domingo, 5 de julho de 2026

As ambições expansionistas de Marrocos infiltram-se no Mundial





Um artigo publicado no periódico espanhol El Independiente Las ambiciones expansionistas de Marruecos se cuelan en el Mundial analisa como a atual edição do Campeonato do Mundo de futebol se tornou também um palco para gestos políticos — com destaque para episódios ligados às reivindicações territoriais de Marrocos.

O texto começa por recordar que o futebol tem sido historicamente palco de simbolismo político, da "mão de Deus" de Maradona contra Inglaterra à vitória da Alemanha comunista sobre a Alemanha ocidental em plena Guerra Fria, passando pela presença da seleção iraniana a jogar em solo norte-americano depois de meses de guerra no Médio Oriente. Mas o protagonista maior deste Mundial, segundo o artigo, foi um adepto congolês conhecido como "Lumumba Vea", que se notabilizou por posar durante os 90 minutos do jogo entre a República Democrática do Congo e a Colômbia, imitando a estátua de Patrice Lumumba, líder da independência congolesa assassinado com colaboração da CIA e das autoridades belgas.

Segundo o artigo, esse gesto inspirou um adepto marroquino, que na bancada do jogo entre Marrocos e os Países Baixos reproduziu a mesma pose de Lumumba Veamas vestindo um chapéu ao estilo fez e uma daraa, a túnica tradicional dos homens saharauis. A peça, azul ou branca e bordada a dourado no pescoço e ombros, é descrita no artigo como central na cultura saharaui. O adepto, no entanto, trazia sobreposto um mapa de Marrocos que incluía o Sahara Ocidental como território marroquinoum pormenor que o artigo aponta como impensável no traje tradicional saharaui. 

O texto enquadra este episódio numa estratégia mais ampla de assimilação cultural do território saharaui por parte de Marrocos, ocupado desde 1976 sem conclusão do processo de descolonização definido pela ONU. Segundo o artigo, várias organizações saharauis denunciaram tentativas marroquinas de impor o dialeto dariya sobre o hassania nas escolas, bem como a proibição das jaimas, as tendas tradicionais saharauis, nos territórios ocupados — medidas que, argumenta o texto, visam apagar a cultura própria da região para justificar planos de anexação. 

O artigo relata ainda um segundo episódio: um vídeo tornado público no início da competição, em que o guarda-redes marroquino Munir Mohand Mohamedi, nascido em Melilla e com passagem por clubes espanhóis como o Málaga e o Numancia, afirmava a brincar com colegas que "Ceuta e Melilha são de Marrocos". Segundo o texto, as declarações surgem num momento de aparente distensão nas relações entre Madrid e Rabat, com o ministro espanhol José Manuel Albares a descrever a relação com Marrocos como "um exemplo mundial" e a classificar de "absurda" a hipótese de Marrocos pedir apoio dos Estados Unidos para uma eventual "descolonização" de Ceuta e Melilhaainda que um relatório não vinculativo da Câmara dos Representantes norte-americana se tenha referido às duas cidades como território marroquino administrado por Espanha.


A seleção nacional de futebol marroquina

Por fim, o artigo liga estas tensões ao Mundial de 2030, que Espanha, Portugal e Marrocos vão organizar em conjunto, e à disputa em torno do estádio que acolherá a final — com Marrocos a tentar impor o estádio Hassan II, ainda em construção e projetado para 115 mil espetadores, frente ao favorito Santiago Bernabéu. O texto recorda também que o mapa apresentado por Marrocos na candidatura oficial à FIFA incluía o Sahara Ocidental como parte do país, uma opção que a própria FIFA acabou por corrigir.

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