O ex-secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-moon recupera, nas suas memórias "Filho da Guerra, Homem de Paz", os detalhes do confronto diplomático que protagonizou com Marrocos a propósito do Sahara Ocidental, formulando críticas duras ao que descreve como um comportamento sem precedentes por parte de Rabat durante o seu mandato à frente da organização.
O livro
A obra relata o percurso de Ban Ki-moon, desde a infância marcada pela guerra na Coreia do Sul até à liderança das Nações Unidas, cargo que ocupou durante dez anos, no qual defendeu causas como a igualdade de género, a proteção ambiental e a manutenção da paz entre nações. O livro aborda ainda outros episódios que marcaram o seu mandato, como a Primavera Árabe, a intensificação de conflitos em África, o terramoto no Haiti e a epidemia de Ébola.
Entre os episódios recuperados nas memórias está a controvérsia diplomática desencadeada depois de Ban Ki-moon ter classificado o Sahara Ocidental como um "território ocupado", uma caracterização que na altura gerou fortes reações por parte de Marrocos.
O confronto com Rabat
Segundo o relato de Ban Ki-moon, citado por vários meios de comunicação, o ex-secretário-geral terá sido alvo de pressões diretas por parte de responsáveis marroquinos após uma visita à região e um encontro com a missão da MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental) — deslocação que, segundo o próprio, se inseria nas suas funções de acompanhamento do conflito e de apoio aos esforços para alcançar uma solução política.
De acordo com o livro, a disputa atingiu o seu ponto mais alto quando o então ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino exigiu a Ban Ki-moon um pedido de desculpas. Este recusou, afirmando que, ao longo de uma década à frente das Nações Unidas, nunca tinha encontrado um comportamento semelhante por parte de um Estado-membro.
Contexto e alcance do episódio
O relato não se limita a recordar um incidente diplomático isolado, situando-o antes num contexto mais amplo sobre a relação entre as Nações Unidas e a questão do Sahara Ocidental, bem como sobre os limites da pressão política que os Estados-membros podem exercer sobre os responsáveis da organização. O episódio teve repercussões nas relações de Rabat com diversos atores internacionais e regionais na altura.
Segundo informações divulgadas, Ban Ki-moon defende no livro a sua própria versão dos acontecimentos, considerando que "disse a verdade" ao referir-se ao Sahara Ocidental, remetendo tanto para a defesa do princípio de neutralidade das Nações Unidas como para a linguagem que utilizou para descrever o conflito.
Uma versão pessoal, não um pronunciamento jurídico
Importa sublinhar que o conteúdo divulgado corresponde ao relato pessoal de Ban Ki-moon tal como apresentado no seu livro, não constituindo um pronunciamento jurídico definitivo sobre o conjunto da questão do Sahara Ocidental. Ainda assim, a dureza das expressões que lhe são atribuídas é suficiente para reavivar o debate sobre a forma como Rabat lidou ( ainda lida...) com as posições das Nações Unidas e sobre os limites da linguagem diplomática quando confrontada com um conflito regional de longa duração.
Editora: UNIVERSIDAD DE LO ANDES

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