Uma investigação jornalística internacional revela que os serviços de informação de Marrocos construíram um sistema estrutural de vigilância em massa que ultrapassa o uso isolado de programas espiões, integrando ferramentas como o Pegasus numa verdadeira cadeia de comando destinada a controlar tanto dissidentes internos como líderes internacionais — incluindo, segundo o apurado, o próprio presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez.
De acordo com a investigação, coordenada pela organização Forbidden Stories e publicada em Espanha pelo El Confidencial, através dos jornalista E. Torrico, G. M. Piantadosi, M. Á. Gavilanes, Ignacio Cembrero, José Bautista e Hicham Mansouri, esta arquitetura de vigilância estaria sob supervisão de Fouad Ali El Himma, conselheiro principal e colaborador próximo do rei Mohamed VI, conhecido internamente nos serviços secretos marroquinos como o "vice-rei" ou "o rei na sombra". A operação seria conduzida através da Direção-Geral de Vigilância do Território (DGST), o serviço de informação interno de Marrocos, dirigido por Abdellatif Hammouchi.
Mais de 250 telemóveis espanhóis visados entre 2018 e 2019
Segundo o apurado pela investigação, os serviços marroquinos tentaram infetar com o Pegasus — programa espião da empresa israelita NSO Group — pelo menos 250 telemóveis com número espanhol entre maio de 2018 e junho de 2019, dois anos antes de se confirmar a infeção dos dispositivos de Pedro Sánchez e de vários ministros do seu Governo. Nesse período, foram registadas 768 tentativas de infeção, com um máximo de 106 ataques num único dia, a 16 de março de 2019.
De acordo com o El Confidencial, quando os alvos eram dirigentes de topo — como membros do Governo espanhol ou o presidente francês Emmanuel Macron —, as operações eram autorizadas diretamente por El Himma. Já a Direção-Geral de Estudos e Documentação (DGED), o serviço de informação externo marroquino, não tinha acesso direto ao Pegasus, mas podia propor alvos à DGST, segundo dois antigos funcionários citados pelo consórcio jornalístico.
Ativistas saharauis, jornalistas e diplomatas argelinos entre os alvos
A investigação identifica dezenas de pessoas visadas em Espanha, com particular incidência sobre cidadãos marroquinos residentes no país, muitos deles originários do Rife, além de ativistas e representantes saharauis ligados à Frente Polisario. Entre os nomes identificados constam Mohamed Beisat, atual responsável da diplomacia da República Saharaui, Mouloud Said, delegado da Frente Polisario em Washington, e a ativista Aminatou Haidar, juntamente com o professor da Universidade Pública de Navarra Abderrahman Taleb Omar e o doutorando da Universidade de Sevilha Bachir Mohamed Lahcen, diretor do portal "España en Árabe".
A lista inclui ainda vários jornalistas e académicos, como El Houssine Majdoubi, que terá acumulado 42 tentativas de infeção — a cifra mais elevada registada em Espanha —, o académico Aboubakr Jamai, os opositores marroquinos Karim el Otmani e Faouzi Hliba, o jornalista Ali Lmrabet, o correspondente neerlandês Koen Greven e o próprio jornalista espanhol Ignacio Cembrero, autor da reportagem. Entre os alvos militares e diplomáticos figura ainda o coronel da Guarda Civil Alberto Aguilera, então chefe de Informações para a Catalunha, alvo de cinco tentativas de infeção em março de 2019, bem como vários diplomatas argelinos destacados em Espanha, incluindo a então embaixadora Taous Feroukhi.
O Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional, que prestou apoio técnico à investigação, sublinha que a documentação obtida comprova tentativas de infeção, mas não permite concluir, sem uma análise forense individual de cada dispositivo, que todas tenham sido bem-sucedidas.
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O caso Pedro Sánchez e o silêncio das autoridades
Segundo a investigação, a DGST terá continuado a utilizar o Pegasus até finais de 2021, altura em que Israel começou a retirar a Marrocos a autorização para usar o software, após a revelação pública do chamado Pegasus Project. Emmanuel Macron terá transmitido pessoalmente as suas queixas a Mohamed VI depois de se saber que o seu telemóvel e os de vários membros do seu Governo estavam entre os alvos — o monarca marroquino negou qualquer envolvimento, segundo declarações do escritor Tahar Ben Jelloun a uma televisão israelita.
Os jornalistas do consórcio assinalam ainda não ter havido conhecimento de qualquer protesto formal do Governo espanhol junto de Marrocos pela espionagem ao telemóvel de Pedro Sánchez, nem ações judiciais contra a NSO Group, cuja exportação do Pegasus deveria ser autorizada pelo Ministério da Defesa israelita. O caso ganha um contorno adicional de contradição institucional: o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, viria mais tarde a atribuir a Grã-Cruz da Ordem do Mérito da Guarda Civil a Abdellatif Hammouchi, enquanto o chefe de Informações da Guarda Civil, general Luis Peláez, viajou a Rabat para participar numa cerimónia de condecoração de responsáveis marroquinos.
Uma operação de escala global
Segundo o consórcio jornalístico, os 250 telemóveis espanhóis fazem parte de uma operação de alcance muito mais amplo, que terá selecionado mais de 12.000 dispositivos espalhados por cerca de vinte países, sobretudo pertencentes a cidadãos marroquinos, argelinos e franceses — números que recordam a investigação original de 2021 da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional, que já então tinha revelado tentativas de espionagem contra mais de 12.000 pessoas através do Pegasus.
A investigação atual foi conduzida por um consórcio de 39 jornalistas coordenado pela Forbidden Stories, com a participação do El Confidencial, Le Monde, Radio France, The Guardian, Haaretz, Die Zeit, Der Spiegel, Der Standard, OCCRP, Código Morse, Paper Trail Media, Hawamich e Tamedia, novamente com apoio técnico do Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional. Segundo o El Confidencial, até ao fecho da investigação não tinham respondido aos pedidos de esclarecimento os ministérios espanhóis do Interior, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, nem a DGST, a DGED, a Casa Real marroquina ou a israelita NSO Group.
Fonte: El Confidencial, com base em investigação do consórcio coordenado pela Forbidden Stories.

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