elevados através do aumento das receitas externas e fiscais.

Esse contraste energético reforça uma das principais fragilidades estruturais marroquinas: a ausência de recursos fósseis relevantes num momento em que a energia voltou a assumir um papel central na geopolítica mundial e na estabilidade económica dos Estados.

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