domingo, 19 de março de 2023



Ele foi a face visível da decisão judicial que, em Setembro de 2021, anulou os acordos de pesca entre a União Europeia e Marrocos, que incluiam águas fora do seu domínio, as do Sahara Ocidental. Oubi Bachir é um dos diplomatas mais notáveis da Frente Polisario, organização com a qual continua comprometido, também ligado à aspiração de alcançar a independência da antiga colónia espanhola.

Bachir criticou o SG da Frente Polisario pouco tampo antes do Congresso da organização, com quem, afirmou, tinha divergências de opinião, tendo posto o seu lugar de Representante na Europa à disposição. Continua porém a exercer as suas funções, dado que, até ao momento, não foi substituído. A LER AQUI

sábado, 18 de março de 2023

La France ménage-t-elle le Maroc ?


Há anos que as relações franco-marroquinas se deterioram: redução dos vistos concedidos pela França, envolvimento de Marrocos no caso da espionagem Pegasus, tensões em torno do Sahara Ocidental... Tensões que não parecem melhorar apesar das recentes declarações de E. Macron. Ouvir AQUI

Com:

Nadia Hachimi Alaoui Professora de Ciência Política na Universidade Internacional de Rabat

Aboubakr Jamaï jornalista de investigação marroquino, exilado em França

Christian Cambon Senador de Val-de-Marne, Presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros, Defesa e Forças Armadas do Senado


Crispação, tensão, lenta deterioração: foi assim que diplomatas, jornalistas e especialistas do Magrebe descreveram as relações entre a França e Marrocos durante os últimos meses.

A investigação sobre o spyware da Pegasus foi seguida pela crise dos vistos, depois, em Dezembro passado, por acusações de corrupção de deputados europeus por lobbies marroquinos no Parlamento Europeu. Para não mencionar as tensões ligadas à recente aproximação franco-argelina sobre o Sahara.


Em suma, este foi um momento de ressentimento exacerbado de ambos os lados. E, no entanto, a França não quer continuar a chocar o poder real.

Para discutir isto, Emmanuel Laurentin dá as boas-vindas a Nadia Hachimi Alaoui, professora de Ciência Política na Universidade Internacional de Rabat; Aboubakr Jamaï, especialista no Magrebe e professor de relações internacionais em Aix-en-Provence; Christian Cambon, senador LR do Val de Marne, presidente do grupo de amizade França-Marrocos.

Foi assim que Trump ajudou Sánchez a contornar o Sahara Ocidental

Donald Trump e Pedro Sánchez, na cimeira da NATO, julho de 2018. EFE

 
O então presidente dos EUA vingou-se do senador Jim Inhofe, defensor da causa saharaui, por não ter introduzido emendas ao orçamento da defesa.

Ana Alonso - EL Independiente - 18/03/23

 

O senador republicano Jim Inhofe é um dos mais fortes defensores da causa saharaui nos Estados Unidos. Várias vezes durante o seu mandato, explicou a Donald Trump por que razão um referendo deveria ser apoiado. Se Trump já tinha ouvido falar do Sahara, foi graças a este veterano conservador que conhecia a situação nos acampamentos. Quando Trump teve uma discussão com Inhofe, ele sabia o que tinha de fazer para o magoar. A 10 de Dezembro, o presidente cessante dos EUA escreveu dois tweets. Num ele criticou o Senador Inhofe e no outro reconheceu a soberania de Marrocos sobre o Sahara [Ocidental].


Rabat tinha conquistado uma vitória histórica por um golpe de sorte. Na proclamação subsequente, Donald Trump alude à proposta de Marrocos sobre a autonomia do Sara e chama-lhe "a única base séria, credível e realista". Estes são os mesmos adjetivos utilizados na carta emitida pelo Reino de Marrocos a 18 de Março de 2022 sobre a nova posição do governo espanhol sobre o Sahara. A única diferença é que a carta de Moncloa fala de "a base mais séria, credível e realista".

Com esta reviravolta de 180 graus, Sánchez pretendia encerrar a crise diplomática desencadeada pela raiva de Rabat após a recepção humanitária em Espanhado líder saharaui Brahim Gali, para tratamento médico do Covid-19 em abril de 2021. Marrocos utilizou a arma migratória para provocar a chegada de cerca de 10.000 pessoas a Ceuta, nos dias 15 e 16 de Maio. Com a carta, o governo de Sánchez pôs fim a 47 anos de neutralidade ativa.

"A declaração de Trump elevou o nível das expectativas marroquinas. Assim, Rabat aumentou a pressão sobre a Alemanha, França e Espanha".

IRENE FERNÁNDEZ MOLINA, RRII UNIV. EXETER

"A mudança de posição foi o resultado de uma campanha de pressão por parte de Marrocos. Começou com a declaração de Trump e isso elevou o nível das expectativas marroquinas. Pensavam que outros países ocidentais seguiriam os EUA. Assim, Rabat aumentou a pressão sobre a Alemanha, França ou Espanha dentro da UE. Foi a Espanha, depois de Trump, que foi mais longe", diz Irene Fernández-Molina, professora de Relações Internacionais, especializada no Magrebe, na Universidade de Exeter.

A testemunhar esse momento em Washington estava Mouloud Said, o veterano representante da Frente Polisario nos Estados Unidos. O diplomata saharaui, que conhece o Senador Inhofe há mais de duas décadas, soube do ocorrido imediatamente. E o próprio senador contou-lhe o que tinha acontecido.

"A decisão não foi tomada numa reunião da Trump Administration. A razão foi que o presidente da Comissão de Defesa, o Senador Inhofe, ia apresentar a votação do orçamento da Defesa pouco antes de Trump o ter chamado para introduzir emendas de última hora. O senador disse-lhe que não o podia fazer porque o resultado, o resultado das negociações na Câmara dos Representantes e no Senado, e depois no comité conjunto, era a única possibilidade de ser aprovado. Trump persistiu e o Senador Inhofe confrontou o presidente. O último apelo terminou mal. E depois Trump afixou dois tweets, um contra Inhofe e um sobre o Sahara. Sem esse confronto, Trump não teria dado esse passo", explica Mouloud Said ao El Independiente.


O presidente cessante queria que Inhofe incluísse disposições no projeto de lei para revogar as proteções para as empresas de comunicação social e remover uma disposição para renomear as instalações militares com o nome dos líderes confederados. Mas o senador republicano Inhofe não o poderia fazer, mesmo que quisesse. Já era um negócio fechado. Trump ameaçou vetar o orçamento e, num tweet, acusou-o de ameaçar a segurança nacional. Ele ficou furioso por o senador o ter confrontado.

“A decisão foi o resultado de uma birra de Trump, que queria provocar a raiva do Senador Inhofe".

MOULOUD SAID, REPRESENTANTE DA FRENTE DA POLISARIO NOS EUA

"Trump sabia muito bem o quanto a questão do Sahara significava para Inhofe. Ele tinha explicado a situação a Trump várias vezes. A decisão foi o resultado de uma birra de Trump, que queria provocar a cólera do senador Inhofe. Quando ele me falou disso, ficou muito perturbado", acrescenta o diplomata. "Até esse momento", relata Mouloud Said, "as relações com a administração Trump foram sem precedentes e houve contactos ao mais alto nível, com o Conselho Nacional de Segurança". Ele recorda como foi a Administração Trump que propôs no Conselho de Segurança da ONU prolongar a missão da MINURSO de seis em seis meses, em vez de um ano, a que Marrocos se opôs.

 

Jared Kushner com Mohamed VI

O genro de Donald Trump, o judeu Jared Kushner, com o cargo de conselheiro especial na sua administração, juntamente com o seu braço direito Avi Berkowitz, foi um defensor da aproximação com Marrocos. O ex-director adjunto da Mossad Ram Ben Barak e o empresário judeu marroquino Yariv Elbaz procuraram um acordo multilateral quid-pro-quo pelo qual Marrocos normalizaria as relações com Israel em troca do reconhecimento pelos EUA do estatuto marroquino do Sahara. No entanto, segundo o diplomata saharaui, Trump tinha dito a Kushner para procurar um caminho alternativo.

Em maio de 2019, o genro de Trump encontrou-se com o empresário judeu marroquino Elbaz em Marrocos. Nessa viagem, Kushner teve a oportunidade de falar com o rei Mohamed VI, que lhe explicou a importância do Sahara Ocidental para Marrocos. Desde então, desenvolveu-se um fio condutor entre a equipa do ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino Nassem Bourita e a equipa de Kushner. SegundoAxios, Bourita realizou várias reuniões nas quais discutiu o Sahara com Kushner e Ivanka Trump, sua esposa, e visitou a Casa Branca.

O chefe da diplomacia marroquina chegou a um acordo com Kushner, mas encontrou a forte oposição do então Conselheiro de Segurança Nacional John Bolton e do Senador Jim Inhofe. Como Trump precisava do apoio de Inhofe, ele não deu qualquer passo.

Mas a 10 de dezembro Trump, quando escreveu o tweet sobre a marroquinidade do Sahara, estava já de saída, embora se tenha recusado a reconhecê-lo. De facto, dias mais tarde, teve lugar o assalto ao Capitólio. A embaixada marroquina condecorou Trump e Kushner após esse ataque ao edifício legislativo em Washington, encorajado pelo presidente e perpetrado pelos seus furiosos apoiantes.

Na opinião de Bolton, a decisão de Trump deitou por terra os saharauis "após três décadas de apoio dos EUA à autodeterminação livre através de um referendo para o povo saharaui". Ele recorda mesmo num artigo no Política Externa como o Senador Inhofe já dizia que "este acordo poderia ser feito sem falhar aos direitos do povo sem voz".

Bolton sublinha igualmente como Trump não consultou nem a Frente Polisario nem a Argélia ou a Mauritânia, os dois países mais afetados por esta mudança. Sánchez também não falou com o seu parceiro de governo, a oposição, ou com a Argélia, país com o qual a Espanha tem agora um conflito com graves repercussões económicas.

O diplomata saharaui afirma que ele também não falou com o seu genro nem com os seus conselheiros, embora a versão de Axios seja a de que aproveitaram a ocasião para impulsionar as suas teses.

 

O papel da Administração Biden

Nos Estados Unidos, a causa saharaui goza de apoio dos dois partidos. O diplomata saharaui aponta como o Senador Ted Kennedy foi um dos primeiros democratas com quem teve contacto e defendeu a autodeterminação. "Aí está uma causa sem ideologia, pelo que é compreensível que um conservador convicto como Inhofe tenha sido um dos nossos grandes apoiantes", acrescenta ele.

O exemplo deste apoio bipartidário é a carta de 27 senadores democratas e republicanos, incluindo o então Presidente do Senado Patrick Leahy, pedindo-lhe que inverta a decisão do seu antecessor sobre o Sahara.

A Administração Biden ainda não o fez até agora. Mas também não fez progressos. "Não implementou os compromissos de Trump, tais como a abertura do consulado em Dakhla. Além disso, obrigou Rabat a aceitar um enviado especial da ONU e solicitou ao Conselho de Segurança da ONU que reativasse o plano da ONU", diz Mouloud Said.

“A transação do Trump não foi concluída porque nem Marrocos abriu uma embaixada em Israel nem Israel reconheceu a soberania marroquina sobre o Sahara".

HAIZAM AMIRAH FERNANDEZ, R.I.ELCANO

Haizam Amirah Fernández, investigador do Elcano Royal Institute, subscreve este ponto de vista: "A Administração Biden fala de 'uma abordagem potencial' ao que Rabat propõe e defende uma solução no quadro das Nações Unidas. E não esquecem as aspirações do povo saharaui. O compromisso de Trump não foi finalizado porque nem Marrocos abriu a embaixada em Israel nem Israel reconheceu a soberania de Marrocos sobre o Sahara, para evitar conflitos com outros países que os apoiam".

O diplomata saharaui afirma que para a atual administração dos EUA, a decisão de Trump não é a solução. "Nos nossos contactos, que existem, ao contrário do que acontece com o governo espanhol, em que já não confiamos, asseguram-nos sempre que uma solução que a Polisario não aceita não é uma solução válida". E acrescenta: "Os americanos são muito ativos e querem desempenhar um papel, algo que este governo espanhol já não será capaz de fazer. Sánchez não contou nem com os seus parceiros de coligação, nem com o Congresso, nem com o povo espanhol. É um assunto de Sánchez e do seu ministro dos Negócios Estrangeiros".

sexta-feira, 17 de março de 2023

Jornal «PÚBLICO» - Editorial: "Futebol sem fronteiras e sem ideais"



A Federação Portuguesa de Futebol bem que nos podia poupar à música celestial da proclamação de lindos ideais, que são para exibir quando lhes interessa.

 David Pontes - PÚBLICO

17 de Março de 2023

“O futebol é muito mais do que futebol. Futebol é superação, compromisso, resiliência e inspiração.” Quem o disse foi o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Fernando Gomes, quando, em Outubro do ano passado, anunciou que a candidatura de Portugal e Espanha à organização do Mundial de 2030 passava a incorporar a Ucrânia. E acrescentou: “Não somos indiferentes ao que se está a passar no mundo e sempre pensámos que uma candidatura europeia pudesse ser uma candidatura que unisse Europa em prol de um bem comum, que é a paz.”

Esta semana soubemos que a participação da Ucrânia está por clarificar, mas que em contrapartida a candidatura passa a integrar o reino de Marrocos. Se o compromisso da federação era com os princípios da liberdade e da paz, o novo parceiro está longe de corresponder ao perfil.

Segundo o índice elaborado meio século pela Freedom House, Marrocos foi classificado em 2022 como “parcialmente livre”, mas com um valor que o deixa muito próximo do “não livre”. Um regime próximo da ditadura, portanto, em que um jornalista como Sulieman Raissouni é condenado à prisão num processo orquestrado, depois de escrever um editorial que não agradou às autoridades. E um regime que continua a ocupar o Sara Ocidental, um território não descolonizado, segundo a ONU, e em que a situação do seu povo deve fazer recordar uma causa que nos foi tão próxima, a de Timor-Leste.

“O futebol é muito mais do que futebol.” Pois é, acima de tudo é um negócio e a atribuição de um campeonato mundial é uma disputa dura. Os votos que uma candidatura com um país africano pode gerar são muito relevantes e certamente fazem definhar a capacidade de a FPF não ser indiferente “ao que se está a passar no mundo” e nem o facto de Marrocos ser um dos países envolvidos nacompra de eurodeputados lhe deve fazer muita impressão. Percebe-se, mas bem que nos podiam poupar à música celestial da proclamação de lindos ideais, que são para exibir quando lhes interessa.

Infelizmente, o futebol continua a navegar na complacência acrítica da sociedade e do poder político que lhes permite serem campeões dos bons princípios num dia e líderes do pragmatismo no dia seguinte. Basta ver comoPSD e PS se juntaram, ainda anteontem na Assembleia da República, para impedir que o Parlamento fiscalizasse as práticas fiscais de uma instituição de interesse público, a FPF. Percebe-se.

Organizar Mundial de Futebol com Marrocos é “encobrir violações dos Direitos Humanos”

 

Unidade de patrulha da ONU percorre a região de Smara, no Saara Ocidental. Foto © ONU/Martine Perret.

O primeiro-ministro, António Costa, considera que a candidatura conjunta de Portugal, Espanha e Marrocos à organização do Mundial de Futebol de 2030 “é uma importante mensagem para o mundo”, simbolizando proximidade entre dois continentes. Mas a Associação de Amizade Portugal Sahara-Ocidental (AAPSO) escreveu esta semana ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, pedindo que tal candidatura seja reconsiderada, “sob pena de o Campeonato Mundial de Futebol se transformar numa ocasião privilegiada de encobrimento das violações dos Direitos Humanos cometidas pelo regime marroquino e daqueles que, conhecendo a situação, lhe dão cobertura”.

Na missiva, a que o 7MARGENS teve acesso, a AAPSO assinala que “Marrocos ocupa ilegalmente desde 1975 o Sahara Ocidental” e que “fruto desta ocupação ilegal, e da resistência que o povo saharaui lhe opõe, sucedem-se as violações dos Direitos Humanos”. O mesmo acontece, alerta a associação, “no próprio Reino de Marrocos, cujo regime foi condenado em resolução do Parlamento Europeu de 19 de janeiro último por não respeitar os direitos à liberdade de expressão e a processos legais justos”. Prova disso, sublinha a missiva, é o facto de que “em ambos os territórios, jornalistas, intelectuais e activistas, entre outras pessoas, têm sido alvo de repressão violenta e sistemática”.

A associação questiona ainda: “Que credibilidade tem Marrocos para acolher um evento desportivo desta natureza quando, para alcançar os seus fins políticos, exerce chantagem sobre outros países utilizando rotas de migrantes e drogas, se socorre de subornos a parlamentares e funcionários europeus e deporta sumariamente todas as pessoas que querem visitar o Sahara Ocidental por não lhe convir que vejam o que aí se passa?”.

Lembrando que Marrocos “inclusivamente tem impedido o Escritório do Conselho de Direitos Humanos da ONU e o representante pessoal do Secretário-geral da ONU para o Sahara Ocidental de visitar este território”, a AAPSO apela à Federação Portuguesa de Futebol que reconsidere esta proposta e solicita uma reunião com o seu presidente “o mais brevemente possível”.

Recorde-se que, em julho passado, perto de 680 personalidades portuguesas enviaram uma carta ao Governo português solicitando ajuda para o Saara Ocidental, “a última colónia de África”, pedindo-lhe especificamente ao primeiro-ministro e ao ministro dos Negócios Estrangeiros que mantivessem “na sua agenda, em coerência com o Direito Internacional, com a Constituição da República Portuguesa e com o apoio dado ao povo timorense, a defesa clara e explícita do direito à autodeterminação do povo do Saara Ocidental”.

O próximo Mundial de Futebol, em 2026, terá lugar nos EUA, México e Canadá, e no próximo mês de junho a FIFA deverá anunciar quem pode ou não avançar com uma candidatura ao Mundial de 2030. A decisão final sobre o organizador só será conhecida em setembro do próximo ano.

terça-feira, 14 de março de 2023

Marrocos anuncia candidatura conjunta com Portugal e Espanha ao Mundial2030... à revelia dos co-organizadores!!!



A notícia foi distribuída pela agência LUSA ao final da tarde com base na página web do Ministério dos Negócios Estrangeiros marroquino, que plasmava uma carta do monarca em agradecimento a um prémio que lhe fora atribuído pela CAF. No final da missiva, Mohamed VI, para espanto de muitos e certamente dos Presidentes da Federação Portuguesa de Futebol e da Real Federação Espanhola de Futebol, respectivamente, Fernando Gomes e Luis Rubiales declarava:

«Excelências, Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Neste espírito, gostaria de anunciar perante a vossa assembleia que o Reino de Marrocos decidiu, juntamente com Espanha e Portugal, apresentar uma candidatura conjunta para acolher o Campeonato do Mundo de Futebol de 2030.

Sem precedentes na história do futebol, esta candidatura conjunta será uma ligação entre África e Europa, entre o norte e o sul do Mediterrâneo, e entre os mundos africano, árabe e euro-mediterrânico. Será também uma tentativa de reunir o melhor de ambas as partes e demonstrar uma aliança de génio, criatividade, experiência e recursos».

Em Kigali, capital do Ruanda, onde decorre o Congresso FIFA, Mohamed VI anunciou (por carta - já que o monarca se encontra desde dezembro na sua mansão de férias, no Gabão, a poucos quilómetros da capital Libreville) uma candidatura “sem precedentes na história do futebol”. De facto SEM PRECEDENTES, já que a candidatura e a entrada do Reino de Marrocos no triunvirato em substituição da Ucrânia, deveria ser anunciada na 5.ª Feira, 16 de março.

Portugal e Espanha tinham anunciado uma candidatura ibérica à organização do Mundial2030, à qual se juntou mais tarde a Ucrânia, já depois da invasão russa daquele país, mas o soberano marroquino não fez referência aos ucranianos, deixando antever que este país saia do projecto - refere o despacho da LUSA.

Mohamed VI é useiro e vezeiro nestas «jogadas» de antecipação. Não publicitou ele, a partir da sua mansão no Gabão, a inqualificável carta que o Presidente do Governo de Espanha, Pedro Sanchez, lhe escreveu anunciando o giro de 180º da posição em relação à antiga colónia espanhola do Sahara Ocidental, deixando igualmente especados e atónitos o próprio Sanchez e o seu inefável ministro dos Negógios Estrangeiros, José Manuel Albares.

A consolação para Fernando Gomes e Luis Rubiales é que não estão sós nesta humilhação.