O fim da missão das Nações Unidas no Sahara Ocidental poderá aumentar o risco de confrontos militares e agravar as tensões regionais, alerta hoje o jornal britânico Financial Times, que aponta para a possibilidade de uma escalada do conflito após 35 anos de presença da MINURSO no território.
Num artigo publicado em 3 de novembro, o Financial Times analisa as consequências da não renovação do mandato da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), na sequência das divergências entre os Estados Unidos e a Rússia no Conselho de Segurança.
Segundo o jornal, a retirada dos observadores internacionais poderá enfraquecer os mecanismos de contenção militar numa região marcada pelas tensões entre Marrocos e a Argélia e pelo prolongado conflito entre Rabat e a Frente Polisario.
Ricardo Fabiani, diretor do programa para o Norte de África do International Crisis Group, alerta que a ausência de observadores da ONU na zona de separação poderá aumentar o risco de confrontos militares e de erros de cálculo suscetíveis de desencadear embates difíceis de controlar.
O especialista admite, nomeadamente, a possibilidade de uma movimentação militar marroquina para a zona de separação, baseada na expectativa de que a Argélia não reagiria, criando condições para uma escalada de consequências imprevisíveis.
Em contraste, o deputado marroquino Lahcen Haddad considera que o encerramento da MINURSO representa uma oportunidade para Marrocos avançar com a sua proposta de autonomia para o território, sem a intervenção direta da missão das Nações Unidas.
Do lado saharaui, Oubbi Bashraya Bashir, conselheiro do presidente Brahim Ghali, afirma que a Frente Polisario manterá a luta política e militar pelo direito à autodeterminação, procurando simultaneamente preservar a contenção no terreno para favorecer uma solução negociada.
O responsável saharaui adverte, contudo, que a saída da MINURSO poderá abrir caminho a uma escalada perigosa do conflito.
O Financial Times recorda ainda a posição do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, segundo a qual o encerramento da missão não elimina o direito do povo saharaui à autodeterminação.
Criada em 1991 para acompanhar o cessar-fogo e preparar um referendo de autodeterminação, a MINURSO terminou as suas operações em 1 de novembro de 2026, sem que a consulta prevista tivesse sido realizada.
O encerramento da missão abre, assim, uma nova fase de incerteza política e militar no Sahara Ocidental, com posições divergentes sobre o futuro do território e preocupações quanto à ausência de mecanismos internacionais de observação e prevenção de combates de maior envergadura.

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