segunda-feira, 22 de junho de 2026

Aminetu Haidar alerta para radicalização da juventude saharaui perante bloqueio do conflito



A ativista saharaui Aminetu Haidar manifestou preocupação com a crescente adesão dos jovens saharauis à luta armada, argumentando que décadas de impasse no processo de descolonização do Sahara Ocidental e a falta de resultados por parte da comunidade internacional estão a minar a confiança nas vias pacíficas de resolução do conflito. 

As declarações foram feitas em Las Palmas de Gran Canaria, durante a apresentação do documentário Aminetu, dedicado à sua trajetória de defesa dos direitos humanos e da causa saharaui. Segundo Haidar, as novas gerações deixaram de acreditar que as Nações Unidas ou a comunidade internacional sejam capazes de garantir o cumprimento do direito internacional e o exercício do direito à autodeterminação do povo saharaui. Essa desilusão estaria a traduzir-se num apoio cada vez maior à opção militar. 

A conhecida defensora dos direitos humanos, que reside em El Aaiún, a principal cidade do território do Sahara Ocidental ocupado por Marrocos, denunciou a persistência de detenções arbitrárias, alegados casos de tortura e a existência de ativistas saharauis presos, sustentando que a situação dos direitos humanos no território continua a deteriorar-se. Apesar disso, reafirmou a sua convicção de que a solução para o conflito deve ser pacífica e assente na vontade livremente expressa pelo povo saharaui 

Haidar foi particularmente crítica em relação à atuação da comunidade internacional, acusando-a de indiferença perante o conflito. Considera que muitos jovens passaram a encarar os discursos sobre direitos humanos como meros slogans sem consequências práticas, alimentando o descrédito em relação às instituições internacionais. 

A ativista criticou igualmente a mudança de posição adotada por Espanha em 2022 sobre o Sahara Ocidental, entendendo que esse apoio ao plano marroquino de autonomia contribuiu para reforçar a posição de Rabat e aumentar o sentimento de impunidade relativamente à situação no território. Na sua perspetiva, a política espanhola representa um afastamento da responsabilidade histórica de Madrid enquanto potência administrante do território. 

Outro dos alvos das críticas foi a União Europeia. Haidar argumenta que Bruxelas continua a beneficiar economicamente dos recursos naturais do Sahara Ocidental, apesar das decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia que têm sublinhado o estatuto separado e distinto do território em relação a Marrocos. 

A dirigente saharaui apontou ainda falhas à atuação da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), considerando que o organismo não tem conseguido garantir a monitorização efetiva da situação no terreno nem avançar com o referendo de autodeterminação previsto pelas Nações Unidas.  

O documentário Aminetu, realizado por Lucía Muñoz Lucena após mais de dois anos de investigação, procura precisamente dar visibilidade internacional ao conflito e à realidade vivida tanto nos territórios do Sahara Ocidental como nos campos de refugiados saharauis na Argélia. A obra utiliza uma narrativa próxima do thriller para abordar as violações dos direitos humanos e o prolongado impasse político que dura há quase meio século. 

Para Haidar, o maior risco neste momento é que uma geração inteira de jovens saharauis perca definitivamente a confiança nas soluções diplomáticas, reforçando a convicção de que apenas a confrontação armada poderá alterar o atual statu quo.

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