sábado, 12 de janeiro de 2019

Aminatou Haidar, a «Ghandi do Sahara Ocidental»: «Desejamos que os EUA mantenham a pressão sobre Marrocos»




(Le Soir d’Algèrie - Entrevista realizada por Tarek Hafid) - Apesar do cansaço e da doença, Aminatou Haidar queria estar entre o seu povo nos territórios libertados do Sahara Ocidental para assistir à cerimónia de destruição de todo o arsenal de minas antipessoal do exército saharaui. Na companhia de vinte outras grandes figuras da luta pacífica nos territórios ocupados, a "Gandhi do Sahara" percorreu várias centenas de quilómetros de trilha para chegar ao oued (rio) Mhiriz, para assistir a este ato simbólico da Frente Polisario. Nesta entrevista, Aminatou Haidar faz uma leitura lúcida dos últimos desenvolvimentos relativos à questão saharaui. Ela continua convencida de que a chave do conflito está na Casa Branca.

Esta é a sua primeira visita aos territórios libertados do Sahara Ocidental. Como se sentiu quando pisou a terra libertada?

É um sentimento indescritível! De facto, eu já tinha ido a Bir Lahlou por ocasião do funeral do nosso falecido Mohamed Abdelaziz, mas era em condições diferentes destas. É realmente um sentimento de felicidade misturado com tristeza e dor. É um orgulho para mim estar aqui, orgulho porque é a primeira vez que encontro o meu povo nesta parte libertada do Sahara Ocidental. Mas sofro lembrando-me dos militantes que morreram como mártires, que passaram a vida lutando pelos nossos direitos e que não poderão testemunhar a independência de nosso país.
Dor, sinto-a também ao constatar a falta de consideração para com o povo saharaui. Lutamos há quase 44 anos sem chegar a um acordo definitivo. Mas continuo otimista. Continuo esperançosa de um acordo próximo para o nosso povo.

O dossiê saharaui parece ter saído do status quo imposto por Marrocos. Que leitura faz do reatar das negociações diretas entre a Frente Polisario e o Marrocos?

Essa é precisamente a razão do meu otimismo. A nomeação do novo enviado pessoal do secretário-geral da ONU, o ex-presidente alemão Horst Köhler, foi um primeiro sinal de esperança. A nova posição da administração dos EUA também é um bom sinal. Há uma presença mais concreta do dossiê na agenda da ONU, uma vez que é objeto de debate a cada semestre. Também vemos uma melhoria clara na visibilidade da nossa causa nos Media.
Isto permitiu, em muito pouco tempo, o retorno de negociações diretas entre a Frente Polisario e o Marrocos. Não há muito tempo atrás, este Estado colonizador recusou-se a sentar-se diante do representante legítimo do povo saharaui. Mas os marroquinos acabaram perdendo. Este é um avanço real que enfrenta uma posição intransigente do Marrocos. Que mostra aparentemente mais flexibilidade.
Espera que o rei de Marrocos tome consciência da perigosidade do que está acontecendo na região em termos de terrorismo, crime organizado e tudo o que prejudica a construção do Magrebe Árabe e a necessidade de encontrar uma solução para construir este espaço regional. O rei parece ter tomado consciência. Esta consciência é talvez o resultado da pressão que os seus aliados exercem sobre ele a fim de que seja construído um espaço magrebino no qual a República Árabe Saharaui Democrática seria um membro de pleno direito. A este respeito, gostaria de saudar a posição honrosa da Argélia, que conseguiu contrariar todas as manobras marroquinas e francesas fomentadas contra o povo saharaui.

As pressões a que se refere têm a ver com que aliados de Marrocos? Os Estados Unidos?

Exatamente, os Estados Unidos da América. Há também a Alemanha, que ten desempenhando um papel importante nesta questão. Espero que a França abandone o parcialidade que demonstra a favor de Marrocos. É tempo deste país agir de acordo com os princípios da liberdade e da democracia que invoca, apoiando o direito do povo saharaui à autodeterminação.

Como foram acolhidas as recentes declarações proferidas por John Bolton, Conselheiro Nacional de Segurança da Casa Branca, nos territórios ocupados do Sahara Ocidental?

As observações de Bolton foram recebidas com alegria e satisfação porque, contra todas as probabilidades, estamos finalmente a assistir a uma séria consideração da causa saharaui pela administração dos EUA. Queremos que os Estados Unidos mantenham a pressão sobre o Marrocos.
De qualquer forma, não podemos esconder um elemento essencial neste dossiê: a resistência do cidadão saharaui. Na minha opinião, é essa resistência que fez alguns aliados tradicionais de Marrocos tomarem outra posição e que o tratamento da questão do Sahara Ocidental se tenha acelerado. O nosso povo resiste, em condições difíceis, nos campos de refugiados no meio da hamada (deserto argelino), resiste apesar da ruptura causada pela separação das famílias, resiste aos piores abusos que lhe inflige o poder colonial nos territórios ocupados.

Os últimos 15 anos foram marcados pela luta pacífica dos cidadãos saharauis que vivem nos territórios ocupados. A sua luta como ativista e a de toda a população através do acampamento de Gdeim Izik (em 2010) foram passos importantes. Devemos esperar ações dessa magnitude no futuro próximo?

Quando o combatente saharaui recolheu a sua arma, o militante dos territórios ocupados tomou uma arma de um tipo muito diferente: a resistência pacífica. Conseguimos muitos objetivos, incluindo quebrar o cerco securitário e e de informação imposto pelas forças repressivas coloniais na nossa terra. Também dissipámos o espectro do medo mantido pelo palácio de Rabat.
Transmitimos os nossos valores e princípios às novas gerações para que entendam que a solução desse conflito deve ser pacífica.
Este é o meu maior desejo. Eu estou aqui, nos territórios libertados, para transmitir esta mensagem de paz ao meu irmão combatente. Estou lutando por uma solução justa em um ambiente pacífico. Estou feliz por ter testemunhado Mhiriz, um acto concreto neste sentido, graças à destruição de todo o arsenal de minas antipessoal do exército saharaui. Eu quero prestar homenagem ao nosso exército pela sua coragem.
Nos territórios ocupados, esses dispositivos explosivos causam dramas diários entre a população saharaui. Infelizmente, Marrocos ainda se recusa a ratificar a Convenção de Otava.

Faz parte de uma delegação de 21 ativistas dos direitos humanos dos territórios saharauis ocupados. Não teme uma reação violenta do poder marroquino quando voltar para sua casa?

De facto, devemos esperar tudo. A estupidez de Marrocos não tem fim. Mas estamos prontos para mais sacrifícios. Não temos medo porque estamos convencidos da retidão de nossa causa e que vamos conquistar a nossa independência graças à nossa luta.
T. H..

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Tanger (Marrocos): estudante saharaui morre devido a negligencia médica após ter sido espancado na cabeça


O movimento de estudantes saharauis acompanha com grande preocupação os acontecimentos que se seguiram ao assassinato político do dirigente estudantil saharaui Issam Lusfi, assassinado na cidade de Tânger, em Marrocos. Issam Lusfi, nascido na cidade de Assa a 27 de junho de 1991, formou-se em direito público pela Universidade de Cadi Ayyad em Marraquexe em 2014 e tinha tirado o mestrado em Direito Constitucional e Ciências Políticas pela Universidade Ibn Zahr de Agadir em 2017. O assassinato ocorreu quando ele se encontrava na cidade marroquina de Tânger para concluir os procedimentos para a sua inscrição nos estudos de doutoramento.
A sua carreira académica está marcada por testemunhos de boa disciplina e excelentes resultados académicos na Universidade Ibn Zohr. Era conhecido pelas suas posições em defesa dos princípios do direito à autodeterminação do povo saharaui.
O estudante saharaui Issam Lusfi havia chegado à cidade marroquina de Tânger, após ter passado o exame de acesso e aptidão. Foi espancado e ferido na cabeça durante um confronto entre estudantes saharauis e marroquinos perto do campus universitário de Bukhalef em Tânger. Viria a ser transferido para o hospital Mohammed V em Tânger consciente e na posse de todas as faculdades.
No tratamento médico realizado, não foram realizadas radiografias ou eletroencefalogramas, apesar de ter sofrido lesões e golpes na cabeça. E depois de lhe ter sido dado alta, retornou à residência universitária à noite. Seus companheiros, percebendo que ele não acordou, descobriram que estava inconsciente, tendi sido levado ao mesmo hospital para ser tratado.
Após um longo período de espera e falta de atenção por parte da equipe médica do hospital, foi internado em terapia intensiva com um diagnóstico médico de hemorragia interna do cérebro. O director do hospital perguntou aos médicos e ao especialista porque razão não lhe foram realizados exames radiológicos na noite do incidente. O procedimento demonstra a falta de atenção médica deliberada em relação ao estudante saharaui Issam Lusfi.
Fonte: Mujeres Saharauis, UNMS. Comunicado dos estudantes saharauis nos Territorios Ocupados e nas universidades marroquinas; 7 de janeiro de 2019



quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Presidente da República e SG da F. Polisario no encerramento da reunião do Estado Maior do ELPS



Museu Nacional da Resistência, 3 de janeiro de 2019 (SPS)- O presidente da República, Brahim Ghali, esteve presente ontem no Museu Nacional da Resistência, no encerramento da reunião ampliada do Estado-Maior do Exército de Libertação Popular Saharaui (ELPS), realizada sob o lema “Precisão, controle e eficácia”.

O ato contou com a presença do ministro da Defensa, Abdulahi Lehbib; membros do Secretariado Nacional, do Conselho Nacional e quadros militares de todas as regiões do ELPS.
A reunião, que tinha como homenageado o Mártir Mohamed Abdelaziz (anterior Presidente da República Saharaui e SG da Polisario), examinou o programa anual do Ministério da Defesa Nacional e elaborou um plano de trabalho para o ano de 2019.
O presidente da República, no discurso que proferiu afirmou que a reunião ampliada do ELPS é uma distinta experiência que permite avaliar os resultados conseguidos no campo militar e elaborar novos programas, com o objetivo de melhorar a disposição combativa do ELPS e da sua capacidade de mobilização.
Brahim Ghali elogiou o papel desempenhado pelo Exército Saharaui durante a guerra de libertação, defendendo a Pátria e mantendo a paz e ao longo de décadas, deu mostras de de heroísmo dignas de admiração, sabendo manter bem alto os valores e princípios da revolução saharaui.



#SaharaOnTheRoad - 10 vídeos sobre o Povo Saharaui e a sua Luta de Libertação



Minisérie temática de 10 episódios realizada pelo partido espanhol Izquierda Unida: #SaharaOnTheRoad. A senadora Vanessa Angustia e o representante da IU nas Cortes de Castilha e León são os nossos cicerones.

















quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Patricia e Irati, as duas espanholas que Marrocos expulsou do Sahara Ocidental ocupado na véspera de Ano Novo



Fonte e foto: El Español / Por Sonia Moreno - A polícia cercou a casa de El Aaiún, onde iam passar a festa de fim do ano, e expulsou-as num táxi coletivo para Agadir, a 644 quilómetros de distância.
Patricia Ibáñez e Irati Tobar tinham decidido comemorar a passagem do ano em El Aaiún, capital do Sahara Ocidental, mas acabaram por passar o fim do ano na estação de autocarros de Agadir depois de viajarem nove horas num táxi coletivo após a sua expulsão pelas autoridades marroquinas.
As duas bascas estavam desfrutando de alguns dias de férias em El Aaiún, em casa da família de um amigo saharaui que reside no País Basco. Dois polícias vestidos à paisana bateram à porta da casa na manhã de segunda-feira, 31 de dezembro, pediram que se identificassem e levaram-nas para o controle policial da entrada de El Aaiún, onde as interrogaram e as expulsaram a cidade de Agadir, em território de Marrocos, a 644 quilómetros dali.
Em conversa telefónica que manteve o EL ESPAÑOL a partir de Marrocos, Patricia Ibáñez explicou que "do lado de fora da casa havia uma van da polícia e outro veículo com janelas escuras; e ao virar da esquina tinham um táxi à espera. Disseram-nos que podíamos visitar a cidade, mas que não podíamos ficar com uma família. Tentámos conversar com eles e explicar-lhes, mas não havia jeito; e no final tivemos que ir até casa e pegar as malas".
O momento da expulsão, recordam, foi "bastante desagradável", embora assegurem: "Não nos tocam, mas repreenderam-nos verbalmente".
As cidadãs bascas expulsas passaram a noite na casa da família de Hassana Aalia, um refugiado político em Espanha condenado a prisão perpétua pelo Tribunal Militar de Rabat depois de participar no acampamento de Gdeim Izik, a 12 quilómetros de El Aaiún, em 2010. As autoridades marroquinas ordenaram a sua busca e captura, ao mesmo tempo que Aalia estava solicitando asilo em Bilbao, onde estava participando num programa sobre direitos humanos.
As duas mulheres asseguram que, desde que chegaram a El Aaiún, sentiram-se vigiadas, mesmo quando empreenderam uma viagem ao deserto e que a casa estava sob vigilância policial. "Estiveram-nos a seguir na cidade e no deserto. Foi uma marcação brutal porque a casa estava controlada o dia todo ", diz Patricia.
Entre as razões para a expulsão, disseram-lhes que não podiam ficar na casa de um activista saharaui, e também invocaram questões de segurança, mencionando a tragédia das duas turistas escandinavas que foram degoladas no Atlas a 17 de Dezembro por quatro alegados terroristas. "Disseram-nos de tudo, que faziam-no pela nossa segurança porque estávamos em perigo se não nos tivéssemos registado numa casa. Disseram-nos que as duas mulheres que mataram perto de Marraquexe, se tinham colocado em perigo pois não haviam registado a sua localização e que, para nossa segurança, era melhor que nos tirassem de lá ", explica Ibáñez.
Não receberam nenhuma nota escrita de expulsão e permanecem em Agadir esperando o vôo para a Espanha, que parte dentro de dias de Casablanca; embora hoje de manhã tenham confessado a este diário numa mensagem de WhatsApp que "não estamos muito confortáveis. Vamos avançar os vôos para regressar a casa”.
Ao longo do ano de 2018, onze pessoas sofreram o mesmo destino, entre elas quatro espanhóis, dois advogados e estas duas turistas. O número de expulsões diminuiu desde 2014, quando as autoridades marroquinas expulsaram 41 pessoas do Sahara Ocidental. Nos últimos quatro anos, Marrocos expulsou 175 pessoas de 17 nacionalidades, segundo dados fornecidos ao EL ESPAÑOL pela Associação Saharaui de Vítimas de Violações Graves dos Direitos Humanos cometidas pelo Estado marroquino (ASVVDH), a única organização independentista com sede no território saharaui controlado pelo Marrocos.



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Noite de distúrbios no Sahara Ocidental ocupado: violentas cargas policiais em El Aaiún



El Aaiún, 01/01/2019, (EL CONFIDENCIAL SAHARAUI) - Por Lehbib Abdelhay/ECS – O o Sahara Ocidental volta a conhecer uma jornada violenta de repressão protagonizada pelas forças de ocupação de Marrocos. As vítimas foram desempregados que reclamavam um posto de trabalho. Segundo cifras não oficiais, o desemprego afeta 98% dos elementos do sexo masculino em idade de trabalhar.

Uma nova noite de distúrbios ocorreu esta segunda-feira na cidade ocupada de el Aaiún, capital histórica do Sahara Ocidental, onde tiveram lugar confrontos entre jovens desempregados e forças de ocupação marroquinas.
Depois de uma manifestação pacífica nas ruas de el Aaiún, a intervenção policial marroquina provocou violentos incidentes, tendo a manifestação convocada pela coordenadora dos desempregados saharauis acabado com incidentes muito violentos.
Segundo fontes dos defensores de direitos humanos em El Aaiún, nessa mesma noite sucederam-se naquela cidade saharaui várias manifestações.
Os manifestantes saharauis empunhavam bandeiras da República Saharaui e entoavam palavras-de-ordem contra a ocupação marroquina, reivindicando o fim da ocupação do território saharaui.



Segundo as mesmas fontes, os manifestantes chegaram a consolidar a sua presença na avenida de Smara (umas das artérias principais da cidade e palco frequente das manifestações).
Os serviços policiais, face ao avanço dos manifestantes, retiraram-se e pediram reforços de intervenção, que enviou unidades, e agiram em conjunto com as forças auxiliares atacando brutalmente os manifestantes e perseguindo-os pelas ruas da cidade.
Até às 02:30 horas, e de acordo com os defensores dos direitos humanos saharauis, as manifestações prosseguiam. O número de feridos e detidos causados pela intervenção policial ainda não é conhecido.