O rosto de Said Dambar captado na morgue do hospital por um telemóvel. É visível o orifício da bala, na testa, entre os olhos |
Uma vez mais o Western Sahara Human Rights Watch (WSHRW)
divulgou o sucedido: o majzen ordenou o enterro do cadáver de Said Dambar, cujo
assassinato o majzen não quer esclarecer... precisamente por ter sido cometido
por um dos seus agentes. O grave é que o enterro se fez contra a expressa
vontade da família do assassinado que não tem cessado de reclamar uma autópsia
desde que o jovem foi assassinado à queima-roupa por um tiro de um polícia
marroquino.
I. O MAJZEN TRATA DE DESTRUIR A PROVA DE UM ASSASSINATO
Uma nova notícia macabra protagonizada pelo majzen. Esta é a
notícia que no dia 4 de junho, divulgou em primeira-mão o WSHRW:
MARROCOS TENTA ENTERRAR A INVESTIGAÇÃO DO ASSASSINATO DE
SAID DAMBAR
jun 4th,
2012 |
Na manhã de 4 de junho, às 8:30h, as autoridades de ocupação
marroquinas chegaram a casa da família de Said Dambar com uma ordem escrita do
tribunal de El Aaiún dizendo que o mártir Said Dambar devia ser enterrado às
9:00h, dessa mesma manhã, de acordo com as informações proporcionadas por Mattu
Dambar, irmã de Dambar.
A mãe de Dambar recusou-se a assinar a ordem escrita do
tribunal e atirou o papel para bem longe, enquanto o vento tratava de o
arrastar fora de todo o alcance.
Então, os agentes do governo marroquino abandonaram a casa da
família de Dambar dizendo à família que era seu problema fazer caso omisso da
ordem e asseguraram que Said Dambar seria enterrado de qualquer forma.
Mais tarde, a família inteirou-se de que o seu filho foi
enterrado na presença apenas de agentes do Estado no cemitério Jat Eramla, na
cidade ocupada de El Aaiún, segundo o testemunho de Mattu Dambar.
Desde muito cedo nessa manhã, o cemitério encontrava-se
fechado e cercado por forças paramilitares marroquinas, o que acontece até
agora, e não é permitido a ninguém entrar no cemitério ou aproximar-se em seu
redor.
Na sequência desta informação, uma das organizações de
direitos humanos do território ocupado, a CODESA, emitiu um comunicado de
condenação.
II. UM ASSASSINATO INFAME... E UMA INFAME EXPLICAÇÃO
OFICIAL...
O assassinato de Said Dambar produziu-se no dia 22 de
dezembro de 2010. Apenas uns dias depois da brutal destruição do acampamento de
Akdeim Izik pelas forças de ocupação marroquinas.
O Observatório Aragonês para o Sahara Ocidental sintetiza as
circunstâncias do caso:
O cadáver permanece na morgue do hospital Hassan Ben el Medí.
A família nega-se a enterrá-lo sem que se faça uma autópsia que determine as
circunstâncias reais do falecimento. Quando a família visitou a morgue pôde
comprovar que o cadáver tinha um orifício de bala entre os dois olhos. Uma
fotografia tirada por um telemóvel testemunha-o.
A Polícia mantem a versão de que a morte responde a um
acidente: o falecido e o polícia eram amigos, tinham bebido álcool juntos e um
disparo fortuito ocasionou a morte. À tragédia vem juntar-se o opróbrio que
significa esta explicação para a família. Said era um jovem saharaui licenciado
em Económicas, desportista e muçulmano. A versão oficial não merece nenhum crédito,
ninguém acredita que menos de dois meses depois da vaga de violência que teve
lugar durante e depois do desmantelamento do acampamento “Esperança”, numa
cidade sitiada, onde os jovens saharauis são acossados sistematicamente pela
polícia, Said pudesse estar a “festejar” com um polícia marroquino.
A família pediu insistentemente sem resultado que se
recolhessem provas, como a autópsia, que trouxessem luz ao caso. Na morgue o
peito de Said estava envolto. Teria ele outro impacto de bala? Entre os objetos
pessoais devolvidos à família pela polícia encontravam-se as calças de Said,
mas a camisa havia desaparecido.
(...)
Duas horas depois de terminar o julgamento foi divulgada a
sentença, o Tribunal condenou a 15 anos de prisão o polícia YAMAL TAKERMCHT. A
família não ficou satisfeita: o Estado não foi declarado responsável civil pela
morte de Said, foi impedida a autópsia e a morte do seu irmão aparece como
resultado de um acidente entre dois amigos.
O pai de Said Dambar participou no acampamento de Akdeim
Izik. A sua tenda e o seu carro todo-terreno foram destruídos pelas forças de
ocupação marroquinas.
O certo é que as gravíssimas acusações e suspeitas da
família de Dambar tinham uma muito fácil solução: realizar uma autópsia do
cadáver. Uma autópsia revelaria, sem sombra de dúvida:
- se era verdade que o assassinado havia bebido álcool (a
família nega-o)
- as circunstâncias do disparo de frente na testa;
- se houve algum outro disparo;
- outras circunstâncias relevantes.
Há que ter em conta que Dambar era muçulmano e para os
muçulmanos o consumo de álcool está proibido.
Tratava-se, portanto, não só de aclarar se, efetivamente,
Dambar havia sido assassinado, mas também se havia sido bom cumpridor dos
costumes religiosos do seu povo.
E não apenas isso. Una condenação de "15 anos" por
este "acidente" não significa nada no império da impunidade que é o
reino do majzen.
Como bem recorda o Observatorio Aragonês para o Sahara
Ocidental:
A familia e os saharauis tem bem presente na sua memória o caso
de outro jovem saharaui, Hamdi Lembarki, assassinado por dois polícias
marroquinos que foram condenados inicialmente a dez anos de prisão, depois a
pena diminuída para dois anos no recurso, saindo os dois de imediato em
liberdade e incorporados no serviço ativo.
III. POR QUE RAZÃO O MAJZEN ENTERRA O CADÁVER? PARA GARANTIR
A IMPUNIDADE
A autópsia reclamada pela família ia pôr a descoberto a
enorme mentira da versão oficial do majzen.
Por isso, o majzen encontrava-se numa situação
extremadamente comprometedora.
A "solução" dada pelo sistema da dinastia alauita
foi a mais cobarde que se possa imaginar.
O enterro em qualquer sociedade civilizada só pode ser
autorizado pela família.
Dado que a família se negava a autorizar o enterro, sem que
tivesse sido efetuada a autópsia, o majzen recorreu à sua manobra mais vil:
ordenar o enterro contra o expresso desejo da família.
O que se pretende com esta brutal violação das mais
elementares normas de respeito por uma família numa sociedade civilizada?
A explicação é esta:
NA RELIGIÃO MUÇULMANA ESTÁ PROIBÍDO DESENTERRAR UM CADÁVER.
Desta forma, o majzen, depois de ter deixado insinuar que
Said Dambar não era um bom muçulmano porque teria bebido álcool... Agora quer
obrigar a sua família a infringir um preceito muçulmano se o desenterrar para
que se faça verdade sobre o assassinato.
Este é o comportamento das forças de ocupação a mando de
quem se faz chamar "emir dos
crentes muçulmanos".
Artigo do Prof. Carlos Ruiz Miguel no seu blog Desde El Atlántico
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