Um artigo de El Independiente traça o retrato de uma mudança geopolítica que Espanha, segundo o jornal, tem tardado em reconhecer: a reivindicação marroquina de soberania sobre Ceuta e Melilha deixou de ser um assunto puramente bilateral entre Rabat e Madrid para se transformar em argumento de terceiros — nomeadamente Estados Unidos e Israel.
Uma "Marcha Verde 2.0" pouco espontânea
O artigo enquadra a recente vaga migratória em massa para Ceuta — a maior entrada irregular na história recente da cidade autónoma (mais de 60 mil pessoas segundo as últimas informações) — como um episódio longe de ser espontâneo, coincidindo com o 27.º aniversário da subida ao trono de Mohamed VI. Segundo El Independiente, nada acontece em Marrocos sem o conhecimento do monarca, e esta jogada de Rabat serviria três objetivos simultâneos: avisar o Governo de Pedro Sánchez sobre a capacidade desestabilizadora do vizinho do sul, avançar na difusão do relato sobre a "marroquinidade" de Ceuta e Melilha, e demonstrar que Marrocos conta com o apoio dos Estados Unidos e, por consequência, uma certa impunidade. O artigo nota que nem a pertença de Espanha à União Europeia nem à NATO impediram este cenário — ninguém, segundo o jornal, chegou sequer a classificar a situação como "ameaça híbrida", com Bruxelas a limitar-se a exigir a Espanha que controlasse a fronteira comunitária.
Washington: um relatório do Congresso que rompe sete décadas de consenso
Segundo El Independiente, um relatório do Comité de Assignações da Câmara dos Representantes dos EUA — já assinado pelo congressista Mario Díaz-Balart — terá conseguido "algo que Rabat perseguia há setenta anos sem sucesso": pôr em causa formalmente a soberania espanhola sobre as duas cidades autónomas, ao afirmar que estas estão "localizadas em território marroquino" e continuam "sujeitas à reivindicação de Marrocos". O artigo relaciona este posicionamento com o desgaste nas relações entre Washington e Madrid, motivado pela recusa espanhola em ceder as bases de Rota e Morón durante os ataques dos EUA ao Irão e pelo incumprimento das metas de despesa em defesa da NATO — fatores que, segundo o jornal, têm irritado repetidamente Donald Trump.
Israel entra em cena através dos Acordos de Abraão
O artigo aponta ainda para o papel crescente de Israel neste tabuleiro diplomático, através de uma rede de think tanks de Washington próximos de Trump e da diplomacia pública israelita. Segundo reportagens anteriores do próprio El Independiente e de outros meios como o israelita Ynet, este apoio decorre do reforço da relação bilateral entre Rabat e Telavive, consolidada pelos Acordos de Abraão de 2020 — nos quais Israel reconheceu a marroquinidade do Sahara Ocidental em troca do reconhecimento marroquino do Estado de Israel — e reforçada por um plano de trabalho militar conjunto assinado em janeiro de 2026.
Um novo capítulo do "bilhar" diplomático de Rabat
O artigo conclui que Espanha confiou, durante meio século, em que ninguém relevante compraria a tese da marroquinidade de Ceuta e Melilha — um pressuposto que, segundo El Independiente, deixou de ser válido. A questão central deixou de ser se Marrocos está ou não sozinho nesta reivindicação — já não está —, para passar a ser se Espanha tem uma resposta a este desafio que vá além da retórica diplomática.

