A nomeação foi feita ao abrigo do artigo 47.º da Constituição marroquina, que determina que o chefe do Governo seja escolhido no partido que obteve o primeiro lugar nas eleições para a Câmara dos Representantes. O PAM, liderado por uma direção colegial de que El Mansouri faz parte, foi a força mais votada, numas eleições onde dos cerca de 15,8 milhões de eleitores inscritos, votaram apenas perto de seis milhões. A participação nacional ficou nos 38,08%, contra 50,86% nas legislativas de 2021 e 42,27% em 2016.
Advogada de formação e uma das figuras mais influentes do PAM, El Mansouri, de 50 anos, acumulou nos últimos anos as funções de presidente da Câmara de Marraquexe e ministra do Ordenamento do Território, Urbanismo, Habitação e Política da Cidade.
Negócios de terrenos ensombram currículo...
A dimensão histórica da nomeação não apaga, contudo, a polémica que tem acompanhado a nova chefe do Governo devido a negócios imobiliários envolvendo terrenos da sua família nos arredores de Marraquexe.
Em 2025, documentos divulgados pelo grupo de hackers Jabaroot levantaram suspeitas de conflito de interesses relacionadas com a venda de terrenos em Tassoultante. A autenticidade e o alcance de parte das informações divulgadas foram contestados, e El Mansouri rejeitou as acusações, considerando-as parte de uma campanha contra si e anunciando uma ação judicial.
O negócio imobiliário em causa, porém, está documentado. Em setembro de 2023, El Mansouri e os dois irmãos venderam mais de 66 hectares de terrenos por cerca de 266 milhões de dirhams, aproximadamente 24 milhões de euros. Os terrenos estavam classificados como agrícolas e não urbanizáveis no momento da transação.
Uma investigação publicada pelo jornal marroquino Le Desk em maio e junho deste ano analisou as operações e levantou questões sobre um eventual conflito entre os interesses privados da família e as responsabilidades públicas de El Mansouri, que acumulava a presidência da Câmara de Marraquexe com a tutela governamental do urbanismo.
El Mansouri rejeitou qualquer irregularidade. A então ministra afirmou que os terrenos eram propriedade privada da família, herdados do pai, que os tinha adquirido em 1978, e que a venda foi realizada legalmente e declarada às autoridades fiscais. Sustentou ainda que a propriedade se encontrava fora dos limites administrativos do município de Marraquexe e negou que as suas funções políticas tivessem interferido na operação.
A controvérsia centra-se, por isso, não na existência da venda, mas nas circunstâncias urbanísticas dos terrenos e na eventual existência de conflito de interesses, questão sobre a qual existem acusações jornalísticas e políticas, mas não uma conclusão judicial que estabeleça responsabilidade de El Mansouri. A nova chefe do Governo mantém que a operação foi legal e transparente.
El Mansouri, que terá agora de formar uma coligação capaz de assegurar apoio parlamentar ao novo Governo, sucede a Aziz Akhannouch, que exercia o cargo desde 10 de setembro de 2021. O ex-primeiro-ministro – que é também o segundo homem mais rico de Marrocos a seguir ao rei Mohamed VI - é CEO do Akwa Group, conglomerado energético presente em várias regiões do mundo.

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