sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Crisis Group avisa que a pressa dos EUA e da ONU pode fechar a janela negocial no Sahara Ocidental




O International Crisis Group, ‘think tank’ ou organização de análise de conflitos normalmente apontada como próxima do Partido Democrata dos EUA, considera que Washington e a ONU aceleraram demasiado as conversações entre Marrocos e a Frente Polisario e arriscam perder a abertura criada em 2025. O mandato da missão da ONU no território termina no final de outubro.

Uma abertura que durou meses

Numa análise assinada por Riccardo Fabiani, diretor de projeto para o Norte de África, o Crisis Group recorda que a resolução do Conselho de Segurança de outubro de 2025 reforçou o apoio internacional ao plano marroquino de autonomia, mas com uma formulação suficientemente ambígua para admitir outros desfechos. Foi essa ambiguidade que permitiu aos EUA, em articulação com o enviado da ONU, Staffan de Mistura, reunir de novo Marrocos e a Polisario, algo que não acontecia desde 2019. A Argélia e a Mauritânia participaram como observadoras.

Entre janeiro e fevereiro de 2026, realizaram-se duas rondas em Washington e uma em Madrid, copresididas pelo conselheiro norte-americano Massad Boulos, pelo embaixador dos EUA na ONU, Michael Waltz, e por Staffan De Mistura, enviado pessoal do SG da ONU para o Sahara Ocidental. Segundo o Crisis Group, o formato aberto permitiu às partes explorar aspetos práticos, como a organização de eleições e a reintegração de refugiados saharauis, sem abdicarem das posições sobre soberania e autodeterminação. Rabat chegou a alargar a proposta de autonomia, de quatro para cerca de 40 páginas, mas o documento continua por divulgar.

Do diálogo ao impasse

O processo travou quando EUA e ONU passaram a pedir à Polisario que se pronunciasse sobre o plano marroquino, com vista a negociações mais substantivas. A Frente recusou aceitá-lo como base única e insiste num referendo de autodeterminação. O Crisis Group sublinha que esta posição não deveria surpreender, já que o avanço das conversações dependeu justamente da ambiguidade sobre esta questão.

O ambiente deteriorou-se entre maio e junho:

A 5 de maio, a Polisario disparou mísseis contra Smara, em território sob controlo marroquino, ferindo um civil. EUA, França, UE e ONU condenaram o ataque.

A 7 de junho, forças marroquinas mataram Lahbib Abdelaziz, filho do histórico líder da Frente e potencial futuro dirigente. Os saharauis pró-independência queixaram-se da escassa reação internacional.

Em paralelo, o ativista Naama Asfari fez uma greve de fome de 47 dias, que terminou depois de Rabat aceitar transferi-lo para uma prisão mais próxima da família.

A troca de cartas entre Waltz e a liderança da Polisario não restabeleceu a confiança. Diplomatas ouvidos pelo Crisis Group indicam que Washington considerou a resposta da Frente evasiva.

Washington pondera alternativas à Polisario

A 30 de junho, Waltz recebeu uma delegação do Movimento Saharaui pela Paz (MSP), criado em 2020 e apresentado como alternativa moderada à Polisario. Um funcionário da embaixada dos EUA reuniu-se com o mesmo grupo a 28 de julho. Um diplomata ocidental resumiu a postura norte-americana como uma escolha entre “o caminho difícil e o mais difícil”. A Polisario respondeu que os EUA deviam ir ao terreno para ver quem representa os saharauis.

No Congresso norte-americano foram apresentados dois projetos de lei que obrigariam a classificar a Polisario como organização terrorista, devido a alegadas ligações ao Irão e ao Hezbollah. O Crisis Group considera improvável que sejam aprovados e aplicados, e nota que a administração não os apoiou, mas admite que sirvam como sinal do que pode vir a seguir.

Nem todos os responsáveis norte-americanos parecem dispostos a abandonar a Frente. Em entrevista à France 24, a 25 de setembro, Boulos disse esperar que a Polisario volte a envolver-se e elogiou a posição da Argélia. Dias depois, o ministro argelino dos Negócios Estrangeiros, Ahmed Attaf, avisou na Assembleia Geral da ONU que contornar a Polisario agravaria as tensões.

Marrocos, entretanto, tem reforçado a relação com a administração Trump. Em julho, o rei Mohamed VI anunciou que a estrada Tiznit-Dakhla passaria a chamar-se Rodovia Donald J. Trump. A 15 de setembro, Marrocos, Israel e EUA acordaram em Nova Iorque elevar o nível das relações bilaterais, com nomeação de embaixadores, e reafirmaram o apoio ao plano de autonomia. Segundo fontes marroquinas e europeias citadas pelo Crisis Group, Rabat espera que a renovação do mandato da MINURSO inclua apoio mais claro à autonomia como “única base” para a solução.

O futuro incerto da MINURSO

Em 2025, os EUA tentaram reduzir o mandato da missão para três meses, mas acabaram por aceitar doze, a par de uma revisão estratégica pelo secretário-geral da ONU. A missão já sofreu cortes: menos 23 postos civis, redução das horas de voo e um orçamento 11,5% inferior. Num debate no Senado, em abril, Waltz descreveu-a como uma missão que cumpriu o seu propósito. Diplomatas europeus admitem, segundo o Crisis Group, que Washington volte a pedir cortes profundos ou, menos provavelmente, o fim da missão.

A análise defende que a componente militar de monitorização deve ser preservada. Em 2022, Marrocos indicou que ocuparia a zona-tampão se a MINURSO saísse. Isso levaria provavelmente a Polisario a atacar a partir da Argélia ou da Mauritânia, com risco de arrastar os dois países para o conflito.

O que propõe o Crisis Group

A organização recomenda que Washington abandone a expectativa de um acordo rápido e aposte na reconstrução da confiança, com quatro medidas:

  • Retomar as visitas de familiares entre os campos de refugiados na Argélia e o território controlado por Marrocos, suspensas desde 2014.

  • Libertar, total ou parcialmente, os presos saharauis de Gdeim Izik, detidos desde os protestos de 2010, ou pelo menos aproximá-los das famílias.

  • Obter da Polisário uma trégua unilateral.

  • Organizar visitas de responsáveis norte-americanos e da ONU aos campos de Tindouf.

Propõe ainda regressar ao formato das três rondas de Washington e Madrid, deixando as questões de soberania para o fim, e que os EUA deixem de admitir a substituição da Polisario. Em alternativa, sugere uma via consultiva paralela com outros saharauís, incluindo eleitos em Marrocos, o MSP e a sociedade civil dos campos. À Polisario pede maior empenho, por exemplo com uma contraproposta inspirada no plano de James Baker de 2003, que previa cinco anos de autonomia seguidos de referendo. A Frente aceitou-o na altura e Marrocos rejeitou-o. A Rabat pede que aceite um processo longo, em vez de tratar a autonomia como facto consumado.

O Crisis Group conclui que um conflito com mais de cinco décadas dificilmente será resolvido apenas pela coerção.


Em números

  • Início do conflito, 1975, com a retirada de Espanha
  • Cessar-fogo da ONU, 1991; colapsou em 2020
  • Rondas de 2026, 3 (Washington ×2, Madrid ×1), as primeiras conversações diretas em sete anos
  • Proposta marroquina, de 4 páginas (2007) para cerca de 40
  • Cortes na MINURSO, 23 postos civis; orçamento reduzido em 11,5%
  • Fim do mandato da MINURSO, final de outubro de 2026


Fonte: Riccardo Fabiani, “The U.S. and UN Will Need More Patience to Resolve Western Sahara Conflict”, International Crisis Group, 9 de outubro de 2026 (crisisgroup.org).

Nota: O International Crisis Group é uma organização independente e sem fins lucrativos, fundada em 1995 e sediada em Bruxelas, que analisa conflitos armados e crises políticas e propõe formas de os prevenir ou resolver.

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