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| Cartoon gerado por IA |
Mehdi Hijaouy, antigo alto responsável dos serviços secretos de Marrocos atualmente refugiado no estrangeiro, fez ao jornal francês Le Canard enchaîné revelações sobre algumas das operações mais sensíveis atribuídas aos serviços de inteligência do reino, incluindo o caso Pegasus, a recente crise de Ceuta e o alegado envolvimento de figuras próximas de Mohamed VI.
A entrevista foi publicada em 8 de setembro pelo semanário satírico e de investigação francês Le Canard enchaîné, que apresenta Hijaouy como antigo número dois da DGED — Direction Générale des Études et de la Documentation, os serviços de informações externas de Marrocos. O antigo responsável encontra-se no estrangeiro por razões de segurança.
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| Fouad Ali El Himma, principal conselheiro de Mohamed VI e vulgarmente apelidado de «vice-rei» do regime |
Segundo o jornal, Hijaouy dirigiu, entre outras estruturas, o Service Action da DGED e posteriormente trabalhou junto de Fouad Ali El Himma, principal conselheiro e homem de confiança do rei Mohamed VI. O Le Monde já tinha noticiado, em 2025, a sua fuga de Marrocos, o mandado de captura internacional emitido contra ele e as disputas internas que envolveram familiares e antigos colaboradores.
Pegasus e a espionagem de dirigentes estrangeiros
Um dos capítulos mais relevantes da entrevista diz respeito ao Pegasus, o programa de espionagem desenvolvido pela israelita NSO Group. Hijaouy confirma ao jornal francês, segundo a entrevista, elementos anteriormente revelados pelas investigações da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional sobre a utilização do software pelos serviços marroquinos.
O antigo responsável atribui um papel central neste sistema a Abdellatif Hammouchi, chefe da segurança marroquina, e a Fouad Ali El Himma. Segundo Hijaouy, técnicos da NSO terão apresentado o Pegasus a Hammouchi, em Rabat, em 2017, tendo posteriormente o sistema sido utilizado para operações de vigilância.
Entre os alegados alvos associados ao caso Pegasus estiveram dirigentes e responsáveis políticos estrangeiros, incluindo Emmanuel Macron, Édouard Philippe e Pedro Sánchez, entre centenas e centenas de outras. Estas alegações sobre o uso marroquino do Pegasus têm sido contestadas por Rabat, como é habitual em todas as ações de desestabilização em que está envolvido.
Hijaouy vai mais longe e afirma ao Canard que os serviços marroquinos terão utilizado o sistema para espiar dirigentes africanos durante uma cimeira realizada em Kigali, em 2018.
Ceuta: acusações contra dois homens fortes do regime
Hijaouy aborda também a entrada de cerca de 70 mil marroquinos em Ceuta, em 30 de julho, e afirma possuir informações sobre a forma como a operação terá sido conduzida.
Aponta particularmente para Hammouchi e Fouad Ali El Himma, que o jornal descreve como braço direito de Mohamed VI e que Hijaouy conhece pessoalmente por ter trabalhado como seu conselheiro. O antigo espião questiona como seria possível uma deslocação daquela dimensão em direção à fronteira sem conhecimento das principais estruturas de segurança do reino.
O caso do pugilista Zakaria Moumni
Outro dos episódios abordados é o de Zakaria Moumni, campeão de kickboxing que denunciou ter sido sequestrado e torturado em Marrocos em 2010.
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| Zakaria Moumni |
Hijaouy afirma ter visto Moumni depois da sua detenção e confirma ao jornal a versão segundo a qual o desportista apresentava sinais evidentes de violência. O caso provocou posteriormente uma grave crise entre Paris e Rabat, depois de a justiça francesa ter aberto uma investigação envolvendo Abdellatif Hammouchi, Diretor da Direção-Geral de Segurança Nacional e da Direção-Geral de Vigilância Territorial (DGSN-DGST).
O relacionamento entre os dois países acabaria por ser restabelecido e Hammouchi foi posteriormente distinguido pela França, tendo os serviços marroquinos também colaborado na segurança dos Jogos Olímpicos de Paris.
Uma luta no coração dos serviços secretos
As revelações surgem num contexto de fortes disputas internas no aparelho de segurança marroquino. O Le Monde já descrevera o caso Hijaouy como sintomático das rivalidades entre a DGED, a DGST, conselheiros reais e outros círculos de poder, num período marcado também pela questão da futura sucessão de Mohamed VI. O próprio Le Canard enchaîné introduz uma ressalva importante: Hijaouy «tem muitas contas a ajustar» e participou ele próprio em algumas das operações dos serviços que agora denuncia. Mas é precisamente a posição que ocupou no aparelho de Estado que torna o seu testemunho particularmente sensível.
As suas declarações colocam novamente sob escrutínio o funcionamento dos serviços secretos marroquinos, a utilização de ferramentas de vigilância como o Pegasus e o poder exercido nos bastidores por Fouad Ali El Himma e Abdellatif Hammouchi.
Fonte: entrevista de Jérôme Canard, «France-Maroc – Les confessions de l’ancien chef espion qui fait trembler le royaume», Le Canard enchaîné, 8 de setembro de 2026.



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