quinta-feira, 2 de julho de 2026

A "guerra do tomate": porque é que a Europa não protege os seus produtores


Sempre que um consumidor europeu pega numa embalagem de tomates no supermercado, a etiqueta com o país de origem raramente conta toda a história. Uma investigação da jornalista Cristina Domecq, publicada na plataforma What The Field (CrowdFarming), reconstrói o percurso do tomate marroquino até às prateleiras europeias e explica por que motivo, apesar das críticas crescentes do setor agrícola, a União Europeia continua a permitir esta concorrência desigual. 

 

Um problema com nome: os agricultores europeus queixam-se de estar em desvantagem 

A crítica que atravessa o setor agrícola europeu é simples de enunciar: para que servem as exigências ambientais e sociais cada vez mais rigorosas impostas aos agricultores comunitários, se depois têm de competir nas prateleiras com produtos importados de fora da Europa, cultivados em condições completamente diferentes? A resposta oficial de Bruxelas aponta para o livre mercado e para a diplomacia — mas a investigação sugere uma realidade bem mais complexa, feita de acordos assinados à pressa para contornar decisões judiciais, produção em larga escala no deserto que dissimula a sua verdadeira origem, entrada de capital estrangeiro em portos europeus, deslocalização de estufas para Marrocos em busca de mão de obra barata, e uma votação no Parlamento Europeu que falhou por uma única margem de voto. 




Marrocos: o maior fornecedor de tomate da UE 

Desde 2022 que Marrocos é o principal fornecedor de tomate da União Europeia, com a França como principal comprador. O trajeto começa quando o tomate atravessa o Estreito de Gibraltar por barco até Algeciras, em Espanha, onde é sujeito aos controlos de entrada na Europa. 

É aqui que surge um dos pontos mais controversos da investigação: no final de 2025, a operadora portuária pública marroquina Marsa Maroc adquiriu 45% da Boluda Maritime Terminals — empresa que gere nove instalações portuárias espanholas, incluindo Cádis, Sevilha e as Canárias — por 80 milhões de euros. A operação deu ao Estado marroquino um poder de gestão direto sobre terminais marítimos em território espanhol, o que levou organizações agrícolas a alertar para o risco de um afrouxamento dos controlos fronteiriços e para uma maior facilidade de entrada de produtos tratados com pesticidas proibidos na Europa. 

Depois de Algeciras, os tomates seguem de camião até Perpignan, no sul de França, onde fica o polo Saint-Charles International — o maior "porto seco" europeu dedicado a fruta e produtos hortícolas, com cerca de 150 empresas instaladas, um tráfego diário de 3.000 camiões e um volume de negócios anual estimado em 2.000 milhões de euros. É a partir deste centro que os tomates são reexportados para a Alemanha, Itália, Países Baixos e Europa de Leste, um processo de reembalamento que torna a rastreabilidade da origem muito difícil de estabelecer. Recentemente, foi ainda criada uma ligação marítima direta entre Agadir, em Marrocos, e Port-Vendres, perto de Perpignan, que reduz a viagem para apenas três dias e meio. 

A presença marroquina em Perpignan não se limita à logística: segundo a investigação, o próprio rei Mohamed VI é proprietário de uma empresa agrícola, Les Domaines Agricoles, cuja filial se associou a uma empresa francesa para operar neste mercado, ao lado de outros grandes grupos do setor do tomate. Esta concentração de interesses marroquinos junto às portas do mercado francês já gerou protestos em Perpignan, incluindo o bloqueio físico de armazéns. 




Tomates cultivados no deserto do Sahara Ocidental 

Uma parte significativa destes tomates tem origem numa região com um estatuto jurídico muito particular: o Sahara Ocidental, território que a ONU classifica como "não autónomo" e que está sob controlo marroquino de facto desde 1975, altura em que invadiu a antiga colónia espanhola. O Tribunal de Justiça da União Europeia já decidiu por diversas vezes — a mais recente em outubro de 2024 — que o Sahara Ocidental é juridicamente distinto de Marrocos, pelo que os produtos originários desta região não podem beneficiar dos acordos comerciais UE-Marrocos sem o consentimento do povo saharaui, devendo ser rotulados com a sua origem real. 

Grande parte destes tomates é produzida em megaestufas em Dakhla, no coração do deserto saharaui, e depois transportada mais de mil quilómetros de camião até Agadir, onde é misturada com produção local e comercializada sob a etiqueta "Origem Marrocos". Estima-se que cerca de metade dos tomates que entram na Europa com esse rótulo tenham, na realidade, origem em plantações saharauis — uma proporção que deverá aumentar com um megaprojeto em curso para acrescentar mais de 5.000 hectares de cultivo em Dakhla, alimentado por uma central de dessalinização de água do mar. 

O dado mais contestado pelo setor agrícola é que este megaprojeto é parcialmente financiado pela própria União Europeia, através de apoios destinados a água, irrigação, energia e dessalinização previstos no acordo comercial com Marrocos. 


O papel dos Países Baixos 

A investigação aponta ainda para o papel dos Países Baixos, uma das maiores potências hortícolas do mundo, que exportam mais tomate do que aquele que produzem internamente. A crise energética de 2022 levou 20% dos produtores neerlandeses a desligar o aquecimento das suas estufas no inverno, abrindo espaço para que Marrocos preenchesse esse défice — as importações neerlandesas de tomate marroquino passaram de 3 milhões de quilos em 2010 para mais de 37 milhões em 2021. Além da reexportação, várias grandes empresas hortícolas neerlandesas instalaram-se diretamente em Marrocos, replicando ali o modelo de produção com custos laborais muito mais baixos. 


Quotas e preços mínimos que já não protegem ninguém 

O sistema europeu prevê duas barreiras para proteger os produtores locais: uma quota anual de importação isenta de direitos aduaneiros, atualmente fixada em 285 mil toneladas, e um preço mínimo de entrada abaixo do qual as importações ficam sujeitas a penalizações. Segundo a investigação, ambas as barreiras estão hoje desajustadas: a quota manteve-se inalterada mesmo depois do Brexit ter reduzido o mercado europeu, e o preço mínimo continua fixado em apenas 0,46 euros por quilo — um valor definido há muitos anos e que já não reflete os custos atuais de produção na Europa. O setor agrícola comunitário reclama que este limiar suba para pelo menos 0,90 euros por quilo. A isto soma-se a diferença no custo da mão de obra: cerca de 10 euros por hora na Europa, contra menos de 1 euro por hora em Marrocos. 


Porque tolera Bruxelas esta situação? 

Quando a justiça europeia deu um ultimato a Bruxelas para deixar de tratar o Sahara Ocidental como parte de Marrocos, a Comissão Europeia reagiu assinando, um dia antes do prazo expirar, em outubro de 2025, um novo acordo que manteve as reduções aduaneiras — permitindo que os tomates saharauis fossem etiquetados com nomes de regiões administrativas marroquinas em vez da sua origem real. Uma tentativa do Parlamento Europeu de travar esta prática, em novembro de 2025, falhou por apenas um voto. 

A hipótese mais avançada para explicar esta tolerância prende-se com o controlo migratório: Marrocos desempenha um papel central na gestão das fronteiras entre África e Europa, e a sua cooperação policial no Estreito de Gibraltar pesa mais nas decisões políticas do que as queixas do setor agrícola. Perante este cenário, produtores de França, Espanha, Itália, Portugal, Países Baixos e Polónia lançaram a campanha "We Tomato Europe, Don't Betray EU Tomato", exigindo regras recíprocas para os produtos importados, rotulagem clara da origem real e mecanismos automáticos de salvaguarda em caso de colapso do mercado. 


Um "apagão" estatístico 

A investigação nota ainda um episódio insólito no início de 2026: os tomates marroquinos "desapareceram" temporariamente das estatísticas oficiais europeias, com Bruxelas a registar apenas 12.800 toneladas importadas em janeiro, quando o habitual rondaria as 53 mil — apesar de os camiões continuarem a chegar normalmente aos mercados europeus. A Comissão Europeia atribuiu o episódio a uma falha informática na transmissão de dados aduaneiros, mas parte do setor agrícola desconfia da coincidência, uma vez que números artificialmente baixos evitam o acionamento automático de mecanismos de proteção comercial. 


Sem um único culpado 

A conclusão da investigação é que não existe um único responsável por esta situação: Marrocos aproveita as suas vantagens competitivas e geopolíticas, as empresas neerlandesas procuram os custos mais baixos possíveis, e a Comissão Europeia gere interesses que nem sempre são compatíveis entre si — enquanto os agricultores europeus continuam a exigir uma resposta a uma equação que o mercado livre, sozinho, não resolve. O que fica claro é que a etiqueta de origem de um tomate raramente revela quem o cultivou, em que condições e segundo que modelo de produção — e que essas decisões não são tomadas no campo, mas em votações que se decidem por um único voto ou em acordos assinados às pressas na véspera de um prazo legal.