domingo, 22 de agosto de 2021

Guerra no Sahara Ocidental: Comunicados militares nºs 282 e 283

 

O Ministério de Defesa Nacional da RASD distribuiu nas últimas 48 horas os comunicados militares nºs. 282 e 283 que assinalam os mais recentes ataques das unidades do ELPS contra o dispositivo militar de ocupação marroquino ao longo do muro. A guerra de libertação, reiniciada a 13 de Novembro prossegue diariamente com ataques de artilharia intensos de flagelação contra o dispositivo militar marroquino de ocupação.

 

Comunicado militar n.o 282

Quinta-feira, 19 de agosto 2021

01.          Bombardeada a base de Galeb Enness, no setor de Auserd (sul do SO).

02.         Bombardeada a região de Gwairet Uld Blal, no setor de Mhabes (nordeste do SO).

03.         Bombardeada a região de Bairat Tnuchard, no setor de Mhabes.

 

Sexta-feira, 20 de agosto 2021

04.Bombardeada a região de Uday Dhamran, no setor de Mhabes.

 

Comunicado militar n.o 283

Sexta-feira, 20 de agosto 2021

01.Atacada a base militar marroquina de Lembkhaibtat, no setor de Guelta (centro do SO).

02.Bombardeada as trincheiras do ocupantes em Graret El Farssik, na região de Mahbes.

03.Bombardeada a zona de Rus Fadret Aziza, no setor de Housa (norte do SO).

04.Bombardeada a zona de Fadret Lemrass, no setor de Housa.

05.Bombardeada a zona de Hraichet Direct, no setor de Housa.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Guerra no Sahara Ocidental - Comunicados militares nºs 278, 279, 280 e 281

 



Nos quatro últimos dias o Ministério de Defesa Nacional da RASD distribuiu os comunicados militares nºs. 278, 279, 280 e 281 que assinalam os mais recentes ataques das unidades do ELPS contra o dispositivo militar de ocupação marroquino ao longo do muro. A guerra de libertação, reiniciada a 13 de Novembro prossegue diarimente com ataques de artilharia intensos de flagelação contra o dispositivo militar marroquino de ocupação.

 

Comunicado militar nº. 278

Domingo, 15 de agosto 2021

01. - Bombardeadas trincheiras das forças marroquinas na região de Graret Lehdid no setor de Farsia (norte do SO).

 

Segunda-feira, 16 de agosto 2021

02. - Bomardeados diversos pontos entrincheirados das forças de ocupação na região de Guert Uld Blal no setor de Mahbes (nordeste do SO).

 

Comunicado militar nº. 279

Terça-feira, 17 de agosto 2021

01. - Bombardeadas trincheiras das forças ocupantes na região de Graret El Fersig, no setor de Mahbes (nordeste do SO).

02. Ataque de artilharia pesada contra as trincheiras das forças marroquinas na zona de Amegli Leghnem no setor de Amgala (norte do SO).

03.- Bombardeada a áreas de Aaidiat no setor de Guelta (centro do SO)

04. - Ataque de artilharia à zona de Udey Zayat no setor de Farsia (norte do SO).

05. - Bombardeado a zona de Graret, no setor de Farsia (norte do SO), tendo as forças ocupantes sofrido grandes perdas em vidas humanas e equipamento.

 

Comunicado militar nº. 280

Quarta-feira, 18 de agosto 2021

Dia escaldante em calor e em ataques miltares contras as forças de ocupação. Nada mais nada menos do que 10 ataques planeados, sobretudo na zona norte do território.

01. - Forte bombardeamento contra um destacamentode de tropas marroquinas na área de Abirat Tinushad no setor de Mahbes (nordeste do SO).

02. - Bombardeo sobre forças ocupantes estacionadas na zona de Amigli Assequima, setor de Amgala (norte do SO).

03. - Bombardeamento sobre as forças marroquinas entrincheiradas na zona de Amigli Laghnem, de novo em Amgala.

04. - Violento ataque de artilharia contra as forças de ocupação através de bombardeamentos continuados na zona de Ras Fedrat Bruk no setor de Hauza (norte do SO).

05. - Bombardeado uma área de trincheiras na zona norte de Hreishat Dirt no setor de Hauza (norte do SO).

06. - Forte bombardeio dirigido contra as trincheiras do exército marroquino na zona de Ross Ferat Al Tamat, de novo em Hauza.

07. - Bombardeado uma concentração de forças de ocupação na zona de Hreishat Dirt, uma vez mais no setor de Hauza.

08. - Bombardeamento de posições inimigas em Tayalat Al Talh na zona de Rus Tawarachit no setor de Umm Dreiga (centro do SO).

09. - Sequência de bombardeamentos sobre as forças ocupantes na zona de Graret Lahdid no setor de Farsia (norte do SO).

10. - Bombardeio de tropa inimiga na zona de Graret Shdida no setor de Farsia.

 

Comunicado militar n.º 281

Quinta-feira, 19 de agosto 2021

01. - Severo bombardeamento sobre uma base base de apoio e logística das forças de ocupação marroquinas em Galb Annass no setor de Auserd (sul do SO), tendo sido observadas densas colunas de fumo elevando-se da base atacada, o que causou o caos entre as forças ocupantes.

02. e 03. - Unidades do ELPS bombardearam posições das forças ocupantes nas zonas de Güerat Ould Balal e de Abirat Tinushad no setor de Mahbes (nordeste do SO).

Argélia-Marrocos: as relações entre os dois países magrebinos nunca foram tão tensas. Terão atingido já o “ponto de não-retorno”?




Nunca, desde a “Guerra das Areias”, em outubro de 1963 — quando Marrocos pretendeu ocupar parte do território argelino (as províncias de Tindouf e Béchar) — que a tensão entre a Argélia e Marrocos era tão extremada. As relações estão de «cortar à faca» e nem mesmo o discurso pretensamente apaziguador do rei Mohamed VI proferido no passado dia 30 de julho, data comemorativa de duas décadas de reinado, surtiu qualquer efeito. As autoridades argelinas não deram crédito a esse pretenso «estender de mão» do monarca alauita, no mesmo momento em que o o seu regime se atolava no escândalo da espionagem Pegasus, de que foram alvo preferencial também muitos telemóveis das mais altas autoridades políticas e militares argelinas.

 

Argélia: Rever as relações, fechar o espaço aéreo com Marrocos

Argel decidiu ontem "rever" as suas relações com Marrocos, a quem acusa de envolvimento nos incêndios devastadores no norte do país, de acordo com um comunicado da presidência argelina.

"Os incessantes actos hostis perpetrados por Marrocos contra a Argélia exigem uma revisão das relações entre os dois países e uma intensificação dos controlos de segurança na fronteira ocidental", refere o comunicado presidencial distribuído após uma reunião extraordinária do Conselho de Alta Segurança argelino (HCS) presidida pelo chefe de Estado, Abdelmadjid Tebboune.

O HCS fala da "intensificação dos controlos de segurança na fronteira com Marrocos". Claramente, o exército está em alerta máximo para lidar com qualquer eventualidade após a ameaça do ministro dos Negócios Estrangeiros israelita Yaïr Lapid ter afirmado em Casablanca, durante a sua visita oficial a Marrocos, de uma "perturbadora aliança argelino-iraniana".

O portal argelino Algérie Patriotique assegura que a Argélia decidiu mesmo fechar o espaço aéreo e cortar todas as ligações entre Argel e Casablanca.

Segundo a imprensa argelina, o país tem tentado “manter a calma para evitar que a crise assumisse novas dimensões, mas a atitude cautelosa e racional da Argélia parece ter sido vista como um sinal de fraqueza pelas recentes decisões de Rabat, que se voltaram para a entidade sionista como um "refúgio político" com o qual fizeram um acordo que consiste em formalizar as relações já existentes entre os dois aliados”.

A Argélia começou a perceber a evidente atitude agressiva por parte do Reino de Marrocos contra a sua integridade territorial - refere a imprensa argelina - , quando no mês passado, durante a cimeira dos Não-Alinhados, o representante de Marrocos na ONU declarou explicitamente guerra à Argélia, assumindo a causa do movimento separatista cabílio MAK, meses após este ter sido considerado uma organização terrorista por Argel.

Os recentes incêndios em que vários milhares de hectares arderam e mataram 80 pessoas, especialmente na região de Tizi Ouzou, foram, porém, o detonador para a irada resposta argelina, que segundo fontes argelinas, não deverá terminar por aqui.

 


E se o gás argelino deixar de passar por Marrocos?

O próximo passo poderá ser o ‘fim’ do gasoduto Magrebe-Europa (GME), que passa por território marroquino e que liga os campos gasíferos argelinos ao território de Espanha, situação que preocupa as autoridades de Rabat e que poderá intensificar ainda mais a dificíl situação económica por que passa o país, agravada em muito pela pandemia da covid-19. O contrato do GME, refira-se, termina no dia 31 de outubro e tudo se perspectiva para que, eventualmente, não venha a ser renovado, tanto mais que a Argélia tem já uma alternativa viável e operacional: o Medgaz, gasoduto que une diretamente Beni Saf, na Argélia, ao porto de Almeria, na Andaluzia. Atualmente este gasoduto abastece 60% das necessidades de gas de Espanha e a sua capacidade foi já ampliada para que a Argélia possa enviar os mais de 10.000 milhões de m3 que até agora têm transitado, via Marrocos, pelo Gasoducto Magreb-Europa (MEG).

Marrocos, tem beneficiado largamente da existência desta infraestrutura, não só porque é totalmente dependente de gás e de petróleo, e dele tem-se abastecido para consumo próprio, como desde 2002, os cofres do reino tem auferido de elevadas maquias de imposto cobrado pelo trânsido da energia. Só em 2017 e 2018, e segundo a imprensa marroquina, o valor cobrado ascendeu a cerca de 190 milhões de euros. A verificar-se o termo do contrato em 31 de Outubro, Marrocos poderá de ter que vir a abastecer-se de gás por via marítma ou... importar gas da Europa através do próprio GME.

A empresa argelina de energia, a Sonatrach, a maior empresa do continente africano, tem abastecido Espanha e Portugal através deste ‘pipeline’ de 1.300 km (540 dos quais passam pelo território marroquino).

Os responsáveis argelinos tem dado a entender que estão preparados para o continuar a fazer agora pelo gazoduto de Almeria.

A situação tem deixado muito incomodados os dirigentes políticos e técnicos marroquinos. Ainda ontem, 18 de agosto, a Diretora geral de Office national des hydrocarbures et des mines (ONHYM), Amina Benkhadra, afirmava a um órgão da agência noticiosa nacional, MAP, que Marrocos já manifestara das mais variadas formas e por todos os meios a sua vontade de ver renovado o contrato. A dirigente afirmava na mesma entrevista que o gazoduto era “uma formidável ferramenta de cooperação mutuamente vantajosa e um projeto regional estruturante e mutuamente benéfica”. A diretora Geral da ONHYM acenava mesmo de que o seu “acesso livre e de tarifas transparentes e não discriminatórias, sublinhando que o facto da infaestrutura estar já amortizada permitia”tarifas mais competitivas que todos os outros meios de transporte correntes”.



Por coincidência, ou talvez não, também ontem, o CEO da Sonatrach, Tewfik Hakkar, declarava que a Argélia “esteve sempre apta a assegurar o aprovisionamento de Espanha em gas natural através do gazoduto Medgaz e graças às capacidades de liquefação” do seu país.

"Tomámos todas as medidas necessárias em caso de não renovação do contrato do gasoduto em questão (o GME)", disse Hakkar durante uma conferência de imprensa realizada à margem da apresentação dos relatórios de actividade da Sonatrach, em resposta a uma pergunta sobre a possibilidade de não renovação do contrato do gasoduto Magrebe-Europa que liga a Argélia a Espanha através de Marrocos.

"Mesmo em caso de não renovação deste contrato, que termina em Outubro próximo, a Argélia poderá fornecer a Espanha e também satisfazer qualquer procura adicional do mercado espanhol sem qualquer problema", salientou o CEO da Sonatrach.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Guerra no Sahara Ocidental - Comunicados militares nºs 275, 276 e 277

 


Nos três últimos dias o Ministério de Defesa Nacional da RASD distribuiu os comunicados militares nºs. 275, 276 e 277 que assinalam os mais recentes ataques das unidades do ELPS contra o dispositivo militar de ocupação marroquino ao longo do muro. A guerra de libertação, reiniciada a 13 de Novembro prossegue diarimente com ataques de artilharia intensos de flagelação contra o dispositivo militar marroquino de ocupação.

 

Comunicado militar nº. 275

Sexta-feira, 13 de agosto 2021

01. e 02. - Bombardeadas as zonas de Rus Sebti e de Graret El Attasa no sector de Mahbes (nordeste do SO)

03. - Bombardeada a zona de Fadra Labir, no setor de Farsia (norte do SO), tendo sido destruída partes da base do inimigo de ocupação.

04. e 05. e 06. - Bombardeamento sobre as áreas de Fedrat al-'Ish e Fdrat Laghrab e a região norte de Agejegal, todas no nosetor de Hauza (norte do SO).

 

Comunicado militar nº. 276

Sábado, 14 de agosto 2021

01 e 02. - Bombardeadas a zona norte e zona nordeste do subsector de Ahrisha Dirt, ambas no setor de Housa (norte do SO)

 

Comunicado militar nº. 277

Domingo, 15 de agosto 2021

01. e 02. - Bombardeamento sobre o subsector de Udey Umm Ruka e o subsector de Rus Sebti, ambos na região de Mahbes (nordeste do SO).

03. e 04. - Bombardeamento a norte e oeste da zona de Hraichet, no setor de Housa (norte do SO).

Pilhagem das riquezas saharauis: Polisario determinada a apresentar queixas contra as empresas envolvidas

 


Bruxelas - O representante da Frente Polisario na Europa e na UE, Abi Bouchraya Bachir, afirmou esta sexta-feira que a Frente está determinada, logo que o Tribunal de Justiça Europeu confirme a não soberania de Marrocos sobre o Sahara Ocidental, a apresentar queixas contra empresas europeias envolvidas na pilhagem das riquezas do povo saharaui.

"Considerando o seu estatuto jurídico e as suas responsabilidades políticas e jurídicas para com o território e o povo saharauis, a Frente Polisario não poupará esforços para pôr fim à pilhagem da riqueza saharaui e ao envolvimento de funcionários de empresas europeias no crime de ocupação", afirmou em declaração à APS. Tendo acrescentado: "após a confirmação das resoluções do TJUE, estamos determinados a tomar medidas legais contra as empresas europeias e os seus responsáveis pela pilhagem da riqueza saharaui e pelos crimes contra a humanidade".

O arsenal jurídico consiste nomeadamente na afirmação da situação jurídica do território e da não soberania de Marrocos sobre o Sahara Ocidental, tal como estipulado nas decisões do Tribunal de 2016 e 2018, explicou Abi Bouchraya Bachir, citando ao mesmo tempo o direito inalienável do povo saharaui à autodeterminação e a Frente Polisario como único representante jurídico e político dos saharauis.

sábado, 14 de agosto de 2021

O despoletar da 'Primavera Árabe' de Marrocos está finalmente aí?



 

Depois da imolação pelo fogo de um condutor de carroças, centenas de marroquinos protestaram contra o seu governo. Mas este não é o primeiro caso deste tipo e provavelmente não será o último.

No início desta semana, centenas de marroquinos protestaram na cidade de Sidi Bennour contra a morte de Yassine Lekhmidi, um homem de 25 anos.

 

Deutsche Welle - Em Julho, a polícia local confiscou uma carroça de alimentos que Lekhmidi conduzia porque não estava a usar uma máscara facial de proteção contra a COVID-19. Apesar de ter pago uma multa pela infração, a polícia recusou-se a devolver a sua carroça.

Perante a perda de uma importante fonte de rendimento para a sua família, Lekhmidi pegou fogo a si próprio. O jovem foi hospitalizado com queimaduras de terceiro grau a 28 de Julho e morreu dos ferimentos a 6 de Agosto.

Durante a última semana, centenas de habitantes locais de Sidi Bennour saíram à rua para exigir justiça para Lekhmidi e a sua família. Os marroquinos noutras partes do país mostraram-se cautelosamente solidários com a causa.

"Penso que os cidadãos têm o direito de protestar mas devem fazê-lo legalmente", disse Imad, um estudante de 27 anos de Rabat, à DW.

"Têm havido aqui alguns protestos recentemente. É o impacto negativo do coronavírus", acrescentou Abdullah, um retalhista de vestuário de 40 anos de Salé. "A meu ver, isso é normal". As pessoas têm o direito de apelar à justiça social".

 

O regresso da Primavera Árabe?

Os protestos em Sidi Bennour têm vindo a diminuir nos últimos dias. Ainda assim, observadores internacionais rapidamente se perguntaram se a morte de Lekhmidi poderia desencadear protestos mais amplos, com muitos a desenharem paralelos entre a sua auto-imolação e a de Mohamed Bouazizi.

A morte de Bouazizi, um vendedor de rua tunisino, em 2010, em circunstâncias semelhantes, é largamente considerada como tendo sido o rastilho da revolução popular contra a ditadura tunisina em 2011, o que por sua vez inspirou os chamados protestos da Primavera Árabe.

Mas, de facto, a morte de Lekhmidi não é o primeiro caso deste tipo em Marrocos a ter desencadeado protestos anti-governamentais. Ao longo da última década, houve de facto vários incidentes em que a injustiça após um confronto com as autoridades trouxe os marroquinos para as ruas.

Isto ocorreu, por exemplo, em 2012, quando cinco diplomados universitários desempregados se incendiaram no exterior de um edifício do Ministério da Educação durante protestos anti-governamentais na capital Rabat. Uma pessoa morreu no incidente.

Em 2017, milhares de marroquinos protestaram contra a morte de dois irmãos encurralados numa mina de carvão abandonada na cidade de Jerada. Os homens, desempregados, tinham estado a extrair carvão das perigosas minas e depois a vendê-lo aos "barões do carvão" locais, alguns dos quais ocupavam cargos governamentais.

 


Objectos de desprezo

Possivelmente o evento mais conhecido - e mais horripilante - ocorreu em 2016, quando a polícia confiscou várias toneladas de espadarte de um peixeiro, Mouhcine Fikri, na cidade costeira de Hoceima.

Desesperado para recuperar a sua valiosa mercadoria, Fikri saltou para a parte de trás de um camião do lixo para onde o peixe tinha sido atirado.

Embora as autoridades locais o tenham negado mais tarde, um funcionário governamental terá dito ao operador do camião para o "moer". Fikri foi esmagado até à morte na parte de trás do veículo enquanto os funcionários ficavam a postos.

Nos dias que se seguiram, milhares de habitantes locais manifestaram-se pela justiça para Fikri e pensa-se que a sua morte tenha dado início ao movimento de protesto local Hirak al-Shaʿbi na região marginalizada do Rif, em Marrocos.

O que estes incidentes têm em comum é o "hogra", que é definido como "um sentimento de ser objecto de desprezo, injustiça estrutural e humilhação", associado a "funcionários estatais que tornam a vida inacessível", explica o Arab Studies Institute, um grupo de reflexão com sede nos EUA, num léxico online que define os termos provenientes de movimentos de protesto no Norte de África.

 

Sob vigilância

Marrocos tem um parlamento eleito e é uma monarquia constitucional. Mas na realidade, é o Rei Mohamed VI, que está no trono há mais de 22 anos, que exerce a maior parte do poder político e económico

No passado recente, as autoridades do país têm sido rápidas a lidar com protestos e greves anti-governamentais. Permitem que algumas manifestações se realizem, mas reagem rapidamente a sérios desafios. Por exemplo, no caso do malfadado peixeiro, o rei prometeu uma investigação. No espaço de dias, vários alegados responsáveis tinham sido presos.

Mas depois, noutras situações, vozes dissidentes, jornalistas de investigação e manifestantes são policiados, por vezes duramente. Por exemplo, em finais de 2017, na sequência da indignação pela morte do peixeiro, foi aprovada uma lei que permitiu às autoridades marroquinas suprimir ainda mais impiedosamente o movimento Hirak al-Shaʿbi.

Esta é uma parte da razão pela qual os protestos permanecem isolados em Marrocos e não conseguiram crescer em qualquer tipo de momento revolucionário a nível nacional, segundo os habitantes locais.

"Quando se tem um sistema de segurança como este, é realmente difícil ir para a rua para protestar ou fazer exigências", disse à DW um ativista da sociedade civil em Rabat - que pediu anonimato por medo de retaliação. "Toda a gente conhece alguém que trabalha no aparelho de segurança, já que é tão amplamente difundido e tão grande. Isso desencoraja realmente as pessoas de saírem para as ruas".



Pressão pandémica

Além disso, a oposição está dividida. "É sempre difícil saber quando um movimento de protesto vai escalar - ou ir a lado algum", disse Jacob Mundy, um investigador no Conselho Europeu das Relações Exteriores e professor associado sobre o Médio Oriente e o Magrebe na Universidade de Colgate, em Nova Iorque. "A última grande onda de protestos em Marrocos ficou enredada em questões étnicas separatistas no norte do país, uma política que a maioria dos marroquinos não partilha. Se os protestos em Marrocos se generalizarem por todo o país, então isso poderá ser um sinal de que algo é diferente desta vez".

Tem sido sugerido que a pandemia da COVID-19 pode estar a fazer essa diferença, uma vez que a crise sanitária está a pressionar o que os observadores descrevem como a "narrativa de autoritarismo benevolente de Marrocos".

O confinamento, a falta de turismo e o consequente impacto na economia aumentaram as desigualdades de rendimentos pré-existentes, que, segundo um relatório da OCDE de 2018, já eram piores em Marrocos do que em qualquer outra nação do Norte de África.

À medida que a pressão social se construiu no interior do país, os habitantes locais dizem que também houve mais repressão da opinião dissidente. Eles falam de revelações recentes sobre a utilização pelo governo marroquino do spyware digital Pegasus para visar advogados e jornalistas de direitos humanos como prova, bem como da detenção de jornalistas independentes frequentemente sob acusações não relacionadas e contestadas.

 

Marrocos num "declive escorregadio de mau para pior”

"Os efeitos da pandemia do novo coronavírus correm o risco de diminuir a capacidade da monarquia de subjugar a população e limitar a dissidência política... politicamente, a crise sanitária reforçou o autoritarismo do regime", confirmaram os peritos do Carnegie Endowment for International Peace num comentário de Julho de 2020.

"Mesmo há dois anos atrás, fazer uma entrevista como esta não teria sido um problema", concluiu o activista de Rabat, "mas agora é muito mais difícil dar voz às exigências, não importa quem seja".

"Muitas pessoas aqui trabalham na economia informal ou no dia-a-dia, como operários", disse o activista à DW. "A pandemia fechou tudo isso. Por isso é cada vez mais difícil para as pessoas ganharem a vida. Pela primeira vez, ouvi falar de pessoas que passam fome em algumas das maiores cidades de Marrocos. E depois parece haver também tentativas sistemáticas de não deixar as pessoas falarem abertamente sobre o assunto. Parece que estamos num declive escorregadio", concluiu o activista, "e a ir de mal a pior".