Segundo o jornal Le Monde, advogados e associações denunciam “violações nos procedimentos”
Por Célia Cuordifede e Simon Roger –
Le Monde, 25/02/2026
Os processos judiciais contra jovens marroquinos associados ao movimento GenZ 212 aceleraram desde o início de fevereiro, num contexto que associações e advogados classificam como uma vaga repressiva sem precedentes. A informação é avançada pelo jornal francês Le Monde, que relata uma sucessão de julgamentos e detenções ligados às manifestações do outono de 2025.
O
movimento GenZ 212 surgiu no final de setembro de 2025 como uma
mobilização juvenil em várias cidades do país. Desde então,
milhares de jovens terão sido detidos ou processados por alegada
participação em protestos considerados não autorizados pelas
autoridades.
No dia 23 de fevereiro, Zineb Kharroubi, uma das
animadoras do coletivo GenZ 212 France — criado pela diáspora —
apresentou-se em tribunal em Casablanca. Segundo o Le Monde, a jovem
de 28 anos foi detida à chegada ao aeroporto de Marrakech onze dias
antes e acusada de ter “incitado” à participação em
manifestações através de publicações nas redes sociais. O
julgamento foi adiado para 9 de março, após a defesa alegar não
ter tido acesso aos autos de inquirição.
O jornal descreve um clima de apreensão entre apoiantes do movimento. Jovens ouvidos à saída do tribunal afirmam sentir-se sob permanente ameaça de detenção, com base em acusações que consideram vagas ou arbitrárias.
De
acordo com Hakim Sikouk, da Associação Marroquina de Direitos
Humanos (AMDH), citado pelo Le Monde, pelo menos 5.700 pessoas terão
sido detidas no âmbito das manifestações. Destas, cerca de 2.480
foram condenadas a multas e 2.100 permanecem em prisão, com penas
que variam entre alguns meses e 15 anos. O responsável admite que os
números podem estar incompletos, face à escassa informação
oficial.
Os protestos do outono de 2025 abrangeram 28 cidades
marroquinas e foram marcados por confrontos violentos em localidades
como Oujda, Marrakech e Lqliaa, onde três jovens morreram. As
reivindicações do movimento incluem melhor acesso à educação e à
saúde, combate à corrupção e redistribuição de riqueza.
Advogados envolvidos na defesa dos jovens acusam as autoridades de irregularidades processuais. O advogado Rachid Ait Belarbi, citado pelo Le Monde, afirma ter identificado “assinaturas uniformizadas em autos” e relatos de coação. Outros juristas denunciam detenções provisórias consideradas excessivas e a desvalorização de provas apresentadas pela defesa.
O jornal francês relata ainda decisões judiciais díspares: enquanto alguns arguidos foram absolvidos ou condenados a penas suspensas, outros receberam penas efetivas de prisão, alimentando a perceção de uma justiça “aleatória”.
Para a AMDH, esta estratégia visa desencorajar novas mobilizações. “A parte de aleatoriedade nestes processos é voluntária”, afirma Hakim Sikouk ao Le Monde, sugerindo que o objetivo é intimidar potenciais protestos futuros.
A sucessão de julgamentos ocorre num momento sensível para o país, num equilíbrio delicado entre ordem pública e liberdade de expressão, com o movimento GenZ 212 a tornar-se símbolo de uma juventude que reclama mudanças estruturais.
.jpg)

.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário