sábado, 1 de agosto de 2026

Marrocos não está sozinho: a reivindicação sobre Ceuta e Melilha ganha apoiantes nos EUA e em Israel




Um artigo de El Independiente traça o retrato de uma mudança geopolítica que Espanha, segundo o jornal, tem tardado em reconhecer: a reivindicação marroquina de soberania sobre Ceuta e Melilha deixou de ser um assunto puramente bilateral entre Rabat e Madrid para se transformar em argumento de terceirosnomeadamente Estados Unidos e Israel.


Uma "Marcha Verde 2.0" pouco espontânea

O artigo enquadra a recente vaga migratória em massa para Ceuta — a maior entrada irregular na história recente da cidade autónoma (mais de 60 mil pessoas segundo as últimas informações) — como um episódio longe de ser espontâneo, coincidindo com o 27.º aniversário da subida ao trono de Mohamed VI. Segundo El Independiente, nada acontece em Marrocos sem o conhecimento do monarca, e esta jogada de Rabat serviria três objetivos simultâneos: avisar o Governo de Pedro Sánchez sobre a capacidade desestabilizadora do vizinho do sul, avançar na difusão do relato sobre a "marroquinidade" de Ceuta e Melilha, e demonstrar que Marrocos conta com o apoio dos Estados Unidos e, por consequência, uma certa impunidade. O artigo nota que nem a pertença de Espanha à União Europeia nem à NATO impediram este cenário — ninguém, segundo o jornal, chegou sequer a classificar a situação como "ameaça híbrida", com Bruxelas a limitar-se a exigir a Espanha que controlasse a fronteira comunitária. 


Washington: um relatório do Congresso que rompe sete décadas de consenso

Segundo El Independiente, um relatório do Comité de Assignações da Câmara dos Representantes dos EUA — assinado pelo congressista Mario Díaz-Balart — terá conseguido "algo que Rabat perseguia setenta anos sem sucesso": pôr em causa formalmente a soberania espanhola sobre as duas cidades autónomas, ao afirmar que estas estão "localizadas em território marroquino" e continuam "sujeitas à reivindicação de Marrocos". O artigo relaciona este posicionamento com o desgaste nas relações entre Washington e Madrid, motivado pela recusa espanhola em ceder as bases de Rota e Morón durante os ataques dos EUA ao Irão e pelo incumprimento das metas de despesa em defesa da NATO — fatores que, segundo o jornal, têm irritado repetidamente Donald Trump.


Israel entra em cena através dos Acordos de Abraão

O artigo aponta ainda para o papel crescente de Israel neste tabuleiro diplomático, através de uma rede de think tanks de Washington próximos de Trump e da diplomacia pública israelita. Segundo reportagens anteriores do próprio El Independiente e de outros meios como o israelita Ynet, este apoio decorre do reforço da relação bilateral entre Rabat e Telavive, consolidada pelos Acordos de Abraão de 2020 — nos quais Israel reconheceu a marroquinidade do Sahara Ocidental em troca do reconhecimento marroquino do Estado de Israel — e reforçada por um plano de trabalho militar conjunto assinado em janeiro de 2026.


Um novo capítulo do "bilhar" diplomático de Rabat

O artigo conclui que Espanha confiou, durante meio século, em que ninguém relevante compraria a tese da marroquinidade de Ceuta e Melilhaum pressuposto que, segundo El Independiente, deixou de ser válido. A questão central deixou de ser se Marrocos está ou não sozinho nesta reivindicação não está —, para passar a ser se Espanha tem uma resposta a este desafio que além da retórica diplomática.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Milhares de marroquinos atravessam a fronteira de Ceuta numa das maiores crises migratórias dos últimos anos


Imagem gerada por IA


A fronteira entre Marrocos e a cidade autónoma espanhola de Ceuta vive desde quinta-feira uma das maiores crises migratórias dos últimos anos, com dezenas de milhares de pessoas a entrarem em território espanhol por terra e por mar, num movimento que desencadeou uma emergência humanitária e um intenso debate político em ambos os lados da fronteira

Grande parte dos migrantes são jovens marroquinos, muitos deles menores de idade, oriundos de cidades como Casablanca, Beni Mellal, Safim e outras regiões do país. Muitos percorreram centenas de quilómetros até ao norte de Marrocos para tentar alcançar Ceuta, atravessando a nado a praia do Tarajal, escalando as vedações fronteiriças ou aproveitando momentos de menor vigilância

As autoridades espanholas mobilizaram milhares de agentes da Guarda Civil, da Polícia Nacional e das Forças Armadas para controlar a situação. O Governo de Pedro Sánchez classificou a entrada maciça como um ataque à integridade da fronteira espanhola e intensificou as devoluções para Marrocos ao abrigo dos acordos bilaterais existentes. 

Segundo a imprensa internacional, a crise provocou dezenas de mortos e desaparecidos, sobretudo por afogamento durante as tentativas de travessia, enquanto milhares de pessoas permaneceram concentradas junto à fronteira ou nas ruas de Ceuta à espera de assistência

Do lado marroquino, a dimensão do êxodo alimentou um intenso debate público. Diversos analistas e comentadores interpretam a saída em massa de jovens como reflexo do descontentamento com as condições económicas e sociais do país, apontando o desemprego, a falta de oportunidades e a perda de esperança como fatores determinantes para a decisão de abandonar Marrocos.

Num editorial, o jornal espanhol El Mundo considera que os acontecimentos ultrapassam a dimensão exclusivamente migratória, defendendo que exigem uma resposta humanitária, diplomática, política e de segurança, dada a pressão exercida sobre a fronteira externa da União Europeia. O jornal sublinha igualmente a necessidade de apurar as circunstâncias que permitiram uma entrada desta dimensão e de reforçar a cooperação entre Espanha e Marrocos. 


A crise ocorre num contexto político particularmente sensível

 

Entretanto, em Marrocos, vários textos de opinião têm associado esta vaga migratória a uma crise estrutural mais profunda, descrevendo a fuga de milhares de jovens como um sinal do mal-estar económico e social vivido por parte da população e questionando o contraste entre o discurso oficial sobre desenvolvimento e a realidade enfrentada por muitos marroquinos. 

A crise ocorre num contexto político particularmente sensível, a poucas semanas das eleições legislativas marroquinas, e poucos dias depois do discurso do rei Mohammed VI por ocasião do Dia do Trono, reacendendo o debate sobre a situação económica do país, as políticas públicas dirigidas aos jovens e a gestão dos fluxos migratórios entre Marrocos e a União Europeia e - não o esqueçamos - as sempre invocadas pretensões de anexação do Reino de Marrocos sobre Ceuta e Melillha.