sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Presos de Gdeim Izik: famílias denunciam 16 anos de silêncio e pedem que o mundo olhe




O acampamento da Dignidade de Gdeim Izik teve início a 10 de outubro de 2010.
A 08 de novembro viria a ser desmantelado a ferro e fogo pelas forças de ocupação marroquinas. Foto Equipe Media


Familiares dos 19 saharauis condenados após o desmantelamento do acampamento de Gdeim Izik, em 2010, acusam Marrocos de maus-tratos e de lhes negar informação sobre os presos. Cinco continuam em greve de fome, segundo os dados que as famílias conseguiram recolher até 14 de outubro. 

Numa conferência de imprensa com meios de comunicação de vários países, a 15 de outubro, Fatma Zaoui disse não saber se o pai, Hussein Zaoui, está vivo. Passaram 14 dias sem notícias. Tinha quatro anos quando o viu em liberdade pela última vez, e tem hoje 20. 

O pai é um dos 19 condenados após a destruição do acampamento, em novembro de 2010, nos territórios ocupados do Sahara Ocidental. Um mês antes, centenas de saharaus tinham-no montado para protestar contra a falta de oportunidades. Segundo o diário Público, de Espanha, os acampados foram recebidos com violência policial e militar e detenções arbitrárias. 


A greve de fome 

A 23 de setembro, nove condenados iniciaram uma greve de fome contra os maus-tratos. As famílias indicam que, a 14 de outubro, cinco se mantinham: Hassan Dah, Sidi Abdallah Abbahah, Mohamed Bachir Boutenguiza, Ahmed Sbaai e Hussein Zaoui. Os outros quatro suspenderam o protesto por motivos de saúde, por comunicações falsas emitidas pelas prisões ou pelo agravamento das medidas contra eles, segundo os familiares. Fatma Zaoui sublinha que a suspensão não significa que as causas tenham desaparecido. 

Hassan Dah teve de interromper a greve devido ao agravamento do estado de saúde. As famílias dizem que esteve dois dias sem se saber onde estava e que foi encontrado em estado “extremamente delicado”. Segundo o próprio, foi transferido nu e maltratado. Os familiares exigem uma investigação independente. 


Condenações e pareceres da ONU 

As penas, aplicadas em 2013 por um tribunal militar e, após novo julgamento civil, em 2017, vão de 15 anos a prisão perpétua. Os condenados foram acusados de participar nos confrontos em que morreram 11 agentes marroquinos. A Amnistia Internacional e a Human Rights Watch advertiram que as confissões foram obtidas sob tortura. 

Em 2023, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenções Arbitrárias considerou a detenção dos 19 arbitrária, por falta de acesso a advogado e de julgamento justo, e pediu a libertação imediata. Segundo o Público, Marrocos não respondeu e não voltou a autorizar visitas do Comité da ONU contra a Tortura nem da Cruz Vermelha Internacional às prisões. Rabat tem rejeitado ligar estas greves às condições de detenção. 

O caso de Naama Asfari, também do grupo e condenado a 30 anos, é apontado pelas famílias como exemplo. Em julho, após mais de 40 dias de greve de fome, perdeu-se o contacto com a prisão durante quase duas semanas. Cumpre pena em Kenitra. 


Familiares dos presos políticos saharauis do grupo de Gdeim Izik, durante a conferência de imprensa esta Quinta-feira. 

Famílias sob pressão 

Fatma Zaoui descreve um castigo que se estende às famílias: vigilância constante dos familiares que vivem nos territórios ocupados, dificuldades de emprego e de educação, e o caso de uma filha de outro preso que abandonou a escola devido ao bullying. Denuncia ainda a dispersão dos presos por prisões distantes e esperas de três ou quatro horas à porta, por vezes sem conseguir ver os familiares. Segundo a sua informação, uma manifestação em Rabat, a 12 de outubro, terminou com cargas policiais e detenções. 

As famílias pedem a advogados, observadores internacionais e imprensa que visitem os presos, e que o embaixador de Espanha em Marrocos se reúna com elas. “De que serve a ONU expor estas violações se os nossos familiares continuam assim?”, questiona Fatma Zaoui. 

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